Swan Lake
16 Linhas de Fogo
Notas iniciais
Capítulo 16: Linhas de Fogo
O quartel-general do Império Swan Lake parecia uma colmeia prestes a explodir de tanta energia. O escritório principal do casarão havia sido completamente tomado por pilhas de catálogos de alta gastronomia, amostras de tecidos para os lounges ao ar livre, pranchetas digitais e telas abertas com planilhas de assessoria de imprensa. Faltavam poucas semanas para a grande inauguração do Swan Lake Fazenda Hotel, e o comitê de elite, composto por mim, Alice, Rosalie, Esme e Sue, passava dezoito horas por dia ditando os rumos do evento que prometia parar o Texas e atrair os olhos do país inteiro.
Eu estava sentada atrás da minha mesa de couro, digitando furiosamente as respostas para os principais influenciadores de viagem e modelos de Austin e Houston que eu havia convidado através das minhas redes. O engajamento do post com o meu cowboy ainda estava gerando uma avalanche de comentários e curiosidade sobre o resort rústico-de-luxo, o que facilitou o trabalho de relações-públicas.
— Meninas, vocês não têm noção do que acabou de acontecer! — O guincho de Alice Cullen cortou o som das impressoras e das teclas, fazendo com que Rosalie erguesse os olhos azuis da planta de iluminação da piscina de borda infinita. Alice praticamente flutuou até o centro da sala, segurando o tablet contra o peito como se fosse um tesouro sagrado. — Acabei de receber a confirmação oficial da assessoria da MAIORAL. Ela aceitou! Ela confirmou presença!
— Ela quem, Alice? — Sue perguntou, ajustando os óculos de leitura enquanto revisava a lista de vinhos do Jasper. — A Zendaya?
— Melhor! Muito melhor! — Os olhos de Alice brilhavam com um delírio profissional indescritível. — A Taylor Swift confirmou presença para o fim de semana da inauguração! E a equipe dela acabou de reservar o chalé master, aquele com a vista panorâmica mais perfeita para a piscina de borda infinita e para os vinhedos! Ela quer um ambiente isolado e rústico para compor algumas músicas após a turnê e aproveitar o maridão... Eu vou ter um colapso estético de felicidade! Vou ter que refazer todo o enxoval daquele chalé com linho egípcio de mil fios!
— Minha nossa... — Esme sorriu, tocando o braço de Alice com doçura. — Isso vai colocar a Swan Lake no mapa mundial do turismo, Bella...
— A Taylor na fazenda vai quebrar a internet — dei um sorriso genuíno, sentindo o orgulho de girl boss massageado. Olhei de relance para Rosalie, que dava um tapinha de aprovação na minha mão. — Rose, garanta que a automação da iluminação e o aquecimento da piscina estejam impecáveis. Se a Taylor quiser nadar às duas da madrugada, o cenário precisa parecer de cinema.
— Deixe comigo, Bells. Aquela piscina vai parecer uma pintura europeia flutuando sobre o Texas — Rose piscou, confiante.
Eu estava prestes a voltar para os e-mails quando o som do motor da caminhonete do Edward ecoou do lado de fora, seguido pelo bater forte da porta do motorista no pátio. Meu coração deu um solavanco, mas não foi aquele calor familiar de sempre. Uma sombra de incômodo e uma pontada aguda de ansiedade pesaram no meu estômago.
Há menos de duas horas, Edward havia recebido uma ligação de emergência da fazenda vizinha, a propriedade dos Denali. Uma das éguas premiadas de raça quarto de milha da Tanya estava com complicações severas no parto e o veterinário local deles não estava conseguindo dar conta de salvar o filhote. Sendo o melhor profissional de todo o condado, Edward fora chamado às pressas.
Eu tentei me manter focada no trabalho, juro que tentei. Mas a história que Leah Clearwater me contara semanas atrás, sobre o histórico possessivo do Edward com a Tanya e sobre o quanto aquela mulher adorava um drama de caubói para chamar a atenção dele, ficou ecoando na minha mente como um disco arranhado. Para piorar, Edward e Tanya Denali haviam namorado por alguns anos, um relacionamento longo e rústico que só havia terminado pouco antes de eu colocar meus pés no Texas. E a Tanya não fazia a menor questão de esconder o quanto odiava a minha presença e o quanto queria o Edward de volta a todo custo. Eu nunca esqueceria o dia em que nos cruzamos na sorveteria do centro da cidade, onde ela me medira de cima a baixo com um desprezo nojento e fizera questão de passar a mão no braço do Edward na minha frente, jogando os cabelos loiros e dizendo que "sentia falta dos velhos tempos na lida".
