Sweet Bad Girl
5 Capitulo 4
Notas iniciais
Capitulo 4
Alguns dias passaram desde que eu dei uma injeção de animo em mim e em Lorenzo. Não que tudo tenha ficado um mar de rosas, depois eu culpei o destino. Ao menos estamos tentando ficar em pé, cada dia é uma vitória. É hoje que saem os resultados dos Exames de Lorenzo, eu claro estou ansiosa, mas ele se mantem calmo. O que faz parecer que sou eu que tenho algum problema.
Hoje é uma quarta-feira, ensolarada até, mas nem me ative nisso. Estou cutucando meu irmão a todo minuto. Felizmente ele me deixou acompanha-lo, no entanto, tivemos que mentir para nossos pais. Não é como se buscar exames que vão dizer que tipo de câncer você têm, fosse como buscar pão. Em que o único trabalho que têm é dizer: ‘Vou lá ver que tipo de câncer, eu tenho! É rapidinho, talvez eu volte abalado, mas, não se preocupem!’.
Fico pensando como seria para ele, se tivesse que lidar com isso sozinho. Não que eu seja de muita ajuda, pelo menos vou estar lá.
Enquanto penteio o cabelo, escuto passos na escada. – “Você ainda não está pronta? Nós vamos numa clínica – Abaixou o tom de voz – Não em um desfile de Moda!” – Mostrei a língua, fazendo birra. – “Você só diz isso por que é meu irmão, se fosse qualquer uma daquelas suas namoradas, certeza que nem se importaria!” – Ele sorriu, dando alguns passos até mim. – “Isso não é verdade, Megan! Você sabe que eu te acho bonita. – Pegou a escova da minha mão enquanto falava – A mais bonita de todas, só não mais que a mamãe, mas, tanto quanto... – Escovou as mechas e com todo cuidado separou duas, uma de cada lado, as juntando em seguida com um delicado prendedor. – Eu te amo minha irmã, não tem como eu ter mais orgulho, do que já tenho de você.” – Eu sorri vendo o penteado que ele fez em mim. O mesmo que a mamãe fez, quando eu fui pela primeira vez para a escola. Eu me lembro de que estava com medo, não queria sair do carro, mas mesmo assim ele continuou comigo, entrelaçou as mãos com as minhas, entrando comigo portão adentro. Mesmo que para ele fosse vergonhoso, entrar de mãos dadas com a irmã de 7 anos, ele assim o fez. E no intervalo, trocou o futebol com os amigos para ficar comigo sentado num canto da escola, por que eu não tinha feito nenhum coleguinha de classe.
Quando percebi meus olhos já lacrimejavam, e as sobrancelhas de Lorenzo já formavam um vinco de preocupação. – “Eu estou bem, só... – Funguei e tentei parar as lagrimas que estavam por vir – Apenas me lembrei do meu primeiro dia de aula.” – Ele sabia que aquilo foi muito importante para mim, talvez um pouco chato e idiota para ele, entretanto, um dos momentos mais importantes para mim.
Pensar que isso pode estar acabando, me faz querer chorar ainda mais. Por que eu sei que ele pode não resistir, mas não estou preparada para lidar com tantas lembranças boas. Por que mesmo quando brigamos, isso não o faz ter um significado menor. E quando ele partir irá ficar um vazio, que nunca vai ser preenchido, pois ele nunca vai poder ser substituído. Ele nunca vai ser esquecido. E sim ele é um idiota, cheio de defeitos, manias, e vontades estranhas. Mas continua sendo meu irmão. – “Megan. Olha pra mim. – As lagrimas já haviam ganhado a batalha, desciam sem pudor pelo meu rosto. Olhei-o. – Eu sempre vou estar com você, quero que pense em mim quanto tiver um problema, quero que minhas lembranças de acalentem quando estiver triste. Quero que esqueça que às vezes tive vergonha de sair com você, por ter 4 anos a menos que eu. Quero que principalmente siga sua vida, quando eu não estiver mais aqui.” – Eu o abracei, e sufocando a emoção disse – “Eu sempre vou lembrar com carinho de você, Lorenzo.”.
*
Recompus –me das lagrimas, lavando o rosto, optei por usar uma maquiagem leve, apenas para cobrir a vermelhidão que ficou em meu rosto pálido por causa das lagrimas. Afinal ainda tinha que passar pela sala despercebida.
A desculpa que inventamos era de que eu não tinha aula, e que Lorenzo estava me levando para fazer trabalho na casa de uma amiga. O que não era de todo mentira, eu tinha um trabalho para fazer, mas hoje tinha aula, e o trabalho poderia esperar.
Enquanto descia as escadas, mamãe me perguntou: — “Vai ser Trabalho de que?” – Eu falei a primeira coisa que veio na cabeça. – “Biologia, mãe. E antes que me pergunte, a senhora não conhece a menina e Lorenzo vai estar lá. Não me pergunte por que, ele quer ajudar com o trabalho.” – Minha mãe sorriu e acenou com a cabeça dizendo que ele só podia estar maluco. – “Bom trabalho, filha. Estude bastante.” – Eu já sentia o peso da mentira em minhas costas. – “Pode deixar, mãe!” – Acenei e sai porta a fora.
