Sweet Obsession
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sweet Obsession
A fúnebre brisa da madrugada brincava com meus cabelos, esvoaçando minhas madeixas ruivas. Eu estava exausta, e era esse sopro que me auxiliava na caminhada até minha casa. Andava vagarosamente depois de um longo período de trabalho em um bordel nomeado “Capitan&Lady”, no qual passava todas as noites, como uma garçonete.
Esse era o meu trabalho. Não estudava em colégio, até porque já terminara o 3º colegial, e não fazia faculdade, pois já desistira há bastante tempo. Infelizmente, meus 17 anos de estudo foram jogados fora para três anos como garçonete. Se eu soubesse que iria viver desse modo, não teria estudado. Ou teria, já que morava com meus pais e, com eles, minha vida era perfeita. Na verdade, tudo era perfeito antes de eles falecerem.
Finalmente, cheguei à rua de minha casa e, cessando meus passos em frente a ela, comecei a remexer minha bolsa de couro avermelhada à procura da chave para destrancar a porta diante de mim, a qual era maciça e recheada de detalhes. Estes a deixavam com um design antigo.
Fechei a porta cautelosamente para tentar não chamar a atenção da outra pessoa que morava naquela casa. Se é que aquilo poderia ser considerado uma pessoa. Era meu tio, que, para mim, não passava de um simples animal irracional capaz de falar. Nem de pensar acho que era capaz.
Nunca senti nenhuma afeição por esse membro da família, porém, infelizmente, minha mãe e meu pai possuíam esse sentimento lamentável que é amor por esse ser. Em consequência disso, a residência de meus pais fora deixada de herança para mim e meu tio, o qual não tivera condições financeiras suficientes para manter uma casa própria.
Acendi a luz e notei que alguns móveis estavam desarrumados e alguns quadros estavam jogados ao chão. Dirigi-me à cozinha, lentamente, percebendo também que havia cacos de vidro logo na entrada. Respirei fundo, andei até o armário e peguei um copo. Estava com muita sede e muito cansada, embora não parecesse. Bebi bastante.
O tempo naquela noite estava realmente muito gélido, por isso andava muito coberta — com um sobretudo e um cachecol em meu pescoço. Durante todo o dia e uma parte da noite, era quente, porém de madrugada era bastante frio. Ainda assim, só andava vestida desse modo quando voltava de meu trabalho, pois nele eu usava uma blusa branca e um short vermelho, bastante curto, assim como as outras garçonetes, pois meu local de trabalho era bem quente.
Quando percebi que ia precisar limpar a cozinha por causa dos cacos que provavelmente iriam me machucar — ou até a meu tio —, fui até o quintal pegar uma vassoura. Limpei o lugar, levando aqueles pedaços para fora da casa, e voltei à geladeira, dessa vez pegando uma caixa com leite em vez de água. Não estava com muita fome, então aquilo bastaria. Preferia chegar em casa sem fome, caso precisasse enfrentar algo, como uma discussão ou uma briga. Sempre andava precavida.
Depois disso fui direto ao meu quarto. Fechei a porta lentamente, tranquei-a e acendi a luz. Andei até a janela e afastei a cortina, vendo que, como todos os outros dias, as luzes da casa de meu vizinho estavam acessas. Ele se mudara para frente de minha casa havia alguns dias, e eu sentia que ele me observava. Desde que ele viera morar nessa vizinhança, sinto que estou sendo observada. Além disso, ele só apagava as luzes quando eu apagava as de meu quarto após chegar do trabalho. Nunca tentei deixá-las acesas para ver o que aconteceria... Será que ele iria deixar as dele acessas durante toda a madrugada? Seria engraçado. Penso nisso agora, já que, felizmente, tudo está normalizado.
Eu não esperava pelo que ocorreu depois. Meu vizinho apareceu na janela de seu quarto, no andar de cima. Rapidamente, de uma maneira assustada, dei um passo para a esquerda, saindo de seu campo de visão. Fiquei pensando se ele havia ou não me visto até adormecer, o que demorou um pouco, já que ainda iria tomar banho. Banho quente, obviamente.
Apertei o botão do aquecedor do chuveiro e entrei debaixo, esperando um ótimo banho morno. Infelizmente parara de funcionar. Percebi isso quando as gotas que caíram em meu corpo o deixaram mais gelado do que já estava.
— Merda! — Desviei das gotas que caíam do chuveiro, olhando-o como se o culpasse. Eu realmente estava bastante estressada, principalmente depois de perceber que seria preciso tomar banho com a água naquela temperatura. Respirei fundo, tentando conter minha raiva, e voltei para debaixo dele, encolhendo-me um pouco. Após alguns minutos, acostumei-me, mesmo que ainda me tremesse algumas vezes. Nunca havia tomado um banho tão rápido em toda a minha vida.
Vesti uma camisola e finalmente deitei em minha cama, entrando debaixo de dois lindos cobertores. Usava apenas dois porque gostava de sentir frio. Era com aquele frio e naquele horário que eu começava a pensar em toda minha vida desde pequena. Lembrava-me de meus pais, do colégio, de meus amigos. Sentia uma tristeza imensa, uma saudade enorme de meus pais, Rachel e Jack Simon. Queria poder voltar no tempo, fazer com que eles não viajassem. Seria uma viagem em família, nós três, em uma terça-feira, mas eu não quis ir e os fiz ir segunda. Se eu não tivesse feito isso, talvez eles ainda estivessem aqui comigo. Eles foram assassinados, e seu assassino nunca foi encontrado.
Girei na cama, olhando para a cômoda ao meu lado. Em cima dela havia uma foto, em uma moldura antiga — porém linda —, de nós três. Minha mãe ao lado de meu pai, com o braço na cintura dele, e eu em cima dele, com as mãos em sua cabeça. Todos nós estávamos sorrindo. Peguei o retrato e o abracei. Afoguei-me mais ainda em meus pensamentos, até que adormeci completamente.
Acordei bem cedo no outro dia. Tinha que trabalhar, mas esse não fora bem o motivo. Não queria ter que ver Richard, meu tio. De jeito nenhum.
Infelizmente, ele estava dormindo no sofá da sala. Não entendi a situação, pois quando fui dormir ele estava em seu quarto. Poderia ter saído de novo... Não importa.
O cheiro de álcool impregnava o interior da casa. Não passei nem perto dele. Bebi um pouco de água e logo fui para o trabalho. O clima estava frio, por ainda ser de manhãzinha, então coloquei um casaco para me aquecer.
