Swan Song
2 Swan Song
Notas iniciais
O salto do sapato de Emma afundou um centímetro na terra fofa e ela ouviu Regina surgir logo a seu lado. A noite estava fria e úmida e o cheiro do orvalho invadiu os sentidos da prefeita, que avançou até o mausoléu onde seu pai descansava. Não a olhou, mas pôde sentir a presença sombria de Swan caminhando logo atrás. Algo na aura dela fazia com que arrepios percorrem sua coluna e tentou não pensar nos possíveis motivos.
Parou diante da entrada. Puxou o tailleur vermelho para mais perto do corpo e hesitou por um instante. Lembrava-se com extrema clareza da primeira vez em que encontrara Emma naquele local. A Dark One, naquela época, era apenas a odiável xerife. Não acreditava ser a Salvadora. Era inocente de maneira quase estúpida, cega para todos os indícios de magia com os quais cruzava.
–– Quão longe nós chegamos, não é? –– Emma sussurrou como se tivesse lido os pensamentos da prefeita.
A resposta foi um sorriso amarelo de lábios fechados.
Quão longe...
Ela tentara arrombar o mausoléu, naquela primeira noite. Estava acompanhada do Caçador, em busca de um coração que não encontraram por não saber onde procurar. A noite estava mais quente do que a atual, mas vê-los fez o sangue da Prefeita Mills congelar. Matá-lo foi reflexo do ciúme de um coração egoísta, tomado pela escuridão, pelo desejo de tê-lo só para si e pelo desejo de vingança nunca saciado pela maldição inicial.
Muito tempo mais tarde, reviveu aquela cena mil vezes para tentar entendê-la. Se o queria para si, por que não arrancou o coração de Swan e o esmagou? Todos os problemas teriam sido resolvidos de maneira rápida e fácil, incluindo o da maldição que não queria ver quebrada.
A verdade nunca compartilhada era muito menos preta e branca do que deveria ser.
Não a matou porque era incapaz. Desde aquele primeiro momento...
Mesmo que desejasse.
–– Quão longe, Miss Swan. –– Concordou com um suspiro e avançou até a entrada ainda tentando não pensar em uma pergunta que já tinha feito antes, mas nunca teve resposta: Era realmente o Caçador quem não queria dividir?
A loura a seguiu. O monstro que havia se tornado rugia com violência cada vez que ela se referia ao seu nome por "Miss Swan". A vontade de arrancar o coração da morena era quase incontrolável, e sabia o motivo: A fera da escuridão se sentia ameaçada. Talvez fosse culpa da pronúncia, talvez do sorriso torto ou do olhar intenso. Talvez a ameaça estivesse no modo como o coração de Swan batia naqueles momentos: Acelerado, causando instabilidade na fina linha que formava uma barreira entre o bem e o mal. O mal dominava naquele momento, mas bastava um simples balançar para que o desequilíbrio voltasse.
Com um movimento rápido, um campo de energia carregando mágica foi liberado pelas mãos de Regina e empurrou a lápide de Henry para o lado, dando espaço para a escada.
Enquanto desciam, Swan os ouviu. Primeiro, o som baixo dos sussurros em compasso ritmado. Atravessaram um curto corretor de paredes de pedras e as portas à frente se abriram sozinhas.
O som ficou mais alto. Percebeu que o ritmo dos sussurros na verdade não era perfeitamente idêntico. Primeiro alguns, depois outros, cruzando-se com mais alguns e interrompidos por um novo grupo.
–– Isso são... –– Um sussurro rouco. Swan chegou mais perto e correu os dedos pálidos pelas pequenas gavetas de madeira e detalhes dourados que iam quase do chão ao teto.
–– Corações, sim. –– Regina parou atrás da loura e ofereceu para ela uma taça de vinho. –– Centenas deles.
–– Eu achei que... –– Olhou-a. Os olhos estavam fascinados, excitados. Aceitou a bebida. –– Achei que você tinha se livrado deles.
–– Eu não pude. –– Confessou. –– Você pode senti-los?
–– Sim! Posso sentir... –– Bebeu um gole. Correu os dedos por mais caixas, sentindo-as vibrar. –– Poder, magia. Todas essas vidas... –– Podia senti-los quase dentro de sua cabeça. –– E você?
–– Arrependimento. É o que eu vejo. –– Respondeu amarga e virou a taça de uma só vez nos lábios. –– E mais uma coisa... –– Acrescentou.
Swan se voltou para a morena.
–– O que?
–– Você vê estes corações, Dark One? –– Ignorou a pergunta e se aproximou mais um passo. –– Centenas deles. –– Foi a vez de Emma beber todo o conteúdo de sua taça. Ela estava muito perto. –– Eu comecei a esmagar corações e a guardar aqui alguns deles antes mesmo de você nascer. Eu tive os de seus pais em minhas mãos. A escuridão já me consumiu também, Emma.
Emma. Emma. Emma. Swan repetiu aquilo na cabeça dezenas de vezes. Com um gesto, sua taça se encheu de vinho. Com um gole, esvaziou. Odiava se sentir como um ser humano outra vez, mesmo que só pelo tempo de um piscar de olhos. Um piscar de olhos de Regina Mills.
–– Sim, até eu te salvar porque eu precisava ser a maldita Salvadora. –– Respondeu ácida, entrando em modo defensivo. –– No meu caso, não há ninguém. Nem mesmo você me salvou, Regina, apesar de eu ter confiado que você o faria. –– Cuspiu a frase, em um ataque necessário para que o monstro continuasse no controle. –– Se você me chamou aqui para um discurso de esperança no qual eu não estou interessada, Ade...
–– Espere! –– Agarrou a mão dela por reflexo, para não deixá-la desaparecer.
