Sweet Epiphany
21 Healing Time
Notas iniciais

Viver era estranho. Quer dizer, viver de verdade, não apenas se arrastar pela vida de passagem, aguardando pelo fim iminente como se ele fosse a única saída...
Viver trazia questionamentos peculiares.
Ele gostava daquele apartamento?
Algum dia havia gostado?
Quando estava de passagem pela vida nunca sequer cogitava essas coisas, escolheu onde morar por praticidade, apenas isso, o que fosse mais fácil e mais rápido, perto o bastante das lembranças nas quais estava se agarrando para fingir que queria sobreviver, não precisava de nada mais que isso. Não queria luxo ou conforto.
Não se achava digno dessas coisas.
Porém, quando Bucky Barnes decidiu parar de sobreviver para sanar dívidas, então aquelas pequenas coisas se tornaram relevantes. Ele gostava da cor das paredes? Da disposição de móveis e da pouca quantidade de janelas?
Essas eram as perguntas que povoavam sua mente naqueles últimos dias...
Havia encontrado Zemo e o entregado para as Dora Milaje, depois levou Makayla até a clínica do Doutor Brooks e desde então estava sozinho, esperando por um favor que tinha pedido a Wakanda.
Pensando demais em coisas com as coisas nunca tinha se importado antes.
Evidente que se despedir de Makayla foi muito difícil, mas havia conforto em saber que ela estaria de volta logo, e, principalmente, que voltaria melhor. Isso era importante. Bucky não se considerava um homem muito inteligente, mas ele tinha certeza que, se estavam buscando viver e não apenas sobreviver, então precisavam se livrar do peso e da dor do passado.
Não que ele tivesse encontrado uma forma de fazer isso por si mesmo, não ainda pelo menos... Naqueles últimos dias entregou os últimos políticos beneficiados pela Hydra e os riscou de sua lista, mas ainda havia nomes ali que ele não sabia como compensar.
Porque vingança era fácil... mas reparação não era.
Porém, a parte boa de decidir ter um futuro de verdade é que ele se conformou com o fato de que não precisava correr para terminar a lista, tinha tempo para descobrir a forma certa para compensar a dor que havia causado em inocentes.
Ele não precisava mais riscar nomes freneticamente para enfim encontrar a paz. Por algum motivo a paz o havia encontrado primeiro. Ela tinha olhos tempestuosos, perfume de jardim noturno, beijos doces e em nada se parecia com a morte...
Mesmo assim, enquanto sua dita paz encarnada cuidava de toda guerra dentro dela, Barnes tinha tempo de sobra para dividir entre a saudade e as perguntas tolas sobre futuros hipotéticos.
Ainda gostava de viver no Brooklyn?
As lembranças saudosas eram o motivo de estar ali, mas a verdade é que quando escolheu aquele lugar para viver Bucky não estava pensando na felicidade que estar “em casa” novamente lhe traria, era o oposto, na verdade. Viver todos os dias a nostalgia de passar por ruas conhecidas e cheias de memórias, de um tempo feliz que foi arrancado dele, era uma forma que Barnes encontrara de punir a si mesmo.
Porém não queria mais fazer isso.
Não podia. Makayla não merecia um homem acorrentado ao passado, ela era digna de alguém que lhe oferecesse um futuro. Era essa pessoa que Bucky desejava ser.
E talvez o Brooklyn e aquele apartamento quase vazio não fossem o lugar certo para cultivar uma versão mentalmente saudável de si mesmo. Era como viver em uma casa mal assombrada.
Bucky nunca havia se dado conta que viver daquele jeito era cruel até com as boas memórias que ele estava manchando de dor. Usar seu passado feliz com Steve como um instrumento de tortura pessoal não parecia a forma certa de honrar a memória do melhor amigo. Barnes conseguia enxergar isso agora...
E talvez tenham sido esses exatos pensamentos que o fizeram ficar tão feliz quando finalmente recebeu a mensagem de Ayo dizendo que a “encomenda” dele estava a caminho. Esporadicamente naves de Wakanda passavam pelos Estados Unidos para abastecer os centros comunitários que o país de T'Challa havia aberto por ali.
Ayo sugeriu que o pacote fosse entregue diretamente para o do dono, porém Bucky preferiu fazer isso pessoalmente. Seria bom sair do Brooklyn por um tempo.
E foi assim que ele acabou em Delacroix, uma pequena comunidade pesqueira da Louisiana, onde o cheiro de maresia e a calmaria tornavam difícil lembrar que a cidade ficava há apenas uma hora da badala Nove Orleans.
Preferiu entregar a encomenda de Wakanda direto nas mãos do dono. Sam Wilson.
Barnes inda não sabia se o antigo Falcão usaria o novo traje e finalmente assumiria o legado que era seu por direito. Mas algo lhe dizia que Sam faria a escolha certa quando chegasse a hora...
Inesperadamente Bucky acabou ficando por ali, ajudando no conserto do barco da família Wilson; Bebendo uma cerveja com Sam em uma conversa casual; Percebendo que Delacroix era um lugar agradável, tanto no clima quanto pelas pessoas que povoavam aquela comunidade.
Os Wilson eram incríveis, Barnes se deu conta que mal lembrava como era ter uma família até que acordou com o som dos sobrinhos de Sam no dia seguinte.
Bucky se sentia bem ali... Perto daquelas pessoas simples, naquela cidade com cheiro de maresia. Será que Makayla gostaria de um lugar daqueles?
Não faltava muito do barco para terminarem, Sarah Wilson estava lidando com uma peça depois de expulsar os dois homens intrometidos, por isso eles decidiram testar o motor. Algo deu bastante errado, a peça era de segunda mão, foi dada por um dos moradores da comunidade, mas acabou sendo incompatível com o barco, Sam achava que podiam fazer as modificações necessárias, porém algo que ele modificou fez tudo cheirar queimado na primeira partida.
Ouviram outra bronca de Sarah, que foi acalmada por Bucky quando ele prometeu que dariam um jeito... E eles tentaram, verdade. Pelas próximas horas desmontaram tudo e montaram outra vez, mas o barco quase pegou fogo com a próxima tentativa.
Ou eles morreriam queimados, ou Sarah os afogaria por serem um par de incompetentes, Barnes teve certeza disso quando ela veio dar a terceira bronca do dia.
Teve que usar o dobro de seu charme para fazê-la se acalmar daquela vez, o que não chegou a dar muito certo, mas pelo menos forneceu a eles uma nova chance de não estragar tudo.
— Você sabe que não pode ficar flertando com a minha irmã, não sabe? — Sam declarou em um misto de deboche e divertimento, quando ele e Bucky voltaram a trabalhar na peça. — Vou contar tudo pra Makayla.
— Eu não estou flertando com a sua irmã, estou sendo simpático. É diferente. — Barnes se defendeu, olhando a bagunça de parafusos e tendo certeza que aquele motor era perda total.
— Simpático? Nunca te vi ser simpático com ninguém. — Wilson rebateu indignado. — Você nunca foi simpático comigo, por exemplo.
Bucky riu, se apoiou no motor quebrado e deu um sorriso de canto da forma mais cretina que podia.
— Quer que eu seja simpático com você, é, Samuel? — Perguntou com a voz um tom mais densa em um misto de insinuação e divertimento.
Os olhos escuros de Sam reviraram nas órbitas de maneira completamente exagerada.
— Não tem graça. — Ele rebateu, atingindo o motor com a chave de boca, como se isso fosse magicamente consertar a peça.
— Tem sim, eu estou rindo, olha só. — Bucky devolveu divertido e riu mais ainda da expressão indignada de Sam.