Eu odiava a Tanya Denali com todas as minhas forças...Aquela Putanya... E ver o meu namorado pegar a caminhonete correndo para passar a noite na fazenda dela estava me fazendo queimar por dentro.
Passava das onze da noite quando o casarão finalmente silenciou. As meninas haviam ido dormir, e eu continuava trancada no escritório, pronta para dormir, revisando os termos de segurança da inauguração sob a luz fraca de um abajur de mesa. Eu estava exausta, com a cabeça fervendo, quando a maçaneta girou lentamente.
Edward entrou no escritório. O supercílio dele, que havia levado os pontos do Carlisle há poucos dias, exibia uma cicatriz avermelhada e fina, dando ao seu rosto um aspecto ainda mais rústico. Ele usava o chapéu de cowboy jogado para trás, a camisa jeans escura estava com as mangas dobradas até o antebraço, exibindo marcas de poeira e suor da lida. Ele parecia cansado, mas assim que seus olhos verdes me encontraram atrás da mesa, aquele maldito sorriso torto e descontraído surgiu nos seus lábios.
Ele caminhou até mim, tirando o chapéu e jogando-o em cima do sofá de couro.
— Oi meu amor...— disse arrastado se inclinando sobre a minha mesa,aproximando o rosto para me dar um beijo de boa noite.
No segundo em que o rosto dele ficou a poucos centímetros do meu, o meu nariz captou o aroma. Não era apenas o cheiro de estábulo, feno e suor. Misturado à colônia amadeirada dele, vinha um rastro denso, quente e inconfundível de uísque. Muito uísque.
Recuei a cabeça imediatamente, esquivando-me do beijo com uma frieza que fez o sorriso dele vacilar no mesmo milésimo de segundo. Meu olhar se transformou em duas fendas gélidas de puro gelo.
— Boa noite, Cullen — respondi, a voz saindo perfeitamente monossilábica, ríspida e cortante. Voltei meus olhos para a tela do notebook, fingindo ler um contrato que eu já sabia de cor.
Edward piscou, surpreso pela recepção, e soltou uma risada baixa, achando que era apenas mais uma das minhas habituais provocações de patroa. Ele deu a volta na mesa, parando bem ao lado da minha cadeira giratória e cruzando os braços largos sobre o peito.
— O que foi, amor? — ele perguntou com aquele tom arrastado, a voz rouca de cansaço. — O parto da égua foi complicado, passei quase quatro horas puxando o potro na marra no meio do esterco. Estou quebrado. Não ganho nem um beijinho de recepção depois de salvar um animal premiado?
— Você cheira a uísque, Edward — disparei, girando a cadeira devagar para encará-lo de frente, cruzando os meus braços e erguendo o queixo com uma fúria que vinha direto do meu estômago. — Um cheiro bem forte, por sinal. O parto da égua da Tanya agora exige anestesia alcoólica para o veterinário?
Edward soltou outra risada, balançando os cabelos bronzeados e descuidando-se completamente do perigo iminente. Ele achava que eu estava brincando. Ele achava que o meu ciúme era uma piada de namorados.
— Ah, isso? — ele deu de ombros com a maior naturalidade do mundo. — Depois que terminamos o procedimento e o potro nasceu saudável, o pai da Tanya fez questão de abrir uma garrafa de um uísque escocês envelhecido para comemorar. Eu tomei duas doses com ele no galpão para relaxar o corpo antes de pegar a estrada de volta. O velho Denali é muito grato pelo meu trabalho.
— Com o pai dela ou com ela, Edward? — rebati, a minha voz subindo uma oitava, perdendo completamente o controle profissional. Fiquei de pé em um salto, batendo as duas mãos espalmadas na mesa de madeira, o meu sangue fervendo de puro surto de ciúmes. — Você acha que eu sou palhaça? O condado inteiro sabe que aquela mulher se joga nos seus braços ! Ela não esconde de ninguém que quer você de volta a todo custo! E você... você recebe uma ligação dela e sai correndo feito um cachorrinho adestrado, passa a noite inteira lá e ainda volta para casa cheirando ao uísque que aquela vagabunda provavelmente serviu para você!
