Sussurros de além
2 Aqueles que vagam
Fui até o centro da cidade enquanto deixava para trás meu corpo coberto de sangue sob uma lona, eu definitivamente estava sem rumo naquele instante. Ao me aproximar da minha cafeteria favorita, olhei pela janela o interior, reparando nas pessoas que se aqueciam naquele dia gelado, eu entendi que não faria mais parte disso. Entrei procurando no cardápio minha bebida preferida, me sentei no banco próximo ao balcão enquanto olhava os funcionários trabalharem, com um pouco mais de atenção pude ver um dos preparadores cuspir dentro de uma bebida e seguir até uma mesa, eu fiquei horrorizada, aquela era uma das melhores cafeterias da cidade, como poderia ser tão nojenta?
Me levantei tentando evitar o lugar. Tornei a passar pelas pessoas, e a cada uma que eu atravessava podia sentir um pouco de seus sentimentos, havia pessoas angustiadas, cansadas, estressadas... e todas elas pareciam bem felizes. Sentei em um banco próximo a uma praça e tentei pensar no que eu poderia fazer, já que voltar a viver era quase impossível. Olhei para o lado e notei um garoto olhando na minha direção, parecia fixar seus olhos em mim, o encarei. Ele me olhava de uma forma como se eu fosse um monstro, foi então que eu tomei coragem e disse:
— Que foi? -o garoto balançou a cabeça negativamente e então eu percebi que ele podia me ver- Você... está me vendo?
—Estou sim.
—Como?
—Com meus olhos.
—Seu estúpido, eu não estou viva.
—Ah sério? Que medo...
Me levantei e caminhei até sua direção, ele estava no banco ao lado sentado, ficamos frente a frente, o fitei de cima a baixo me virei seguindo em frente. Escutei passos e em seguida um impacto no chão, o garoto havia tropeçado na esperança de me alcançar.
—Eu disse que não estava viva, voc... -Ele agarrou meu tornozelo, e foi então que percebi novamente que alem de me ver, ele podia me tocar- Quem é você?
—Eu.. pfft... -Ele se ergueu rapidamente- ... passei anos aqui, sentando nesse banco todos os dias, na esperança de que me levassem embora, mas.. esse dia nunca chegou. Eu sei o que você é agora, sei como se sente, mas eu estou feliz em te dizer que você não está sozinha.
Ele me abraçou enquanto eu fiquei sem reação, seria ele um outro morto? No calor neutro dos seus braços pude sentir que não estava mesmo sozinha, mas assim como viva, ainda desconfiava. Ele tornou a dizer:
—Você não tem para onde ir certo? Eu tenho um abrigo onde alguns amigos meus estão, você pode vir comigo se quiser, mas só se quiser.
Ele estendeu a mão para mim, olhei para ela com um ar de dúvida e a encaixei com a minha aceitando sua proposta, o mesmo sorriu e andamos o mais longe possível. O lugar era um prédio velho, plenamente abandonado, com o concreto quase caindo, ele abriu a porta arranhada e fomos até o quinto andar de elevador, sim, elevador. Quando adentramos os corredores, haviam portas do número 20 ao 25, e no último número entramos na casa. Era um lugar sujo, mofado e escuro, parecia casas de pessoas drogadas, mas dentro dela havia algumas pessoas, que quando nos viram, ficaram aparentemente normais.
—Até que enfim chegou, Joe. Pensei que nunca mais iria voltar. -disse uma voz fina-
—Por um acaso, ou presente de "Deus", eu encontrei mais uma vítima. -O garoto que estava comigo respondeu aos demais- Ela vai ficar com a gente.
—Espera... eu não disse que ia ficar.
—Você é livre pra escolher pequena, é livre agora, todos somos. Mas se quiser ser igual ao Solitário, boa sorte. -Joe e mais umas duas pessoas soltaram uns risinhos-
—Quem é solitário?
—Já diz o nome. -A garota da voz fina respondeu- Diz a lenda de que ele ou ela anda pela cidade, roubando a vida das pessoas acreditando um dia voltar a viver, nunca teve amigos e a solidão o fez se tornar uma alma ruim.
—Isso é possível? Como ele consegue tocar nas pessoas?
—Somos espíritos, podemos fazer o que quisermos. -Disse um garoto moreno com dreads- Nunca assistiu filmes de terror? Aqueles onde as coisas se mexem sozinhas, pois é, somos nós agora.