Ele estava prestes a retrucar, quando um homem chamou o nome dele do lado de fora do barco. Vestia o uniforme de um serviço de entrega.
— Você é Sam Wilson? — Quis confirmar.
— Isso... — A resposta veio com um franzir confuso de sobrancelhas, que fez com que Bucky presumisse que Sam não estava esperando por nada.
O homem de uniforme fez um sinal e uma caixa enorme foi descarregada ali nas docas por três homens.
— Entrega, assine aqui por favor. — Ele entregou uma prancheta para Sam e um envelope em seguida, mas sequer esperou que alguém dissesse alguma coisa antes de ir embora com seus homens.
Wilson e Barnes trocaram um olhar antes de se aproximarem da caixa de madeira. Havia um entendimento mútuo de que aquilo era suspeito, porque ficou evidente que Sam não estava esperando nada.
Bucky assumiu a dianteira, puxando uma das partes da caixa com a mão de vibranium, pronto para proteger Sam com o corpo caso aquilo fosse uma bomba. Mas não era, quando a caixa inteira desmontou revelou apenas um motor novinho, do modelo exato que o barco precisava.
— Uau. — Bucky assobiou. — Se comprou isso, por que estávamos aqui há horas tentando consertar a tragédia que criamos?
Sam, ainda um tanto atônito, abriu o envelope em sua mão, lendo o papel dentro dele com atenção. Um sorriso foi surgindo em seus lábios conforme seus olhos seguiam o fluxo das frases.
— Eu não comprei... — Disse por fim, estendendo o papel para que Bucky pudesse ler também.
Oi, Sam.
Espero que não fique ofendido com o meu presente ou ache intromissão da minha parte. Eu vi que estava pesquisando motores de barco em Riga e antes de irmos embora da casa de Zemo dei uma olhada no histórico e comprei a peça.
Ficarei fora de contato por um tempo, e o motivo principal de eu estar fazendo isso é porque preciso cuidar de mim mesmo, para assim poder cuidar das pessoas que são importantes pra mim. Mas eu já podia fazer algo por você agora, assim como você pôde fazer algo por mim em Madripoor.
E acho que é assim que amizade funciona, certo? Cuidamos dos nossos amigos. Seja com uma palavra de conforto, com um abraço, ou com uma simples compra online.
E eu gosto de pensar que somos amigos. Espero estar certa.
Com amor,
Makayla.
Bucky sorriu, aquelas simples palavras, que sequer eram para ele, fazendo com que seu coração transbordasse de saudade e amor. Estava mesmo sentindo falta da sua garota.
Mas... ela tinha realmente que terminar o recado com um “com amor”? Ele riu do próprio ciúme bobo, e estendeu o papel de volta para Sam com um sorriso ainda nos lábios.
— Bom, parece que a Makayla acabou de salvar nossas vidas... — Sua voz tinha muito de divertimento. — Se a Sarah soubesse que a gente ferrou com esse motor ela daria nosso corpo para os peixes...
— Você sabia disso? — Wilson perguntou, rodeando a peça nova e observando cada detalhe.
— Não. — Bucky foi honesto. — Acho que ela fez isso antes que eu acordasse.
Se lembrou de não ter encontrado Makayla ao seu lado quando abriu os olhos, ela já estava com o café da manhã pronto, esperando por ele na cozinha. Certamente tinha acordado mais cedo para comprar o motor.
— Hum... teve uma noite romântica, é? — Sam deu uma risadinha maliciosa e Bucky apenas revirou os olhos enquanto carregava a peça nova para dentro barco. — Sabe, talvez você devesse mesmo voltar a flertar com a minha irmã. Eu posso ficar com a sua namorada.
— Isso não tem graça. — Barnes retrucou com a expressão séria.
— Tem sim, eu estou rindo, olha só. — Wilson devolveu com as exatas palavras que tinham sido usadas contra ele próprio antes.
Bucky voltou a revirar os olhos de forma exagerada e os dois focaram em conectar a peça ao barco, enquanto Sam ainda ria da própria piada.
— O que me leva a lembrar... — Barnes declarou de repente ao recordar algo que vinha lhe corroendo há dias. — O que a Makayla disse pra você em Riga?
Sam ergueu o olhar e parou de apertar o parafuso, deu para notar na postura dele que, fosse o que fosse, tinha sido importante. No entanto, levou apenas um segundo para que ele recobrasse a casualidade divertida de sempre.
— É nosso segredinho. — Riu em um misto de deboche e desafio.
Bucky encarou o outro de forma entediada e chegou a cruzar os braços, como se sua cara de desgosto evidente fosse incentivo o bastante para que Sam mudasse de ideia.
— Mas já que você insiste... — Havia um tom de travessura na voz de Wilson desde o começo e era evidente que ele estava lutando para conter o riso. — Makayla disse que gosta mais de mim do que de você.
Barnes revirou os olhos de forma ainda mais exagerada que antes, fazendo uma careta de desgosto e voltando a se concentrar nos parafusos enquanto Sam emendava outra piada. Era óbvio que ele não queria contar, talvez fosse pessoal.
Bucky se conformou com isso e deixou o assunto de lado, focando em terminar de instalar o motor, que dessa vez fez o barco funcionar perfeitamente.
Ele não esperava que voltassem a falar daquilo outra vez, e então deixou que fosse esquecido. Mais tarde voltaram para a casa dos Wilson, e colocaram espumas em volta das árvores, montando um tipo de campo de treinamento no quintal.
Sam ainda não chegou a dizer que assumiria o manto, mas aquilo era um bom sinal.
Estavam testando as propriedades do Escudo, jogando o objeto contra as árvores quando o próprio Wilson retomou o assunto de mais cedo:
— Makayla disse que o Steve era tudo aquilo que o nosso país pensa ser. — Ele começou a contar, sem focar em Bucky, apenas prestando atenção no movimentar do Escudo. — E que o Walker é tudo aquilo que o nosso país é de verdade. — Barnes concordou, mas ainda não entendia o porquê de todo o mistério. Não era nada pessoal... — Mas eu... — Sam parou por um instante, segurando o Escudo. — Eu sou o que o nosso país precisa.
Bucky entendeu porque o mistério, era sim pessoal... Ele não podia concordar mais, claro que nunca encontraria uma metáfora tão bonita para usar.
— Acho que ela está certa. — Declarou por fim. — E acredito que até o próprio Steve diria isso.
Wilson permaneceu calado, absorvendo aquilo enquanto voltava a jogar o escudo. Bucky se deu conta que era o momento certo de se desculpar por todas as coisas injustas que disse, por não entender que o peso do Escudo era muito maior para Sam.
Colocar os pingos nos “is”.
E aquela conversa acabou sendo muito mais sincera e transformadora do que Bucky havia esperado... Os dois estabeleceram uma conexão real quando ele finalmente se permitiu ser honesto e aberto com Sam.
Talvez a Doutora Raynor estivesse certa afinal. Algumas pessoas realmente queriam ajudar e eram dignas de confiança.
Bucky podia confiar em Sam Wilson.
Quando deixou Delacroix naquele fim de tarde, sob a promessa que estaria a um telefonema de distância caso Karli ou qualquer problema surgisse, Bucky estava mais leve, mais decidido a lidar com seus problemas de forma diferente. Talvez pudesse até mesmo riscar alguns nomes de sua lista antes de Makayla voltar.
Com sorte isso ajudaria o tempo a passar mais rápido. Porque Bucky mal podia esperar para poder ter a sua garota em seus braços outra vez...
