Sweater Weather

1 She knows what I think about


Notas iniciais
Espero que gostem.

Joguei meu cardigã dentro da bolsa ignorando veemente os gritos furiosos de minha mãe enquanto ela subia a escada. Meus fones não estavam ao meu alcance, então não tinha que pudesse bloquear ou impedir a cena seguinte de se realizar. Minha porta foi aberta abruptamente simultaneamente em que fechava minha mala.

“Você não vai.”, ela repetiu determinada. “Não na véspera de ano novo.”

Revirei os olhos. Minha mãe falava como se a Sierra Nevada fosse do outro lado do mundo. Era apenas no lado leste da Califórnia, uma poucas horas de onde eu morava. E mesmo se a distância fosse infinitamente maior, não desistiria. Suspirei colocando minha mala no chão e puxando a alça. Não queria ter que deixá-la sozinha e não iria fazer se não precisasse tanto.

“Mãe, já está decidido.”, eu disse convicta e movi-me em direção á porta.

“Spencer, volte aqui.”

Fechei os olhos, detendo-me por um segundo.

“Feliz ano novo, mãe.”

Passei pela minha estante pegando os meus fones de ouvido e pondo-os nos ouvidos enquanto caminhava vagarosamente até o ponto de ônibus. Sabia que a possibilidade de mofar era muito grande, pena que não se comparasse á urgência que se instalava em todo o meu corpo.

Eu vivi anos de palavras não ditas, sempre esperando que o momento certo magicamente chegasse. Depois da ligação que recebi há poucos minutos, percebi que não poderia mais esperar. A contagem regressiva já tinha se iniciado prometendo a chegada de um novo ano e eu queria começar fazendo diferente. Para a minha infelicidade existiam coisas que não poderia ser corrigidas.

O ônibus chegou alguns minutos depois e pude engolir um pouco da minha apreensão. Assim que me sentei em um banco no fundo a música fez o favor de mudar e eu sorri ao reconhecer os acordes de Sweater Weather. Fechei os olhos aproveitando a paz momentânea que me envolveu e suspirei, permitindo-me ter lembranças de um verão não tão longínquo.

“Você é cego?”, exaltei-me ao sentir a bebida sendo derrubada em minha roupa. Olhei para enorme mancha se formando em minha camiseta branca e fechei as mãos em punhos, enfurecida. O riso do garoto á minha frente só me fez ficar ainda mais frustrada. “O que foi?”

Bambeei assim que realmente o reparei. Ele era bem bonito – além de arrogante, se o julgasse pelo sorriso suave que repousava em seus lábios. Só que o me fez retesar foram os seus olhos azuis e perdidos. Ele olhava ao redor, como se estivesse procurando por algo que não estivesse parado bem a sua frente. Foi então que eu notei a sua outra mão segurando uma guia. Minha boca pendeu aberta com a besteira que tinha saído de minha boca.

“Pelo seu silêncio acho que já teve a sua resposta.”, o garoto respondeu bem-humorado.

Palmas para você, Spencer. A insensível do ano.

“Olhe, desculpe-me.”, tentei me justificar e forcei um riso seco. “Esse vestido nem é tão importante.”

Ele balançou a cabeça mantendo o mesmo sorriso.

“Por isso que eu gosto de ser cego.”, ele esticou a mão na minha direção e tocou meu ombro, apenas para ter uma noção da direção que deveria se inclinar. “Se você soubesse a quantidade de coisas que já estraguei e saí imune por causa dessa maravilha aqui...”, indicou para a guia, deixando a frase em aberto. “Meu nome é Alexis.”

“Spencer.”

Ele gargalhou.

“Acho que trocaram os nossos nomes na maternidade.”

Permiti-me retribuir o sorriso, por mais que ele não visse. Ficamos parados sem dizer nada apenas esperando por... Algo. Perguntei-me o motivo dele estar ali em um bar lotado no leste da Califórnia. Ele não deveria estar com alguém? Eu, pelo menos, deveria. Entretanto tinha me perdido de minha amiga e me metido nessa furada. Sua mão que permanecia em meu ombro deu um aperto suave, como se para chamar a minha atenção.

“Não vá embora.”, ele pediu. “Vou encontrar alguns amigos e já volto.”

Ergui uma sobrancelha.

“Quer que eu te ajude?”, ofereci hesitante.

Seu sorriso se tornou gracejador.

“Forasteira, todos se conhecem por aqui.”, ele explicou com um tom leve de voz. “Vou dar um passo para longe de você e alguém irá me raptar.”

