Swan Song
4 Truth about Camelot
Notas iniciais
— Você me transformou em um maldito crocodilo? — Como aquilo tinha acontecido? Ele não podia acreditar! — Por que, Swan?
A mágoa exposta em cada silaba de Hook se mostrou muito mais dolorosa do que o feitiço lançado por Zelena, que esmagava seus ossos para mantê-los sem nenhuma mobilidade. Emma quis desviar o olhar por não suportar ver nas íris do (ex?) namorado os tons da destruição causada por ela mesma, mas não o fez.
Sua cabeça parecia prestes a explodir diante da inútil tentativa psíquica de se desfazer das amarras invisíveis lançadas pela detestável irmã de Regina. Deveria tê-la matado antes. O mais rápido possível. Ainda em Camelot. Só para não precisar vê-la sorrir daquela maneira irritantemente maliciosa, sarcástica e parecida com a da irmã dela nunca mais.
A pergunta, entretanto, a fez parar.
Toda energia negra se dissipou e os olhos mudaram por um breve instante: Os olhos de Emma Swan piscaram por cima dos da Dark One. E eles estavam perdidos.
Aquela era a única pergunta que não queria ouvir.
— Eu estava desesperada. — Um fio de voz escapou. Não estava mentindo, não completamente.
— PARE DE BRINCAR COMIGO! — O grito dele veio em uma explosão de raiva. — PARE DE JOGAR! — Ele grunhiu e se aproximou um passo. — Swan, eu quero a verdade! POR QUÊ?
Descobrir-se o novo Dark One o mudou de imediato, como se as trevas estivessem lá desde o primeiro momento, aguardando pelo momento oportuno de aparecer. Como se ele já pertencesse a elas.
Os traços do rosto de Killian pareceram cair, as pupilas se dilataram e a expressão se transfigurou na de um homem quase completamente diferente. E muito, muito pior do que o pirata apaixonado. A energia de seu nome preso à lâmina da Excalibur reconheceu o dono e subiu por seus braços em linhas douradas, desaparecendo sob o sobretudo de couro.
O ar, já carregado pela presença de uma Senhora das Trevas, tornou-se quase impossível de se respirar, e uma das poucas lâmpadas acesas no hall explodiu sozinha. Zelena, feliz, gargalhou: Aquilo não era o MÁXIMO?
Os olhos dele imploraram em silêncio para os de Swan: Ele queria, precisava de uma resposta, mas não havia desespero maior do que a ameaça que ele exalava naquele momento.
Emma não podia responder.
A Senhora das Trevas não podia responder.
Pela primeira vez, duas forças conflitantes entraram em comum acordo dentro de Swan. As vozes dentro de sua cabeça sabiam tanto quanto ela mesma: Hook não teria aquela resposta.
— Eu... — A expressão de Emma suavizou. — Eu estava apavorada pela possibilidade de perder você. — Confessou.
Outra meia verdade.
O pirata ergueu lentamente uma das sobrancelhas, tombou o rosto para o lado e se aproximou mais um passo dela. Analisou-a calmamente e ergueu o gancho no lugar da mão até o rosto delicado de Emma. A ponta afiada tocou a bochecha vermelha da loura e escorregou pelo pescoço para fazer uma ligeira pressão sobre a artéria do pescoço.
O perigo fez um calafrio percorrer a coluna dela, mas o moreno desfez a pressão e voltou a deslizar o gancho pela pele, até perto da orelha. Ainda que ela estivesse petrificada, pôde ver os poros se arrepiando.
— Uma coisa interessante sobre você ter me tornado... — Suspirou. — ISSO, Swan, é que eu posso saber que você está mentindo.
— Hook...
— Uhm... — Zelena pigarreou e se aproximou do pirata. — Você não precisa fazer esta pergunta para ela. — Disse. Estava com um apanhador de sonhos em uma das mãos. — Quando pode simplesmente ver os segredos de sua amada.
— NÃO! — Emma rugiu, mas era tarde demais.
(Camelot — 2 semanas atrás)
O cômodo estava imerso em escuridão e frio, mas mesmo debaixo dos cobertores de lã Regina não conseguiu dormir. Os pensamentos vagavam por reinos distantes, e o ronco baixo de Robin a irritava. As coisas estavam esquisitas desde a descoberta do bebê de Zelena, já que o namorado defendia a irmã verde vezes demais para que o seu bom humor heróico pudesse resistir. O humor da Rainha Má aparecia com frequência demais. Antes, havia imaginado que com ele as coisas seriam mais... Como Mary Margaret e David. Mais como tinham sido com Daniel. Cansada, levantou-se com cuidado para não acordá-lo e usou um toque de mágica para trocar a camisola por um vestido vermelho-sangue de época.
Os passos a guiaram pelo corredor iluminado por lamparinas e passou pelas portas dos quartos dos integrantes de sua — querendo ou não — família. A última porta estava aberta, as luzes acesas e um som repetido vinha de lá.
Entrou mesmo sem se anunciar.
Emma estava sentada diante de uma mesa de madeira, o rosto iluminado por uma vela e as mãos trabalhando habilmente em um apanhador de sonhos. Notou que a pele da loira parecia brilhar um pouco, traços dourados a deixavam um pouco mais velha. O cabelo loiro estava solto, mas as raízes estavam brancas e a falta de pigmentação começava a descer para os fios.
— Regina. — Ela disse, mesmo sem se virar. — O que está fazendo aqui?
— Emma. — Respondeu, aproximando-se. — Eu não conseguia dormir...