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A Fundação Brooks para reabilitação intensiva era uma grande propriedade arborizada, localizada na divisa de Nova York com a Pensilvânia, ladeada pela Reserva de Delawere. O lugar tinha natureza de sobra, a flora era estonteante e a fauna contava com pequenos animais silvestres que eram vistos com frequência nas dependências do lugar que tinha o rio Delawere como delimitação. Era um pequeno paraíso escondido, um centro médico que mais parecia a combinação perfeita de um hotel fazenda com um Spa de relaxamento.
A maior parte das atividades aconteciam na sede, uma grande casa de três andares com tudo que um lugar como aquele devia ter, o primeiro piso tinha um enorme refeitório, sala comum, biblioteca, oficina de costura, ateliê de pintura e uma pequena sala de jogos. O segundo piso tinha todos os consultórios, e no terceiro uma grande enfermaria com todo tipo de aparelhagens médicas. Era muito mais do que Makayla tinha imaginado.
Na parte externa haviam locais próprios para atividades ao ar livre, quadras poliesportivas, pistas de corrida e espaços específicos para meditação ou yoga. Além disso, os dormitórios de cada paciente — ou membro, como chamados ali — era um pequeno chalé individual, com banheiro próprio e frigobar, nada luxuoso demais, porém encantador em sua simplicidade. Também era possível que os membros, enquanto hospedados, contassem com a companhia de vários “Pets de Assistência Emocional”, animais resgatados das ruas que acabavam se tornando aliados nos tratamentos. Os pets tinham monitoramento de um time de veterinários e treinadores, se tornando parte da equipe da Fundação assim que liberados, e então fazendo o papel de companheiros e incentivadores de socialização e confraternização.
Em resumo a FB era um lugar extremamente acolhedor e agradável, tendo pacotes de tratamento a preços irrisórios e ainda oferecendo programas sociais que atendiam jovens em situação de risco. A maior parte de tudo ali era custeado pelo próprio Brooks, — o que justificava a necessidade que ele tinha de continuar a trabalhar por fora, — ou por doações de antigos pacientes. A Fundação tinha uma lista admirável de ex-membros, de soldados a jovens que acabaram se tornando adultos promissões, e quase todos gostavam de demonstrar sua gratidão ajudando o lugar.
Era um certo alento saber que nada era custeado pelo governo.
Makayla, é claro, fez questão de pagar o valor cheio, e ela ficou feliz por ter feito isso, porque depois de estar há alguns dias ali, vendo de perto toda a estrutura do lugar e conhecendo todos os profissionais que faziam parte da Fundação, ficou bem claro que o dinheiro dos poucos membros pagantes sequer era o bastante para custear aquilo. Brooks não tirava lucro algum dali.
O clima ameno, acolhedor e reconfortante do lugar era um contra ponto importante para o quão pesada as sessões podiam se tornar. A rotina era puxada, haviam consultas com profissionais especializados em tipos distintos de trauma todos os dias, além de encontros em grupo e exercícios passados para o perfil de cada membro.
Era como cavar a própria mente e ir tirando tudo de podre que estava enterrado ali. As coisas ficavam bem feias antes de ficarem certas. Uma das novas terapeutas de Makayla dizia que não adiantaria nada fechar feridas se houvesse sujeira dentro... Ela era especialista em luto e era uma das preferidas da jovem.
Mas era evidente que nenhuma das múltiplas consultas diárias substituía a excelência de Brooks, eram sempre as sessões mais longas e intensas, porém também as mais proveitosas, aconteciam três vezes por semana.
Naqueles dias ali Makayla havia aprendido muito sobre si mesma, sobre os traumas que ela guardava, sobre lidar com a raiva, a culpa, o medo de abandono e a dependência emocional. Era de fato uma recuperação intensiva, já que ela tinha escolhido pelo pacote mais puxado de todos. Porém, sendo honesta, não estava sendo um grande sacrifício ficar ali, sentia muitas saudades de Bucky, é claro, principalmente de noite quando tinha tempo de ficar sozinha, mas sabia que logo eles estariam juntos, haviam prometido isso um para o outro na despedida.
Até lá estava totalmente focada em lidar com seus traumas, para então sair dali o mais saudável que poderia. Claro que o tratamento teria que prosseguir em ritmo normal depois disso, mas Brooks tinha esperanças que a qualidade de vida da jovem fosse beneficiada de forma significativa depois de duas semanas na Fundação.
Makayla podia ter optado por mais dias, sendo assim as sessões seriam mais leves e menos intensas, porém preferiu não fazer isso, e Jackson concordou que duas semanas eram um tempo ótimo e, caso durante o restante do tratamento eles vissem necessidade, Makayla poderia voltar se quisesse.
As regras da Fundação proibiam o uso de celular ou televisão, visitas ou contato com o mundo externo eram permitidos apenas para membros que haviam escolhido pacotes mais longos, nesse caso aconteciam um domingo sim e um não, com os entes queridos sendo permitidos de ficarem na propriedade por algumas horas, e as vezes sendo convidados para participarem de algumas atividades quando necessário, e somente se o paciente se sentisse confortável com isso. Caso visitas presenciais não acontecessem por qualquer motivo, telefonemas eram permitidos nesse dia. Afinal o proposito não isolar ninguém, apenas manter os problemas e distrações longe durante a recuperação.
Muitos membros optavam inclusive por não receber visita alguma, mesmo quando passavam meses ali... Os problemas com a família eram geralmente os mais frequentes.
A própria Makayla nunca havia se dado conta do quanto a convivência com Emma havia deixado traumas dentro dela, sempre colocou a mulher em um pedestal e agora, olhando para o passado com o acompanhamento do profissional adequado, ela podia ver as falhas e seus efeitos em sua vida. Evidente que a terapia não demonizava qualquer mãe, mas ensinava o paciente a ver as progenitoras como eram; pessoas com falhas, que estavam longe de ser perfeitas e que as vezes faziam mal aos filhos, por querer ou não.
Toda raiva e rancor que brotavam depois dessas descobertas eram tratadas em exercícios próprios, como se tudo fosse acontecendo em um efeito dominó perfeito...
Aquele décimo dia havia começado como todos os outros, café da manhã no refeitório, meditação matinal, algum tempo livre que Makayla usou para procurar por seu cãozinho preferido ali...
Mas ao chegar no espaço ela primeiro deu de cara com um labrador amarelado e muito animado que atendia pelo nome de Thor. Makayla apreciava a piada interna, porque o cãozinho havia sido resgatado das ruas de Nova York com um gato preto bastante temperamental que, é claro, se chamava Loki.
Thor era um cachorro esperto e muito ativo, que no geral incentivava os membros que interagiam com ele a algumas atividades físicas, já que sua brincadeira preferida era “buscar o graveto”. Mas Thor não era o único Vingador da Fundação, eles tinham o Capitão também, um Golden Retrivier, que evidentemente amava jogar frisbee.
Os nomes dos cãezinhos influenciavam no quanto eram populares. Porque afinal quem não ama um Vingador? No entanto Makayla não estava ali pelas estrelas do show, seu preferido era alguém mais modesto...
Estava sempre deitado mais afastado dos outros, era um cachorro de porte médio, com a pelagem marrom baixa e uma grande e comprida mancha branca no peito. Muito calmo e quieto, com grandes olhos caramelo que pareciam sempre um pouco melancólicos. Um dos veterinários havia sido chamado para resgatá-lo em um cemitério da Pensilvânia, o cãozinho dormia junto a um dos túmulos, sempre. A teoria é que o dono havia falecido e o animalzinho ficou esperando no mesmo lugar, porque ninguém o acolheu.