Na calçada de minha casa, olhei para a da frente. Havia olhos e dava para ver parcialmente uma cabeça em uma das janelas. Quando notei isso, levei um pequeno susto, o que me fez dar um passo para trás. Quando aquela pessoa que me olhava, seja lá quem fosse, viu-me virada em sua direção, sumiu. Escondeu-se. Bom, aquilo fora estranho, mas, ao invés de pensar besteira, preferi permanecer com o pensamento de que a tal pessoa apenas observava a rua, e como eu poderia achar que ela estava me observando, apressou-se para longe da janela. É, foi isso — pensei.
Bom foi quando cheguei ao trabalho. Eu sempre gostei do local. Tinha uma amiga, Lila, e o dono do bar, Sam, gostava de mim. Pelo que Lila dizia, Sam tinha mesmo uma queda por mim. Eu até que gostava daquilo, embora não sentisse o mesmo. Eu gostava dele, claro, porém não como ele desejaria que fosse. Não por não ver nada em especial nele ou outras coisas do tipo. Eu apenas não conhecia esse sentimento chamado amor. Eu sentia amor por Lila, mas era um tipo de amor diferente — apenas amizade. O amor parental havia me dado adeus quando meus pais foram assassinados, e com eles foi a minha capacidade de amar alguém naquele sentido. Não consigo explicar o porquê disso.
Oh, outro motivo para eu apreciar o local de trabalho é por ser bem quentinho — diferente do lado de fora, que é quase congelando.
— Você chegou mais cedo do que eu esperava — Lila disse, quando me viu chegar perto do balcão.
— E você? Não acreditei quando te vi — eu disse, com um sorriso no rosto — Caiu da cama?
— Claro! Como acha que eu cheguei cedo?! — brincou.
Dei uma gargalhada e fui até o banheiro me trocar. Sam deveria estar em sua sala, pois não o vi atrás do balcão. Quando voltei para a parte do bar onde ficava as mesas — a parte principal, claro —, avistei Sam. Fui até ele.
— Sam! — Chamei-o, parando a sua frente.
— Chegou cedo — ele disse.
— Eu sempre chego cedo — retruquei, arregalando os olhos.
— Você está bem? — Sam perguntou.
Balancei a cabeça que sim e fui até Lila. Ela limpava uma das mesas, e eu fui ajudá-la para podermos conversar.
— Você precisa vê-lo. Nojento, deitado no sofá — comentei. Ela sabia de quem eu estava falando.
— Não sei como você não se muda. Eu já teria saído de lá há tempos.
— Você sabe que eu não posso.
— Sei? Você tem dinheiro pra morar em outro lugar. E pode ficar lá em casa o tempo que quiser — sugeriu.
— Não, não posso — recusei — O lugar também é meu. Se ele quiser, ele que saia.
— Ele não vai querer — ela disse com sinceridade.
— Isso é verdade...
Após alguns segundos, eu disse:
— Eu... — parei, relutante em tocar no assunto.
— Sim?
— Não é nada — eu disse.
— Vamos, fala — ela mandou, erguendo uma das sobrancelhas.
— Não é nada, é só que... Há esse cara... Talvez eu esteja ficando louca, não sei, mas... — continuava hesitando, até que decidi falar — Tem algo estranho com o rapaz que vive em frente a minha casa.
— Oh, Matthew? — ela perguntou. Deixou-me intrigada.
Como assim ela sabia o nome dele?!
— Como assim você sabe o nome dele? — indaguei, perplexa.
— Você sabe como eu sou... Eu já havia percebido antes que lá era estranho, então decidi sondar.
— Quando? — perguntei — Por que não me disse antes?
— Não tinha por que. E você não havia comentado nada...
— Ok, ok... E aí? — Fiquei interessada. Curiosa, essa é a palavra.
— Nada de mais. O nome dele é Matthew, tem 37 anos e parece que é advogado. Um bom rapaz, se é que me entende — ela disse, sorrindo maliciosamente — Talvez ele esteja interessado em você. É isso, ele está interessado em você — Olhou em meus olhos.
— Hmm... Tanto faz — Desviei o olhar.
— Você está interessada também, não é? — ela perguntou com um tom malicioso.
— Não... Não! Qual é! — respondi sem graça. Menti. Só conseguia pensar em uma coisa: como ele era. Eu já pensara em ficar com Sam, beijá-lo e... Mas não seria certo. Ele gostava de mim de uma forma da qual eu nunca poderia retribuir. Bom, era o que eu pensava. Mas Matthew... Talvez ele apenas me achasse bonita, atraente... Seria o cara certo para passar algumas noites acordada. Dependendo de como ele era — não só fisicamente, claro.
Naquele dia, trabalhei durante os turnos da manhã e da noite. Amanda não poderia trabalhar aquele dia, e me pediu para cobri-la. Eu até que gostava, pois, além de ficar longe de casa — e do desgraçado do meu tio —, ganhava um dinheirinho extra — bastante se contar com as gorjetas. O único problema era que sempre tinha algum idiota que passava a mão em minha bunda — e na das outras. Muitas vezes eu apenas relevava para não gerar nenhum tipo de briga no bar de Sam, pois tenho muito carinho e afeto por ele. Mas, nos dias em que estou muito estressada, não aguento deixar minha boca fechada. E quando Sam via, ele brigava com o cliente ou mandava-o se retirar. Não posso dizer que não gostava daquela proteção dele.
Quando chegou o fim da noite, já estava acabada. Meu pescoço doía. Minhas costas e minhas pernas também. Como eu queria que tivesse uma cama do meu lado naquele momento.
— Tchau Sam! — falei, pegando minha bolsa e colocando meu sobretudo. — Lila! — Acenei para ela.
— Até mais! — ele gritou.
Lila não me respondeu. Acho que foi porque ela tentou me assustar enquanto eu caminhava pela calçada. Apenas tentou. Eu estava cansada demais até para me assustar.
Olhei para ela e balancei a cabeça.
— Ah, qual é! Foi engraçado — ela disse, caminhando ao meu lado. Ela sorria. Eu não. — Você parece cansada.
— Pareço não, estou — disse, respirando fundo. — Você não está?
— Claro que sim, mas isso não vai me impedir de sorrir.
Dei de ombros.
— Verdade — Cedi, dando um sorriso. Talvez tenha forçado um pouco.
— Que tal a gente ir lá na casa do Matthew? — ela sugeriu.