Entrei no carro, já colocando o cinto. Eu nunca fui de mentiras, definitivamente não sei mentir, mas nos últimos tempos pareço estar ficando cada vez melhor nessa arte de ilusão.
– Você não vai virar uma bandida procurada, apenas por contar uma mentirinha. – Disse ele, dando seta para trocar de faixa.
Eu suspirei – Pra mim é como se fosse. – Limpei as mãos suadas na calça jeans.
Ele sorriu, negando com a cabeça em seguida. – O que foi? Eu disse alguma coisa errada ou engraçada? – Perguntei fixando meu olhar em seu rosto.
– “É só que... – Olhou-me, desviando o olhar em seguida. – Ás vezes você nem parece uma adolescente”.
– “Só por que eu não gosto de mentir, não quer dizer que eu não tenha meus momentos.” – Desviei meu olhar para o lado de fora, ignorando a afirmação. Passávamos pelo subúrbio da cidade. Várias casas amontoadas, e praticamente nenhum saneamento básico. Pergunto-me se ao menos, as pessoas são felizes aqui.
–“Não digo isso querendo seu mal, Megan. – Disse atraindo minha atenção. – Apenas não acho comum, você alternar tanto de personalidade”.
Eu sorri irônica. Não é como se eu tivesse um botão, em que eu apertasse e escolhesse a opção: Madura ou Imatura. Infelizmente, ainda não inventaram essa opção. –“Infelizmente, eu não posso escolher o que eu sou. Se eu pudesse seria totalmente diferente, mas então, perderia o que estou me tornando.” – Respondi sem nem ao menos saber que conotação, minha afirmação teve peso.
– “Não estou pedindo para ser diferente.” – Respondeu simplesmente.
O resto do trajeto foi feito em silêncio, apenas o som das respirações preenchia o carro. Eu me detive nas paisagens que passavam na janela.
– “Esse é o lugar. – Lorenzo finalmente disse, estacionando o carro. – Vamos esperar lá dentro.”
A clínica era grande e confortável. Paredes pintadas em tons pastéis e neutros de azul e bege. Havia uma grande quantidade de cadeiras enfileiradas de costas para a porta principal. Não demorou muito, uma recepcionista nos chamou.
– “Bom dia. – Disse gentil, com seu sorriso branco como papel – Consulta marcada pra que horas?” – Seus olhos eram claros tons de azul, contrastando perfeitamente com sua pele alva e cabelos loiros. Tudo no lugar parecia combinar. A voz de Lorenzo despertou-me.
– “Nove e meia, senhorita Lawrence.” – O sorriso da recepcionista se alargou ainda mais. Mesmo eu não sabendo por que, já que era obvio não ser a primeira cantada que recebia.
– “Guilherme Lorenzo Petrucelli. Dr. John Kent, neurologista. – Nem mesmo a palavra ‘neurologista’, afastou o sorriso dela. Talvez por que já estivesse acostumada por ser seu trabalho, ou por que não se importava por qual fosse o problema do paciente, contanto que tenha calças e um sorriso bonito direcionado a ela. – Ele já vai atende-los, podem esperar na sala de espera do terceiro andar.”
– “Obrigado, você é muito gentil.” – A oferecida recepcionista sorriu uma última vez pelo galanteio, e logo sumiu quando as portas do elevador se fecharam.
– “Só não é mais oferecida por que não é paga pra isso.” – disse em voz alta, tirando gargalhadas de Lorenzo.
– “Ciúmes, Megan? – Afirmou olhando pra mim. – Achei que já tinha passado dessa fase.”
– “E passei, entretanto, ainda não suporto essas oferecidas.” – A porta do elevador se abriu, e eu sai na frente. Esperando que não houvesse mas nenhuma recepcionista. Pedido não atendido, pelo menos ela era velha.
– “Bom dia, Dr. John irá recebe-los já.” – Ela disse para confirmar o que a outra recepcionista. Sentamo-nos no sofá, esperando mas não me detive em escutar a conversa ao telefone da senhora.
– “Não, eu não vou pedir nada! Você sabe que está aqui para trabalhar, não para pedir telefone dos pacientes! Licença, Dr. John está me chamando.” – E desligou. Obvio que era a loira oferecida do térreo. Ponto para a senhora.
Alguns minutos depois, uma luz no telefone da recepcionista se acendeu. – “Dr. John está chamando vocês.”
Seguimos até o consultório, porta ao lado da recepcionista.
Havia um homem de costas, numa cafeteira. –“Com licença, — eu disse fazendo com que o médico se virasse. Me surpreendi quando vi que o médico não podia ter mais que 26 anos, jovem, atlético (mais não de academia), olhos azuis escuros. Sua fisionomia era cansada, e ele tinha um óculos preso no bolso do jaleco, nada que me impedisse de focar no quão ele era bonito. – Nós viemos para a consulta.” – Finalmente completei.