Um dos treinadores dizia ser por causa da raça, as pessoas tinham certo preconceito com os SRDs, vulgarmente conhecidos como vira-latas, e era ainda mais difícil porque esse cachorro em questão tinha os traços característicos um pitt bull, provável que fosse uma miscigenação direta. Ou seja, o julgavam erroneamente como extremamente agressivo e as vezes até traiçoeiro.
Para Makayla porém, qualquer ser com a capacidade de ficar esperando no túmulo do melhor amigo era o completo oposto de traiçoeiro.... Aquele cachorro sofria, assim como ela, a dor do luto. Talvez por isso tenha se conectado com ele.
— Olá, Pitico. — Cumprimentou, fazendo com que o cão erguesse a cabeça e balançasse sutilmente o rabo, enquanto ela se aproximava. — Como foi sua noite, amiguinho?
Makayla se abaixou, acariciando o pelo do cachorro, enquanto ele começava a se animar, se tornando ainda mais receptivo. Era desconhecido para todos ali na Fundação porque Pitico tinha esse nome, já que de pequeno ele não tinha nada, porém era adorável, além disso, diferente dos outros animais ali, ele já tinha esse nome em sua coleira, então escolheram manter.
— Ele gosta de você, aprendeu a te esperar, sabia? — Um dos cuidadores comentou, casualmente, observando a interação da jovem com o animalzinho.
Makayla franziu as sobrancelhas de forma confusa.
— Mas desde que eu cheguei ele está sempre deitado aqui todas as manhãs, no mesmo lugar, longe dos outros. — Ela respondeu, mantendo os dedos no pelo de Pitico enquanto encarava o profissional responsável por aquele turno.
— Não. Ele deitava ali. — O homem apontou de forma convicta para um ponto um pouco mais afastado da entrada. — Mas agora sabe que você vem e por isso fica mais perto da porta.
Makayla sorriu, a mudança era pequena, mas verdadeira. Algo nesse detalhe tão bobo a comoveu profundamente.
— É mesmo, Pitico? — Acariciou o cachorro que agora já estava de pé tentando lamber o rosto dela. — Que garoto mais bonzinho.
Saiu dali com ele em seu encalço, pela manhã Makayla acabava se sentando em alguma das redes no lado sul do gramado e Pitico gostava de estar junto, deitado ali perto tomando Sol, observando o movimento de longe.
Depois disso o cãozinho a acompanhava por boa parte do dia, esperando na porta durante as consultas, ou se deitando embaixo da cadeira da jovem nas reuniões em grupo onde animais mais calmos eram permitidos.
E naquele dia não foi diferente, depois de tomarem Sol, Makayla e Pitico estavam juntos na reunião do grupo que lidava com luto, mais precisamente com o que a Doutora responsável chamava de “Culpa de Sobrevivente”.
Nora Fields era muito competente no que fazia, começava os encontros com uma piada, contava algo mais leve, fazia paralelos com a culpa e mantinha as conversas bem casuais, para então transformar isso em uma lição. Era uma das poucas sessões em grupo que Makayla participava, e surpreendia o quanto de gente se culpava pela morte de seus entes queridos.
Naquele dia haviam sete pessoas na roda, a maioria deles rostos familiares de outros encontros naqueles dez dias.
— Alguém quer compartilhar alguma coisa com a gente hoje? — A Doutora Fields perguntou, depois de seus discursos costumeiros.
Um garoto ergueu o braço. Makayla já o tinha visto antes tanto ali na roda como em vários outros lugares dentro da fundação, era o tipo quieto e introvertido, bastante jovem ainda, dezoito anos no máximo. Tinha os cabelos claros, olhos azuis e uma pele tão pálida que fazia seus lábios parecerem quase roxos, como quando alguém está congelando de frio.
— Pode falar, Robert. — Nora incentivou e ele recebeu a atenção de todo o grupo.
Ficou desconfortável em um primeiro momento, olhou ao redor e se moveu na cadeira para ajeitar a postura, por um instante Makayla pensou que o menino desistiria de falar, mas ele respirou fundo, enchendo o pulmão de ar e soltando lentamente, antes de finalmente dizer a primeira palavra.
— Acho que o mais difícil de esquecer é o olhar, sabe... O olhar sempre fica com a gente. — Parou por um instante, suas íris azuis perdidas em alguma lembrança que obviamente era dolorosa. Makayla sequer precisava ler mentes para saber disso com exatidão. — É diferente se alguém te liga e conta, mas quando você está lá é...
Ele baixou a cabeça e encarou as mãos. Makayla respirou fundo, entendia perfeitamente, o olhar de Cam sendo atravessado por uma lança, que ela pôde ver pelas frestas dos vidros quebrados da sorveteria, ainda a assombravam em suas piores noites.
O garoto chamado Robert ficou um longo momento em silêncio, ninguém ali disse nada, alguns esperando, outros apenas compartilhando daquela mesma dor.
— E não dá pra deixar de pensar que foi minha culpa... Quer dizer, fui eu que escolhi estar ali, naquela rua, naquele dia, naquela hora. — O menino murmurou tão baixo que talvez metade da roda não tenha ouvido. — Ele não queria ir, mas eu... eu só queria uma noite longe dos nossos problemas. E então ele acabou morto em um beco qualquer, sendo espancado por aqueles.... — Makayla pôde sentir aquelas palavras atravessarem seu coração de forma excruciante, ao mesmo tempo em que era possível enxergar nos olhos de Robert o quanto aquilo o atormentava profundamente. — E foi minha culpa.
— Não foi. — A jovem rebateu de forma convicta e só então, quando todos os olhares se viraram em sua direção, se deu conta que aquilo não era uma conversa. — Desculpa... acho que eu não devia interromper.
A Doutora Fields não pareceu se importar com a intromissão, pois deu um sorriso compassivo e incentivador:
— Diga porque você acha que não é culpa do Robert, Makayla.
A garota ficou parada por um instante, não se achava qualificada para dar sua opinião em um momento como aquele. Mas se a terapeuta responsável estava pedindo, então talvez acabasse sendo benéfico para alguém.
— Porque você não queria isso. — Ela respondeu por fim, sua atenção focada em Robert. — Dá pra ver nos seus olhos que você teria morrido no lugar dessa pessoa se pudesse.
O menino respirou fundo, porém não pareceu muito convencido quando devolveu:
— Mas ainda foram minhas escolhas que nos levaram até lá, não é?
Makayla abriu e fechou a boca sem saber o que responder, porém ela não precisou.
— Acho que está vendo a situação pela ótica errada, Robert. — Doutora Fields interferiu. — O que você escolheu foi uma noite de diversão com o seu amigo, foi um momento de paz, um fugir momentâneo de todos os problemas. — Ela curvou um pouco o corpo para olhar diretamente para o garoto. — Você sabia o que iria acontecer depois?
— Mas isso é... — Ele tentou formular, mas sua resposta soou como uma desculpa.
— Apenas me responda sim ou não. — A terapeuta devolveu de forma calma.
— Não, eu não sabia o que aconteceria depois. — Robert respondeu por fim, mas parecia pouco conformado com as próprias palavras.
Nora se sentou melhor e olhou para todos da roda um por um.
— Esse é o ponto. Estamos lidando com situações fora do controle, vocês não têm como prever o futuro, então não faz sentido se culparem por algo que não sabiam que terminaria dessa forma. — Ela começou em um tom compassivo, mas firme e convicto. — Vejam bem, o “e se”, pode parecer alentador à primeira vista: o sentimento de que talvez se você tivesse ido pra outro lugar; se tivesse escolhido levar alguém ao médico mais cedo; tivesse chegado em algum lugar antes; tivesse ficado em casa naquele dia... então seus entes queridos estariam vivos. Mas a verdade é que isso só está causando uma culpa que não cabe a nenhum de vocês. Porque o “e se” é sofrer por algo irreal, esse “e se” traz infinitas possibilidades, e dentro do infinito existem coisas boas e ruins, que ninguém tem como controlar e prever.