—Lembro uma vez em que entrei em uma casa a noite e derrubei os quadros da parede, foi muito engraçado. -A garota riu- As pessoas ficam apavoradas.
—E quando eu dava corda nas bonecas. -Uma garotinha menor disse- Elas falavam no meio da noite e as meninas corriam chorando para suas mães.
O ambiente se tornou agradável, era como uma roda de conversa onde os outros relatavam seus experiências pós-vida. Olhei para Joe que já estivera me olhando a algum tempo, ele me levou até um quarto e me disse para ficar aqui até eles acharem um lugar melhor, fechou a porta do quarto e sentamos na cama, fiquei assustada.
—Escuta... eu sei como deve estar se sentindo. Todos aqui passaram de alguma forma pela mesma coisa que você, então não se sinta diferente e nem tenha medo, somos todos um agora.
—A quanto tempos vocês estão aqui?
—Eu parei de contar já faz uns 5 anos.
—Eu não quero ficar aqui pra sempre.
—Ninguém quer, estamos procurando pistas ou alguma coisa que nos leve a verdade sobre o mundo e a vida, temos poucas informações, não é algo fácil.
—Eu tentarei ajudar, quero sair daqui tanto quanto vocês. -Ele sorriu e se levantou indo até a porta. -
—Vou deixar você descansar.
—Nós precisamos? Quer dizer... não estamos vivos.
—Toda alma precisa de um descanso, quando você dormir vai entender. -Ele quase fechou a porta totalmente-
—...
—A propósito... Me chamo Joe.
—Clarice.
E então ele fechou definitivamente a porta, me deitei na cama que parecia mais limpa do que a própria casa, e fechei meus olhos.
Dizem que quando dormimos, espiritualmente falando, os sonhos são como uma viagem astral onde nossa alma se desconecta do corpo e viaja pelo mundo, eu nunca duvidei disso pois na minha cabeça sempre fez sentido, meus sonhos eram tão reais que eu podia jurar que tinham acontecido e se tornado parte da minha vida. Assim que fechei os olhos, eu percebi o que Joe quis dizer. Era como sonho, porém feito de memórias e lá estava eu, saindo da barriga da minha mãe extremamente confusa e com medo. Passei um tempo com as emoções confusas, mas quando me envolvi nos braços de minha mãe, tudo ficou melhor. Quando vi, já estava em casa dando meus primeiros passinhos, eu nunca quando viva teria lembrado uma coisa dessas. Acordei com uma batida de porta, escutando gritos vindos do lado de fora do quarto:
—Mas Tyler, eu falei pra você não ir pra lá!
—Isso não é da sua conta Sophie, não temos regras neste lugar. – Me levantei e abri a porta, todos me olharam, principalmente um garoto estressado-.
—Isso é sério? Mais uma? Vocês querem lotar esse prédio de gente morta né.
—Tyler, calma... Você não pode ficar julgando e principalmente mudando de assunto. – A garota da voz fina respondeu. –
—Quer saber... tô fora! Não fico mais nesse lugar.
—Espera Tyler – A porta de entrada se fechou com o garoto indo embora. –
—Ah... O que deveríamos fazer? – Disse Joe a garota. –
—Eu não sei... Eu tentei ajudá-lo mas ele só quer saber de perseguir o solitário.
—O Tyler é realmente complicado, só precisamos tomar cuidado para que ele não crie nenhum tipo de problema, ou todos nós seremos afetados. – Joe olhou para mim. – Desculpe por isso Clarice, não queria atrapalhar seu sono.
—Tudo bem... Eu nem estava cansada mesmo. –Respondi dando de ombros. –
—Clarice, hein? Não nos apresentamos ainda pelo que me lembro. – A garota se dirigiu a mim. – Eu sou Sophie. O Joe você já conhece, aquele de dreads é o Corry, a garotinha se chama Bea e o estressado que acabou de sair é o Tyler. Ainda tem o Dilan e a Nancy e mais alguns novatos mas eles não voltaram ainda.
—Ah sim... Prazer!
—Bom, eu acredito que você esteja cheia de perguntas, então... fique a vontade para questionar, vamos ajudar no que pudermos.
—Obrigada Sophie, acho que... vou sair um pouco pra entender melhor tudo isso.
—Ah claro, eu te faço companhia, conheço um lugar ótimo.
Sophie me pegou pelo pulso e saiu pela porta sem abri-la. Era a primeira vez que eu atravessava uma porta.
Fale com o autor