Sussuros
1 Capítulo Único - i'll eat you up, i love you so
Quando ele não tinha ideias para seus livros, ela cantava. A voz flutuava até seus ouvidos e então ele tinha enredos de best sellers e ricos contratos.
Ela... Ele não sabia o que ela era. Uma pequena fada de pele pálida e cabelos loiros, e a voz de um anjo. O pagamento por aquele favor era pequeno e até agradável: ela só queria ser amada.
A boca contra a sua era doce, doce como mel, e os dedos trêmulos a despiam rapidamente. Ela tinha seios ainda mais brancos, pesados em suas mãos. Era tudo tão rosa, tão agradável. Quente ao redor dele, ela gemia baixinho ao pé do ouvido, incentivando-o até a chamada pequena morte.
E então ela deitava em seu peito, mole e pesada, mas tão agradável, e ele sentia que alguma coisa se ia, devagar, uma energia deixando-o aos poucos. Era só uma sensação estranha, resultado do esforço físico talvez, da onda de cansaço que lhe abatia e fazia-o fechar os olhos para o sono.
Ela dormia enrolada nele. Isso durou poucos anos. Ele tinha 43 quando morreu de velhice, e parecia ter 98. Ela ainda parecia ter seus poucos 18, mas tinha bem mais.
***
Não havia música melhor do que a que saia dos lábios rosados, ele sabia disso. Seus dedos dedilhando o violão eram uma parca companhia àquela voz, e ele já havia tentando convencê-la a cantar, mas a moça sempre se recusava. Ele tinha 32 e ela apenas 18, e juntos eles podiam fazer fortuna.
Quer dizer, graças a ela, ele já fazia (a voz e o corpo eram a inspiração de sua música).
Em troca, ela queria o amor dele. Simples assim, e ele estava mais do que satisfeito em oferecê-lo.
Inúmeras foram as noites em que não dormiam, perdidos demais um no outro, mergulhados no sentimento e no prazer. E depois, ela dormia respirando calmamente sob o peito dele, doce e macia e perfeita, enquanto ele lutava contra as pálpebras pesadas e a sensação de vazio (Mas ele não a tinha? Ele não era vazio. Eles se amavam).
Uma hora, ele perdia a batalha. Ele não viu os anos passando. Ele tinha só 39 quando morreu, mesmo que parecesse ter 87.
A doce menina chorando lágrimas salgadas em seu túmulo tinha 18, e eles pensaram ser sua neta.
***
Os planetas giravam em função da existência dela, ele tinha certeza.
(O terceiro da história, mas só mais um na vida dela).
Ele escrevia sonetos e odes para cultuar aquela beleza rara, e ela cantava e rodopiava pela sala dele como uma garotinha feliz ao ouvi-los. Depois o beijava, forte e molhado, como alguém já muito experiente nessa arte.
Não é que ela gostasse de matar. Ela não tinha opinião sobre, era necessário e comum à vida dela. Ela nasceu assim, seu alimento eram os anos de vida daqueles doces meninos, e ela não podia morrer de fome.
Mas ela os escolhia a dedo porque os amava, verdadeiramente. Era todos lindos cristaizinhos em sua coleção, e ela os amava.
Além disso, era uma troca. Ela os dava inspiração, fama, fortuna, e eles a davam anos de vida.
O pequeno poeta gostava de seus beijos, sim, ele gostava. Ele gostava também de beijá-la a pele macia do pescoço, e de tudo mais.
Era tarde da noite já quando os beijos finalmente acabavam, e ela dormia abraçada a ele, tentando preencher o buraco que se abria.
Ele publicou livros o suficiente para uma vida inteira em um intervalo de poucos anos. Mas tudo bem, porque ele de fato morreu ali. Ele tinha 28 anos só, mas seu rosto carregava rugas de 86.
Ela ainda tinha 18. Eternizada nas canções e poemas, ela sempre teria 18.
Fale com o autor