— Matthew? — perguntei. Depois daquele dia cheio até meu nome eu teria esquecido.
— Vizinho do mal? — ela disse, fazendo-me lembrar.
— Do mal... — repeti, rindo.
— Ele deve ter te achado bonita, só isso — Lila tentou retirar o que havia dito. Ela não queria me assustar.
— Sim, sim — Eu também preferia acreditar naquilo.
— Então, vamos? — ela voltou a perguntar.
— Não — respondi. — Prefiro ficar em casa com o bêbado do meu tio. — Eu preferia qualquer coisa em vez disso, mas aquela ideia não parecia adequada no momento.
— E se ele for bonito? — Olhou-me maliciosamente.
Não pude deixar de imaginá-lo. E se fosse?
— Agora você ficou com vontade! — Lila me deu um tapinha nas costas. — O que me diz?
— Deixa pra depois — disse, após algum tempo.
— Ok. Você quem sabe. Já vou — ela disse, abraçando-me. — Se cuida.
— Você também — disse.
Seguimos caminhos diferentes.
Quando cheguei na rua de minha casa, vários calafrios percorreram meu corpo. Não sei se por medo ou por ansiedade para saber quem era meu vizinho. Só sei que tinha a ver com ele.
Parada, de frente a minha porta, fiquei a pensar. Chutei-me mentalmente por querer aquilo, mas seria melhor do que entrar em casa e ver tudo revirado.
Girei em meus calcanhares e fui direto à casa da frente.
A luz da casa estava acesa, então ele devia estar lá.
Ergui minha mão. Pensei mais um pouco. E se ele não estivesse me observando?
Como isso seria estranho — pensei.
Abaixei meu braço, que estava pronto para bater na porta, passei as mãos em meus cabelos e voltei para meu lar.
Tudo arrumado. Demorei a fechar a porta e me mover, pois estava estarrecida.
Não havia nada fora do lugar. Nada quebrado. O cheiro de cigarro infestava o local, mas ainda sim aquilo era estranho. Muito estranho.
Ele arrumou tudo, fumou um cigarrinho e caiu fora, pra nunca mais voltar — pensei. Era meu desejo, mas sabia que não havia se realizado. Nem iria.
Fui ao quarto perto da cozinha. Ele não estava lá. Procurei mais um pouco lá em baixo até perceber que, se ele estivesse em algum lugar daquela casa, seria lá em cima. Subi as escadas.
Em seu quarto Richard não estava. Desisti de procurar, talvez ele tivesse mesmo ido embora.
Daí eu presenciei a cena mais nojenta de toda minha vida. Notei pelo barulho na cama de meu quarto e corri.
Meu tio estava em cima de uma mulher seminua sobre minha cama fazendo sei lá o que, pois fechei os olhos e desviei o olhar — bom, saber o que estavam fazendo eu sabia, mas não em que parte se encontravam. Fiquei nauseada.
— Que porra é essa?! — gritei. Não queria acreditar em meus olhos.
— O que você está fazendo no meu quarto?! — Richard teve a cara de pau de alegar que aquele era seu quarto.
Queria estrangulá-lo.
Naquele momento tudo que eu conseguia pensar era em fazê-lo ficar com raiva do mesmo modo que eu estava. Que bom que eu conseguia ler as pessoas muito bem.
Richard havia arrumado a casa inteira para aquela mulher, e pelo jeito que ela se apressou para cobrir suas partes nuas, ela era de respeito. Muitas nem ligariam para o que eu iria dizer. Ela ligaria.
— Esse não é seu quarto! Esse quarto é nosso! Bom saber que você continua me traindo! Eu sou sua mulher, porra! — menti descaradamente. Nossa, me deu uma vontade súbita de rir ao vê-lo tentando concertar a mentira que eu havia criado. Ele estava puto.
A mulher se vestiu completamente e andou de forma rápida à porta da casa. Seus passos pesados de raiva eram acompanhados pelos passos desesperados de Richard ao perder sua noite de diversão.
Desci alguns degraus. Parei onde já era possível ter uma visão da sala. Meu tio fechou a porta com força. Estremeci com o barulho. Fiquei com medo.
Enfrente — pensei.
Desci os degraus finais, dei um olhar sério para ele e logo me virei, seguindo à cozinha.
— Venha aqui — ele disse.
Até parece.
— Venha aqui! — gritou.
Continuei meu caminho, até que fui puxada pelo braço, sendo quase deslocado.
— Me solta! — gritei, debatendo-me.
Richard desferiu um tapa na minha cara. Foi com força, e doeu muito. Após isso, empurrou-me na parede. Dor novamente.
Quando vi que ele já vinha em minha direção para me bater ainda mais, chutei sua parte íntima. Foi em cheio. Bem feito.
Soquei seu rosto murchado e corri para a cozinha. Peguei a primeira faca que consegui — e, graças a deus, era a maior faca da casa —, firmei-a em minha mão e direcionei-a a ele.
Seus passos cessaram.
Eu tremia toda. Porra.
— O que vai fazer com...
— Cale a boca! — gritei. — Se você der mais um passo eu vou arrancar seu coração fora com minhas próprias mãos! — disse, minha voz tão assustadora que até eu fiquei com medo. Mas gratificada por ter conseguido usar aquele tom de voz. — A faca é só pra começar — continuei, balançando-a.
Richard permaneceu parado por alguns segundos. Não relaxei minha mão nem meu corpo por um mísero milésimo. Ele, então, resolveu dar meia volta e ir ao seu quarto.
Encostei-me a pia, aliviada. Relaxei-me, repousando aquele objeto cortante sobre ela. Suspirei. Tirei meu sobretudo.
A campainha tocou.
Oh não. Não acredito que ela voltou — pensei, achando que seria a mulher de minutos atrás.
Abri a porta.
Meus olhos já quase fechados se abriram completamente.
Meu deus. Ele era lindo. Muito lindo.
Era meu vizinho. Estava ali, parado, de frente a mim. Olhando-me de uma forma encantadora, com seus olhos azuis. Perdi-me naquele mar sem fim que eram seus olhos.
Até que ele perguntou:
— Você está bem?
Quando voltei a mim, perguntei-me se ele era um bruxo e havia me enfeitiçado.
— Estou sim — respondi.
E ele era muito gostoso, não deixei de reparar. Vestia uma camisa azul e calça preta sociais. Era branquinho como eu. Cabelo preto, liso e curto, mas não muito, do tipo que dá pra puxar de boa.
