Sussurro das Borboletas
3 Pequenos Segredos
“Se preocupe com você mesma, o problema dos outros não é sua responsabilidade”, dissera sua mãe certa vez. Amarílis guardou o conselho, por esse motivo era raro que soubesse de atribulações alheias. No entanto os ensinamentos facilmente se perdiam em algumas situações, principalmente as que poderiam lhe render alguma vantagem. Afinal se ela não se preocupava com os problemas dos outros, não poderia esperar que se preocupassem com os dela. Para resolvê-los, de vez em quando, precisaria de terceiros.
Por isso segurava a saia do vestido com força, torcendo o tecido e o amassando, ainda remoendo seu erro que muito bem fora evidenciado pelo desconhecido enquanto caminhava sem rumo com Ivan. Seu coração batia pesado contra o peito, em culpa e constrangimento. O estranho sabia que ela tinha tentado se aproveitar do infortúnio de alguém para facilitar os desvios de seu próprio segredo. Agora ela havia colocado seu amigo em um problema ainda maior.
— Diziam que depois do pôr do sol alguém deixava o vazio e qualquer um poderia ser o alvo — disse Ivan atrás dela. — E que caso alcançasse esse alvo, ele experimentava dor e sofrimento antes de ser levado. Isso por causa dos gritos que escutavam.
— Eu sei.
— É nisso que acredita que aconteceu com a gente? Faltava muito pro sol desaparecer, então o que fica no vazio continuou lá. E eu não senti dor quando dormi ou acordei.
A garota ainda conseguia se irritar com toda a tranquilidade e descaso que ele demonstrava ao conversar sobre o assunto. Claramente estava longe de levar aquilo a sério e a preocupava que parecesse um pensamento genuíno e não uma forma de fugir da realidade ou a afrontar.
— Simplesmente caímos no sono — continuou Ivan.
— Vou nos levar de volta, então pare de pensar muito sobre...
Amarílis deixou um grito escapar durante a queda. Seu queixo bateu contra a terra, sentiu o incômodo no abdômen com o impacto sobre a elevação que tinha tropeçado.
— Não deveria ter nada aqui — ela resmungou ao apoiar as mãos no chão e abaixar o olhar para a causa do acidente. Assustou-se ao perceber que tinha caído sobre alguém ao ver as vestes comuns. — Oh!
Afastou-se rapidamente, estranhando que a pessoa não houvesse reagido e o pensamento de que estivesse dormindo logo se formou. O vazio poderia atrair muitos ao mesmo tempo e haviam mais duas pessoas naquele campo. Contudo ela percebeu a semelhança, o vestido desbotado era conhecido.
Se ergueu enquanto avaliava melhor e constatou que eram dois corpos. A garota estava dormindo tranquilamente com a cabeça apoiada sobre o peito de quem também reconheceu. Pele bronzeada, cabelo liso e castanho, uma pequena cicatriz na têmpora esquerda... Estava diante do corpo do Ivan e do seu próprio. Aquela visão a fez quase perder o fôlego. Era como observar a morte sobre si mesma, embora sentisse o coração batendo mais rápido. A cena era quase pacífica, se via adormecida ao lado do amigo e era indiscutível que o peitoral de Ivan subia e descia. Eles respiravam também e algo a dizia que não por muito tempo, como se houvessem adormecido para jamais acordarem novamente.
— Quando é que isso vai terminar? — reclamou Ivan. — Está ficando mais estranho a cada minuto.
Amarílis recuou alguns passos por mais que cogitasse a ideia de tentar despertá-los, procurando imaginar qual tipo de efeito surgiria.
— Eu estava certa, não estamos em outro lugar. Continuamos em Volery.
— Dormindo em nossas casas, provavelmente. Estamos aqui inconscientemente, Lily. Inconscientemente.
Embora o argumento dele fosse diferente da conclusão que ela desejava chegar, aquela palavra a fez enxergar a situação verdadeiramente e exclamou:
— É um reflexo! O jardim dela é um reflexo!
Ivan repouso as mãos em seus ombros, a fazendo voltar-se para ele.
— Vamos só andar por aí até acordamos.
— Ivan, olhe para nós! Parece mesmo que vamos acordar?
— Está perdendo a razão — ele replicou sem ousar olhar para os corpos adormecidos. — Se acalme.
Ela respirou fundo, tornando a olhar aquela cena tranquila e mórbida. Dormiam serenamente e poderiam assim continuar se não encontrassem uma forma de escapar. Soltou o ar pela boca, ainda apreensiva, e deixou as pálpebras pesarem. Ponderou sobre o sonho que tivera antes de ser acordada naquele lugar idêntico ao qual antes se encontrava colhendo rosas de cores diferentes. A moça aflita em busca de ajuda, a senhora caída em algum local por conta das papoulas, as borboletas os seguindo enquanto corriam sem qualquer rumo...
