Sussurro
11 Capítulo 11
Notas iniciais
"Em algum lugar ao longe Karen sentia uma dor insana no peito, era a dor de perder os filhos que ela tanto amara."
Grécia, 1550 a.C.
O casal estava numa das praças de Dardanélia, apreciando juntos o pôr do sol, Helena com seus cabelos pretos e ondulados presos por uma tiara que ela mesma fizera, os olhos grandes e azuis, olhá-los era como ver o mar. Os lábios rosados sorriam, a pele dourada pelo sol destacava o manto branco com pregas nos ombros e uma corda amarrada a cintura, os pés descalços e os dedos inquietos. Ao seu lado estava Calixto os cabelos castanhos arrepiados e lisos, os olhos escuros e misteriosos como a noite, os ombros largos expostos na túnica que ele usava, segurava a mão de Helena com ternura, as pessoas que passavam na praça sorriam para o casal pensando em como era belo o amor jovem. Ambos tinham 22 anos e já pensavam num futuro juntos.
— Nós poderíamos fugir — falou Calixto enquanto mexia com a mão de Helena
— Seria uma boa ideia se tivéssemos para onde ir — comentou Helena rindo
— Eu poderia caçar e nós sobreviveríamos juntos.
— Antes de decidirmos isso, queria saber por que essa ideia repentina de fugir, você disse que queria passar o resto da vida aqui.. — disse arqueando as sobrancelhas.
— Não é nada, esqueça — Calixto estava rangendo os dentes e isso ele só fazia quando estava preocupado, Helena sabia — eu vou para casa, não se esqueça do nosso encontro amanhã de manhã perto do rio, tenho uma surpresa para você.
— Eu vou gostar dessa surpresa? — perguntou ansiosa.
— Bem...você vai ficar realmente surpresa — falou ele enquanto caminhava para casa, deixando a amada sentada na praça, em frente a própria casa.
Encarando o chão de pedras e sendo guiado apenas pela luz do luar, Calixto se lembrou de quando conheceu Helena há seis anos passados, ele a vira do lado de fora da biblioteca olhando as colunas que sustentavam a entrada, se aproximou devagar como quem não quer nada e aos poucos eles começaram a conversar, se encontrando cada vez com mais frequência e a cada encontro ela parecia ainda mais linda aos olhos de Calixto.
Ele nutria grande admiração por Helena, pelo fato dela buscar conhecimento. Uma dentre poucas mulheres que queriam estudar, fazer algo além de cuidar da casa quando casassem, Helena queria ser diferente e isso a tornava ainda mais interessante era corajosa por buscar isso, queria mudanças para o futuro possuía ideias brilhantes de como executá-las, só faltavam as oportunidades.
Calixto tropeçou na escada que dava acesso a sua casa, caiu ralando os joelhos e as mãos, os ferimentos ardiam e ele sentiu lágrimas descerem queimando o rosto, mas ele não chorava pelos machucados que ardiam ou pelo sangue que escorria, agora sentado com a cabeça baixa ele continuava chorando baixinho, não se importava se pessoas o vissem daquele jeito, dali algumas horas nada mais seria o mesmo, ele chorava por se lembrar da conversa que tivera com o pai de Helena na mesma manhã, cada palavra lembrada como uma facada no peito, a garganta ardia e as mãos tremiam "Você tem que fazer Helena parar com essa ideia louca de querer estudar" o pai dela lhe dissera, "não é louca" ele retrucara. "Acontece, que se ela continuar assim o único destino que ela vai ter é a morte" essa frase fazia a cabeça de Calixto doer, era difícil demais acreditar que o sonho de Helena causaria também destruição.
Ele tentou debater com o pai de Helena, mas seus argumentos se tornavam inválidos, por fim Alexandre lhe disse "Como sabes, sou um homem de muitas posses e influência, não vou permitir que Helena se envolva em assuntos do senado ou em qualquer outro assunto que não diga respeito a ela, vim pedir a você ponha fim a vida dela, vai ser melhor assim." ao ouvir isso, Calixto ficou chocado "Como tens coragem de pedir que alguém, eu, faça isso com sua própria filha."
Calmamente Alexandre explicou que se Calixto não fizesse isso, ele mandaria a mãe o irmão mais novo do rapaz como escravos para Esparta, sem chance de se reencontrarem. Depois de ouvir aquilo o rapaz paralisou, o pai de sua amada viera até ele pedir que escolhesse entre o amor e a família.
Cabisbaixo o rapaz secou os olhos com as costas das mãos, já tinha tomado sua decisão e esperava que Helena não o culpasse pelo que faria a seguir. Entrou em casa fazendo o mínimo de barulho possível, passou pelo quarto da mãe e do irmão beijando-lhes a testa, depois foi até o próprio quarto e pegou uma pequena adaga, que escondeu na túnica. Deitou-se e dormiu, estava ansioso para encontrar Helena na manhã seguinte.
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