“Esse não é o problema?”

Ele encarou o teto em uma tentativa falha de revirar os olhos. Por fim decidiu apenas bufar. Achei aquilo bastante fofo, além do modo como ele parecia seguro de tudo ao seu redor.

“Você é bastante literal com as palavras, Spencer.”, acusou-me e apertou meu ombro mais uma vez. “Não saia daqui.”

Assenti esquecendo-me que ele não veria, mas já era tarde. Ele se afastou de mim. Permaneci parada observando suas palavras se concretizando. Um garoto pôs o braço ao redor dos ombros de Alexis e murmurou algo em seu ouvido. A luz daquele lugar era precária, porém foi suficiente para que eu visse que o sorriso de Alexis não se desmanchou em nenhum segundo.

Abri os olhos com o final da música e a pus para repetir quantas vezes fossem necessárias até chegar ao meu destino. Percebi como o clima estava mudando razoavelmente conforme me aproximava de meu destino. O chão coberto de sal e uma fina camada de neve estava sendo substituído por uma neve constante e que tomavam os telhados, tingindo-os de branco. Fiz uma careta quando passamos por uma praia local e desviei o olhar com uma pequena batalha interna ocorrendo dentro de mim.

Algumas memórias antigas e amargas sobrepunham as recentes e felizes.

“Eu odeio praia.”, confessei assim que meus pés tocaram a areia. O único som que poderia ser escutado era das ondas e da guia de Alexis. Tentava lhe passar segurando ao entrelaçar os nossos dedos e ele aceitou isso parando para dobrar a guia. “Ainda não sei o motivo de ter aceitado esse convite.”

Ele franziu o cenho, confuso.

“Como uma pessoa que mora na Califórnia pode odiar a praia?”

Dei de ombros. Quase bati meu pé no chão, birrenta. Era tão fácil esquecer o fato de que Alexis não via meus pequenos movimentos sutis, obrigando-me a falar exatamente o que se passava em minha mente e sem me dar nenhuma chance de escapar.

“Uma longa história.”, disse querendo desconversar. “Talvez no próximo verão.”

Ele assentiu e sorriu.

“Vamos até a água?”, ofereceu já me levando em direção ao som das ondas. Assim que nossos pés encostaram-se à água, ele usou a guia ainda dobrada na mão e inclinou seu corpo em direção ao chão, sentando-se em seguida. Segui os seus movimentos. “Eu costumava pegar ondas aqui quando era mais novo.”, disse distraído.

Aquilo me chamou atenção.

“Pensei que tivesse nascido cego.”, sussurrei.

“Não. Tive glaucoma quando tinha uns onze anos.”, ele contou assumindo uma expressão pensativa. Não conseguia desviar meu olhar de seu rosto, observando cada nuance e mudança que tinha, por mais sutil que fosse. “Começou com um lacrimejo e depois uma pressão ao redor dos olhos. Pensei que fosse nada demais, talvez conjuntivite.Então um belo dia acordei e não conseguia mais olhar diretamente para a luz, por mais insignificante que fosse. Usei óculos escuros para disfarçar, mas sabia que tinha algo errado.”, pressionou os lábios juntos. “Até o dia que não consegui mais desviar do inevitável e estamos aqui. Troquei minha prancha por essa belezinha.”, balançou a guia e sorriu.

Abracei minhas pernas sem saber o que dizer.

“Quer sair daqui?”, ele indagou.

“Não.”, respondi surpreendendo tanto á ele quanto a mim mesma. Estiquei-me até entrelaçar os nossos dedos mínimos. “Gosto do som das ondas.”

“Eu sei.”, ele sussurrou. “Eu também.”

Parecia ter se passado uma eternidade até que o ônibus chegasse ao meu ponto. Tive que correr até a porta reclamando enquanto puxava a mala. Reclamações essas que se tornaram um suspiro de felicidade quando pisei no asfalto coberto de neve e puxei minha toca contra meu cabelo escuro. Peguei na alça de minha mala e comecei a caminhar, garantindo-me em minha memória.

“Onde está Alexis?”, perguntei para o barman local.

Ele sorriu e apontou na direção do palco. Não acreditei naquilo e por um segundo pensei que o barulho que nos envolvia tinha o impedido de me escutar com clareza. Antes que tivesse a chance de repetir a pergunta, a música foi interrompida e o som do microfone sendo ajeitado fez todos reclamarem. Meus olhos se arregalaram com aquela visão.

