Sussurros do Destino
3 O Coração em Conflito
Aiko passou os dias seguintes num estado estranho, como se estivesse sempre a meio de uma queda que nunca chegava ao chão. O encontro à beira do rio repetia-se-lhe na mente vezes sem conta: Haruto, vulnerável pela primeira vez, Riku, provocador, perigoso, impossível de ignorar.
E ela, no meio.
Haruto tornou-se mais cuidadoso. Perguntava-lhe se estava bem, se precisava de alguma coisa. Havia uma ternura quase dolorosa na forma como a olhava, como se tivesse medo de a perder a qualquer momento.
— Não precisas de me tratar como se eu fosse partir. — disse-lhe Aiko numa dessas tardes, tentando sorrir.
Haruto pousou a chávena que estava a limpar.
— Não é isso… é só que, quando gosto de alguém, não sei fazê-lo de outra forma.
As palavras ficaram no ar. Aiko sentiu o peito apertar.
— Haruto… — começou ela, mas foi interrompida pelo som da porta do café a abrir.
Riku entrou, como se tivesse sido invocado pelo próprio silêncio.
— Ainda aqui? — perguntou ele, olhando directamente para Aiko.
Haruto endireitou-se de imediato.
— O que queres agora?
Riku ignorou-o.
— Vais sair daqui a pouco — disse, como se fosse um facto. — Eu espero.
— Não tens esse direito — respondeu Haruto, com a voz baixa, mas firme.
Riku sorriu.
— Não preciso de direitos. Só de tempo.
Aiko sentiu-se sufocada.
— Parem!!! — disse ela, erguendo a voz mais do que pretendia. — Eu não sou um troféu.
O silêncio caiu abrupto. Riku foi o primeiro a falar.
— Nunca disse que eras.
Aproximou-se dela, parando a uma distância perigosamente curta.
— És uma escolha.
Aiko desviou o olhar.
— Mas eu… Não sei…. O que escolher…
— Não precisas de escolher agora. — respondeu Haruto, num tom suave.
Riku inclinou a cabeça, observando-o com desdém.
— Claro que precisa. Só tens medo do que acontece quando ela percebe que o conforto não chega.
Os olhos de Haruto escureceram.
— Tu não sabes nada sobre ela.
— Sei o suficiente — respondeu Riku. — Sei que não olha para ti da mesma forma que olha para mim.
Aiko sentiu o coração falhar uma batida.
— O que dizes não é justo. — murmurou.
Riku voltou-se para ela.
— Diz-me que não sentes nada quando estou perto.
Ela abriu a boca e não conseguiu responder. Haruto deu um passo atrás, como se tivesse sido atingido.
— Aiko… — disse ele, com dificuldade.
Ela sentiu os olhos arderem.
— Eu não pedi para sentir isto — confessou Haruto. — Simplesmente aconteceu.
Riku observou-a em silêncio, algo diferente no olhar. Não um triunfo. Algo mais profundo. Quase cuidado.
— Vem comigo, por alguns momentos. — disse ele, mais baixo. — Precisas de perceber o que sentes.
— Não!!! — respondeu Haruto de imediato. — Não vais levá-la a lado nenhum.
Aiko fechou os olhos.
— Eu vou. — disse finalmente. — Só para falar.
Haruto ficou imóvel.
— Tens a certeza?
Ela olhou para ele. Para o rapaz que lhe dava paz. Que lhe oferecia um lugar seguro.
— Não — respondeu. — Mas preciso de o fazer.
Riku não sorriu. Apenas estendeu a mão. Ela aceitou.
Caminharam em silêncio durante algum tempo. A cidade parecia diferente àquela hora, mais escura, mais honesta. Pararam num miradouro esquecido, onde as luzes se espalhavam como constelações artificiais.
— Porque fazes isto? — perguntou Aiko, finalmente. — Porque me empurras sempre?
Riku encostou-se ao parapeito.
— Porque se não o fizer, vais escolher o caminho mais fácil.
— E isso é mau?
— Para ti? Talvez — respondeu ele. — Para mim… seria o fim.
Ela olhou-o, surpresa.
— O que queres dizer?
Riku respirou fundo.
— Já escolhi ficar à margem antes. — fazendo uma breve pausa — Já vi alguém escolher a segurança e arrepender-se depois.
— Estás a falar de alguém específico? — perguntou ela.
O olhar dele escureceu.
— Estou.
Aiko aproximou-se um pouco mais.
— Tu nunca falas de ti.
— Porque, se falar, não vais conseguir ignorar-me. — respondeu ele.
O silêncio entre eles tornou-se pesado, carregado de coisas não ditas.
— E do que tens medo? — perguntou ela.
Riku riu-se sem humor.
— De gostar de alguém que não posso ter.
O coração de Aiko apertou-se.
— Não sabes isso.
— Eu sei bem — respondeu ele, encarando-a. — Porque, no final, escolhem sempre alguém como o Haruto.
— Talvez porque ele não brinca com sentimentos — disse ela, num tom defensivo.
Riku aproximou-se mais.
— Eu também não estou a brincar.
A distância entre eles desapareceu. Aiko sentiu a respiração dele, o calor, a tensão crua que parecia envolver tudo.
— Riku… — murmurou.
— Diz-me para parar — disse ele. — E eu paro.
Ela não disse nada. Os lábios tocaram-se por uns breves segundos, intenso, errado. Aiko afastou-se de imediato.
— Isto foi um erro — disse, ofegante.
Riku fechou os olhos por um instante.
— Sim — respondeu. — Foi.
O telemóvel de Aiko vibrou.
Mensagem de Haruto.
“Onde estás?”
Ela sentiu-se partir por dentro.
— Tenho de ir — disse.
Riku assentiu.
— Sim vai.
Antes de se afastar, ele falou de novo:
— Só não te enganes a ti própria.
Aiko regressou a casa com o coração em guerra. Horas depois, outra mensagem surgiu no ecrã.
Número desconhecido.
“Vi-te com ele.”
Ela sentou-se na cama, o corpo gelado.
Segunda mensagem.
“Sugeria-te em começares a pensar em quem escolher.”
O nome que apareceu em seguida fez o sangue desaparecer-lhe do rosto.
Haruto.
E Aiko percebeu, com um nó no estômago, que o conflito deixara de ser apenas interno.
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