Todos prestavam atenção nela, claramente encaixando aquelas palavras em suas próprias histórias.
— Como vocês podem ser culpados por não controlar acasos e acidentes do destino, quando o destino é incontrolável? — A doutora prosseguiu. — Ninguém aqui matou a pessoa que amava. Vocês não ergueram as armas que fizeram isso, não planejaram nenhum dos eventos que levaram a isso e muito menos colocaram a doença no corpo dessa pessoa. Então como vocês poderiam ser culpados?
Quando ela falava parecia quase simples e fácil, mas a verdade é que a culpa não desaparecia apenas porque alguém deu um argumento lógico. Afinal sentimentos tinham muito pouco de lógicos.
— Olha, imaginem a seguinte situação. — Nora Fields pediu, gesticulando enquanto falava. —Um amigo decidiu te fazer uma visita, foi até sua casa, vocês resolveram tomar um vinho e falar sobre a vida. Você encheu as taças e colocou a garrafa sobre a mesa. No meio de uma conversa animada seu amigo esbarra nessa garrafa e ela cai no chão, espatifa e espalha vinho em todo seu carpete branco. Seu amigo vendo o que fez fica extremamente triste e começa a chorar e pedir desculpas porque foi tudo culpa dele, afinal ele decidiu te fazer aquela visita justo naquele dia, ele esbarrou na garrafa. — Ela parou por um instante, observando cada um da roda outra vez. — Qual vai ser a primeira coisa que vocês vão fazer?
— Garantir que a culpa não foi dele porque acidentes acontecem, então perguntar se meu amigo se machucou e limpar a bagunça. — Um dos pacientes respondeu e Makayla concordou junto com os outros.
— Exato. — A doutora apontou. — Não se pode culpar alguém por um acidente, quem dirá por uma fatalidade da vida. Então por que vocês ainda se culpam, se não culpariam mais ninguém na mesma situação? — Um silêncio completo se espalhou entre eles. — Pensem nisso. — Nora sorriu e se colocou de pé. — Nos vemos amanhã.
Era sempre isso que fazia, falava algo que ficaria na mente de todos eles pelo resto do dia e então saía, dando o encontro por encerrado.
Alguns dos membros da roda foram deixando seus lugares em silêncio, cada um preso nas próprias conjecturas sobre aquela sessão. O olhar de Robert cruzou com o de Makayla rapidamente antes que o garoto também sumisse de vista em seguida.
A jovem se colocou de pé, chamou Pitico e os dois também deixaram o local, só então ela viu que tinha alguém ali, encostado em uma das pilastras...
— Sessão produtiva?
— Oi, Doc. — Makayla sorriu ao ver Jackson Brooks. — Não sabia que estava assistindo.
— Eu gosto de fazer isso as vezes, me ajuda a entender melhor os pacientes. — Ele moveu os ombros em displicência e passou a caminhar ao lado da jovem.
Logo eles alcançaram o gramado, caminhando em um silêncio confortável. Makayla sabia que Brooks às vezes tinha sessões casuais com os membros, era algo que não parecia de fato uma sessão, mas a julgar pelos burburinhos eram esses exatos momentos os mais intensos ali dentro.
No fundo ela duvidava um pouco disso, então resolveu puxar um assunto qualquer.
— Onde está a Liv? — Questionou, se referindo à filha de Brooks, que naqueles últimos dias estava vindo ficar com o pai, por causa do novo serviço da mãe.
Claro que Jackson não deixava uma criança de oito anos solta fazendo bagunça pela Fundação, mesmo porque Olivia Brooks-Hills era uma garotinha bastante comportada, mas Makayla tivera a oportunidade de conhecer a menina uma tarde dessas e é evidente que simpatizou com ela.
— Lá em cima, estamos melhorando a dinâmica das coisas. — O homem respondeu. — A mãe dela cuidava de tudo antes, mas está ficando um pouco mais tempo no trabalho, então eu ainda estou me adaptando a nova rotina.
Makayla conhecia Brooks o bastante para perceber um quê de desconforto na voz dele durante aquela frase. Isso a fez franzir as sobrancelhas.
— Você não aprova que sua mulher trabalhe? — Questionou surpresa, afinal ele não parecia um desses homens.
— Ah, não, meu deus, não é isso, de jeito nenhum. — Ele negou imediatamente. — Eu estou muito feliz que a Caroline conseguiu um emprego na área dela, ela vem batalhando por isso há anos. É só que... — Respirou fundo e Makayla pôde notar enfim que aquele tom era preocupação. — Não sei, parece que tem algo sobre esse trabalho novo que é muito misterioso. Ela nem me disse onde é. Só comentou que assinou muitos contratos de confidencialidade... — A jovem conseguiu entender o problema. — Mas ela está muito feliz com o cargo então o mínimo que eu posso fazer é apoiar. Ela sempre me apoiou afinal. E é ex—mulher, na verdade.
Era evidente que havia uma dose nada moderada de admiração ali. Makayla nunca tinha visto Caroline, mas a julgar pela forma como Brooks falava e se importava com ela, parecia uma grande mulher.
— Você ainda a ama? — A pergunta veio antes que a jovem ponderasse se era uma boa ideia.
Jackson a encarou por alguns instantes, provavelmente decidindo se era algo que ele devia responder.
— Olhando pra trás agora eu me pergunto se a gente realmente se amou, sabe? Nos gostávamos muito, é claro, mas acho que foi mais uma coisa de momento. Nos conhecemos, rolou uma química, saímos por um tempo, um dos métodos contraceptivos falhou e eu fiz questão que a gente tentasse fazer do jeito tradicional. Parecia a coisa certa. E éramos bons pais, uma boa dupla, mas não um casal épico. — Ele explicou e seu tom mostrava que havia carinho e respeito, mas realmente não existia paixão. — Quando a Liv foi blipada...
A dor na voz de Jackson foi tão evidente que pela primeira vez Makayla realmente pensou em como era ter ficado quando metade do mundo sumiu.
Pelo menos essa dor seu pai nunca havia sentido...
Não que parecesse haver mesmo um lado bom na morte dele. Mas aquele sofrimento no olhar de Brooks não era algo que a jovem teria desejado para Danniel. E era evidente que Emma jamais havia gostado tanto dela a ponto de sofrer por seu sumiço.
Afastou Emma da mente tão logo surgiu e voltou a focar em Jackson Brooks, prevendo o restante da história:
— Sem a filha para unir os dois em um só propósito vocês acabaram se separando.
— Isso. — Ele concordou com um aceno. — E quando tudo se resolveu, não fazia sentido voltar, então descobrimos como fazer funcionar do jeito não-tradicional. Pra ser honesto acho que é melhor pra todo mundo assim. E se a Liv está feliz, isso é tudo que importa.
— Você é um bom pai, Doc. — Makayla declarou com um sorriso compassivo.
— Obrigado. Eu tento fazer o meu melhor. — Ele respondeu e os dois continuaram a andar pelo gramado sem um rumo certo.
Pitico os seguiu por todo o caminho, sempre ao lado de Makayla, caminhando no mesmo ritmo que ela, ainda que os cachorros pelos quais eles passaram estivessem se divertindo com outras coisas.
— Você tem um novo companheiro pelo que parece. — Brooks constatou, observando os dois por um instante.
— Dizem que ele gosta de mim. — Makayla encolheu os ombros, e olhou de forma carinhosa para o cãozinho.
