Sweetest Nightmare
10 S01E10 - Recovery
Notas iniciais
Tudo depois da morte de Trevor passou como um borrão para mim, ironicamente a polícia não demorou para chegar, mas não pela minha ligação, a qual eles disseram não ter conseguido rastrear por eu ter ficado muito pouco tempo na linha, mas sim porque os vizinhos ouviram gritos e o tiro e chamaram socorro. Um detetive veio falar comigo, eu estava só de toalha, mas não me importei.
— Você já conhecia o sequestrador? – ele indagou com um bloquinho na mão, tomando notas, eu não o olhava, encarava qualquer coisa inanimada, como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
— Sim. – respondi roboticamente.
— De onde?
— Ele era meu... – hesitei por um momento sem saber descrever o que Trevor chegara a ser meu. – ...colega na escola. – Decidi.
— Alguma ideia da razão dele ter feito tudo isso?
Encarei-o brevemente para ver se ele se tocava que estava sendo muito inconveniente.
— Desculpe, eu falo com você outra hora. – aleluia, ele se tocou, eu havia acabado de matar um homem.
Eu havia acabado de matar um homem.
O choque me atingiu tão rápido quanto o alívio veio quando eu me senti livre. Eu era um assassino.
Meus pais chegaram, o rosto estampado de preocupação, logo depois o pai de Trevor também chegou.
Meus pais perguntaram mil vezes se eu estava bem e eu já estava cansado de mentir que sim. Pelo amor de Deus, quem estaria bem depois de passar por tudo isso, mas eu não chorava, apesar de que meu corpo todo gritasse por dentro eu demonstrava apenas cansaço, eu realmente estava exausto, mas eu duvido que conseguisse dormir depois de tudo isso.
Foi horrível ver o pai de Trevor encontrando o corpo do filho sendo levado para a ambulância coberto por uma espécie de pano branco, eu fiquei feliz pelo rosto dele estar coberto e eu não precisar olhá-lo de novo. O homem se atirou em cima do corpo e desatou a chorar, ele gritava “Não! Não!” repetidas vezes, e eu me senti tão horrível que parecia que eu ia morrer de tanto nojo que eu estava de mim, eu não precisava ter matado Trevor, eu podia ter dado alguns tiros no braço dele, na perna, apenas para poder escapar, mas na hora eu estava com tanta raiva, com tanto desespero de me ver livre daquele pesadelo que agi por impulso. Ele fez coisas horríveis para mim e para a tia, e para Matt, mas com a vida que ele teve eu acho que eu talvez me tornasse um monstro, ele merecia uma chance de ter uma vida melhor, merecia ser amado, merecia ter algum tratamento para cuidar dos traumas do passado, mas graças a mim isso nunca seria possível, Trevor não teria mais nenhuma chance na vida, é a pior coisa do mundo saber que você literalmente acabou com a vida de alguém, que você acabou com quaisquer oportunidades de melhora que ela pudesse ter.
Mas ainda assim eu não chorava, um cômico pensamento passou pela minha cabeça no qual eu achava que todas as lágrimas que haviam em mim haviam se esgotado depois de ter chorado tanto. E eu sentia tanta dor, tanto física quanto emocional.
Algumas pessoas com tendências suicidas alegam se cortar porque a dor física alivia a dor que sentem dentro de si, em seus corações. Para mim parecia não haver nenhum alivio, já que eu sentia os dois tipos de dor ao mesmo tempo.
— Filho, vamos embora daqui. – minha mãe passou um braço pelas minhas costas, o toque fez eu estremecer e fechar os olhos. – Eu sei que você passou por muita coisa, mas você está vivo e o melhor lugar para você estar agora é em casa.
Não sei se ela tinha razão. Eu não queria ir à lugar algum, nem sei se conseguia. Meu pai estava mais adiante conversando com alguns policiais, buscando saber o que houve, pois quando ele me perguntou eu não pude responder, as palavras simplesmente não conseguiam sair da minha boca.
No final conseguiram me colocar no carro e me levaram para casa, enquanto eu olhava pelo vidro da janela, Trevor parecia me encarar.
* * *
Depois que tomei alguns remédios para dormir e apaguei, sonhei com Trevor.
No sonho eu estava num quarto escuro com uma arma apontada para sua cabeça, ele me implorava pela sua vida e diversas vezes eu atirava em sua cabeça, ele não morria, mas sentia muita dor e implorava cada vez mais, impiedosamente eu atirava novamente. Depois sonhei com seu pai chorando sobre seu corpo morto, não havia buraco em sua testa, onde minha bala atingiu, o mesmo lugar que ele atingira Matt.
