Sweet Music

2 End of the day


— Ah! — Me assustei

Foi o prazo de eu soltar a caixa para um vulto azul, num movimento ninja, pegá-la antes de cair no chão, colocando-a em segurança sobre a mesa.

— Tão maduro, Alexy. — Lysandre estava atrás de mim, acendendo a luz. Seu tom era de censura.

Meu coração ainda lutava contra as costelas quando o garoto me envolveu e me ergueu do chão com um abraço desconfortavelmente apertado.

— Você é a pessoa que eu mais amo no mundo! — Disse o garoto, ignorando Lysandre por completo e dirigindo a mim um sorriso radiante.

— Hey, Alexy, Solte a Holly.

Ouvi a voz conhecida e olhei em direção ao canto de onde ela vinha. Armin, estava sentado em um canto do luxuoso quarto de hotel, jogando em seu adorado videogame portátil, sem tirar os olhos dele enquanto falava. — Temos que deixá-la inteira pra ela continuar nos alimentando.

Alexy afrouxou o abraço, mas não me largou por inteiro, apenas se liberou o suficiente para abrir a pequena caixa e revelar seu conteúdo.

O ar encheu-se com o cheiro dos bolinhos frescos, cujo poder foi suficiente para fazer Armin levantar do sofá de couro que estava afundado e vir até nossa direção, tateando as paredes e móveis para não precisar desgrudar os olhos do game.

— Armin, seu coração vai parar de bater se você pausar o jogo pra comer? — falei.

Ele me ignorou. Imaginei que tivesse achado meu comentário ofensivo. Então, pra me redimir, resolvi guiá-lo até o bolinho.

— Direita.. Não, mais pra baixo, pra baixo.. Ah! Toma! — Acabei por me cansar de tentar ajudar Armin a localizar a caixa e entreguei o bolinho na sua mão.

— Mirtilo? — Indagou, finalmente direcionando os olhos intensamente azuis para o mundo real. — Você pensa em tudo, não é?

Ele beijou o topo da minha cabeça ao passar por mim e, ao ver o irmão tentar pegar dois bolinhos de uma vez enquanto nos distraíamos, deu um sonoro tapa em sua mão.

— Você não tem modos? Desde quando você gosta de hortelã?

— Desde que Lysandre me cedeu o dele. Eu tenho uma apresentação pra fazer... — O garoto justificou.

— Minutos antes de um show lotado estamos discutindo por bolinhos. — Lysandre suspirou. — Eu me tornei empresário de crianças...

Me afastei quando os gêmeos começaram a discutir e sorrateiramente capturei o muffin com raspas de laranja ao avistar cabelos dourados acima da poltrona, imóvel, de costas para mim. Apesar de não ter total visibilidade, a experiência já me fazia quase ter certeza do que ele estaria fazendo.

Aproximei-me calmamente, pois sabia que mais gestos bruscos poderiam retirá-lo de uma linha de raciocínio que tinha elaborado por horas, e pude ver o rosto sereno de Nathaniel concentrado no livro que apoiava em uma das mãos.

Com o indicador da outra mão, apoiava o centro dos antigo óculos, provavelmente recém colocado, o que significava que aquele trecho merecia atenção.

A essa hora eu sabia que ele já havia notado minha presença.

Agachei-me no chão ao seu lado da forma mais suave que pude e parti o muffin com os dedos, levando um pedaço menor até seus lábios. Ele o capturou, mastigou e engoliu rapidamente, direcionando seu olhar pra mim logo em seguida.

— É o melhor que já comi. — Sua expressão ficou suave.

— Você disse a mesma coisa quando eu fiz semana passada. — Resmunguei, cruzando os braços.

— E era. Até hoje de manhã. — Ele tirou o bolinho da minha mão, dando uma segunda mordida e colocando-o na mesinha de canto. — Agora vem cá.

Ele me puxou para si para que eu me sentasse ao seu lado na espaçosa poltrona. Obedeci, e me acomodei perto dele, colocando a cabeça sobre seu ombro.

As páginas marcadas e as anotações nas bordas me fizeram reconhecer que o livro que lia era meu, mais precisamente o que eu havia lhe emprestado no nosso último encontro.

— Sim?

— Estive pensando, é improvável que o conde tenha...