— Não é uma tarefa muito difícil, se quer saber. — O terapeuta devolveu e isso fez com que a jovem sorrisse.
Eles pararam ali, sob a sombra de uma árvore e um tanto afastado dos outros, embora ainda fosse possível ver as pessoas dali.
— Makayla? — Brooks atraiu a atenção da jovem. — Percebeu o que você fez lá atrás?
— Eu interrompi a sessão da doutora? — Ela devolveu, imaginando que aquela caminhada pouco usual se tornaria uma puxada de orelha.
— Não. — O terapeuta respondeu, movendo a cabeça como se Makayla tivesse acabado de dizer uma bobagem. — Você foi extremamente empática com o Robert. — Ela com certeza não esperava por aquilo... — A maior parte das pessoas não consegue ser tão empática assim com aqueles que sequer conhece, ainda mais nesse tipo de situação.
— Então isso é bom? — Perguntou um tanto confusa.
— É sempre bom se importar com as pessoas, mas não é disso que eu quero falar. — Brooks explicou, focando nos olhos dela de forma mais séria. — Eu quero te perguntar por que você não é empática assim consigo mesma?
Makayla abriu e fechou a boca duas vezes sem conseguir pensar em nada para responder.
— Essa culpa que você carrega é um fardo pesado demais e você sabe disso, sabe tão bem que não seria capaz de deixar ninguém passar por essa dor, nem mesmo um desconhecido que se sentou na mesma sala que você. — O terapeuta prosseguiu de forma direta. — Vê como é injusto?
— Mas é diferente. — A jovem retrucou na defensiva.
— Não é, Makayla, é exatamente a mesma coisa. — Brooks rebateu. — Se uma pessoa que você ama muito dissesse que ela é responsável por todas as mortes ao redor dela, você concordaria.
A primeira imagem na mente de Makayla foi Bucky, afinal ele realmente se achava responsável por tudo que fez enquanto estava sob o controle da Hydra. E ela sabia disso melhor que ninguém.
— Jamais. — Respondeu de imediato, com tanta convicção que isso pareceu surpreender até o próprio terapeuta.
— Viu? — Ele apontou de forma compassiva. — Imagine que você conheceu uma criança hoje e essa criança quebrou o jogo de pratos preferido da mãe, porque decidiu jogar bola dentro de casa. Você deixaria a mãe bater nessa criança?
— Meu Deus, é claro que não, é só uma criança. — Makayla devolveu no mesmo instante, sem se dar conta de como tudo aquilo se conectava com ela.
— Exatamente. — Brooks assentiu de forma calma, apoiando as duas mãos nos ombros da jovem. — Quando eu te conheci você disse que era culpada por todas as mortes aos seu redor. Mas você era só uma criança, Makayla, de muitas formas, você ainda é. — Aquilo a atingiu como um choque estranho, porque era óbvio, mas nunca tinha parecido tão claro.
Jackson a encarou por alguns instantes deixando que ela absorvesse aquilo devagar.
— Não foi sua culpa, Makayla. — Ele declarou convicta e pausadamente, algo dentro da jovem se quebrou de um jeito estranho. Já tinha ouvido aquilo algumas vezes, mas não daquele jeito, não com o entendimento que vinha junto.
Uma lágrima pesada rolou por seu rosto sem um motivo aparente.
— Quando você achar que é amaldiçoada, culpada ou qualquer uma dessas coisas, quero que coloque outra pessoa na mesma situação que você, coloque o Sargento Barnes por exemplo, porque sei que ele é importante. Então pondere se diria a ele, todas as coisas terríveis que diz a si mesma. — O terapeuta instruiu calmamente.
Makayla sequer precisou pensar muito para saber que nunca, jamais trataria o Bucky como tratava a si mesma. Era cruel.
— Se nem um desconhecido e tampouco a pessoa que você mais ama merecem ser tratados da forma como você se trata, então talvez seja hora de ser um pouco mais gentil consigo mesma, Makayla. — Jackson prosseguiu. — A cura vem de dentro, mas já viu um doente se curar com os médicos gritando com ele e o tratando de formas terríveis? Você precisa de gentileza e amor em seu momento de maior vulnerabilidade, infelizmente nem sempre o mundo vai te dar isso, então é mais um motivo para você dar a si mesma. Seja sua maior apoiadora e incentivadora. ‘Tá bom?
Makayla assentiu devagar, secando as próprias lágrimas, não podia prometer que conseguiria, mas com certeza estava disposta a tentar.
— Obrigada, Doc. — Agradeceu, ganhando um sorriso compassivo e orgulhoso.
— Disponha. Vou estar aqui pra te lembrar disso sempre que você precisar. — Ele respondeu solícito. — Tenho que ir agora. Você vai ficar bem?
Makayla assentiu com um sorriso molhado pelas lágrimas e Brooks concordou.
— Cuida bem dela, hein, Pitico. — Acariciou a pelagem do cachorro antes de dar meia volta e se afastar pelo gramado.
Makayla ainda ficou ali, parada no mesmo lugar, absorvendo aquelas palavras por um longo tempo...
Apenas quando um dos cuidadores veio procurar por Pitico foi que a jovem se deu conta que também precisava almoçar.
Foi para o refeitório e escolheu entre os alimentos disponíveis naquele dia. Enquanto se servia de salada e frango grelhado com brócolis, viu o garoto de mais cedo, Robert, passar com uma garrafa de água e um cacho de uvas. Era difícil saber se ele já tinha almoçado ou se realmente só se alimentaria com aquilo.
Makayla tentou não focar nisso, mas a verdade é que, mesmo depois que terminou de comer e foi buscar Pitico novamente, ainda estava pensando no garoto. Deu uma olhada geral por toda a parte, eles tinham algumas horas livres depois do almoço antes das sessões individuais começarem, então era de se esperar que ele estivesse no gramado ou em alguma das quadras. Mas não estava.
Perguntou a algumas pessoas e uma das meninas disse que tinha visto Robert se afastar em direção ao rio, uma parte mais remota do terreno, onde as árvores faziam sombra o dia todo e cobriam a visão.
Makayla tinha noção que o único motivo para uma pessoa ir para aquele lado era se quisesse ficar sozinha. E a privacidade era levada a sério ali na Fundação, porém, ela não pôde evitar se preocupar, por isso, mesmo sabendo de tudo aquilo ainda foi atrás do garoto.
Caminhou por entre as árvores, seguindo cada vez mais para o fundo da propriedade, mais e mais afastada de onde as outras pessoas descansavam ou conversavam. Por algum motivo estranho a temperatura ali caiu perceptivelmente, mas Makayla imaginou que o rio próximo e as árvores cercando tudo fossem a explicação óbvia para algo assim.
Pitico seguia um passo na frente agora, um tipo de postura protetora de quem prevê que algo não estava bem. Makayla finalmente viu a silhueta de Robert, ele estava encostado em uma árvore, parcialmente de costas para ela, de modo que era fácil ver seu perfil.
Não havia nada de errado, ele só estava ali sentado com a garrafa de água ao lado e o cacho de uva em uma das mãos. Ele puxou uma delas e a levou a boca, mas ao invés de morder, como qualquer um faria, ele soprou a fruta...
Makayla parou exatamente onde estava, porque foi perceptível a fumaça gelada saindo dos lábios do garoto. Ela teve que piscar algumas vezes, pensando estar vendo coisas. Foi nesse instante que Pitico latiu uma única vez, fazendo com que o menino levasse um susto tão grande que a uva caiu de sua mão, rolando pelo chão até os pés da jovem.
Os olhos azuis-cinzentos analisaram a fruta por um segundo. Sequer era preciso pegar nela pra saber... estava congelada.