Seus pensamentos foram interrompidos ao sentir-se aquecida.
— O que é isso? — indagou Amarílis, falando tão baixo que sua pergunta parecia um sussurro.
— Um abraço.
— Argh!
Ivan riu de sua reação forçada ao afagar seu cabelo também. A garota torceu a boca, no entanto, o abraçou de volta.
— Quando estivermos bem de novo, me certificarei de derrubar você no campo.
— Pode tentar, mas não vai conseguir esse feito duas vezes seguidas — replicou o amigo.
Amarílis apreciou o momento. Embora desejasse a calma que a invadia, o breve desejo de querer que nunca terminasse se transformou em um lembrete infortuno. Aquela noite jamais terminaria e tinha a certeza de que o pesadelo não poderia ser seguro por muito tempo. O perigo no vazio se revelaria em algum instante;
Se recordava de mais histórias, sobre os contos dos próprios vizinhos que colecionavam pontinhos brilhantes em seus quadros noturnos. “O início é também o fim”, por esse motivo evitavam retornar aos locais onde o vazio alcançava e aguardava pacientemente pela imprudência de corações desassossegados. A jovem acreditava em cada palavra e tinha consciência de que na situação que se encontravam, sua única opção seria retornar ao ponto de partida ao invés de vagar sem encontrar um ponto final.
— Vamos andar para o mais longe daqui — ela decidiu ao se afastar. — Para longe das roseiras.
— Pensei que queria descansar lá.
— Aquela moça nos indicou ir para perto da pedra, deve ter alguma coisa naquela direção. Não corra dessa vez.
— Precisa confirmar o caminho? — quis saber Ivan.
— Confiarei no meu instinto agora.
Amarílis respirou fundo enquanto tomava o trajeto do qual deveriam ter seguido desde o início ou aquele que jamais deveriam ter se arriscado a trilhar. Pensava no desconhecido e em sua aparência estranha, para ela era somente um homem esmorecido. Sua presença poderia ser unicamente um acaso, mas considerava aquele encontro um aviso claro do que lhes aconteceria em pouco tempo.
Temia o que encontraria perto daquela pedra. Realmente encontraria alguém adormecido? Contudo a preocupação se tornou na dúvida se realmente encontraria aquele local. A cada passo podia sentir o ar ficando cada vez mais frio, a grama se tornava murcha e as plantas sem vida começavam a exalar um odor estranho e nada convidativo. Sentia que o cenário ao seu redor se alterava lentamente, a levando para longe de seu objetivo. Ergueu a cabeça e encontrou as borboletas de asas azuladas voando em círculos, no mesmo ritmo calmo que as viu em seu sonho.
— De novo não... — resmungou Amarílis.
— Que dessa vez acordemos — desejou Ivan ao observar o que a amiga havia parado para admirar. — E sem lembrar de nada.
Aguardou sentir-se sonolenta e cair no sono, porém, nada evidente aconteceu nos segundos de espera e antecipação.
Amarílis abaixou o olhar, percebendo que parecia terem sido levados para outro ponto daquele imenso jardim. Somente terra seca e nada no horizonte, como se houvessem sido deixados no mais completo nada.
— O que aconteceu?
— Olha, Lily — o garoto apontou para o outro lado.
Virou-se para onde ele indicava, encontrando duas portas de madeira e com poucos metros de distância as separando. Não existia construção alguma, a fazendo imaginar que não levariam a lugar nenhum.
Sua atenção desviou-se para as cadeiras ao lado de cada porta. Na primeira uma moça ostentava uma postura impecável, com as mãos unidas sobre as pernas cruzadas. Mesmo de longe podia-se sentir uma estranha calma ao observá-la. Trajava um vestido branco que, inacreditavelmente, reluzia como a própria lua que se perdera daquele céu. Mesmo com os jovens a observando, e os únicos a surgirem naquele local, ela parecia não ter percebido a presença deles. Inclinou-se para pegar algo ao seu lado e se ergueu em seguida, passando a rodear a porta. Amarílis então notou as flores amarelas próximas a porta, as quais também reluziam como vagalumes e cintilavam cada vez mais forte conforme eram regadas pela moça.
Perto da outra porta nenhum indício de iluminação se fazia presente. Nada se destacava. A moça sentada na cadeira parecia estar em uma posição desconfortável, detalhe sem muita importância naquele momento por se encontrar adormecida, e seu corpo estava coberto por uma capa escura.
— O alerta sobre desconhecidos...
— Aquele homem feio não era confiável — interrompeu Ivan.
— Ele parecia tão perdido quanto nós.