“Desculpe-me.”, Alexis pediu e sentou-se no banco com o violão preso ao corpo. “Não vi que isso estava na minha frente.”, brincou, fazendo todos rirem. Um pequeno sorriso ameaçou se ampliar em meu rosto. Encostei-me ao balcão querendo saber como aquilo se desenrolaria. “Quero dedicar essa música á uma garota que conheci por não olhar por onde ando. Spencer, espero que você esteja aí, porque caso contrário estarei pagando o maior mico na minha vida.”

Um por um, todos se viraram para mim enquanto Alexis começava a dedilhar hesitante em seu violão. Reconheci a letra de imediato sendo de Sweater Weather. A forma como ele cantava era como se tornasse a música de sua autoria, como se tivesse sido escrita para nós dois. Quando dei por mim estava movendo os meus lábios cantando junto e tamborilando os dedos no balcão.

Naquela noite ela era a nossa música.

Bati na porta sentindo meu corpo sendo tomado pela urgência e apreensão. As pontas dos meus dedos formigavam de ansiedade e não parava de passar o peso do meu corpo de um lado para o outro. Meus ombros relaxaram assim que abriram a porta e me vi de frente á mãe de Alexis. Ela parecia bastante surpresa com a minha aparição repentina.

“Spencer?”

Engoli a seco.

“Eu soube do acidente.”, revelei respondendo sua pergunta implícita. “Estava preocupada. Não poderia esperar até o verão para vê-lo novamente.”

Ela assentiu entendendo-me.

“Ele está lá em cima. Pode deixar essa mala aqui.”

Essa última frase me aliviou quando me vi diante do longo lance de escadas que me esperava. Perifericamente percebi a mesa de jantar sendo arrumada por um dos irmãos mais novos de Alexis. Ele me cumprimentou com um aceno e eu retribuí. Subi as escadas de dois em dois não querendo perder tempo e fui em direção ao quarto que mais parecia pertencer à Alexis. Nunca tinha entrado em sua casa sempre o levando até a porta e me despedindo, como se eu fosse o cavalheiro daquela relação.

“Alexis?”, questionei batendo na porta.

Ele estava sentado na cama com seu violão no colo dedilhando distraído. Seu celular e sua guia ao seu lado ajudando na praticidade. Parou de fazer o que estava fazendo e levantou a cabeça, mesmo que seus olhos não estivessem centrados na minha direção exata. Seu sorriso habitual me encorajou á adentrar em seu quarto.

“Eu deveria ter adivinhado que você iria aparecer aqui depois que meu irmão te ligou.”, ele disse divertido. “Só não sei se fico frustrado ou agradecido.”

Minha atenção se voltou para o gesso em sua perna.

“Você está bem?”

Deu de ombros.

“Se com bem você quer dizer cego e manco, sim, estou ótimo.”, ele riu e esticou sua mão para frente. “Venha aqui.”, toquei sua mão e ele me puxou delicadamente para a sua cama. Com a mão livre pôs o violão no chão. Reparei nas muletas encostadas na parede atrás dele. “Sua mãe não pirou por você sair de casa na véspera de ano novo?”

Aconcheguei-me em seu peito sentindo o calor de seu suéter contra meu rosto.

“Você realmente precisa conhecer minha mãe. Pirar foi pouco.”, brinquei tocando seu rosto e sentindo a barba por fazer. Fechei os olhos, contentando-me apenas com o que meus outros sentidos me ofereciam. “Fiquei preocupada.”, confessei e respirei fundo como se o ar não entrasse em meus pulmões há muito tempo. “Por que você foi inventar de tentar ir á praia sozinho? E fora do sinal?”

Seu aperto se estreitou ao meu redor, como se estivesse se encolhendo.

“Eu queria sentir o mar.”

“Está gelado.”, retorqui. “E talvez a areia esteja congelada.”

Ele bufou.

“Só porque você odeia a praia, não quer dizer que eu também tenha que fazê-lo.”, repreendeu-me e beijou o topo da minha cabeça. Bate e assopra. Revirei os olhos, mas sorri. “Acho que você está me devendo uma história sobre o motivo de odiar tanto a praia.”

Suspirei sabendo que não poderia fugir. Não tinha ficado quase duas horas em um ônibus para fugir.