O sorriso de Edward sumiu instantaneamente. O maxilar dele travou, os olhos verdes escurecendo conforme ele percebeu, com um choque de realidade, que eu não estava brincando de gato e rato. Eu estava tendo uma crise de ciúmes pesada, real e violenta.
— Porra, Bella! Você está falando sério? — ele deu um passo à frente, a voz perdendo a descontração e ganhando uma nota irritada e defensiva, o orgulho de cowboy batendo de frente com o meu. — Eu fui lá trabalhar! Eu sou o único veterinário cirurgião desse lado do estado capaz de fazer aquele tipo de parto sem matar a mãe! O animal estava morrendo, ele estava em sofrimento, porra! Você queria que eu dissesse não para um chamado de emergência médica só porque a dona da fazenda é a minha ex-namorada?
— Sim! Eu queria! — gritei, batendo o pé na madeira, as lágrimas de raiva e frustração começando a arder nos meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair. — Eu odeio aquela mulher, Edward! Odeio o jeito que ela te olha, odeio o jeito que você age com ela, odeio saber que você passou anos da sua vida com ela antes de eu aparecer! E eu não vou aceitar homem meu atendendo ao estalar de dedos de outra mulher sob o pretexto de 'emergência médica'! Se a Tanya estalar os dedos e você correr, nós temos um problema definitivo. Eu quero que você escolha, Edward. Escolha agora! Ou ela e o passado rústico de vocês, ou eu e o resort! Se você passar daquela cerca de novo por causa dela, acabou!
Edward parou na minha frente, a respiração saindo pesada pelo nariz, o peito dele subindo e descendo com força sob a camisa jeans. Ele me encarou por longos, densos e sufocantes cinco segundos. O silêncio no escritório era tão pesado que o tic-tac do relógio parecia uma bomba relógio.
E então, Edward soltou uma risada anasalada, uma risada que misturava descrença total, cansaço e uma frustração que parecia explodir dentro dele. Ele jogou as mãos para o alto, andou dois passos para o lado e girou novamente para me encarar, os olhos verdes faiscando com uma intensidade que me fez paralisar.
— Escolher, Bella? Você está me mandando escolher? — ele desabafou, a voz saindo brutalmente rouca, rasgando o silêncio da noite com uma força que fez o meu coração dar uma batida em falso. Ele deu dois passos duros na minha direção, reduzindo a distância entre nós até que eu pudesse sentir o calor do corpo dele e o hálito de uísque contra o meu rosto. Ele cravou os olhos nos meus com uma entrega tão violenta que me deixou sem ar. — Por que porra você faz isso com a gente? Eu pedi você em casamento, Bella. Eu peço você toda hora em casamento, todo santo dia, e você sempre me diz não! Você sempre põe uma barreira, sempre diz que quer ir com calma, que tem a porra do resort, que o seu pai tem que aceitar... E eu ainda estou aqui! Eu estou aqui te esperando, aceitando o seu tempo, aceitando o seu gelo, aceitando apanhar do seu pai no pátio sem reclamar de nada porque eu sou completamente seu!
Ele deu mais um passo audacioso, as mãos dele disparando para os meus ombros, segurando-me com uma firmeza possessiva, mas cheia de uma dor genuína por ver a minha desconfiança.
— E você acha mesmo que eu quero a Tanya, meu amor? — Edward continuou, a voz quebrando ligeiramente de tanta emoção reprimida, os olhos verdes transbordando uma verdade nítida e avassaladora. — Se eu quisesse ficar com ela, se eu sentisse um milímetro de falta daquela vida, eu já estava casado com a Tanya há anos e com uns cinco filhos correndo por aquele pasto! Mas eu não quis ela. Eu nunca quis o futuro que ela me oferecia. Porque eu quero você, Isabella Swan! É tão difícil assim para o seu orgulho de cidade grande entender que eu te amo?! Que eu sou completamente louco por você e que nenhuma outra mulher nesse mundo existe quando você está na minha frente?!
Minha boca se abriu em um perfeito "O". O ar simplesmente sumiu dos meus pulmões. As palavras dele ricochetearam nas paredes do escritório e atingiram o meu peito com a força de um soco.