— Então precisamos de mais informações.
Tomando a frente, Ivan avançou com passos despreocupados em direção as portas. A jovem o seguiu, ligeiramente hesitante, e acreditando que bastaria não querer se envolver demais com os outros.
A moça regando as flores continuava seu trabalho sem notar a aproximação, concentrada em cuidar das plantinhas luminosas em seu espaço. Somente virou-se para os jovens quando pareceu escutar os passos, os olhando com um leve sorriso no rosto. Como uma criança animada, correu para a outra mulher ainda adormecida.
— Lyria, acorde! Temos visitas!
Amarílis e Ivan mantiveram certa distância, observando as duas. A moça que dormia abriu os olhos e encarou duramente quem lhe despertava.
— Será que com o cair de uma folha precisa me acordar a essa hora? — disse demonstrando seu descontentamento, sua voz era rouca e falha.
A outra deixou escapar uma risada e respondeu:
— E que horas são?
— Certamente não a certa para que me desperte, Luevir.
Os amigos se entreolharam, confusos com o breve diálogo, e logo a moça de vestido branco voltou-se para eles. Luevir aparentava não ter mais de vinte anos, com um rosto pequeno de traços delicados contornado pelos cachos dourados que lhe alcançavam as costas. Os lábios pequenos e as bochechas coradas contrastavam com a pele pálida. Ela possuía as irises cintilantes, um azul claro tão reconfortante que Amarílis desviou o olhar para não acabar imersa, apesar da beleza de Luevir praticamente a fazer se sentir como um espelho que estava ali somente para admirá-la.
— Estávamos aguardando sua chegada, quase pensei que Nyven atrasaria nosso encontro — disse Luevir. — Um erro terrível foi cometido.
— Como sabia sobre nós? — questionou Ivan. — E de qual erro está falando?
— Uma pergunta de cada vez, garoto — repreendeu Lyria, ainda sem se levantar ou sequer ajeitar melhor sua postura.
— As borboletas dela, é claro — respondeu Luevir. — Elas trouxeram crianças para o jardim. Vocês têm quantos anos?
— Treze e quatorze — informou Amarílis.
— Viu só? Muito jovens para estarem aqui.
Lyria riu desdenhosamente com o comentário.
— Por que deveríamos nos encontrar? — quis saber Ivan.
— Para irem embora. Guardamos as passagens para o caminho de casa — esclareceu Luevir, sentando-se em sua cadeira. — Basta escolherem uma porta e estarem dispostos a responder uma pergunta.
A garota hesitou, afinal as próprias borboletas os tinham levado para encontrar as passagens. Não compreendia como teriam os buscado somente para os levarem embora depois, porém, notava que as histórias nunca destacavam os nomes ou idade dos que se perdiam. Talvez realmente fossem poupados por serem muito jovens? A confusão lhe deixou apreensiva.
O vazio estava simplesmente brincando com sua presença.
— Por qual motivo... tem duas portas? — questionou Amarílis, simplesmente.
— Elas levam para onde devem levar, de qualquer maneira — respondeu Lyria. — Não faz muita diferença.
— Qual você acha melhor? — perguntou Ivan para a amiga.
Ela analisou a porta guardada por Luevir. Estreitou o olhar e notou os entalhes delicados, formando padrões por toda sua extensão, e a maçaneta aparentava ser de ouro. As flores brilhando ao redor da porta eram com certeza um atrativo curioso também. Era como a entrada de um casarão bonito e bem cuidado, que somente um nobre teria acesso. Voltou-se para a segundo porta, a qual pertencia a Lyria, e essa era bem mais comum. Na verdade era um pedaço de madeira sem formar perfeitamente um retângulo, sem qualquer detalhe ou cuidado ou sequer maçaneta. A jovem imaginava que se tocasse naquilo acabaria com alguma farpa em seu dedo. Pela terra seca ao redor não havia nenhuma flor, somente pedras.
Olhando para as guardiãs a diferença também era visível de imediato. Luevir exalava inocência até mesmo pela forma como se movia. Falava com doçura e parecia atenciosa. Inegavelmente percebia-se o cuidado que tinha consigo mesma. O vestido impecável, o cabelo bem cuidado... Era bonita, esse seria o primeiro pensamento de qualquer um ao constatar a simetria perfeita em seu rosto e os detalhes que se completavam. O nariz delicado, lábios bem desenhados, o corpo magro e definido eram os pontos que faziam a garota pensar que gostaria de se parecer com ela quando crescesse.