— Nathaniel! — O interrompi, fingindo irritação.

— Quer dizer, concordo que ele seja explosivo, mas não acredito que ele cometeria um assassinato...

— Não! — Emiti, em protesto.

— O que foi? — Ele tinha ar de falsa inocência.

— Eu sei exatamente o que você quer e a resposta é não! Eu não vou te contar o final.

— Holly, você não entende... Lysandre encheu nossa agenda até o fim desse mês. Não vou conseguir me concentrar!

Ele deu um de seus sorrisos encantadores que lhe dava um aspecto ainda mais angelical. Mas eu estava decidida a não ceder.

— Se eu contar ficará bravo.

— Prometo que não.

— Não confio em você. — Eu estava irredutível.

Ele suspirou, e provavelmente recobrou a memória as vezes as quais havia ficado zangado por saber sobre o desfecho de um romance policial sem ter terminado o livro, pois agora estava ria consigo.

— Certo. — Ele me fitou. Um sorriso torto se formara no canto de seus lábios. — Mas foi o juiz, não foi?

Tentei manter o rosto imóvel e sustentar seus olhos cor de âmbar fixos em meu rosto, atentos a qualquer denúncia. Mas quando percebi já era tarde demais.

Senti o canto do lábio estremecer.

— Eu sabia! — Exclamou o garoto, triunfante.

— Eu não disse nada!

— Você Hollywood Pearson, é uma péssima mentirosa.

— Ei! — Protestei. — Eu não sou culpada se você é brilhante e sempre descobre antes do livro acabar!

— Está tentando me distrair com elogios...

— Eu? Por quê?

— Porque não quer ser punida...

— Eu? Punida? — franzi o cenho, confusa. Até o momento em que eu entendi o que ele queria.- Não, Nath... Não!! Por favor!

Nath já segurava meus punhos para que eu não impedisse o ataque de cócegas quando Lysandre me salvou, aos 45 do segundo tempo.

— Odeio interromper a diversão de vocês, mas pode ir se arrumar, Nath? Não temos muito tempo... — Sua expressão era de impaciência.

— Pena... Ok! — Suspirei de alívio enquanto Nathaniel afrouxava a mão que me segurava. — Nos vemos mais tarde, então. — Ele murmurou, piscando pra mim como forma de aviso que isso não iria passar em branco.

— Na verdade, não. — interrompeu Lys. — Marquei coletiva de imprensa pra vocês depois do show.

Lancei um sorriso vitoroso para Nath e, ao notar que ele ainda usava óculos, estendi a mão.

— Acho melhor me entregar esses óculos. Não sei se suas fãs vão aprovar o visual de "professor sexy".

— Vai guardar eles com o mesmo empenho que guarda o final dos livros?

— Nath. — Lysandre já apresentava certo tom de irritabilidade na voz.

— Estou indo!

Ele me entregou os óculos com um sorriso cheio de sarcasmo e entrou em um dos quartos, fechando a porta.

Olhei para a mesa. Na caixa ainda restava um muffin. O muffin do único integrante da banda que ainda não havia aparecido...

Alguém que, nos últimos tempos eu não sabia ver me trazia um misto de alegria ou apreensão, uma vez que ficava cada vez mais difícil disfarçar que eu vinha tendo sentimentos que iam além da amizade.

Olhei para os lados e não vi nenhum sinal.

"Ele já deve ter ido" pensei, com um suspiro de alívio/tristeza.

Levantei-me para me juntar aos gêmeos. Alexy me lançou um olhar de cão caído no caminhão de mudança.

— Hollyyy! Ele era tão pequeno...

— Awn! Meu pequeno buraco negro. — Ergui o braço para desalinhar sua franja. — Da próxima farei uma quantidade maior pra você.

— Só pra mim? — Seus olhos brilhavam.

— Aham! Só pra você alimentar essa fera que existe dentro de você!

— E ele ainda foi eleito pela resvista Folks como o de melhor físico da banda. — Armin resmungou, usando o dedo para pegar os farelos do que havia restado do cupcake de mirtilo. — Não faz sentido.

— É porque eu coloco suplemento de academia neles. — brinquei, lançando uma piscadela para o Armin.

— É mesmo?

Regra sobre a vida: ache que um problema está resolvido e espere ele vir até você.

