— Deveria parar de ser tão teimosa, Olive. — Seu pai fechou os punhos olhando diretamente para a jovem filha, a garota pequena de dezoito anos, que ainda continuava a contrariá-lo. – Já lhe falei que não irá escrever livro nenhum, isso vai contra qualquer regra e herança de nossa família.

O homem tinha suas mãos para trás caminhando de um lado para o outro sem olhá-la. Olive continuava com o rosto baixo e segurando suas mãos na frente do corpo, ela havia parado de falar sobre sua vontade de ser escritora e trabalhar em um dos jornais que abriam vagas para colunistas, mas nenhuma mulher, nunca poderia fazer algo do tipo, nem sequer trabalhar.

— Qualquer coisa que eu faça vai contra a herança de nossa família, papai.

Olive abaixou o tom de voz e falou sem olhar completamente para seu pai. Conde Norton parou de caminhar e se virou para a filha ainda com as mãos para trás. William Norton respirou fundo e caminhou para perto da garota.

— Não é dessa forma, filha. Só quero o melhor para você e seus irmãos.

Olive apertou os lábios.

— Me casar com algum qualquer só por conta de sua herança não será o melhor para mim, pai.

William Norton voltou a caminhar, mas dessa vez para perto da lareira e tirando as mãos das costas.

— Mas é dessa forma que as coisas funcionam.

Olive sentiu a raiva chegar, contou até dez, apertou uma mão a outra e respirou fundo. Esperou que seu pai dissesse algo a mais, mas não aguentou saindo do escritório de seu pai e subindo as escadas o mais depressa o possível.

— Olive? – Ela ouviu a voz de Jared, mas a ignorou. – Olive!

Passos sobre os degraus da escada surgiram rápidos atrás dela. Antes que entrasse em seu quarto sentiu a mão de seu irmão ao redor de seu pulso a machucando de certa forma e a fazendo virar rapidamente.

— O que houve?

Ele parecia realmente preocupado.

— Por que se importa?

Jared revirou os olhos soltando o braço da irmã.

— Ah, vamos lá Olive, o que papai falou?

Olive olhou para sua velha bota de cano médio nos pés. Ela respirou fundo e tentou falar lentamente.

— Ele falou que devo me casar com um homem que não conheço e que nunca poderei trabalhar como escritora, pois não é algo que obedeça as regras da família.

Jared levantou as sobrancelhas cruzando os braços.

— Uau.

Ele falou não mostrando tanta surpresa.

— Apenas isso?

Olive indicou que entraria no quarto quando Jared impediu.

— Não, não. – Seu irmão sorriu de lado e andou ao redor de Olive a olhando de cima para baixo. – Digamos que eu queira te ajudar.

Olive franziu as sobrancelhas e esperou ouvir mais

— E acho que vai gostar da ideia.

Jared ainda sorria, mas Olive sabia que não era apenas isso que ele queria. O garoto alto de cabelos escuros e olhos esverdeados não era apenas um "bom partido", mas sim, um ótimo charlatão e estelionatário, com certa má fama entre as mulheres, o que envergonhava a família.

— Você está querendo me ajudar?

Ela perguntou desconfiada.

— É o que disse. – Jared andou mais um pouco até a frente da garota e se jogou no sofá cruzando os braços. – Bom, Olive, você sabe que tenho alguns amigos influentes. Conhece Harold?

Olive negou ainda desconfiada e parada no meio do corredor.

— Ele criou um jornal, na verdade, desde que perdeu os pais o garoto não anda bem e resolveu gastar toda a sua herança nisso, por talvez lutar pelo povo, coisa de louco. – Ele abanou a mão para o alto enquanto cruzava as pernas. — Sei que nunca, ninguém, aceitaria uma mulher como escritora ou colunista, repórter, ou que quer que seja, mas ninguém precisa saber que você escreve para eles.

Olive inclinou a cabeça dando alguns passos para frente.

— Não estou entendendo.

Jared revirou os olhos e se levantou.

— Se é para se fazer de desentendida, desisto.

Ela correu atrás dele e segurou em seu braço o fazendo parar sorridente.

— Não, não, Jere. E-eu só... se o papai descobrir?

Jared a olhou com um sorriso de quem iria aprontar.

— Ele não vai. Você escreverá com um nome falso, apenas eu, você e Harold, saberemos. – Ela parou pensativa. — Agora eu vou marcar com Harold para que ele venha até aqui, ou nos encontre em outro lugar.

Jared voltou a caminhar pelo longo e escuro corredor.

— Mas espere ai. – Olive chamou. – O que você quer em troca?

Jared franziu as sobrancelhas, parou no corredor e caminhou lentamente até perto da irmã, e colocou as duas mãos em seu ombro. Jared olhou em seus olhos, mas dessa vez não tinha um sorriso no rosto.