Foi a primeira vez. A primeira vez em cinco meses que Edward Cullen dizia, com todas as letras, em alto e bom som, que me amava.
A fúria do ciúme que estava me consumindo há horas evaporou em um milionésimo de segundo, substituída por um calor absurdo, denso e avassalador que expandiu no meu peito, fazendo as minhas mãos tremerem sobre o tecido da camisa jeans dele. Eu olhei bem no fundo daqueles olhos verdes que agora exibiam uma vulnerabilidade crua, misturada com o cansaço do parto e a exaustão de lutar contra as minhas próprias barreiras. O meu cowboy estava ali, inteiramente desarmado e entregue nas minhas mãos, esperando apenas que o meu orgulho de Jacksonville finalmente cedesse ao ritmo do Texas.
O silêncio que se instalou entre nós era quase audível, denso como a fumaça de um incêndio que acabara de ser abafado. Minhas mãos continuavam espalmadas contra o peito dele, sentindo o compasso violento do seu coração sob o tecido jeans. A declaração , aquele "eu te amo" rústico, rasgado e sem anestesia , ainda vibrava no ar do escritório.
Eu devia ter derretido. Devia ter jogado os braços ao redor do pescoço dele e pedido desculpas por ser uma neurótica de Jacksonville.
Mas a verdade? O uísque exalando dos poros dele e a menção àquela vida idílica com cinco filhos loiros correndo no pasto dos Denali ativaram o meu pior mecanismo de defesa: o sarcasmo puríssimo.
Pisquei devagar, engolindo em seco, e dei um meio passo para trás, deslizando minhas mãos para longe do peito dele. Forcei um sorriso de canto, arqueando uma sobrancelha com a ironia mais ácida que consegui encontrar no meu repertório.
— Um monólogo dramático digno de um Oscar, Cullen — soltei, a voz saindo mansa, fria e completamente desdenhosa. — Quase me fez esquecer que você passou as últimas quatro horas trancado em um estábulo com a Barbie do gado. O que foi? O uísque do velho Denali vem com um bônus de sentimentalismo barato ou você ensaiou esse discurso na estrada de volta para tentar limpar o rastro de perfume de vagabunda?
Edward travou. Os olhos verdes dele, que antes exibiam uma vulnerabilidade quase dolorosa, estreitaram-se até virarem duas fendas de puro deboche. O maxilar dele deu um estalo audível. Ele soltou uma risada, jogando a cabeça para trás por um segundo antes de cravar aquele olhar de predador de volta em mim.
— Sentimentalismo barato? — ele repetiu, o tom de voz descendo para um sussurro ironicamente perigoso. Ele deu um passo audacioso, encurtando a distância de novo, os braços cruzados sobre o peito largo de um jeito que parecia bloquear toda a luz do abajur. — Ah, claro. Esqueci que estou lidando com a rainha do gelo. A mulher que prefere passar dezoito horas revisando planilhas de alta gastronomia a admitir que o ego dela está sangrando porque eu não pedi permissão por escrito para salvar um animal. O que foi, Swan? O seu complexo de dona do mundo não aceita que o universo não gire ao redor do seu umbigo corporativo por duas horas?
— O meu ego está ótimo, Edward. O que não aceita desaforo é a minha inteligência — rebati imediatamente, cruzando os braços na mesma posição que ele, sustentando o olhar com um cinismo cortante. — Você quer que eu bata palmas? 'Parabéns, meu herói, por ir correndo salvar o dia no território da sua querida Tanya'. Me poupe. Se eu quisesse um homem que atende a chamados de emergência de outras mulheres com essa presteza toda, eu tinha namorando um bombeiro. Pelo menos o uniforme deles é mais limpo que essa sua camisa suja de esterco.
— Ah, os mauricinhos da Flórida... claro. A terra prometida onde os homens usam camisas de linho, bermudinha, sapatênis e provavelmente pedem desculpas por respirar o mesmo ar que você — Edward disparou, um sorriso ladino e terrivelmente irritante surgindo nos lábios inchados. Ele deu mais um passo, colando quase o peito no meu, a testosterona e o deboche emanando de cada palavra. — Sabe qual é o seu problema, Bella? Você é orgulhosa demais para aceitar que está completamente laçada por um cara rústico que cheira a estábulo. Você usa essa sua pose de esnobe urbana para esconder que morre de medo de perder o controle. Você está surtando porque sabe que bastava eu te puxar pela cintura agora para você esquecer o nome da Tanya, Jacksonville e qualquer outra porcaria que passe por essa sua cabecinha mimada.