A voz que reconheci de imediato vinha das minhas costas, tão próximas de meu ouvido que um arrepio percorreu meu corpo. O coração, alerta do perigo iminente, começou com batidas descompassadas. Senti meu rosto esquentando aos poucos e tive medo que a incapacidade de formar frases longas realçassem ainda mais o quanto sua presença me desconcertava.

— C-Castiel? — Gaguejei.

Me virei prontamente e ficamos cara a cara. Os cabelos vermelhos ainda úmidos e a toalha no ombro (denunciavam que ele acabara de sair do banho. Os olhos negros penetrantes fixos nos meus, sem nenhum problema em sustentá-los.

Pena que eu não podia dizer o mesmo.

— O que foi, garotinha? Não gostou de me ver?

— Não seja bobo...

Eu me forçava a equilibrar as energias, lembrando-me constantemente que estava diante de um amigo de infância, e não necessariamente de alguém que eu estava irrevogavelmente apaixonada.

— Cast! Não seja cruel com nossa Holly. — disse Alexy. Nesse momento pegando o bolinho da mesa e lançando na direção em que eu e Castiel estávamos. — E coma logo isso antes que eu caia em tentação.

Com reflexos super rápidos, vi a mão de Castiel se erguer para agarrar o bolinho, sem tirar os olhos de mim.

— Nossa? — Castiel repetiu, em tom de deboche.

Em um movimento completamente inesperado, senti seu braço passar por cima de meus ombros e me trazer para junto de si.

— Sinto muito, meus caros, mas nesse caso específico não trabalho com parcerias. Holly é minha.

Aquelas palavras não deviam ter saído dos seus lábios, muito menos com ele tão próximo de mim, exibindo o sorriso torto que me fazia derreter.

Tive sorte de que ele olhava para alexy e eu teria um mínimo de tempo para me recompor, com esperança de que meu rosto voltasse para a cor habitual e meu cérebro voltasse a formular frases mais complexas. "É só um amigo de infância" eu tentava me forçar a acreditar.

— Lamento, Cast, mas não sou sua posse.

— Tarde demais. A menos que eu decida pela sua liberdade, você é, sim. Analisei e está fora de cogitação.

— Eu revogo minha própria liberdade.

— Negada.

— Então terei que fazer minhas pequenas rebeliões...

— Ah , é? — Castiel indagou e, aproximando os lábios de meu ouvido mais uma vez, sussurrou. — E o que minha pequena e frágil Holly poderia fazer?

Um arrepio percorreu a minha espinha e as borboletas do meu estômago pareciam prestes a sair pela minha boca.

" Um amigo, apenas..."

Em um movimento desajeitado, me afastei dele, evitando olhá-lo nos olhos.

— Vou salgar os seus muffins. — Respondi, dando de ombros.

Ele riu alto.

— Muito bem. O prazo de vocês acabou. — Lysandre havia chegado no limite de sua paciência, e eu tinha certeza que ele empregava grande parte da culpa a mim. — Precisamos descer agora. E não esqueçam de falar sobre a turnê do mês que vem na coletiva.

— Mês que vem?! — perguntei, num sobressalto. Olhei para os lados. Nathaniel acabara de chegar na sala, desalinhando os cabelos e prestando atenção no que Lysandre dizia, ele não parecia surpreso, na verdade eu era a única.

— Os rapazes precisam viajar para promover o novo álbum, Holly...

— Eu sei. É que passou tão rápido...

Alexy passou o braço por cima de meus ombros.

— Vai conseguir se virar sem a gente?

Fiz uma careta. De súbito, me veio à mente uma forma de fazê-los pagar pelo susto que eu havia levado em minha chegada.

— Não. — Fui enfática.- Vocês não podem. Longe de vocês tenho tendência a cometer loucuras como... Essa!

Sem pensar muito, disparei pela sala em direção à porta de vidro que levava à sacada, com vista direta para a multidão incontável de fãs que esperava ansiosamente na porta do hotel pela aparição de um dos meninos, mas eu mal havia começado a abrí-la quando senti o braço de Nathaniel enlaçar minha cintura, contendo- me.

Mais do que depressa Armin disfarçou o quase acidente indo para fora como se ele mesmo tivesse decidido sair, uma cortina de fumaça para o meu ato imprudente.

