O Diretor olhava muito mais que furioso para ambos os garotos. Seus olhos brilhavam com uma raiva voraz ao observar Ryan e Trevor. Ryan estava com o olho inchado e o nariz sangrando, assim como vários hematomas no corpo. Trevor, não tinha nada no corpo. Mal havia sido tocado. Os dedos do diretor se entrelaçaram pensativos. Ele olhou-os por sobre as mãos.
-Quem vocês pensam que são? – Pediu ele, comprimindo a raiva e a mandando para longe, tentando ficar calmo. Nenhum dos dois respondeu. Enquanto Ryan olhava culpado para a mesa de carvalho a sua frente, Trevor encarava o nada, como se não estivesse alí, ou não desse a mínima para isso. – Fiz uma pergunta. – Ressaltou, friamente.
-Eu sou um garoto que está cursando o fim do ensino médio e ele é um lixo covarde que acha que vai se tornar mais “macho” por se agigantar pra cima de meninas indefesas. –Respondeu, o diretor o observou quase ultrajado pela falta de educação do garoto para com ele, e com seu colega.
-Trevor, mais respeito com seu coleg...
-Não tenho respeito por pivetes que acham que bater em mulher é bonito. – Rosnou, interrompendo o Diretor que o olhou com raiva. – Devia ter raiva dele, não de mim, eu apenas defendi elas desse bosta. – Respondeu, mantendo a arrogância e a frieza. Trevor olhava nos olhos do diretor, como se pudesse entrar na cabeça dele.
-Não tenho raiva de ninguém. Tudo que vejo são duas crianças que fizeram baderna na minha escola. E isso eu não admito. Estou só pensando em uma penitência para ambos. – Respondeu friamente. Ryan permaneceu em silêncio enquanto eles falavam. Suas palavras tinham sido silenciadas pela humilhação que sofreu ao ser espancado pelo novato, sendo do time de Basquete. – Saiam da minha sala, vou ouvir a história das meninas. – Contou – Dependendo do que elas disserem, podem considerar-se detentos.
E os dispensou. Ambos levantaram, o diretor podia sentir a aura violenta e mortífera em torno do novato. Sentiu o olhar sangrento dele sobre Ryan enquanto saíam. As garotas entraram, Sam e Marry, não era a primeira vez que vinham à diretoria por causa de Ryan.
-O que aconteceu? –Questionou sem rodeios. Olhava-as com atenção enquanto Marry e Sam contavam superdetalhadamente o que havia acontecido. O Diretor concluiu que seria melhor deixar essa passar, mas por simples orgulho e teimosia, escreveu uma carta de penitência colocando Ryan e Trevor em detenção por dois finais de semana, ajudando a rastelar o pátio da escola. Sam e Mary protestaram, mas ele ignorou as alegações.

A criatura semicerrou os olhos. A morte era silenciosa e doce. Ela sabia disso. Ser um coletor não era fácil, pois a morte era exigente. Tudo tinha tempo. Tudo tinha hora, minuto e segundo. Sem falar em uma razão. Mas hoje, era a vez de uma garoto peculiar. Ou melhor, conhecido. É... O mundo dá voltas. Ele segurou a arma na mão.
Sua arma era especial. Não era como as foices dos outros Ceifadores. Ou os ganchos do Alfa. Não. Ele era o Ômega. Ele era diferente. Ele era mais forte. Em seu nível, era. Ele segurou o item na mão. Parecia algo simples. Um cilindro de oito centímetros de diâmetro, e vinte e dois de comprimento. Seu nome era Ultimo Sussurro e era um dos Cinco artefatos que a Morte deixara aos Ceifadores antes de ir ao Limbo, de onde guia os planos astrais, junto dos anjos caídos e arcanjos da luz.
O Último Sussurro era um artefato de classe S, tinha uma habilidade única. Reproduzir qualquer arma branca que a mente de seu usuário imaginasse. E era ligada a alma do Ceifador que a empunhava. Além dele, outros quatro empunhavam Artefatos classe S, únicos. Alain, o Arauto da Morte, Brandia, a Lâmina Ceifadora, Thrain, a Flecha Venenosa, Colleen, os Ganchos das Almas e ele mesmo, Aizen, a Morte Murmurante.
Ele observou, sentado na árvore o garoto se movimentar, mancando, pela estrada. Um sorriso se abriu em seus lábios, um sorriso vingativo. E ele começou a assoviar. Uma melodia melancólica que ecoou por cada canto da cidade, um agudo que apenas a morte podia ouvir. E ele podia. Ele parou, franzindo o cenho. Olhando em volta, para ver se via algo, mas nada viu. E deu o próximo passo. Erro fatal. O Sorriso se estendeu em seus lábios quando passo seguinte foi dado e o corpo foi jogado longe.