Logo me lembrei de como eu estava. Acabada. Minha maquiagem já devia estar acabada também, e eu não tinha passado quase nada antes de ir ao trabalho. Apenas um pouco de blush. Ah, também havia delineado meus olhos verdes-esmeralda.
Eu vestia uma blusinha branca qualquer e uma calça jeans. Ainda estava com o tênis que uso no trabalho. Meu cabelo estava em um rabo-de-cavalo mal feito.
Droga. Não queria que a primeira vez que nos falássemos eu estivesse tão pouco produzida.
— Tem sangue no seu rosto — ele disse. — Ouvi gritos. — Parecia preocupado.
Que lindo!
Limpei o sangue com minha mão e disse:
— Um gato entrou em casa e me atacou. Pode acreditar? — Fiz de impressionada.
— Não está arranhada... — ele replicou.
Verdade.
— Ele não me arranhou, apenas pulou em mim. Daí eu caí — disse, contornando.
— Oh. Ok então... Oh, desculpe — pediu de uma forma tão calma e fofa que eu quis gritar que o desculpava e pular em cima dele. — Esqueci de te dizer meu nome. Sou Matthew. Moro logo ali — Apontou.
Seu sorriso era tão branco.
— Oh! Prazer, Katherine! — Estendi minha mão. Ele a apertou.
Seu toque, tão quente... Mãos fortes...
— O prazer é meu — ele disse, voltando a sorrir.
Notei que eu estava sorrindo feito uma retardada.
— Então... Eu tenho que... — Apontou para sua casa novamente.
— Oh, ok. Pode ir — disse.
— Você está mesmo ok? — perguntou mais uma vez.
— Sim! Obrigada.
Ele sorriu e se virou, retornando à sua casa. Fechei a porta lentamente, checando-o até o final.
Meu sorriso foi desmanchado quando me lembrei da cena que ocorrera logo ali. Andei vagarosamente até a cozinha. Comi qualquer coisa e me deparei com uma garrafa de vodka.
Encarei-a por alguns minutos. Agarrei-a e subi para meu quarto. Liguei a pequena televisão que havia sobre uma pequena cômoda em frente a minha cama. Abri a garrafa.
Acordei não muito cedo, mas o sol ainda estava com toda sua potência. Havia me esquecido de fechar as cortinas, então os raios de sol atingiram meus olhos com tudo. Ainda bem que a janela ficava de um dos lados da cama. Virei para o outro lado, esperei mais um pouco. Levantei e fui ao banheiro. Minha cabeça doía.
O resto da maquiagem do dia anterior estava todo borrado. Limpei meu rosto e desci as escadas — estava com preguiça demais para tomar um banho.
Richard não estava em casa. Quase dei um pulo de felicidade.
Preparei o café da manhã e relaxei mais um pouco enquanto comia.
Precisava fazer alguma coisa. Sentia-me inquieta, pensando em Matthew. Pensei também que se meu tio não houvesse me atacado ele não teria aparecido. De alguma forma, aquilo fora bom, pois além de isso ter acontecido, enfrentei meu problema.
Levei minha mão à cabeça. Eu definitivamente não estava me sentindo muito bem. Ainda sentia dor, mas não muita. Observei o estado em que a casa se encontrava.
Continuava arrumada do dia anterior, mas nem tanto. Havia bastante poeira também, não deixei de notar.
Decidi limpar a casa: varri, lavei, tirei pó de objetos. O lugar podia ter dois andares, mas não era muito grande.
Fiz pequenas pausas para assistir televisão. Quando terminei, o horário do meu trabalho se aproximara.
Tomei um dos banhos mais gostosos de toda a minha vida, daí fui me vestir para sair.
Do lado de fora de casa, peguei-me olhando fixamente para a porta de Matt. Procurei-o pelas janelas com o olhar, mas todas estavam fechadas.
Quem está observando quem agora? — pensei.
Balancei a cabeça, esfreguei meus olhos e segui meu caminho. Sempre me lembrando daqueles olhos azuis.
— Kath? — Lila me chamou, entrando no banheiro em que eu terminava de me trocar.
— O que foi? — perguntei enquanto ela fechava a porta e eu subia meu cabelo para amarrá-lo em um rabo-de-cavalo.
— Que tal a gente ir dançar um pouco na boate Rylley’s depois do trabalho? — sugeriu, seus olhos quase brilhando.
— Você não pode estar séria — disse, minha voz meio fraca.
— Por que não? — perguntou, fazendo beicinho.
Revirei os olhos.
— Talvez porque iremos passar a noite inteira de pé entregando pedidos aos clientes? — disse, com um leve tom de sarcasmo.
Lila ficou séria, fuzilando-me com os olhos.
— E daí? Vai ser divertido! Você nunca mais foi lá — ela disse.
Dei de ombros.
— O que é isso? — Lila perguntou, aproximando seu rosto do meu.
Não entendi direito do que ela estava falando, até que ela levou sua mão à minha face. A dor me fez lembrar. Bati em sua mão, franzi minha testa.
— Ai! — gemi.
Lila percebeu.
— Não acredito! — falou, indignada, uns dois tons mais altos.
— Shhh! — Tentei silenciá-la.
— Foi aquele desgraçado, não foi? — indagou.
Não me deu muito tempo para responder:
— Você precisa ir à polícia — ela disse, pegando em meu braço.
Meus olhos já estavam completamente arregalados. Lila estava definitivamente me assustando com toda aquela apreensão.
Talvez fosse aquilo mesmo o que eu precisava fazer. Ir à polícia. Entregá-lo. Não posso dizer que o motivo de eu não ter ido não tinha nada a ver com medo. Eu tinha medo, claro que tinha. Mas não era apenas por aquilo. Aquilo não era tudo.
Eu não gostava da ideia de precisar de outras pessoas para cuidar daquele problema. Isto era tudo que Richard era: um problema.
Richard não podia continuar fazendo aquilo. Não sob o teto de meus pais. E, se ele continuasse, eu mesma iria acabar com esse problema.
Ele não é nada além de um pedaço de lixo — pensei.
— Eu não vou à polícia — eu disse. — E como você descobriu que eu estava machucada? Têm uns dois quilos de maquiagem no meu rosto.
— Por isso mesmo. Maquiagem demais para o trabalho. Ou você fez tudo isso pro Sam ou havia sido machucada — respondeu como se aquilo fosse a coisa mais simples do mundo.
Não acreditei que ela falava sério.
— Sério? — Arqueei uma de minhas sobrancelhas.
