Jade Narrando:

Acordei no outro dia com a mesma roupa. Droga! Eu havia apagado total. Olhei para o relógio que havia no criado-mudo ao lado de minha cama. 7:50 am. Dei graças a Deus por hoje ser sábado. Fechei os meus olhos novamente mas não dormi... Não consegui. A única coisa que vinha em minha cabeça era ele. Suspirei pesadamente me levantei. Olhei pela janela, e novamente era um dia frio, nevava. Era bom morar em Londres pois além do frio e dos dias cinzentos de neve que eu tanto amava eu não tinha que inventar desculpas para ter que usar um moletom, que escondia os cortes que haviam em meus pulsos. Entrei no banheiro e me despi. Olhei para os cortes em meus pulsos... Eles logo iriam cicatrizar e eu provavelmente iria fazer outros. Tomei meu banho e vesti uma roupa qualquer. Desci e minha avó estava sentada na varanda da casa.

–Bom dia vovó.

–Bom dia sweet.

–Vó, por favor, não me chama assim.

–Tudo bem. — Ela suspirou pesadamente. — O café está na mesa.

Eu olhei para minha avó que tinha um sorriso doce no rosto. Suspirei e fechei os olhos por uns três segundos, os abri e fui em direção a cozinha. Ao entrar eu olhei para aquela mesa farta e bufei. Minha avó achava mesmo que eu ia comer tudo aquilo? Puxeu uma cadeira e me sentei. Comi três pães de queijo, uma torrada com geleia de uva e bebi um copo de suco de laranja, me levantei e andei até as escadas mas antes de começar a subir minha avó me chamou. Fui até ela, e a fitei esperando uma bronca por ter comido muito pouco, mas não foi isso que ela me disse.

–Pegue o Boy e leve para passear. O coitado do cão está trancado no quarto faz dois dias.

Sorri. Boy, meu labrador. Ganhei quando eu tinha 12 anos. Já havia me esquecido dele. Subi as escadas, e fui até o quarto onde ele estava, abri a porta e sorri vendo meu cachorro esparramado no chão.

–Vamos passear garoto! — No mesmo instante ele se levantou e começou a abanar o rabo. Sorri, peguei sua coleira e coloquei no mesmo. Desci as escadas com meu gigantesco cão. Dei "Tchau" para minha avó e sai, rumo ao parque. Eu guiava Boy pelas frias ruas de Londres. Eu olhei para o céu cinzento, carregado de nuvens... Com certeza iria chover mais tarde. Continuei andando, mas dessa vez Boy me puxava. Me perdi olhando para as ruas de Londres. Depois de todos esse anos morando ali a minha cidade ainda me encantava. Quando dei por mim já estava no parque. Andei um pouco com Boy e resolvi sentar um pouco. Avistei um banco e fui até lá. Me sentei, e quando eu ia soltar Boy um pouco ele me puxou com tudo, e se soltou, saiu correndo. Tentei ir atrás dele mas foi em vão. Boy estava indo pra rua movimentada, já estava me desesperando mas alguém o pegou.

–Seu cachorro?

–É.

–Coincidência te encontrar de novo.

–É... Eu estava trazendo-o para passear.

–Qual o nome?

–Boy.

–Hum... Garoto! — Sorriu.

–Eu... preciso ir.

Puxei Boy e sai andando. Suspirei. O que estava havendo comigo? Com certeza era melhor eu ficar trancada no meu quarto. Algumas gotas de chuva começaram a cair. Oh merda! Comecei a correr com Boy, precisava chegar em casa logo. Continuei correndo, logo a chuva ficaria forte, e eu não poderia voltar para casa... Boy agora me puxava e isso facilitou bastante. Logo já estava em casa. Entrei. Boy nem estava molhado... O contrário de mim que já estava ensopada. Tirei a coleira de Boy e ele subiu para o quarto. Fiz o mesmo e entrei no meu.

Abri a janela que dava para sacada, e sai. Fiquei olhando para a chuva, sentindo o vento frio bater em minha pele. Aquilo me fazia bem. Me lembrei de minha antiga vida. Como eu era antes, a doce garotinha que nunca mais voltaria. A chuva começou a cair intensamente, voltei para dentro do quarto e fechei a janela. Estava frio. Liguei o aquecedor e sai do quarto. Desci as escadas e minha avó estava na cozinha... De novo. Respirei fundo antes de entrar.

–Já voltou?

–Começou a chover.

–Que tal se a gente saísse mais tarde?

–Não, eu tô bem.

Ela parou e me olhou. Estremeci, ela me olhava de uma forma diferente, como se quisesse saber o que passa na minha mente, me olhava com desdem.

–Jade você precisa parar com isso! Desde que seus pais morreram. Você vive trancafiada dentro daquele quarto. O que há em? O que houve com aquela garotinha?

–Aquela garotinha? Aquela garotinha cresceu. Ela aprendeu como é viver de verdade. Ela aprendeu que ninguém liga pra ela!

–Ora, não diga besteiras! Eu te amo Jade!

–NÃO! — Gritou — VOCÊ NÃO ME AMA! VOCÊ NEM SE QUER LIGA PRA MIM. EU SOU APENAS UMA PEDRA NO TEU CAMINHO, E VOCÊ SABE MUITO BEM DISSO.

–Jade suba!

–É ASSIM AGORA? ACHA QUE ME PONDO DE CASTIGO VAI FUGIR DE ALGO? MEUS PAIS ME DEIXARAM, E VOCÊ DEVIA FAZER O MESMO!

–Jade suba para o seu quarto agora! — Ela falou com um tom autoritário. Eu apenas sai da cozinha correndo. Não me importava com o fato de ficar de castigo, mas minha avó queria mandar em mim... Quem ela pensa que é? Ela queria controlar minha vida, logo ela iria me transformar em uma pessoa que eu não sou. Lutei contra as lágrimas que queria rolar sobre minha face, entrei no banheiro e tirei meu moletom, peguei uma lâmina e comecei a me cortar. O cortes profundos que eu sempre fazia. A dor já não me incomodava, aquilo para mim não era nada, simplesmente nada. O sangue escorria, e sujava a grande pia. Abri a torneira permitindo que a água gelada lavasse meu braço. Os cortes agora ardiam, e estavam começando a me incomodar, mas eu não liguei. Terminei de me despi e liguei o chuveiro, entrei debaixo dele e deixei a água escorrendo pela minha pele. Pensei... Em tudo. O que eu era? Quem eu era? Me dei conta de que eu era eu mesma. A garota fria e fechada, que não se abala fácil, que não é sociável, que se corta... Eu sou assim. Eu sou eu. Ninguém vai me mudar. Ninguém vai controlar minha vida, principalmente ela. Ela que me criou em um mundo de mentiras, me criou me deixando fora da realidade. Suspirei e terminei de tomar meu banho. Sai do banheiro e fui até meu guarda roupa. Peguei um shorts, um moletom e umas pantufas. Tudo que eu queria era dormir.

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Continua...