“Quando eu era mais nova meu pai me levava bastante á praia. Eu contava os dias para chegar o fim de semana apenas para sentir a areia contra os meus dedos e tomar banho no mar. Era o melhor momento da minha semana.”, minha voz foi se abaixando até se tornar um sussurro. “Até o dia em que meus pais se separaram. Não que eu o odeie por isso, nem nada. Ele estava feliz com a minha madrasta e era só isso que importava. O pior veio depois quando ele adoeceu.”, ergui meus olhos vendo os seus fixos no telhado. Seu rosto estava tenso esperando o desfecho de minha história. “Começou com pequenas coisas que ele esquecia: Onde estava a chave do carro? Onde foi que ele pôs a carteira? Coisas normais. Até o dia em que ele se esqueceu de me buscar no colégio. Pensamos que era por puro descuido. Quem iria imaginar que os primeiros sinais de Alzheimer seriam dados aos 45 anos?”

Pausei por um segundo respirando fundo. A mão de Alexis acariciou minha cintura.

“Minha mãe não me deixou vê-lo depois disso. Ele tentou entender o motivo daquilo. Ligava quase todos os finais de semana, quando se lembrava. Até o dia que a ligações simplesmente pararam. Não sei se ele apenas desistiu de lutar ou esqueceu-se pelo o que estava lutando. De qualquer jeito, são possibilidades terríveis.”

Os dedos de Alexis me induziram á erguer o rosto na sua direção. Deixe-me ir, pensando que ele falaria uma de suas piadas que me fariam sentir mais leve. Por isso fui tomava pela surpresa quando seus lábios tocaram os meus com leveza. Não que fosse a primeira vez que nos beijássemos, todavia era a primeira vez que ele tomava a iniciativa. Virei meu corpo fazendo nossos peitos se encostarem e toquei seu pescoço simultaneamente ele me puxava pela nuca.

Afastei-me o suficiente para ver o seu rosto corado e ter consciência que o meu estava semelhante. Isso não o impediu de sentar-se na cama e tatear meu corpo até encontrar a ponta de minha blusa. Puxou-a para fora de meu short de cintura alta e para longe de meu corpo. Repeti o mesmo processo com o seu suéter. Por um segundo lamentei que ele não pudesse ver a perfeição que seu corpo era. Toquei-o delicada e o vi soltar o ar.

Estava frio fazendo com que nossos corpos estivessem arrepiados. Ou talvez esse não fosse o motivo real. Quando suas mãos encostaram-se na minha cintura, me dei ao prazer de perder o fôlego. Ele subiu uma mão, mapeando todo o meu corpo até que seu polegar tocasse o meu lábio inferior. Era como se estivéssemos nos conhecendo novamente. O silêncio roçava em meus ouvidos como uma leve carícia e meus pensamentos estavam tão embaralhados que quase não pareciam ser meus.

“Alexis...”

Ele pressionou o polegar na minha boca.

“Eu sei.”, ele sussurrou. Então me largou. “Mas você tem que ir.”

Fiquei estática com suas palavras.

“O quê?”

Pela primeira vez desde que nos conhecemos Alexis não tinha nenhum rastro de humor em sua expressão e não tinha nenhuma dica que seu sorriso apareceria. Ele estava determinado como se estivesse enxergando algo que eu não conseguia.

“Você sabe que o seu lugar não é aqui. Pelo menos não hoje.”, ele se esticou e tateou o chão até encontrar o seu suéter e me ofereceu. “Vista isso. Está frio lá fora. Se correr consegue pegar o último ônibus.”

Encarei o suéter com espanto processado a cena que se desenvolvia diante de mim. Hesitante, peguei o suéter e o vesti vendo-o cobrir todo o meu corpo. Levantei-me vendo meu short sendo escondido e sorri com aquilo. Alexis tinha razão. Aquele não era o meu lugar naquela noite.

“Como estou?”, gracejei.

Ele sorriu.

“Perfeita, Spencer.”, apontou para o relógio. “Agora você tem que correr.”

Faltava meia-hora para o ano novo. Dei um salto no lugar e corri em direção á porta, detendo-me com o som do riso dele. Meu coração parecia um colibri. Mesmo não tendo muito tempo inclinei-me no batente da porta e o fitei, sorrindo.

“Acho que eu te amo.”, revelei.

Ele pegou o violão e dedilhou.

“Finalmente pensamos igual, Spencer.”, ele se concentrou nas notas e olhou para frente. Para a minha direção exata. “Eu também te amo. Agora corre! Ah, e volta para mim.”, abaixou a cabeça para o violão e cantarolou: “She knows what I think about. And what I think about.”

Sim, Alexis. Eu sabia.

*******************

Cheguei á casa de repouso local quando faltavam menos de cinco minutos para a meia-noite. Ignorei a voz interior que me alertava que não era educado correr pelos corredores. Porém todos estavam tão concentrados na comemoração que começaria em pouco tempo que nem repararam em mim. O pior momento foi quando parei de frente a enorme fila de quartos e me vi completamente perdida sem saber onde procurar.