— Mimada? — soltei uma risada anasalada, o meu olhar faiscando de puro ódio e tesão reprimido. A proximidade dos nossos corpos estava fazendo o ar faltar de verdade, mas o meu orgulho se recusava a ceder. — Você é muito petulante, Cullen. Acha que esse seu maxilar bruto e esse sorrisinho de canto são um passe livre para você fazer o que quiser e depois resolver tudo nos lençóis? Eu tenho uma novidade para você: o contrato da Swan Lake sou eu quem assina. E o seu passe livre acabou de ser cancelado. Se você acha que eu sou igual às suas namoradinhas do taxas que aceitam o laço sem reclamar, você está muito enganado. Vai dormir no estábulo hoje. Quem sabe o cheiro do feno clareia a sua mente sobre o significado da palavra respeito.
— No estábulo? — Edward repetiu, os olhos escurecendo de vez, a ironia sumindo para dar lugar àquela fome possessiva e irritada que sempre explodia entre nós quando nos desafiávamos ao limite. Ele descruzou os braços lentamente, as mãos grandes indo parar nas laterais da minha mesa, encurralando o meu corpo contra a madeira. Ele inclinou o rosto até que os seus lábios quase roçassem na minha orelha, a voz saindo em um rosnado baixo e denso. — Você adora ditar as regras do jogo quando está protegida atrás dessa mesa, não é, patroa? Mas nós dois sabemos quem é que manda quando a luz apaga. Eu não vou a lugar nenhum. E você vai passar o resto da noite sentindo exatamente o cheiro desse uísque que você tanto odeia, porque eu não vou sair do seu lado até você engolir esse seu orgulho idiota.
— Tenta a sorte, cowboy — sussurrei de volta, cravando os meus olhos nos dele com um desafio que era puro fogo, o meu coração batendo tão forte que parecia que ia quebrar as minhas costelas. Se ele achava que o jogo tinha terminado, ele não conhecia metade do veneno de Jacksonville.
Edward não recuou. O sorriso dele na penumbra do escritório era o próprio mapa da audácia texana, aquele tipo de expressão que dava vontade de beijar e dar um tapa na mesma intensidade.
— Eu não preciso tentar, Swan. Eu tenho certeza — ele murmurou com a voz tão arrastada que parecia arranhar a minha pele.
Afastei o corpo com um empurrão firme no peito dele, arrumando a gola da minha própria blusa como se estivesse sacudindo a poeira de um incômodo.
— Menos, Cullen. Bem menos. A sua cota de autoconfiança passou do limite junto com a segunda dose daquele uísque barato — ironizei, caminhando até a porta do corredor e apontando para fora. — O show acabou por hoje. Sai do meu escritório.
Edward soltou uma risada nasalada, pegou o chapéu de cowboy no sofá com uma preguiça irritante e passou por mim com passos lentos. Mas, em vez de seguir o corredor em direção à escada ou à porta dos fundos, o celerado simplesmente girou os calcanhares na direção oposta e caminhou com a maior naturalidade do mundo direto para a porta do meu quarto.
— Edward! O que você pensa que está fazendo? — sibilei, marchando atrás dele no corredor escuro, tentando manter a voz baixa para não acordar o casarão inteiro.
— Tomando banho, patroa. Meu turno na lida com a realeza dos Denali acabou, mas o cheiro de estábulo não sai sozinho — ele respondeu sem nem olhar para trás.
Ele empurrou a porta do meu quarto, entrou e acendeu o abajur de cabeceira com a intimidade de quem morava ali. Abriu as portas da minha cômoda e, sem a menor cerimônia, puxou a segunda gaveta, onde, nos últimos dois meses, ele havia colonizado um espaço inteiro com as suas próprias roupas: algumas camisetas limpas, cuecas e um short de moletom cinza.
Cruzei os braços na entrada do quarto, assistindo à audácia do indivíduo.
— Você é inacreditável. Quem disse que você tem autorização para usar o meu chuveiro hoje? — arqueei a sobrancelha, o sarcasmo pingando de cada sílaba. — O castigo era o estábulo, esqueceu? Ou o seu cérebro tão lento quanto o moinho daqui?