Ela balançou a cabeça positivamente. Eu, negativamente.
Sabia que ela voltaria ao assunto anterior: Richard; então me apressei:
— Eu vou à boate — cedi finalmente, vendo-a dar pulinhos. — Preciso aproveitar essa maquiagem toda de qualquer jeito. Mas eu não to com uma roupa apropriada... — disse. Estava sendo sincera.
— Não tem problema, eu tenho umas aqui.
Agora foi minha vez de fuzilá-la com os olhos.
— Você não esperava um “não” como resposta... — concluí.
Ela olhou para todos os lados e voltou a mim.
— Hmm... Não — Sorriu e saiu em disparada.
Aquela noite de trabalho fora bem calma — para minha felicidade. Após o término, enquanto provava uma roupa de Lila, era informada de quem iria: Amanda e mais três rapazes — dos quais eu nunca ouvira falar —, os quais seriam nossos acompanhantes. Pelo menos o meu era bonito.
Eu fui com uma blusa preta, sem manga, com decote e com renda bem bonita. A calça jeans era realmente apertada, demonstrando meu quadril perfeitinho. Fiz uma maquiagem mais poderosa, aproveitando a já usada para o trabalho — meus olhos delineados chamavam a atenção em contraste com meus olhos verde-esmeralda. Não gostava muito de batom — pelo menos não muito forte ou aqueles róseas chamativos —, então passei brilho labial.
Ainda tive tempo pra fazer ondas em meus cabelos vermelhos.
Não posso dizer que não bebi naquela noite. Bebi. E muito. E dancei bastante também.
Fazia tempo que eu não ia àquela boate. Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Depois de algumas horas de bebedeira e de dança com aquele salto extremamente alto — e preto —, o rapaz bonito que dançava comigo — com as mãos em todo meu corpo — se tornou lindo.
E eu queria beijá-lo.
E eu iria.
Foi quando eu o vi de esguelha.
Ele estava ainda mais lindo.
Parei de dançar, olhei-o por mais algum tempo. Pedi para que meu acompanhante esperasse, e fui em direção a ele: Matthew.
Ele sorriu quando me viu, e é óbvio que eu também sorri. Foi bem fácil me perder naquele céu que eram os olhos dele, mas fiz de tudo para voltar ao normal antes de parecer uma completa retardada em sua frente.
— O que faz aqui? — perguntei, sem graça.
Tive uma leve impressão de que aquela fora uma pergunta bem idiota.
— Por quê? Acha que eu não tenho tempo pra esse tipo de coisa? — ele retrucou, sua voz terna.
— Não é nada. Esquece — disse, gesticulando.
— Quer dançar? — ele perguntou.
Confesso que se ele tivesse demorado mais um segundo quem teria feito o convite era eu.
— Claro! — respondi, animada.
Voltando para a pista de dança, percebi a maliciosidade no rosto de Lila vendo-nos de mãos dadas. Eu também estava com pensamentos maliciosos, mas tudo que rolou foi um beijo, o qual foi bem aproveitado.
No fim da noite, voltei com Matthew. Conversamos muito dentro de seu carro. Ele me deixou em frente à minha casa.
— Essa foi uma ótima noite — eu disse. Estava realmente feliz.
— Para mim também — Ele sorria. — Que tal se fôssemos jantar amanhã? Quer dizer... Hoje... — corrigiu quando percebeu que já era mais de meia noite.
Olhei para o relógio. Eram quatro da manhã, e eu estava morta de cansada, sem mais nem conseguir pensar direito. Mas com certeza queria sair com ele outra vez.
— Adoraria — respondi.
— Ótimo! — ele se alegrou. — Até amanh... Mais tarde.
— Até!
Embora completamente exausta, subi todos aqueles degraus até meu quarto. Era como se minhas pernas andassem sozinhas. Eu nem as sentia mais. Mas estava tudo bem. Valera a pena. Eu estava feliz, e percebi que aquilo me assustava um pouco. Tinha medo de sentir felicidade, medo de que aquilo fosse mais como um sinal de que tudo em seguida daria errado.
Eu estava realmente gostando dele. Confesso que de primeira fiquei com uma perna atrás. Convenhamos, é um pouco estranho descobrir que seu vizinho, o qual nunca vira antes, o observava sabe-se lá desde quando. Mas tudo bem. Ele era um bom homem, e eu havia percebido isso. Além disso, seu olhar, seu sorriso... Ele era lindo.
Fechei a porta de meu quarto, passando a chave, e fui até um dos lados da cama. Comecei a desabotoar meu sobretudo, jogando-o de qualquer forma ali após tirá-lo. Quando ia começar a me despir, senti algo atrás de mim. Virei de uma vez, e foi quando fui acertada por um soco em minha face. Foi tudo tão repentino... Não sabia o que fazer.
Fui pressionada contra a parede. Levei outro soco, mas dessa vez foi em meu abdômen. Richard, agora, tentava me sufocar com suas mãos em meu pescoço.
Meu coração batia extremamente rápido. Eu estava com muito medo.
Eu vou morrer?
Desferi um murro em seu rosto com tudo o que eu tinha, e ele foi para trás. Tentei correr para a porta, mas ele segurou meu cabelo, puxando-o com muita força. Richard me jogou no chão, e chutou-me. Antes de fazer isso novamente, chutei sua perna, o que o fez ir ao chão também. Peguei a garrafa de bebida, que havia deixado do lado de minha cama na noite anterior, e acertei sua cabeça com ela.
Levantei e corri com toda velocidade. Minhas mãos trêmulas me faziam acreditar que não conseguiria destrancar a porta rápida o suficiente. Mas consegui. Do outro lado, vi o desgraçado vindo em minha direção. Fechei a porta velozmente, e a tranquei. Saí daquela casa e atravessei a rua desesperadamente até a porta de Matt. Bati, toquei a campainha. Ele não vinha, e eu não tinha tempo a perder. Corri com todas as forças restantes para longe daquele lugar.
— O que aconteceu?! — Lila indagou desesperada.
Eu estava em sua sacada, de frente à minha amiga, abalada.
— Posso dormir aqui hoje? — perguntei.
— Foi aquele filho da puta, não foi? — Ela estava furiosa.
— Posso ou não? — perguntei novamente.
Lila tentou se acalmar, e respondeu finalmente:
— Claro que sim. Você pode dormir aqui sempre que quiser, querida. Você sabe disso.