“Spencer?”

Virei-me na direção da voz de minha madrasta que me olhava confusa.

“Lilian.”, cumprimentei-a. Meu coração estava tão acelerado que eu estava com medo de ter um tipo de ataque. Aproximei-me dela com passos calculados. “Olha, eu poderia ficar a noite toda tentando me justificar, mas não existe nada que eu diga que fará esse momento ficar ainda menos constrangedor. Eu só quero vê-lo. Por favor.”, pedi.

Ela ficou me olhando por alguns segundos angustiantes e suspirou sinalizando para o segundo quarto á direita. Comecei a me mexer para lá quando sua mão em meu pulso me impediu.

“Ele não está bem, Spencer. Não é mais o mesmo. Por favor, tenha paciência.”

Concordei, soltando-me e indo até o quarto. A cada passo, uma torrente de lembrança me invadia. Como um filme cortado em cenas. Quase escutava o som de sua voz gritando o nome enquanto corríamos pela areia. E o som do telefone tocando inúmeras vezes por incontáveis dias. Nunca tinha entendido a expressão O silêncio queimou em seus ouvidos, mas foi exatamente o que aconteceu quando os telefones pararam.

Ele desistiu ou esqueceu?

“Hum, olá.”

Despertei de meus devaneios quando a sua voz chegou até mim. Era a mesma, porém diferente. Henry estava deitado com o coberto o cobrindo até a cintura. Seus olhos azul-petróleo – o tom similar aos meus – estava alertas e confusos. Respirei fundo sabendo que tinha que ser forte e arrastei meu corpo para dentro do quarto.

“Pai, lembra-se de mim?”, indaguei dando passos lentos na sua direção. “Sou eu. A sua filha que você sempre levava para a praia e cismava de ir até o fundo do mar, mesmo depois de você dizer que ali haveria tubarões loucos para me devorar. Que sempre pedia para você comprar um sorvete depois de me buscar na escola. Que dormia enquanto você assistia algum filme inteligente demais para que eu entendesse. Que você levava no colo até a cama e cobria. Lembra?”

Parei na frente da sua cama e segurei o fôlego. Ele sorriu e meu peito se encheu de esperança.

“Você está perdida, querida?”, ele perguntou carinhoso. “Tenho certeza que me lembraria de você. Mas acho que não sou quem você procura.”

Assenti segurando as lágrimas em meus olhos. Funguei.

“Tem razão.”, concordei. “Acho que errei de quarto.”, virei-me com a intenção de sair. Então parei. “Hum, senhor, me responda algo. Se você tivesse uma filha que não atendesse os seus telefones, você desistiria dela?”

Seus olhos se arregalaram.

“Óbvio que não.”, ele suspirou, sonhador. “Eu tenho uma filha pequena, sabe? Spencer é o nome dela. É a garotinha mais encantadora do mundo e inteligente também. Não a vejo com muita frequência quanto gostaria, porém a amo como ninguém mais amará. Ela é o meu maior acerto nessa vida e... querida, você está chorando? Calma, você vai encontrar o seu pai.”

Limpei meu rosto no suéter de Alexis tentando me controlar e sem conseguir muito êxito nisso. Meus ombros tremiam violentamente e eu tinha quase certeza que se abrisse a boca meu choro seria ouvido por toda a Califórnia. Nem percebi que meu pai tinha se levantando antes que me envolvesse em um abraço quente e tão familiar. Abracei-o e chorei em seu suéter.

“Vamos fazer assim...”, ele segurou o meu rosto e limpou as lágrimas com o polegar. “E se eu fosse seu pai essa noite e você fosse a minha Spencer? Realmente não quero passar o ano novo sozinho e sei que você também não.”

Dei um sorriso fraco.

“Tudo bem.”

Ele retribuiu o sorriso. Lá fora, o som dos fogos e das comemorações do ano novo era audível.

“Venha, Spencer. Vamos ver os fogos de artifício.”, ele me puxou até a sua cama e abriu a janela. Então passou o braço entorno dos meus ombros e beijou minha têmpora. “Feliz ano novo, querida.”

“Feliz ano novo, pai.”

Talvez esse fosse o máximo que pudesse encontrar de meu pai, mas por enquanto era o suficiente.

Notas finais
She knows what I think aboutAnd what I think about* *Ela sabe no que eu penso sobreE quando eu penso sobre
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