Edward tirou a camisa jeans suja, jogando-a direto no cesto de roupa suja com uma mira perfeita, e se virou para mim. A luz fraca do abajur desenhava cada músculo do peito bronzeado dele, e a cicatriz recente no supercílio dava um ar perigosamente atraente àquela cara de pau.
— Se quiser me tirar daqui, Swan, vai ter que me arrastar. E nós dois sabemos que você não tem força física nem para levantar uma sela de montaria, quanto mais um homem de cem quilos — ele debochou com um brilho cínico nos olhos verdes. — Me dá dez minutos. Tenta não sentir minha falta enquanto isso, meu amor...
Ele piscou e fechou a porta do banheiro na minha cara. O som da água do chuveiro caindo começou logo em seguida.
Bufei, jogando-me na cama de casal e encarando o teto. O pior era que o maldito tinha razão: eu estava furiosa com o fantasma da Tanya, mas a imagem dele se despindo no meu quarto fazia o meu sangue ferver por motivos completamente errados.
Exatamente dez minutos depois, a porta do banheiro se abriu. Edward saiu secando os cabelos bronzeados com uma toalha, vestindo apenas o short de moletom cinza que ficava perigosamente baixo nos quadris dele. O cheiro de uísque havia sumido, substituído pelo aroma fresco do meu próprio sabonete de baunilha, o que tornava tudo ainda mais irritante. Ele jogou a toalha na cadeira, apagou o abajur e se enfiou debaixo do lençol, do lado esquerdo da cama.
Fiquei estática do meu lado, de costas para ele, virada para a janela, a parede invisível do orgulho erguida entre nós dois no colchão. O silêncio no quarto era absoluto, quebrado apenas pelo som das nossas respirações ritmadas. Nenhum dos dois dizia uma palavra.
Passaram-se cinco minutos. Então, senti o colchão afundar de leve.
Com a audácia típica de quem acha que um banho resolve cinco meses de teimosia, Edward começou a deslizar o corpo lentamente para o meu lado da cama. Senti o calor da pele dele se aproximando das minhas costas, e logo em seguida o braço pesado e musculoso dele tentou contornar a minha cintura, puxando-me para dormir agarrada ao peito dele.
— Nem tenta, Cullen — avisei em um sussurro cortante, sem me mover.
— Ah, amor, para com isso... — ele resmungou com a voz rouca perto da minha nuca, o hálito fresco roçando a minha pele enquanto insistia em me puxar para perto. — O uísque já passou, a égua está viva e eu estou limpo. Deixa de ser teimosa...vem aqui chamegar com o seu cowboy...
Ele apertou o abraço na minha cintura, colando o quadril dele no meu.
Foi o erro dele.
Minha paciência Swan estourou. Em um reflexo puramente defensivo e impulsionado pelo ódio daquela loira dos Denali, dobrei o meu joelho direito com força e desferi um chute curto, seco e certeiro para trás, mirando exatamente no meio das pernas dele.
PUM.
O impacto foi abafado, mas o resultado foi instantâneo.
Edward soltou um ganido agudo, um som sufocado de pura agonia que parecia ter saído do fundo da alma de um homem traído pelas forças da natureza. Ele soltou a minha cintura no mesmo milésimo de segundo, encolhendo as pernas e rolando dramaticamente para o lado oposto da cama.
— Porra, Bella! — ele sibilou, a voz saindo três oitavas mais alta do que o normal, gaguejando de pura dor enquanto se abraçava em posição fetal no canto do colchão. — Você ficou louca ?! Ali não! Você quer me deixar inválido antes do casamento?!
— Eu avisei para não tentar — respondi com a voz mais fria, linear e tranquila do mundo, ajeitando o meu travesseiro com dois tapinhas e puxando o lençol até os ombros. — Considera isso um adiantamento pelo seu próximo chamado de emergência. Agora fica do seu lado e não respira muito perto de mim.
Edward soltou um resmungo dolorido, bufando de pura indignação rústica na escuridão. O silêncio voltou a reinar no quarto, mas agora a tensão entre nós dava para ser cortada com uma foice. Dormimos sem nos falar, separados por trinta centímetros de colchão e um abismo de orgulho, com o cowboy do Texas descobrindo da pior forma possível que o veneno de Jacksonville não vinha com antídoto.
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