Os olhos verdes se encontraram com os castanhos com um pequeno estalo de tensão e permaneceram paradas. Os dedos quentes da morena fizeram a pele de Swan formigar, ela se deixou demorar mais um instante e deslizou o toque lentamente da palma da mão até as pontas dos dedos, antes de finalmente soltá-la. Bebeu.
–– Eu não estou aqui para fazer nenhum discurso. –– Murmurou. –– A única razão para eu ter te falado isso é para dizer que você não é a única. Ainda há — e sempre haverá — escuridão em mim também, Emma. Eu gosto de manter estes corações aqui, por mais que eu me arrependa. Ouvi-los me agrada... Eu nunca deixarei de ser a Rainha Má e acho que isso me permite te ajudar em pelo menos uma coisa.
–– Ok. Estou ouvindo.
–– A minha proposta de acordo, Dark One,. –– Um singelo sorriso marcou os lábios carnudos de Mills. –– É uma dança. Dance comigo.
––... O que? –– A risada de Emma foi alta e sem vida. Quase cruel. –– Você está louca? –– Não, ela não parecia estar. As taças desapareceram e Regina parou diante da loira outra vez. Estendeu uma das mãos. –– Se é um acordo, o que eu receberei com isso?
–– Eu vou te contar um segredo.
–– Não estou interessada. –– Respondeu, mas os olhos da morena brilharam em malícia.
–– É um segredo que lhe será muito útil, Dark One. –– Provocou-a, sabendo que a venceria pela curiosidade. –– Podemos?
–– Toda magia vem com um preço, Regina.
–– Eu sei. –– Manteve os olhos presos nos dela. –– Eu irei pagá-lo.
Silêncio. Tenso, pesado e ironicamente ensurdecedor. As trevas se agitaram dentro de Emma, bagunçando-a. Mandando-a partir. Aquele joguinho já havia ido longe demais e sabia que a morena não tinha nada de seu interesse. Imaginou que poderia assassinar Regina antes de ir, deixar o corpo exposto para que Henry o encontrasse e voltar depois para ressaltar para seus queridos pais que eles eram os culpados por tudo aquilo. Snow, culpada por assassinar o verdadeiro amor da Rainha Má. Snow, culpada por assassinar a própria rainha má. Não seria divertido?
Ouviu uma risada em sua cabeça.
Quando percebeu que não teria resposta, uma mão dela segurou a sua, e não tentou impedi-la. A outra contornou seu corpo e tocou suas costas de maneira leve. Como o padrão de dança clássica mandava, repousou a mão livre sobre o ombro de Regina. Aquela era uma cena no mínimo extremamente estranha, mas Swan sabia — embora a morena não — que ela já havia acontecido antes. Em Camelot. No baile dado para receber os heróis de Storybrook.
Exatamente como naquela ocasião, contou os passos em silêncio:
Um, dois, três.
Um, dois três.
Um, dois, três.
Valsando no ritmo dos corações roubados que batiam dentro das caixas, Swan pensou no baile que tinha apagado da memória de Regina. Fora uma dança breve e inesperada em que trocaram seus pares, Robin e Hook, pela companhia uma da outra.
A desculpa, lembrava-se, tinha sido discutir sobre quão confiáveis aqueles estranhos hospitaleiros eram. Concordaram que nenhum pouco. Logo depois o silêncio de um olhar rápido a fez sentir as trevas mais distantes do que em todos os últimos dias, desde que acordara como a nova Dark One. Mills sorriu realçando a cicatriz no lábio superior e um minuto depois um estranho a convidou para dançar.
Voltando para a dança no mausoléu, talvez sem querer a mão da morena pressionou um pouco as costas da loira e enquanto dançavam seus corpos se aproximaram ainda mais. Exatamente como naquela ocasião, a proximidade a deixou tonta.
Sob aquela luz, os olhos de Regina tinham a cor de chocolate derretido.
–– Você ainda o ouve aí? –– Mills perguntou num sussurro. –– Dentro de sua cabeça? Rumplestiltskin?
–– Às vezes. –– Admitiu.
–– Você quer saber o meu segredo agora? –– A outra balançou a cabeça positivamente. –– Os corações... Eles trazem paz. Eles fazem todo o resto se calar. –– Confessou e aproximou o rosto mais um pouco do de Swan. Suas bochechas quase se tocaram e seus lábios quase brincaram com o lóbulo da orelha dela quando murmurou em seu ouvido: –– Você não o escuta agora, não é Emma?
Só então Swan percebeu. Ele ficara mudo. As trevas estavam caladas. Só havia ela ali, naquele momento. Ela, Regina e os passos suaves da dança. O som dos corações era mórbido, mas reconfortante.
–– Eu disse para você. –– Voltou a sussurrar, agora com uma pitada da arrogância costumeira de volta. –– Você, a verdadeira você, ainda está aí dentro, Miss Swan.
Um arrepio subiu pelas pernas de Emma diante daquele sussurro próximo de sua orelha. Então, como se já tivesse feito aquilo um milhão de vezes antes, abaixou o rosto e repousou os lábios no ombro da morena. A dança prosseguiu e Regina pressionou um pouco mais o braço em torno da Dark One.
Swan fechou os olhos.
A pele de Regina tinha cheiro de rosas e oceano.
— Regina... — Sussurrou sem erguer o rosto. — Você prometeu. — A voz aveludada e sem emoção havia sumido, dando espaço para um quase gemido dolorido. Um momento de lucidez depois de tantas trevas. — Você prometeu que o faria, se não conseguisse me salvar.
— Do que você está falando, Emma?
Daquele pequeno cisne branco, veio um soluço baixo que soou como uma canção de desespero. Uma única canção durante toda a vida, antes de morrer para dar lugar às trevas do cisne negro que a consumia.
— Destrua-me, Regina.
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