— Obrigada — Sorri. Ela me abraçou, o que doeu um pouco por conta de meus machucados, mas foi confortante.
Tomei um remédio para dormir, e adormeci ao seu lado em sua cama. Ali eu me sentia inteiramente segura.
Abri meus olhos lentamente. Não enxergava nada direito, então fui ao banheiro lavar meu rosto.
Era noite. Olhei para o relógio na cômoda ao lado da cama. Já eram seis horas.
Procurei Lila por toda a casa. Ela não estava lá. Pensei em pegar meu celular para ligá-la. Foi quando me lembrei de que havia deixado meu celular em casa.
Merda — pensei.
Sentei-me no sofá da sala por algum momento, enquanto assistia à televisão. Resolvi ligar para Lila pelo telefone de sua casa. Seu celular estava desligado.
Fiquei preocupada. Talvez ela estivesse no trabalho... Não queria trabalhar naquele dia, mas decidi ir para ver se ela estava por lá.
— Sam — chamei-o sem muito entusiasmo. — Você viu Lila? — perguntei.
— Não. Ela não veio hoje... Você está bem? — ele indagou. A maquiagem que eu passara escondia meus machucados, com certeza. Mas era perceptível que havia algo de errado comigo.
— Estou... Preciso ir — disse.
— Espere! Você não vai trabalhar? — perguntou.
— Não...
— Kath! Lila não está aqui e ela não vai dar conta de tudo sozinha — Apontou para Amanda.
— Desculpa — pedi, virando e continuando meu caminho.
— Katherine! — ele gritou. Parecia estar mais preocupado com o que acontecera comigo do que com seu bordel faltando garçonetes. Não olhei para trás.
Eu estava realmente preocupada. Já havia passado por minha cabeça que Lila podia ter resolvido ir à polícia, ou até mesmo à minha casa falar com o desgraçado.
E se algo aconteceu com ela? — perguntei-me.
Voltei até minha casa. Dessa vez eu tinha algo para me proteger dentro de minha bolsa. Sei que era só uma faca, mas serviria. E, dessa vez, caso Richard tentasse me atacar... Eu a usaria sem nenhuma relutância.
Entretanto... Não havia ninguém em casa. Nem sinal de Lila. Nem de Richard. Na verdade, não havia nada de Richard ali. Nenhum de seus pertences, os quais eram mínimos se não contasse com as roupas. Não tinha mais nada ali que o lembrasse, a não ser minhas terríveis memórias.
Nunca me senti tão aliviada em toda minha vida. Tão serena, como se a vida tivesse um novo propósito. Não... Como se tivesse um propósito pela primeira vez. Foi incrível como foi perceptível minha mudança de estado. A sensação de contínuo cansaço passou. Meus ombros ficaram mais leves, assim como minhas pernas. Claro que ainda sentia dores da luta com meu problema. Porém tudo estava bem agora.
Mas e Lila?
Subi até meu quarto, tentando não relembrar o acontecido ali — o que era quase impossível —, e peguei meu celular. Enquanto o ligava, fui até a casa de Matt. Talvez ele soubesse de algo, não só a respeito de Lila, como de Richard.
Havia uma ligação perdida de Lila. Bati na porta de Matthew enquanto tentava ligar para minha amiga. Não demorou muito para ele aparecer.
— Katherine! — ele sorriu.
Sorri de volta, embora estivesse apreensiva por Lila ainda estar com seu celular desligado.
— Você está bem? — perguntou.
— Sim... Você viu Lila? — indaguei.
Já iria checar minha caixa mensagens de voz quando ele respondeu:
— Sim.
Olhei-o atentamente, desistindo de acessar as mensagens de voz. Matt deu espaço e acenou para que eu entrasse, e, enquanto isso, ia falando:
— Ela veio aqui. Perguntou-me se eu sabia alguma coisa sobre o homem que vivia com você, Richard, e eu a disse que o vira saindo pela manhã com algumas malas... Parecia que estava indo viajar.
— E então?
— Depois ela pareceu ficar bem aliviada. Oh, ela também disse que iria sair para um almoço com alguém que conhecera e que talvez ficasse bastante tempo fora.
— Por que ela te diria isso? — perguntei, estranhada. Aquilo realmente fora um pouco fora do normal.
— Oh! — ele gargalhou. — Isso foi mesmo bizarro... Ela me disse que não conseguia te contatar, então resolveu deixar essa mensagem comigo, pois sabia que você viria aqui. E esse sou eu, passando a mensagem — disse, sorrindo.
Ok... Agora tudo está bem.
— Ok. Muito, muito obrigada! — eu disse.
— Por nada!
Quando eu já estava me preparando para sair, ele perguntou:
— Você vai embora?
— Sim... Por quê?
— Oh... Você se esqueceu do jantar...
— Jantar... — lembrei-me subitamente de que havíamos combinado de jantar juntos. — Desculpe... Realmente esqueci...
— Fique — ele pediu, com uma voz bem calma e sedutora. — Preparei uma ótima comida para nós.
— Você cozinha? — perguntei, em choque. Matt era verdadeiramente interessante.
— Com certeza. E aí? O que acha?
Ele conseguia ser bem persuasivo.
Após alguns segundos, dei de ombros e disse:
— Ok. Por que não?
— Ótimo! — ele comemorou. Rimos.
— Pode se sentar — ele me levou até a mesa na sala de jantar. A comida parecia deliciosa.
A casa dele era um pouco esquisita por dentro, não pude deixar de reparar. Mas ele era tão lindo e aquela comida parecia tão boa que eu deixei isso para lá.
Matt foi até a cozinha buscar o vinho. Puxei a cadeira, e, sorridente, observei os armários, as cômodas, os vasos de flores em cima destas. E, antes de me sentar, não pude deixar de notar o pequeno bracelete de Lila, o qual ela nunca tirava, a não ser para lavar as mãos. Ele estava perto de um vaso.
Meu sorriso se desmanchou. O que aquilo estava fazendo ali? Bom... Ela havia só passado ali ou ficara mais algum tempo? Ela teria tirado o bracelete se tivesse ido lavar as mãos para comer...
— Não vai sentar? — ele perguntou, colocando a garrafa de vinho e as taças sobre a mesa.
— Vou sim. Só preciso lavar minhas mãos antes.
— Oh, ok. O banheiro fica na primeira porta a direita no corredor.
— Matt? — chamei-o.
— Sim?
— Lila provou sua comida? — indaguei.
— Não... Por quê?