– “Oh sim, é... – Ele afastou alguns papéis, mexendo com as cadeiras em seguida, sinalizando para que sentássemos. – Bem, eu revi os exames que você Guilherme, fez. E já sei que tipo de anomalia é. – Ele tirou algumas chapas de envelopes e colocou num quadro de luz. – É um Glioblastoma multiforme.”
–“Bem, eu já tinha alguma suspeita. No exterior, fizeram exames e me falaram que possivelmente poderia ser alguma coisa assim.”
– “Como vocês podem ver, tem um tipo de lesão em forma de anel no cérebro. Isso é Glioblastoma. Esse tipo de câncer, é o mais grave nível IV. Felizmente, você teve sorte e ainda está no inicio. Se comerçarmos logo o tratamento poderá ser revertido.”
– “Mas que tipo de câncer é esse?” – Perguntei.
– “Como disse, é uma lesão em forma de anel. Só não é apenas esse tipo de lesão que tem essa forma. Outras lesões como abscessos, metástases e esclerose múltipla tumefativa podem ter uma aparência similar. – Ele pegou outro exame. — O diagnóstico definitivo do glioblastoma multiforme requer uma biópsia estereotática ou uma craniotomia com ressecção do tumor e confirmação patológica. Entretanto apenas com a ressonância descobrimos o que era.”
Eu estava mais aliviada por saber o que era ao menos, mas a menção câncer nível IV me alcançou de tal forma, que fiquei em choque. Lorenzo percebeu e me abraçou, dizendo para ficar calma, enquanto o médico explicava sobre o tumor.
–“O glioblastoma surge no próprio cérebro, mais especificamente dos astrócitos, que são células responsáveis por algumas funções desta área nobre do ser humano. Quando um tumor tem sua origem definida pelos astrócitos, diz-se que é um astrocitoma. – Tomou mais um gole de café — Um glioblastoma é um tipo de astrocitoma e seu grau de malignidade é o mais avançado (grau IV), ou seja, extremamente agressivo. É mais frequente em adultos entre os 35 e os 70 anos de idade, mas não é incomum ocorrer em outras idades, como em seu irmão.”
Foi bombardeada por informações das quais não entendia quase nada, mesmo assim, prestei atenção o mais atentamente que consegui. – “Ele vai morrer?” –
Minha pergunta pegou o médico desprevenido.
– “O tempo de sobrevida média a partir do diagnóstico em pacientes sem tratamento é de 3 meses, mas com tratamento a sobrevida de 1-2 anos é comum. A morte geralmente ocorre devido a edema cerebral ou hipertensão intracraniana. Mas isso não quer dizer que seu irmão vai vir a falecer, ele tem uma vida saudável, isso é de grande ajuda no tratamento. A medicina é uma ciência, em que nem tudo pode ser levado em conta, pois cada organismo tem uma reação diferente.”
Estava estática, mas meu irmão continuava a sanar suas dúvidas – “E o tratamento, Dr. ?”
– “Há diversas substâncias que de certa forma inibem ou "atrapalham" o crescimento tumoral, e partindo deste princípio é que se aplicam tais métodos alternativos. Normalmente são administradas logo após a cirurgia, iniciando em conjunto com o protocolo padrão de tratamento. – Respirou -Importante destacar também é a demanda dos recursos requeridos pelo glioblastoma, que incluem em sua maioria novos vasos sanguíneos (que carregam nutrientes, oxigênio, etc.), e um dos fatores por trás do tratamento alternativo é justamente inibir a angiogênese (criação de novos vasos). Medicamentos inibidores da enzima COX-2, por exemplo, têm esta característica. Outras substâncias também são administradas, com características citotóxicas ao tumor.”
Cirurgia? Ele teria que fazer uma cirurgia? A imagem dos meus pais surgiu na minha mente. Eles provavelmente ficariam malucos se soubessem, minha perderia a sanidade rapidamente. – “A cirurgia...”
O médico negou com a cabeça. – “Geralmente esses tumores necessitam de cirurgia, mas ainda estamos estudando o caso do seu irmão. A cirurgia é apenas em ultimo caso.”
Após várias outras informações, as quais não dei a mínima importância pois minha cabeça estava girando, voltamos para casa. Eu estava meio grogue, minha consciência dizia que estava a ponto de surtar. Minha cabeça girava, e eu estava me perdendo dentro de mim mesma. Um tumor grau IV.... – Cirurgia... Palavras aleatórias surgiam na minha cabeça, que latejava de dor.
– “Megan! Você está bem?” – A imagem de Lorenzo estava desfoca e sua voz longe. Eu apenas sai do carro e corri sem rumo. Qualquer lugar aonde que eu tivesse um pouco de paz. Algum lugar ou lugar nenhum ao mesmo tempo.
Qualquer coisa que me fizesse esquecer.
Fale com o autor