— Puta merda... — Makayla soprou, entendendo rápido demais o que tudo aquilo significava.
Pensou em se abaixar e pegar a fruta, mas Pitico foi mais rápido, cheirando a uva e a abocanhando de uma vez.
— O que você está fazendo aqui? — Robert questionou em um misto de raiva e nervosismo, tinha se colocado de pé naquele meio tempo e não parecia nada satisfeito com aquela invasão de privacidade.
— Andando... — Makayla respondeu vaga, tentando ganhar tempo para processar tudo aquilo em sua mente e então descobrir a melhor forma de agir.
— Ninguém vem aqui. — O garoto cruzou os braços, estava na defensiva, assustado até, mas também nervoso e irritado.
— Não vi nenhuma placa dizendo que é proibido. — Os ombros da jovem se moveram em displicência, havia um tom casual em sua voz, mas a postura de Robert ainda era distante e arisca.
Ele murmurou um “tanto faz” quase inaudível, enquanto recolhia suas coisas e fazia menção de sair dali.
Makayla soube que teria que ser mais direta, entendia que aquilo não tinha a ver com ela, porém também sabia muito bem que não ficaria em paz se fingisse que não viu.
— O que você fez com a uva? — Questionou, quando Robert estava há um metro, pronto para passar por ela.
— Nada, não sei do que você está falando. — Ele foi evasivo, levantando seu cacho de uva de forma desinteressada. — Viu? Perfeitamente normais.
Porém Makayla sabia muito bem o que seus olhos tinham visto antes e não estava pronta para desistir.
— Você tem habilidades. — Ela foi completamente direta, assim que Robert voltou a caminhar.
— E você é louca, moça. — Ele retrucou, movendo um dedo ao lado da cabeça e tentando passar por ela.
— Não vou contar pra ninguém, prometo. — Makayla se colocou na frente do garoto com a mão pedindo calma. — Mesmo porque... eu tenho também. — Ele parou, o choque em seus olhos por um instante. Makayla se deu conta que não era inteiramente verdade, por isso corrigiu. — Costumava ter, na verdade.
Robert hesitou por um momento, a dúvida transpassou seu rosto jovem, porém ele não cedeu, pronto para dar outro passo.
— Eu podia ler a mente das pessoas quando tocava nelas. — Makayla revelou finalmente.
— Está mentindo... — O garoto retrucou, dando um passo para a esquerda para se livrar dela.
— Não estou, juro por tudo que você quiser. — A jovem o impediu de passar outra vez, se movendo na mesma direção. — Algo rolou com a minha cabeça depois do blip e toda vez que eu tocava em alguém eu pescava fragmentos da memória dessa pessoa, a menos que eu estivesse chapada de remédios, daí eu podia ver tudo.
Não esperava ser tão absolutamente honesta, na verdade sequer sabia porque havia aquela necessidade de se meter naquilo. Já tinha aberto mão daquelas habilidades afinal. Talvez deixar Robert em paz fosse o certo a fazer, não era da conta dela...
— Espera. — Ele desistiu de passar e pareceu subitamente interessado. — O que você disse?
— Que eu podia ver tudo se estava chapada. — Makayla repetiu a última parte da frase, sem entender de onde tinha surgido aquela curiosidade repentina.
— Antes disso. — O garoto gesticulou. — Você disse depois do blip...
Os dois se encararam por um instante, um entendimento mútuo se formando entre eles antes mesmo que as palavras fossem necessárias.
— Espera, foi assim que aconteceu com você também? — Makayla presumiu de forma certeira, sua voz trazendo toda a surpresa que aquela informação causou.
— Mais ou menos... — Robert moveu a cabeça de um lado para o outro e respirou fundo.
Era possível ver no rosto dele que havia algo ali que lhe feria de forma profunda.
— Quer contar? — Makayla questionou com cautela.
Ele ergueu os olhos para observá-la por um instante, como se estivesse avaliando se ela era de confiança ou não. Nesse meio tempo Pitico achou um lugar para se deitar logo ali perto.
— Eu fui blipado com o meu... — Robert hesitou por um instante — namorado.
Ele analisou com atenção a reação de Makayla para aquela palavra, mas a jovem sequer precisou pensar na forma certa de se portar diante daquilo, porque se ele tivesse dito namorada, ela também teria reagido do mesmo jeito. Ele foi blipado com alguém que amava, essa era a informação relevante.
O garoto pareceu um pouco mais seguro de continuar depois de perceber que não fora pré-julgado por sua vida.
— Meus pais tinham acabado de descobrir quando aconteceu, não eram do tipo que entendiam as coisas, chegaram a dizer se eu “tentei, não gostar de garotos”. — Ele soltou uma risada amarga e irônica, então moveu a mão no ar como se desfizesse aquela lembrança. — Enfim... quando voltei estávamos muito felizes, eles agiram como se nada tivesse acontecido, mas acabamos brigando de novo quando eu disse que iria sim atrás do meu namorado.
Makayla não entendia exatamente como aquilo teria conexão com as habilidades de Robert, mas continuou a ouvir com atenção.
— Nos encontramos e eu só precisava que aquela noite fosse... — Ele parou por um instante, os pulmões puxando todo o ar e então o soltando de forma dolorida, como se houvesse um peso invisível que era muito mais do que o garoto podia aguentar. — Eu só precisar esquecer de tudo. Estava cansado demais de me esconder do mundo. — Negou como se repreendesse a si mesmo. — Saímos juntos e um grupo cercou a gente na rua, estávamos de mãos dadas e isso os incomodou eu acho...
Ele não terminou, mas não precisaria, Makayla entendeu exatamente o que e porque havia acontecido. Um nó travou a garganta dela, o desconforto na boca de seu estômago era um misto de revolta e asco pelo mundo em que vivia. Um mundo onde pessoas se julgavam no direito de escolher quem as outras podiam amar ou não, e que tinham a capacidade de tirar a vida de alguém por isso.
— Acho que você já adivinhou o fim, não é... — Robert soltou uma risada amarga.
— Eu sinto muito. — Makayla disse com sinceridade, mas o garoto apenas encolheu os ombros de forma decepcionada.
Ele respirou profundamente e piscou algumas vezes, como se estivesse tentando voltar para o foco da conversa, só então continuou a falar:
— Quando aconteceu, eu entrei em desespero completo e isso saiu de mim. — Ele abriu a garrava de água e virou o liquido, porém poucas gotas foram derramadas, já que logo tudo congelou e havia apenas uma grande estalactite de gelo saindo da garrafa. O garoto tinha feito gelo com um simples toque. — Os agressores fugiram da cena porque se assustaram comigo... Mas era tarde demais para o meu namorado.
Makayla teve que tirar alguns segundos para se recuperar do choque, mas aos poucos o entendimento foi clareando sua mente e ela notou uma similaridade curiosa na forma como as habilidades dos dois haviam se manifestados.
— Pra mim foi quando eu soube que meu pai estava morto. — Declarou, tentando não sucumbir a tristeza das lembranças. — Eu apareci no meio da rodovia sem celular ou cartão, estava tudo um caos absurdo. Eu consegui um telefone com um desconhecido e tentei ligar para o meu pai, mas o número tinha sido desligado. Então eu liguei para a minha mãe, depois de muitas e muitas tentativas ela finalmente atendeu. Eu me lembro de perguntar do meu pai, e então ela disse “ele morreu faz cinco anos, Kayla”.
Ela teve que parar por um momento, o sentimento massacrante daquele dia ainda muito vívido para ser digerido com facilidade. Pensando em retrospectiva, Emma tinha sido extremamente fria em dizer aquilo daquela forma tão repentina e leviana... Porém não era o momento de pensar nisso.