— Parece tão deliciosa... Queria que ela ficasse com inveja — falei de uma vez. Ele gargalhou.
— Ela nem entrou. Eu deveria ter deixado-a entrar e oferecido minha comida... Ela realmente ficaria com inveja — disse, sorrindo.
“Ela nem entrou”, ele disse.
Fingi um sorriso o quanto pude até me virar e ir em direção ao corredor que ficava entre a sala de jantar e a sala com a escada para o outro andar. No final do corredor havia uma porta, mas virei logo que achei o lavabo. Fechei a porta.
Com meu celular em mãos, liguei para Lila mais uma vez. Seu celular ainda estava desligado. Acessei a caixa postal. Tinha uma mensagem. Era dela.
“Kath... Eu estou na casa de Matt... Ele tem fotos de você. Todo tipo de foto... Estou assustada... Eu acho que...”.
Minhas pernas tremiam. Matthew... era obcecado por mim? E, além disso... O que ela fizera com Lila? Não só minhas pernas, mas minhas mãos também estavam trêmulas. Na verdade, todo meu corpo estava. Nunca senti tanto medo, nem quando Richard me atacara, pois, de qualquer forma, sabia que ele não me mataria.
Mas Matthew... Eu não sabia do que ele era capaz. Não... Não só isso. Eu não sabia nada sobre ele, pois tudo aquilo, todos aqueles sorrisos e aquela comida na mesa... Era tudo falso. Ele não era aquela boa pessoa que parecia ser.
Olhei para os lados. Não havia janela nenhuma ali. Teria que voltar e fingir que estava tudo bem. Abri a porta lentamente. Observei aquela porta no fim do corredor mais uma vez. Talvez houvesse como escapar por aquele cômodo. Com passos sutis, fui até lá. Abri a porta tentando não fazer barulho nenhum.
Estava aterrorizada. Paralisada. Fotos e mais fotos minhas, em todas as paredes. Desde quando era nova. Fotos minhas com meus pais. Com meu tio. Com Lila. Fotos de meus aniversários. Fotos minhas tomando banho. Meu deus... Ele esteve em minha casa... Em meu quarto!
Na cômoda ao meu lado notei um livro. Um álbum. Mais fotos? Abri. De fato havia fotos. Mas não só isso. Nas inúmeras páginas havia nomes de várias mulheres, com espaços para uma foto de cada uma delas... E com um espaço para mechas de cabelo. Também havia datas. Passei mais para frente. Diferentemente das outras, eram páginas e mais páginas de fotos minhas. Ele estava obcecado por mim.
Voltei para a primeira página que começavam minhas fotos. Como era do lado direito do álbum, fui capaz de perceber, do outro lado, o nome de alguém conhecido. De alguém que amava. “Lila Heatherwood”.
Comecei a chorar, com uma mão tampando minha boca para não fazer barulho. Havia uma foto dela, e também uma mecha de cabelo com sangue no álbum.
Soltei o livro, e virei para trás. Tinha uma cama no meio do quarto, e, de frente para o pé desta havia várias janelas. Corri até elas, porém estavam fechadas. Como eram de vidro, preparei-me para quebrá-las. Puxei o lençol da cama, enrolei em meu braço e quebrei a janela.
Todo centímetro do meu corpo tremia. Meu coração parecia que ia explodir. Não conseguia parar de chorar. Não via a hora de sair dali.
Até parece que seria fácil assim.
Quando metade de meu corpo estava para fora, fui puxada de volta. Ao sentir seu toque em mim, levando-me de volta para dentro daquele pesadelo, gritei e comecei a chorar ainda mais. Fui jogada no chão.
— Aonde acha que está indo, amor? — ele perguntou. Eu estava enojada. Só de ouvi-lo falar me assustei.
Desesperada, não parei para vê-lo, para tentar conversar nem para tentar entender o que estava acontecendo. Só queria me livrar daquilo o mais rápido possível. Desferi um chute em seu abdômen, o que o fez recuar um pouco com dor. Corri para a saída, mas fui empurrada na cama com força. Ele caiu em cima de mim.
— Vamos lá, não se faça de difícil. Eu sei que você me quer! — ele falava. E parecia mesmo acreditar em cada palavra do que dizia. Eu chorava cada vez mais.
Matthew, meu algoz, era apavorante. Ele rasgava minha roupa enquanto sorria para mim. Estiquei minha mão, alcançando o vaso sobre a cômoda do lado da cama. Agarrei com tudo e acertei sua cabeça. Empurrei-o para o lado e fugi de seus braços.
Enquanto ia em direção à porta principal da casa, ele gritou:
— Katherine, está tudo bem! Não precisamos fazer sexo se você ainda não está preparada! — Ele era completamente insano.
Tentei abrir a porta. Estava trancada. Gritei o mais alto que pude, mas não adiantaria. Não havia ninguém por perto que pudesse me salvar. Na sala havia janelas de vidro, mas não daria tempo de quebrá-las para fugir, pois meu algoz já estava em seu caminho para me pegar.
Corri para a cozinha, passando pela sala de jantar. Abri o porta talheres velozmente para pegar uma faca. Não havia nada.
— Não! — gritei, desesperada.
Voltei para a sala de jantar, e o vi se aproximando. Fui para um dos lados da grande mesa, tentando ficar o mais distante possível. Precisava alcançar minha bolsa.
— Você quer brincar, não quer? — ele indagou com um sorriso demoníaco. — Adoro brincadeiras!
Ele ficou indo e voltando, fazendo com que eu fizesse o mesmo. Estava se deleitando com aquilo. Até que ele subiu na mesa de forma abrupta, o que me deixou terrivelmente assombrada. Rodeei a mesa o mais rápido possível, mas sabia que ele me alcançaria, então peguei minha bolsa e corri para a sala. Tentei quebrar a janela, mas elas não eram de vidro. Eram daqueles tipos de janela que se usa em interrogatórios policiais. Desesperada, corri para a escada. Infelizmente derrubei minha bolsa, e não poderia voltar para pegá-la.
Subi os degraus ligeiramente. Nada de cair, eu pensava.
Havia três portas que deveriam ser quartos normais. Tentei abri-las enquanto ele vinha. Todas estavam trancadas. Matthew acabara de subir o último degrau, e eu conseguira abrir uma das portas. Era um pequeno banheiro, e, sem saber o que fazer, eu me trancara lá dentro.
— Vamos! Já chega de brincar — ele disse. — Abra essa porra! — gritou, assustando-me ainda mais.