O carro freou, um som esganiçado, agudo e desesperado. As portas se abriram rápido e toda a gente de dentro do carro desceu. Correndo na direção do corpo. Os olhos do ceifador brilharam em um púrpura cintilante e ele saltou do galho, caindo sem ruídos. Ele desfilo em direção ao corpo, que estava cercado pelas pessoas do carro, mole, fraco, Morto. Eles ligavam para uma ambulância, para bombeiros ou o que fosse. Ryan estava ao lado do corpo. Olhando para sí mesmo, atônito.
O Carma é algo estranho. Falou na mente de Ryan, ele o olho atônito com os olhos arregalados. Não podia falar. Estava morto. Aqui se faz, aqui se paga.
O ceifador movimentou o braço com uma velocidade incrível, e a lâmina que seu artefato tomou forma trespassou a alma de Ryan. Ele desapareceu, sendo soprado pelo vento e jogado para dentro do artefato. Os olhos na base do cilindro piscaram com um verde fantasmagórico. Então ele sentiu algo pesar sobre ele. O que era? Um peso estranho, como se alguém... O observasse.
Ele olhou em volta e viu a garota. Sam. O olhando. As mãos na boca. Será que estava o olhando, ou o corpo de Ryan? Não. Definitivamente. Ela estava olhando para ele. O olhar trêmulo e marejado. Ela se virou, e começou a correr. O Ceifador semicerrou os olhos e começou a andar com passadas largas em direção a ela. O Último Sussurro voltou a ser o cilindro e ele o prendeu na bainha, no cinto de couro negro.

Sam correu desesperadamente do que fosse aquilo. Aquela coisa havia feito algo com Ryan, ele era nojento, um idiota, mas não merecia aquilo. Ela correu sem olhar para trás, mal olhando para frente, era madrugada, não havia ninguém que pudesse a atrapalhar, ou em quem esbarrar. Ou assim ela pensou. Pois, quando ousou olhar para trás, deu de cara com algo maciço e caiu de bunda no chão. Suas nádegas doeram com o impacto. Ela reclamou, xingou e olhou.
Seu peito se apertou. Quem estava na sua frente era o garoto novo, Trevor.
— Está tudo bem? – Pediu ele, estendendo a mão. Ela aceitou para se levantar, mas não respondeu a pergunta, não contou a verdade, não contou que havia visto uma sombra, um ser estranho fazendo algo com Ryan. Não podia contar, ele acharia que ela era louca.
— Tem alguém me seguindo. – Disse ela, assustada. Aterrorizada. Ela respirou fundo, trêmula. Trevor a olhou compreensivo e estendeu o braço, para ela enganchar.
— Eu te levo para casa. Mais seguro assim. – Falou. Ela engoliu o choro e a saliva em sua boca e aceitou o braço do garoto, não podia recusar tal oferta, ainda mais em tal posição. Nervosa, ela olhou para trás e viu que não havia nada. — O que faz essa hora na rua, Sam? – Questionou.
-Eu estava voltando da Casa de Marry. – Contou, era verdade. – Estávamos jogando RPG de mesa e... Ah, você não deve saber o que é isso. Desculpe. – Interrompeu-se, corando de leve, deixando o nervosismo escoar do seu pequeno corpo.
— Sei sim. Costumava jogar com alguns amigos antes de me mudar para cá. – Mentiu. Ele sabia o que era, mas nunca havia jogado, ele não, o garoto cuja alma antes habitava aquele corpo havia. Mas ela não sabia disso. Ela olhou para ele.
— E você? O que faz na rua essa hora da noite? – Questionou, sentindo o direto de saber, já que já havia respondido a pergunta dele. Ele foi objetivo.
-Sofro de insônia. – Mentiu. Ele olhou para ela de cima sem que ela percebesse, ela não pode vê-lo enquanto estava na forma etérea, não completamente, deve ter visto uma sombra ou algo do gênero. Ele não podia afirmar com certeza. Eles andaram noite a dentro, ele deixando ela guiar para saber onde era a casa dela. Sam estava com o braço enganchado no dele, para parecer que estavam juntos, talvez.
— Onde estamos indo? – Pediu ele, ela engoliu um seco antes de dizer:
— Pra casa da Marry. Não vou voltar pra casa agora, não depois desse susto. – Respirou fundo, nervosa, ele concordou com a cabeça, e continuou a guiar. Ele a olhou, agora diferente, não com curiosidade mas com admiração. Aos olhos humanos, ela era linda. Cabelos castanhos avermelhados, olhos cor-de-mel e pele alva. O corpo era pequeno e ela não era alta, mas tinha um corpo naturalmente atlético. O canto da boca de Trevor se dobrou em um sorriso discreto.