Ao contornar a mesa, pôde ver o trabalho da senhora das trevas: Dezenas de apanhadores de sonhos se espalhavam por todos os lados, todos produzidos durante as noites em que, como Dark One, não podia dormir.
— Onde está o pirata?
— Descobrindo que um Dark One não pode dormir. — Respondeu. — O que você quer me falar?
— Como você sabe...? — A morena ergueu uma das sobrancelhas.
— Eu sou a Dark One, não sou? — Riu, ainda sem olhá-la.
— Desculpe. — Regina suspirou. — Por usar a adaga para tentar fazer você falar, eu só queria....
— Eu sei. — Swan ergueu os olhos pela primeira vez. — Você só queria ajudar.
As íris verdes brilharam no escuro e uma minúscula faísca vibrou no ar, gerada pelo contato entre os olhos. Swan inspirou e sentiu um arrepio descer pela coluna, então desfez o contato e passou a trabalhar ainda mais rapidamente em seu apanhador.
Tornar-se Dark One havia deixado tudo tão mais claro em sua mente, e ainda assim não podia admitir em voz alta. Seus instintos gritavam sobre seus ombros, e Rumplestilkskin ria baixinho em alguns canto de sua mente. Ele sabia, tão claramente quanto ela sabia naquele momento.
— Swan... — Regina murmurou depois de um momento de silêncio. — Emma... — Repetiu, e repousou a mão sobre o ombro da loira. Ela enrijeceu com o contato. — O que você não está nos contando?
— Eu não acho que você entenderia. — Respondeu, passando a mover as mãos pelos fios do apanhador tão depressa que a outra quase não pôde acompanhar.
— Emma, — Suspirou. — Emma, pare um pouco! — A loura parou, mas não relaxou. — Você sabe que eu, acima de todas as outras pessoas, posso entender. Nós passamos por muita coisa...
Swan a olhou outra vez. Os olhos escuros dela pareciam ter tanta certeza, infiltrando-se nos seus quase como se pudessem despi-la de todos os segredos. Hesitou.
Hesitar fez com que todos os impulsos – mais fortes, mais claros e mais incontroláveis devido a presença das forças sombrias em sua cabeça – gritassem. Ela se levantou em um movimento brusco e se colocou de frente para Regina, de maneira com que seus narizes quase se tocaram. Uma das mãos se colocou sobre a cintura dela e a segurou, mas foi só quando sentiu a respiração da morena tocando seus lábios que se arrependeu daquele maldito impulso.
Quase não tinha se controlado quando seu corpo se moveu contra seu pensamento consciente ao quase esmagar o coração de Merida. Naquele momento, quase não podia se controlar.
— Você pode entender isso, Regina? — Sussurrou, e vê-la morder o lábio inferior foi insuportável: A outra mão a puxou pela nuca para fazer seus lábios se encontrarem.
Não houve pensamentos sobre o que diabos aquilo significava naquele momento, apenas a sensação de linhas de fogo se espalhando sob os dedos da Salvadora.
Demorou um instante para que as línguas de encontrassem em um beijo intenso e absolutamente inesperado. A morena não tentou lutar contra. Suas mãos tocaram as bochechas de Emma e as unhas arranharam sem força as laterais do pescoço dela, enquanto seus corpos buscavam um ponto de equilíbrio em passos incertos que rodopiaram pelo quarto.
A coluna de Regina encontrou a coluna de madeira do dossel da cama, e aquilo precisaria bastar. A Senhora das Trevas exalava luxúria, do aroma de sua pele até o modo como seus dedos se enrolaram nos frios pretos do cabelo da rainha. Ela o puxou e mordeu o lábio da Rainha, a outra mão apertando com relativa força ao delinear a curva da cintura para pressioná-la mais um pouco contra seu próprio corpo.
A morena gemeu perto demais de sua orelha e o arrepio que percorreu seu corpo em resposta fez com que Swan se obrigasse a parar, mas não se afastou. Suas mãos tremiam.
— Você não faz ideia do quanto é difícil controlar isso dentro de mim. Você não faz... — Grunhiu sem encontrar coragem para recuar para longe dela. — É mais difícil do que não ter matado Merida quando vocês chegaram. Você consegue imaginar isso? E fica mais forte cada vez que eu uso magia negra, assim como tudo parece mais claro.
— Emma... — A voz de Regina morreu. Parecia difícil pensar. — É por isso que você o transformou. — Falou, por fim. — Porque seria mais fácil...
— Evitar isso? — Riu triste, e finalmente se afastou. — Sim. Nós vamos voltar para Storybrook, e eu vou tirar as memórias de vocês. Os apanhadores estão aqui para isso.
— O QUE? — A Rainha explodiu. — Emma, não!
— Hook não pode saber que é um Dark One. — Explicou. — Você não pode saber sobre... O que acabou de acontecer. O seu final feliz está ao lado de Robin, e eu vou providenciar isso. Eu ainda sou a Salvadora, afinal. Todos estarão em seu devido lugar em apenas alguns dias... E você não pode me impedir.
— Emma!
(Storybrooke – Dias Atuais)
A imagem se dissolveu diante dos olhos de Hook e o apanhador escapou de seus dedos, indo de encontro ao chão. Outra risada feliz de Zelena escapou pelo ar. Ela libertou Emma de seu feitiço e sumiu em uma nuvem de fumaça, deixando os dois Senhores das Trevas sozinhos. Seu objetivo já estava completo: Fazê-lo descobrir toda a verdade.
— Hook... — Swan sussurrou.
— Não diga uma maldita palavra. — Os olhos dele faiscaram. — Eu vou machucar você, Swan, tanto quanto você acabou de me machucar. Eu prometo isso.
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