Acordei num sobressalto com o quarto escuro, tateei rapidamente até achar o interruptor do abajur, pois parecia que eu sentia a presença de Trevor ali no meio da escuridão, me encarando com um sorriso maníaco, fiquei aliviado quando acendi a luz e não havia ninguém, mas como uma tempestade incontrolável comecei a chorar. Eu gritava, não me importava que meus pais fossem acordar, que qualquer um talvez ouvisse, acho que nem pensei nisso no momento. Eu sentia tamanho aperto no coração que parecia que ia me engolir. Talvez fosse bom morrer depois de tudo isso. Ao pensar isso, me censurei. Eu havia matado um homem para sobreviver, eu iria superar, eu iria superar...
E cada vez que eu pensava isso parecia que eu me enterrava mais ainda no desespero, minha mãe abriu a porta assustada e me abraçou forte, dessa vez não estremeci ao toque, eu estava a salvo, ninguém me faria mal. Chorei até que o efeito dos remédios que eu havia tomado voltassem a fazer efeito e adormeci de novo, não lembro no que sonhei, mas antes de dormir, pensei no enterro de Trevor, que seria na manhã seguinte.
* * *
Não, não compareci ao enterro, e depois de tudo que Trevor fez, duvido que tenha ido muita gente, mas eu queria ver seu túmulo, então saí escondido de casa e fui até o cemitério, não havia mais ninguém lá, seu corpo já havia sido enterrado. Não havia nada no túmulo além de seu nome e o ano de nascimento e morte.
— Você que o matou, não é? – ouvi uma voz em minhas costas, virei e encontrei o pai de Trevor, em um terno preto barato. Eu também vestia preto, o luto não era só por Trevor, mas também por uma parte minha que morreu com tudo que ele me fez passar.
— Eu sei que o senhor não pode me perdoar... – eu não sabia muito bem o que falar, o que dizer para o pai de quem você matou?
— Não, não posso mesmo. – ele respondeu, mas não havia raiva em sua voz. Ele se aproximou do túmulo, parando ao meu lado. – Ah, Trevor, ele era um pouco violento, mas não sabia de nada sobre a tia dele.
— Como o senhor poderia saber se o abandonou lá, não é mesmo? – cuspi as palavras sarcasticamente.
O pai de Trevor se encolheu um pouco, eu estava sendo cruel, mas não me importava, boa parte do motivo de Trevor ser daquele jeito era culpa da fraqueza dele, se ele tivesse sido forte quando a mulher morreu e sido um verdadeiro pai, talvez Trevor fosse apenas um garoto bobo e popular agora, que ainda estaria vivo, rindo com os amigos.
— Eu digo... – ele continuou depois de alguns instantes de silencio. – Nunca imaginei que ele havia se tornado uma espécie de... monstro. – terminou ele, com ressentimento na voz.
— Todos os monstros são humanos. – citei.
— Acho que você está certo. – ele respondeu, novamente depois de alguns segundos. – Eu sinto muito mesmo pelo que Trevor fez com você... – e então deu as costas e foi embora, eu sabia que ele realmente sentia muito, e isso me deixava feliz, eu sentia muita raiva do pai de Trevor, tudo que ele poderia ter evitado se apenas...
Afastei o pensamento e me concentrei no túmulo na minha frente.
— O que você diria se me visse aqui, pisando em cima de você e não o contrário, Trev? – brinquei, uma habilidade que até então não sabia se tinha sobrevivido em mim. Mas o sorriso foi entristecendo, e dei as costas para o túmulo.
De repente parei e dei meia volta.
— Ah, Trevor. Eu acho que te amei. – meus olhos ficavam marejados. – E eu poderia ter amado muito mais... Se ao menos você tivesse me dado a chance, eu poderia ter cuidado de você, nós poderíamos até ter sido um pouco loucos juntos, sem ferir ninguém, sem matar ninguém, apenas sermos jovens, nos divertirmos, nos orgulharmos de quem éramos, juntos, poderíamos ter tido tudo, Trev. – Meus olhos já estavam alagados de lágrimas. – Mas agora não temos nada, você perdeu a vida e em parte, eu também e eu sinto muito por nós dois. Adeus, Trevor.
Duas lágrimas escorreram em meu rosto e dessa vez virei decididamente a nunca mais olhar para trás, deixaria toda essa parte da minha vida para trás, por mais que eu soubesse que era impossível esquecer isso, eu tentaria, por mais que eu tivesse uma profunda e incurável cicatriz dentro de mim que Trevor havia deixado, e algumas marcas são para sempre. Alguns amores ficam marcados para sempre. E mesmo que não seja com boas lembranças, alguns Trevor Schmidt ficam marcados para sempre dentro de você.
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