Olhei para os lados. Do lado da porta, uma pia com um espelho em cima. Do outro lado, uma banheira cheia de água. Virei para trás. Uma janela! Subi na ponta da banheira e me estiquei para alcançar a pequena janela. Consegui abri-la, mas seria complicado passar por ela. Que se foda. Tudo que eu precisava era fugir dali.
Fiz todo o possível para conseguir subir naquela pequena abertura, e consegui. Conseguia ver a rua, e já imaginava estar livre. Mas escutei a porta ser arrebentada, e sabia que não acabara. Fui puxada pelos pés. Não só isso. Enquanto lutava para tentar escapar, fui esfaqueada nas costas. Nunca senti tanta dor.
Minhas forças se esvaíram naquele momento, e eu caí de volta no banheiro. O homem me empurrou na parede, face a face comigo, com uma de suas mãos segurando meus dois pulsos acima de minha cabeça. Passava sua outra mão em meu corpo.
Ele estava muito perto de mim. Eu sentia sua respiração. Aproximei meu rosto de seu pescoço e o mordi com toda força que tinha. Ele gritou bastante de dor. Impeli-o, e quando ia em direção à porta, fui também empurrada, porém dentro da banheira.
— Por que está fazendo isso?! — ele berrou. Em seguida, ajoelhou-se ao meu lado e ficou pressionando meu corpo e minha cabeça para dentro d’água. Ficar sem poder respirar, sem saber quando respiraria novamente foi horripilante.
Tentava me desvencilhar de suas mãos, mas não conseguia. Até que cravei minhas unhas em seu antebraço e as percorri com velocidade e força até sua mão. Ele soltou minha cabeça, e eu pude respirar novamente. Matthew, então, direcionou seu outro braço, que pressionava meu corpo, para minha cabeça. Deslizei-me, contraindo minhas pernas, o que fez com que eu desviasse de sua mão. Sem delongas, ergui-me e entrelacei meus dedos nos fios negros de seu cabelo. Puxei sua cabeça com força, chocando-a com a borda da banheira, e o impulsionei para trás, derrubando-o por completo.
Levantei-me de uma vez. Estava toda molhada de água e sangue e com medo de escorregar, mas não podia parar. Corri com tudo até a escada, e, quando percebi, ele já estava bem atrás de mim. Fui empurrada, e caí rolando nos degraus, impactando-me com o piso. Estava fraca. Totalmente sem forças. Com a visão turva, vi meu algoz descendo lentamente.
— Você me odeia tanto assim?! — ele gritou com aparente tristeza por rejeição.
Impulsionei-me, com meus pés nos degraus, para longe. Eu me arrastava, sem energia. Havia sangue. Muito sangue. Tentei me levantar, apoiando-me no móvel da televisão. Sem forças, caí novamente, derrubando vários DVDs, os quais se quebraram.
Matthew andava devagar, deliciando-se com o momento. Chegando perto, abaixou-se, engatinhou até mim e começou a me puxar. Peguei um dos pedaços de DVD em minhas mãos e enfiei em seu olho.
— Puta! — ele berrou várias vezes enquanto gritava e se debatia de dor.
Continuei me rastejando e foi quando achei que não conseguiria mais.
— Já chega! Você vai morrer, sua vadia! Você é que nem sua mãe! — O... O quê?! — Seu pai não... Ele foi mais rápido... Mas sua mãe... Aquela ali não sabia morrer!
Eu não acreditei no que ouvira. Não acreditava que aquilo poderia ficar ainda pior, mas ficara. Aquele monstro não só estava tentando me matar, como havia matado meus pais. Ele fora o assassino da minha família!
— Desgraçado! — gritei.
Matthew se levantou e veio até mim. Chutou-me três ou quatro vezes.
— Todos mereceram. Jack, Rachel. Lila. Seu tio.
Meu deus... Até meu tio... Até meu tio ele havia matado...
— Por quê?! — perguntei, indignada, quase sem voz.
Depois, com a faca em sua mão, abaixou-se e disse:
— Por não te deixarem ser minha. Por estarem em meu caminho.
Em seguida, arrancou uma mecha de meus cabelos com sua faca. Eu ainda estava de costas para ele.
— Depois que te encontrei... Nenhuma daquelas mulheres era importante, mas você... Você é especial. Fiquei te assistindo por 15 anos. Você é perfeita para mim.
Matthew me virou, e se preparou para enfiar a lâmina em meu peito. Porém eu a segurei com minha mão, que ficou extremamente cortada, e perfurei seu peito com minha faca — enquanto ele se debatera de dor pela perda do olho, eu alcançara minha bolsa, onde guardava o objeto que pegara na casa de Lila. Pensei que não fosse conseguir pegar a faca a tempo, mas consegui.
A força de seu braço com a lâmina que cortava minha mão começou a sumir. Em seu olho, pude ver sua vida se esvaindo. Mas eu não achei que fosse o suficiente.
— Morra, seu filho da puta!
Retirei a faca e a enfiei novamente. Sangue saía pela sua boca, molhando meu rosto. Matthew morreu e logo desabou. Tirei-o de cima de mim. Olhei para a porta. Eu chorava sem parar.
Não havia o que fazer. Eu iria morrer. Depois de perder todo aquele sangue, depois de sofrer todo aquele impacto... Não tinha como eu sobreviver se ninguém me socorresse. E, como era mais do que visível... Não havia ninguém ali para me salvar.
Pelo menos eu ganhara aquela luta. Eu me vingara pela minha família. Por Lila. Ele passara um enorme tempo de sua vida me assistindo. Ele matara pessoas por minha causa. Ele se tornara obcecado por mim. Porém, sua obsessão por mim fora o que o levara à morte. E ali estava eu, também a aguardando vir e me levar. Fechei meus olhos. Será que esse seria o fim? Não havia mais nada para mim. Ninguém.
Ou será que havia?
Fui tocada por algo. Por alguém. Ouvia uma voz me chamando, mas não conseguia entender direito o que ou quem era. Essa pessoa me colocou em seus braços. Parecia estar ligando para a emergência.
Abri o máximo que pude de meus olhos, o que não era muito. Minha visão, embora nebulosa, foi possível identificar meu salvador. Era Sam. Meu chefe. A única pessoa além de Lila que ainda se importava comigo. Ele viera me salvar.
Eu estava feliz. Mesmo que não fosse sobreviver, sabia que alguém estava ali comigo durante o fim... Durante o fim de uma doce obsessão.
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