— E então tudo saiu do foco... — Makayla continuou a contar. — Minha mente entrou em curto e acho que eu devo ter perdido o equilíbrio porque alguém me tocou e foi a primeira vez que eu tive um pensamento intruso...
Os dois jovens se encararam por alguns instantes, surpresos com as similaridades.
— Que coincidência. Eventos emocionalmente dolorosos foram um tipo de gatilho para as nossas habilidades. — Robert colocou a conclusão óbvia em palavra. — Acho que o Brooks adoraria uma teoria dessas.
— Espera, ele sabe de você? — Makayla questionou, logo se dando conta do quanto isso fazia sentido.
Talvez por isso ele tivesse escolhido acreditar nas habilidades de Makayla depois da primeira sessão, além de sempre ter uma explicação bastante coerente para quase tudo que envolvia aqueles poderes. Não era a primeira vez que se deparava com um caso assim.
Claro que ele não poderia ter contado, porque havia o sigilo médico, mas vai ver ele pedir que Makayla fosse para a Fundação tenha sido uma forma de, além de realmente ajudar no caso dela, fazer com que a jovem conhecesse Robert para que os dois pudessem trocar aquela experiência. Brooks, como médico, não podia contar, mas se os dois pacientes trocassem segredos por conta própria não era nenhuma quebra do sigilo.
— Meus pais não lidaram bem com isso, como era esperado... — O garoto contou com um dar de ombros. — E então o doutor Brooks acabou me ajudando quando percebeu que tinha algo errado comigo. Ele mora perto de casa.
É, aquilo com certeza soava como Jackson Brooks, sempre disposto a ajudar alguém.
— Ele sabe sobre mim também. — Makayla comentou.
— Faz sentido. Ele é bom em guardar segredos, faz parte da profissão. — Os dois acabaram rindo juntos. — Mas você falou das suas habilidades no passado. Por que?
Makayla respirou fundo e encolheu os ombros de forma casual.
— Eu abri mão delas. — Respondeu simples. — É uma história bem longa que envolve cientistas loucos e drogas experimentais, mas pra resumir, eu não tenho mais as habilidades.
— Você desistiu dos seus poderes? — Robert soou incrédulo e quase indignado até.
— Você não desistiria das seus se pudesse? — A jovem questionou, surpresa com a reação dele.
— Por que eu faria isso? — O garoto retrucou a encarando como se fosse louca.
— As coisas seriam mais fáceis, não é? Seus pais não ficariam desapontados... — Makayla respondeu de forma óbvia. Tinha sido esse um dos principais motivos para que ela quisesse tanto se livrar daquelas habilidades.
— Eu nunca desistiria de uma parte de mim mesmo só pra deixar os meus pais felizes. — Robert devolveu convicto. — Seria o mesmo que desistir de ser gay só porque eles queriam um filho hétero. Não é assim que funciona.
Makayla se sentiu estranha de ouvir aquilo. Nunca tinha pensado desse jeito.
— Não é a mesma coisa. Sua orientação sexual não é uma escolha. — Ela tentou argumentar, se apegando a uma negativa que parecia falha.
— Isso também não foi. — O garoto ergueu os dedos e os fez congelar e depois voltar ao normal. — Sair procurando um cientista louco é o mesmo que deixar os pastores me aplicarem a cura gay.
Makayla sentiu aquilo lhe atingir como um tapa na cara.
— Você está fazendo com que eu me sinta terrível... — Comentou, mascarando a confusão de seus pensamentos com um tanto de humor.
— Eu só estou dizendo a verdade. — Robert respondeu com sinceridade.
— Mas é diferente, eu não podia sequer tocar nas pessoas sem me tornar uma invasora de mentes. — Makayla tentou explicar, mas era como se estivesse argumentando consigo mesma, porque de repente suas motivações pareciam fúteis. — Não era legal, eu tinha que usar luvas o tempo todo.
— Acha que isso era? — Robert apontou para si mesmo de forma irônica. — No começo eu congelava de frio o tempo todo, era como estar dentro de um congelador vinte e quatro horas por dia. Eu mal podia tocar nas coisas, quem dirá nas pessoas, eu quase congelei o gato da família. Acha que luvas adiantavam? Qualquer coisa em contato com o meu corpo congelava, as minhas roupas, as cobertas, o meu colchão... — Ele parou por um instante e riu de forma amarga. — Meus pais ficaram com tanto medo que eu praticamente vivia trancado no quarto, sendo expressamente proibido de falar sobre isso com qualquer um. Tendo que esconder dos vizinhos, dos amigos e até dos familiares “por segurança”. Foram três meses assim.
— E como foi que...? — Makayla não precisou terminar a pergunta, porque Robert adivinhou o que era.
— Eventualmente eu descobri que se eu começasse a usar os poderes, eles começavam a evoluir e se controlar melhor, quase como um músculo que você treina para desenvolver. — Ele explicou em tom orgulhoso. — Agora eu posso escolher quando exatamente quero que aconteça, e até a temperatura que eu transfiro para as coisas. Posso até congelar um lago se eu quiser.
— Sério? — Makayla questionou em um misto de incredulidade e curiosidade.
Robert fez um gesto com a mão para que a jovem o acompanhasse, e ela assobiou chamando Pitico, eles caminharam até o rio que ficava há poucos metros dali. O garotou se agachou na margem e tocou a água, logo uma camada de gelo cobriu toda a extensão que levava de um lado a outro do rio, como uma ponte flutuante.
— Caramba, Robert, isso é muito legal! — Makayla exclamou impressionada. Era bonito de se ver.
Ele franziu as sobrancelhas por um instante, como se algo naquela frase lhe causasse estranheza.
— Acabei de me dar conta que te contei minha história de vida e eu mal sei seu nome. — Comentou, voltando a ficar de pé e os dois acabaram rindo.
— É Makayla. — A jovem estendeu a mão. — Makayla Devinne.
— Meus amigos me chamam de Bobby. — Ele aceitou o cumprimento. — Bobby Drake.
Ela entendeu a estranheza no olhar dele antes. As pessoas não deviam costumar chamá-lo de Robert.
— Acho que vou te chamar de Bobby então... — Moveu os ombros de forma casual. — Você já me contou todos os seus segredos mesmo, não sobrou muita opção além de virarmos amigos.
O garoto riu de forma divertida.
— Acho que preciso rever minha capacidade de ficar de boca fechada. — Ele declarou ainda naquele tom descontraído. — Não dá pra sair falando pra todo mundo que sou um Homem de Gelo, não é a assim que as coisas funcionam.
Makayla riu do título que ele provavelmente tinha passado um bom tempo escolhendo.
— O Homem de Ferro discordaria disso. — Ela comentou por causa da similaridade das alcunhas.
O garoto riu de novo, é claro que qualquer um naquele país sabia do icônico “Eu sou o Homem de Ferro” dito por Tony Stark em uma coletiva de imprensa ao vivo. Evidente que o garoto não sabia que o herói tinha dito essa mesma frase antes de se sacrificar pelo mundo, nem Makayla deveria saber afinal, e talvez fosse melhor não compartilhar aquela lembrança roubada.
— Você tem um bom ponto. — Bobby debateu divertido e os dois jovens acabaram por rir.
E foi naquele exato momento, com o som da descontração deles se espalhando no ar, enquanto as plaquetas de gelo eram levadas, desmanchando na correnteza do rio, que Makayla, pela primeira vez, repensou sua decisão de abrir mão de suas habilidades...
Mas era tarde demais para arrependimento, certo?
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