Swan Feathers
2 Lembranças
Mais um dia nesse hospital.
Estou contando os dias para sair desse lugar, tudo parece cinza, sem vida, não que seja muito diferente da minha vida, mas confesso que sinto falta de ver o movimento da cidade, o caos urbano, o barulho de buzina...quase tudo.
Meu desejo de sair acaba quando lembro que vou ficar longe ou melhor muito longe da minha súbita paixão chamada "Patrick". Sempre que ele vem me examinar meus olhos se enchem de alegria, pode parecer idiota pelo fato de eu conhecer ele há muito pouco tempo e que as únicas palavras que trocamos diariamente em quanto me examina são "Oi", "Está se sentindo bem?" e "Melhoras".
Nunca me apaixonei de verdade...até agora. Meus relacionamentos sempre foram sem graça, um tanto quanto infantis e tediosos. O namoro mais "animado" digamos assim foi com Thomas, acho que não posso chamar aquilo de namoro. Estava mais para pura atração física, não da minha parte, mas sim da dele. Para conseguir o papel de Swan Queen fiz de tudo, até ir para cama com Thomas, até então diretor da companhia. Ele sempre foi um tanto quanto louco, queria que suas apresentações fossem perfeitas a qualquer custo, não se importando com os pés dormentes de nós, as bailarinas.
Minhas apresentações amadoras aos 15 anos eram patéticas, na época eram extremamente dolorosas ,mas hoje, acho graça de meus tombos absurdos. Sempre fui considerada uma bailaria semi-perfeita, magra, não muito alta e dedicada, mas nunca consegui mostrar "vontade" de dançar, fui forçada a praticar balé e acabou sendo de alguma forma, a minha profissão. Agora tudo isso não passa de lembranças, talvez nunca mais consiga dançar, preciso ouvir o "veredito" final de Patrick!
Os dias demoram a passar quando você está praticamente paralisada. As opções de diversão são as menos variadas possíveis, meu único "divertimento" é olhar e admirar Patrick cada vez que ele vem me ver. É isso ou assistir Gossip Girl.
No dia seguinte
Como é de costume minha mãe veio me visitar, com seu ar falso de mãe culpada e com seu casado surrado com a gola bordada de uma coleção antiga da H&M. Ela trouxe algumas revistas de balé para me torturar, claro! Sabe que eu nunca mais poderei pôr uma sapatilha.
"Mamãe" faz questão de arrumar meu cabelo e passar um batom nude e sem graça em meus lábios, por um lado isso é bom, fico mais apresentável para receber os cuidados diários de Patrick.
Ela se senta na cadeira de acompanhante enquanto folheia uma Vogue velha, não demora muito seu telefone toca e ela pede para que eu fique parada pois precisaria sair, como se eu pudesse fazer algo.
O tempo passa e ninguém entra. Quando eu achava que havia sido esquecida a porta se abre e um médico ruivo, pálido e com olhos claros e esbugalhados abre a porta e se aproxima de minha cama em quanto fala:
-Olá Nina, como está?
-Estou bem, mas c-cadê o Patrick?
-Ele não veio trabalhar hoje — responde no momento em que mede minha temperatura com muita cautela.
-Aconteceu alguma coisa? — A vergonha estava estampada em meu rosto que logo se torna vermelho.
-Espero que não!
Essas palavras foram o suficiente para saber que sim, aconteceu alguma coisa.
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