Lyria se parecia com ela em alguns traços, o que fortificava a ideia de serem irmãs com poucos anos de diferença. Aparentava ser um pouco mais velha, isso se considerasse a forma repreensiva com leve autoridade que ostentava. Seu cabelo era mais curto, mas os mesmos cachos dourados caiam sobre os ombros. Apesar disso eram mais volumosos, secos e desgrenhados como se há algum tempo não cuidasse deles devidamente. Seu rosto, também pequeno e delicado como o de Lyria, carregava uma expressão quase severa acentuada por manchas de terra sobre as bochechas e pescoço. Se encontrava a estranheza nas sobrancelhas muito grossas, nos lábios finos e rachados, os cachos que escapavam do capuz da capa eram ressecados.
Lyria sorriu ao ser observada por segundos demais, revelando os dentes escurecidos.
A garota pensou no quanto aquela moça era simplesmente descuidada.
— Eu... — começou a dizer Amarílis.
— Quase me esqueço — disse Luevir. — Devem fazer a escolha por conta própria.
Ivan olhou para o lado e não encontrou a amiga.
— Lily?
— O que?
— Não estou te vendo.
Ela então voltou-se para onde o amigo deveria estar.
— E agora não se escutam mais — anunciou Lyria. — A influência pode ser um belo presente ou um grande perigo, não acham?
Amarílis engoliu em seco, se questionando como iriam embora juntos. Queria tirar Ivan dali porquanto era sua culpa que tivessem caído no vazio. No entanto também estava preocupada se realmente seriam levados para Volery ou se simplesmente seriam carregados para um pesadelo ainda pior. Ninguém tinha a resposta exata para o que era vazio.
— Realmente vão nos levar de volta? — ela indagou.
— Depende de vocês se retornam ou não, Nyven lhes concedeu um bom conselho — Luevir disse com um sorriso complacente. — Não temam e escolham uma passagem.
Observou a moça por alguns instantes, era tão tranquila que sentia quase inveja daquela serenidade que parecia ter de sobra. Logo analisou Lyria, a qual somente demonstrava seriedade e certa impaciência, e a porta ao seu lado poderia cair aos pedaços como se houvesse somente fincado um pedaço de madeira no chão.
— Não cuida da sua porta? — quis saber Amarílis.
— É somente uma porta — replicou com um aceno de mão fortificando que não importava.
Amarílis voltou-se para Luevir e ergueu a sobrancelha, inquisitiva.
— A primeira impressão é a que fica — respondeu a moça.
Recordou-se do que o desconhecido, agora que sabia chamar-se Nyven, havia dito antes de desaparecer. Rosas poderiam ferir. Lyria aparentava ter certo descuidado consigo mesma e com a porta que guardava, no entanto, parecia muito mais sincera em suas palavras. Ela não se escondia atrás de delicadezas.
Seus passos até a porta esquecida quase se tornaram hesitantes quando finalmente notou as teias de aranha e insetos caminhando livremente por ali.
— Pode me contar um segredo, Amarílis? — questionou Lyria ao inclinar-se para frente.
— Que tipo de segredo?
— Um que aquele que jamais devesse escutar descubra em um sonho.
Engoliu em seco ao pensar no que escutaria do pai se ele descobrisse sobre as rosas.
Apesar de acreditar nas histórias de sua cidade, continuava sendo alguém a exercer diariamente a desobediência que sempre mantinha oculta. Lyria não lhe deu tempo para pensar muito no que dizer, mesmo que deixasse a impressão em seu sorriso que conhecia todas as travessuras que a garota guardava. Somente uma lhe traria grandes consequências se descoberta, ainda que de maneira incomum e questionável como em sonho. A moça fez um sinal para que se aproximasse e fizesse logo a confissão.
O coração de Amarílis bateu forte contra o peito, até mesmo começava a transpirar ainda que estivesse duvidando que realmente retornaria para casa e fosse capaz de enfrentar qualquer castigo pelo que havia feito e ainda induzido o amigo a ajudar. Mas enquanto contava seu segredo ela somente pensava no quanto seria lastimável que retornasse sozinha.
Afastando-se da guardiã, não sentiu qualquer alívio quando confessou sua culpa. Lyria riu de sua tensão enquanto retirava um cordão do pescoço. Estendeu-o para a garota que pegou a chave.
— Acredito que nós duas aprendemos muito essa noite — disse com um riso. — Não me esquecerei de você.
— Vou me esquecer desse pesadelo um dia?
Lyria meneou a cabeça em direção a porta e Amarílis percebeu ser melhor não se demorar muito. Girou a chave e, empurrando a porta, viu o restante do espaço aberto, iluminado pelo pôr do sol, como se aquilo não fosse uma passagem mágica e sim uma grande mentira. Porém, impedindo sua reclamação, escutou o som de passos urgentes e o vento agitando as folhas. Vozes alarmadas gritando por nomes.
Procuravam por ela e por Ivan do outro lado.
Fale com o autor