As fãs começaram a gritar enlouquecidamente quando o viram e enquanto isso, Alexy fechava as cortinas da sacada, impedindo que o público mais atento olhasse para a confusão que acontecia lá dentro.

O único que parecia ter se divertido era Castiel, que caiu no sofá às gargalhadas. Não pude deixar de rir também, enquanto os outros se recuperavam do susto.

— Não vai parar enquanto não for punida, não é?

Eu reconhecia o tom de voz de Nathaniel. Seu tom maléfico de quem queria me ver sofrer para pagar o que havia feito.

Senti sua mão se fechar em torno dos meus punhos novamente.

— Não! Nath. Você não pode fazer isso... — Babulciei, a voz cheia de medo, recuando tanto que caí sentada no sofá.

— Você não me deixa outra escolha...

Sua mão se aproximava de minha barriga enquanto eu relutava, inutilmente, para libertar meus braços.

— NÃO! — Implorei. — ALEXY!! Faça alguma coisa.

— Excelente ideia, Nath! Ela merece pagar. Deixa que eu te ajudo!

— NÃO PRA ISSO! — Gritei.

— Por que sempre me excluem da diversão, ein?

Castiel se aproximara também e agora eram três contra uma. Eu me retorcia e gargalhava com o ataque de cócegas mais covarde da história. Eu nem tentava debater mais, já me dando por vencida. Eu não era páreo pra força de um deles. Com três a luta estava irrevogavelmente ganha.

O ataque já parecia durar duas eternidades inteiras quando Lys os chamou novamente.

Eu nunca fui tão grata por ouvir sua voz.

— Certo, então... Vamos? — Lysandre abria a porta para o corredor e parecia desprezar por completo nosso momento de imaturidade. Sua expressão era a de um pai severo quando os filhos fazem malcriação.

Parecia ter funcionado, pois os meninos se organizaram para sair e logo já estavam no corredor e eu, estava livre, tentando retomar meu fôlego.

— Tchau, garotinha. — despediu-se Castiel.

— Até mais tarde, problemática. — Brincou Alexy.

— Fique longe de encrencas enquanto estamos fora. — Nath advertiu com um sorriso de satisfação.

Por último, Armin voltou da sacada após deixar seu público lá embaixo em completo alvoroço, ele sorria, limpando a testa com as costas da mão.

— Você é terrível, sabia?

— Ei! Armin! — Chamei. Quase havia me esquecido.

— Sim?

— Na hora de pegar presentes da plateia, pegue o cartaz com letras amarelo-mostarda, ok?

Sua expressão ficou confusa, mas ele assentiu, bagunçando meu cabelo antes de ir embora, atrás dos outros três.

Lysandre ficou para trás. Dirigindo-se a mim.

— Sophie vem te buscar em 15 minutos. Peça pra ela me chamar que eu te levo ao seu esconderijo.

— Não! Não precisa. Não verei o show dessa vez.

Lysandre pareceu surpreso. O que era normal.

Meu coração doía. A verdade é que eu nunca, nunca faltara a um show que o OneFusion fazia na cidade.

Era como se tivéssemos um pacto silencioso em que, independentemente do que acontecesse, eu estaria lá, atrás dos bastidores, escondida, vendo eles. Era minha forma de dizer que sempre estaria com eles onde quer que a fama os levasse.

Mas as coisas estavam mudando, e eu precisava me modificar também.

— E eles sabem disso?

— Não. E não conte pra eles. Seria uma dor de cabeça desnecessária. De qualquer forma eu não poderia vê-los depois do show por causa da coletiva, não é?

Lys assentiu.

— Pois bem. Cuide-se.

— Você também. — Respondi.

Lys então, saiu atrás dos outros.

Esperei alguns minutos e saí do quarto sorrateiramente, colocando o capuz sobre a cabeça.

Espiando o corredor, encontrei o caminho livre. Me esgueirei até chegar no elevador e apertei o botão do térreo.

— Ufa! — suspirei de alívio, sozinha, pelo sucesso na missão. — Mais um dia sendo a melhor amiga desconhecida dos adolescentes mais famosos do país.

Notas finais
Capítulo postadooo! E aí? Vcs já shippam Holly e Castiel?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.