Sussurros do Destino

5 Escolhas e Tentação


Aiko passou dois dias sem responder a ninguém. Nem a Haruto. Nem a Riku.

Desligou o telemóvel, fechou as cortinas e tentou convencer-se de que o silêncio lhe traria clareza. Em vez disso, trouxe-lhe memórias. O sorriso contido de Haruto quando acreditava nela. O olhar intenso de Riku, como se a visse inteira, sem filtros nem promessas.

Era isso que mais a assustava.

Na manhã do terceiro dia, saiu de casa antes que o medo a convencesse a ficar. Precisava de se mover, de respirar, de sentir que ainda tinha controlo sobre alguma coisa.

Não contava encontrá-lo ali.Haruto estava sentado no banco do pequeno jardim perto do café, o mesmo onde tantas vezes tinham partilhado conversas leves, risos sem peso. Agora, parecia diferente. Mais magro. Mais sério. Como se tivesse passado noites sem dormir.

— Estás a fugir de mim? — perguntou ele, sem se virar.

Aiko parou a poucos passos de distância.

— Estou a tentar não magoar ninguém.

Haruto soltou uma pequena gargalhada amarga.

— Já estamos todos magoados.

Ela sentou-se ao lado dele, mantendo uma distância cautelosa.

— Recebeste a minha mensagem — disse ele. — Ou escolheste ignorá-la?

— Li — respondeu ela. — Só não sabia o que dizer.

— Diz-me a verdade, então — pediu ele, finalmente olhando-a. — Ainda sentes alguma coisa por mim?

Aiko sentiu um nó apertar-se-lhe na garganta.

— Sim — disse, sem hesitar. — Sinto.

O rosto de Haruto suavizou-se por um instante… mas logo voltou a endurecer.

— Mas não é suficiente.

Ela baixou o olhar.

— Não sei se é justo pedir-te que esperes enquanto eu descubro o que sinto.

— Não é — concordou ele. — Por isso decidi não esperar.

Aiko levantou o rosto de imediato.

— O que queres dizer?

Haruto respirou fundo.

— Recebi uma proposta para trabalhar noutro café. Noutra cidade. — Forçou um sorriso. — Talvez seja o melhor.

O coração de Aiko falhou uma batida.

— Vais embora?

— Se ficar, vou continuar a ver-te a hesitar — respondeu ele. — E isso está a destruir-me.

O silêncio entre eles foi pesado, definitivo.

— Quando vais? — perguntou ela, num fio de voz.

— Em breve — disse ele. — Ainda não aceitei… mas precisava que soubesses.

Aiko sentiu as lágrimas ameaçarem cair.

— Haruto, eu—

— Não — interrompeu ele, gentilmente. — Não digas nada agora. Só… decide antes que eu o faça por ti.

Levantou-se e afastou-se, deixando para trás um vazio difícil de suportar.

Nessa mesma noite, Aiko recebeu uma mensagem de Riku.

“Encontra-me. Precisas de parar de fugir.”

Ela hesitou longamente antes de responder. Mas acabou por ir.

Encontraram-se num prédio antigo, quase abandonado, onde as luzes da cidade pareciam distantes. O vento frio cortava, mas Riku parecia imune.

— Estás diferente — disse ele, observando-a. — Mais cansada.

— Haruto vai embora — disse ela de imediato.

Riku ficou imóvel.

— Por tua causa?

— Por causa de todos nós.

Riku desviou o olhar por um instante.

— Eu disse-te que alguém ia sair magoado.

— Não queria que fosse assim — murmurou ela.

— Queres que eu me afaste? — perguntou ele, encarando-a de novo. — Diz-me agora e eu faço-o.

Aiko sentiu o coração bater com força.

— E se eu disser que não sei?

Riku aproximou-se lentamente.

— Então estás a escolher o caos.

— Talvez eu precise dele — respondeu ela.

Ele parou a poucos centímetros.

— Aiko… se te beijar outra vez, não vai ser como antes.

— Eu sei.

— Não vai haver volta atrás.

Ela fechou os olhos.

— Então não pares.

O beijo foi intenso, urgente, carregado de tudo o que tinham contido até ali. Não houve hesitação, nem culpa naquele momento apenas desejo e necessidade. Quando se afastaram, ambos respiravam com dificuldade.

— Isto muda tudo — disse Riku, a voz baixa.

— Eu sei — respondeu ela.

— Então escolhe-me.

As palavras pairaram no ar como uma lâmina.

— Não posso — disse ela, a dor visível no rosto. — Não ainda.

Riku afastou-se bruscamente.

— Não me peças para ficar numa história onde sou apenas a tentação.

— Não és — respondeu ela, desesperada. — És parte do que sou agora.

Riku passou a mão pelo cabelo, frustrado.

— Haruto vai embora porque te ama — disse ele. — Eu fico porque não sei amar de outra forma.

Aiko sentiu-se esmagada pela verdade crua daquelas palavras.

— Não me faças escolher com medo — pediu ela.

— Então escolhe com coragem — respondeu ele.

Quando Aiko regressou a casa, o telemóvel vibrou.

Mensagem de Haruto.

“Aceitei a proposta.”

O mundo pareceu inclinar-se.

Segunda mensagem.

“Parto amanhã.”

Aiko deixou cair o telemóvel.

No espelho, viu o próprio reflexo olhos vermelhos, rosto cansado, alguém que já não reconhecia totalmente.

E percebeu, com um aperto no peito, que o tempo das hesitações tinha acabado.

Porque, ao amanhecer, um deles deixaria de estar ali.

E talvez, com ele, uma parte dela.