Sorriso esse que ela Viu. Ela franziu o cenho e pediu:
— O que foi? Eu to suja? – Franziu o cenho. Ele balançou a cabeça negativamente e respondeu, sem hesitação ou pudor nenhum:
— Você é bonita. Só isso. – O Tom dele era sério, aquilo não parecia ser grande coisa pra ele, elogiar ela, mas pra ela era. Nunca tinha sido chamada de Bela, apenas de “gatinha” e coisas que pivetes dizem. Aquilo a fez corar.
Eles continuaram o resto do caminho em silêncio, ela inquieta do porque dele ter elogiado ela, e ele apenas estranhando o porque ter sentido atração pela garota, algo que ele não compreendia. Enfim, chegaram em uma casa de dois andares muito bonita, no meio de uma quadra escura. Sam pareceu relaxar agora que estavam na frente, mas ainda assim olhou para trás.
Ela seguiu até aporta e ele ficou na entrada, do seu estilo galã punk dos anos 80, com jaqueta de couro e Jeans azul escura rasgada, com as mãos no bolso, observou Marry abrir a porta, surpresa e ver Sam de volta, semicerrou os olhos pra ele e olhou para Sam. Elas falaram algo que ele não ouviu e Sam sinalizou para ele ir até lá. Assim ele fez.
Marry olhou para ele e franziu o cenho.
— Entra, vamos tomar um chá. – Disse, ele começou a negar e ela piscou, dando um sorriso brincalhão. – Não é um pedido. – Ele sorriu e desistiu de discutir.
Marry guiou-os para dentro, e Sam se jogou no sofá mais confortável agora. Trevor andou até uma janela e olhou pela lateral da janela, como se verificasse algo e então se voltou para dentro. Marry o olhava, sentada, vestindo um pijama rosa e branco com ursinhos. Ele olhou aquilo e riu baixinho e abafado.
— Não ria. –Disse ela. Então olhou para Sam e disse: — O que aconteceu que voltou? – Sam começou a contar. Disse o que viu e Marry ouviu tudo atentamente. Franziu o cenho enquanto ouvia sobre a sombra. Então olhou para Trevor, após ouvir toda a história de Sam, olhou para Trevor e falou: — Viu algo?
— Vi as luzes através das arvores. Um vulto atrás dela. Nada mais. – Mentiu. Ele estava em pé, próximo a porta. – Então ela esbarrou em mim, caiu de bunda no chão e agora estamos aqui.
-Obrigado por cuidar dela. – Disse ela, ele não demonstrou se importar. Então continuou – Mas, conte o que estava fazendo a essa hora da noite na rua... – Pediu. Ele deu de ombros.
-Sofro de insônia. – Contou. – Porque? Sou suspeito? – Brincou, e ela movimentou a cabeça em concordância. Ele tomou uma expressão fria. – Por?
Ela cruzou os braços e batucou os dedos no próprio bíceps enquanto olhava ele. Ele franziu o cenho e revirou os olhos, dizendo:
— Para de tentar bancar a]o Sherlock, não vai conseguir me decifrar, além de tudo, ajudei sua amiga, sem pedir nada em troca. – Disse movimentando-se para a porta. E Franzinho o cenho quando ela exclamou:
— Desculpa, desculpa, é mania minha eu...
-Então perde ela, é incomodo, inconveniente e grosseiro. – Disse, gélido como um iceberg. – Quer que eu fique, pare de bancar o detetive. – Disse, sem ser grosseiro, mas frio.
-Okay, desculpa. – E descruzou os braços, Sam olhava tudo quieta, não era costume seu falar sobre as manias de Marry, a maioria não a incomodava. Mas incomodou a ele, que decidiu ficar e deu um passo para trás e sentou-se no braço do sofá. Trevor estranhou a casa vazia e silenciosa, ele fechou os olhos por um segundo tentando ouvir a respiração de alguém nos quartos de cima, ou o pulsar de um coração vivo lá. Mas só tinham eles três.
— Seus pais? – Questionou, a pergunta não precisava mais que isso, ela abaixou o olhar, tristemente – Sinto muito. – Mas ele não sentia. Pois talvez tenha sido ele quem buscou a alma deles. Ele não sabia dizer. Marry suspirou e falou:
— Enfim, querem algo para comer ou para beber? – Ele negou com a cabeça e Sam falou:
-Vou pegar algo pra mim comer. – Disse, e foi para o que Trevor deduziu ser a cozinha.
— Acho melhor eu ir indo, amanhã tem aula e é tarde. Amanhã nos falamos – Falou se levantando. Marry o olhou e não disse nada. Se levantou também. – Nos falamos amanhã, vou ficar de olho caso eu veja algo eu aviso vocês.
-Obrigado por cuidar dela. – Disse, se esticando-se e lhe dando um beijo rápido na bochecha. Ele ficou surpreso e sorriu. Marry também era bonita, com seu cabelo louro com mexas em azul escuro e seus olhos claros. Ele saiu pela porta, com Marry trancando-a atrás dele.
Trevor olhou para o Céu. Suspirou. E deixou as sombras o abraçarem.

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