— Querida irmã, quando vai aprender que não é porque presto uma ajuda, que estou querendo algo em troca. – Jared piscou e passou uma mão em seu cabelo, o bagunçando. – Tenha um bom dia, Olive.

Jared caminhou lentamente pelo corredor até entrar em seu quarto. Olive continuou parada ouvindo a porta se fechar. Ela olhou para o corredor escuro e tentou entender se seu irmão queria ajudá-la mesmo, ou mais tarde contaria com felicidade para seu pai o que ela esteve fazendo escondido.

— OLIVE.

Ela ouviu a voz de sua mãe vinda do andar de baixo.

— Olive. Abigail. Jared. Venham aqui.

Ela chamara novamente e a porta de um dos quarto se bateu para mostrar Abigail, sua irmã de doze anos, passar por ela e esbarrar em seu ombro, para descer as escadas correndo. Olive desceu calmamente depois de Abigail para segui-la até a sala de visitas.

— Não corra menina, onde está sua irmã?

— Aqui mamãe.

Olive entrou na sala discretamente enquanto Condessa Edith repreendia sua filha.

— Ótimo, esta noite... – ela fez uma pausa olhando em volta. – cadê o irmão de vocês?

Abigail deu de ombros e Olive se jogou no sofá, se sentando de uma maneira completamente inapropriada para os costumes.

— Olive! Abigail!

As duas se entreolharam e depois olharam para a mãe sem entender o problema. Quando condessa Edith abriu a boca para contestar suas filhas, é interrompida por passos apressados como uma corrida.

— Desculpe mamãe.

Jared apareceu com o smoking desalinhado enquanto tentava arrumá-lo da melhor maneira possível. A condessa o inspecionou de cima á baixo, e depois levou a mão á testa e outra a cintura caminhando lentamente pela sala.

— Meu Deus, onde errei?

Olive trocou um olhar interrogativo com seu irmão duvidando de que estivesse com a nova criada novamente, como de costume. Jared deu de ombros passando as mãos no cabelo tentando arrumá-lo.

— O que está acontecendo, minha querida?

Conde William adentrou a sala enquanto os filhos o olhavam rapidamente.

— Esses... essas crianças. Meu Deus, qual mulher gostará de se casar com Jared, que fica se agarrando com as serviçais por ai? – Jared arregalou os olhos olhando para o pai e para a mãe enquanto Abigail segurava o risinho. A condessa começou a andar de um lado para o outro gesticulando impaciente. – Abigail então, nem me fale. Corre por aí como uma garota de rua pedindo por esmolas.

A menina arregalou os olhos verdes e depois fechou a cara cruzando os braços e se recostando no sofá com desaprovação das palavras da mãe.

— E Olive... Olive era minha última esperança até inventar essa ideia de ser escritora.

Olive revirou os olhos castanhos e esperou o resto da bronca da mãe que passava a mão na testa e parava tentando recuperar a razão.

— Mas... – ela fez uma pausa — como eu queria dizer, iremos receber esta noite convidados muito especiais que serão o futuro de alguns de vocês. Família Marshall, com a filha Silvia, futura, eu espero que seja, futura esposa de Jared. — O garoto bufou. – E não adianta resmungar, você terá que se casar algum dia. E, a família Singh, pais de Maurício Singh, o pretendente de Olive.

A Condessa olhou para a filha com um leve sorriso. Olive negou com a cabeça olhando para o outro canto da sala.

— Então, quero que todos vocês estejam alinhados e muito bem portados exatamente ás cinco horas da tarde. As visitas começarão a chegar as cinco e meia, então não se atrasem! Entenderam?

— Sim senhora.

Todos responderam em uníssono com nenhuma vontade expressa nas vozes.

— Ótimo. Vão se aprontar.

Ela dispensou os filhos que passaram pelo pai, cabisbaixos, enquanto Conde William se divertia com as expressões dos filhos. Ele sabia que não eram nem um pouco perfeitos, mas havia uma filha caçula bela, um filho mais velho garanhão que ganharia qualquer mulher quando quisesse e bom investidor, e uma do meio mais inteligente do que até os mesmos, era tudo o que precisava ter, apesar de tentar controlá-los tanto, o que era um trabalho difícil. Eles eram apenas pedras preciosas que precisariam ser lapidadas, muito bem lapidadas.

— Onde é que errei com esses garotos, William?

Edith ainda passava a mão na testa mostrando o nervosismo.

— Não errou querida.

William caminhou até a mesa de bebidas pegando um copo para si.

— Como não? Olhe para eles, oh meu Deus. Eu lhes dei a melhor educação, cuidei de Jared como um príncipe, e o que ele se torna? Um estelionatário aproveitador que não quer saber de constituir família alguma...

Ela não terminou, mas Conde William interrompeu se sentando no sofá vagarosamente com o copo de bebida na mão.

— Jared é ótimo com as palavras, e bom nos negócios, tenho visto isso nele á algum tempo atrás, será um ótimo chefe algum dia.

Mas a condessa pareceu não dar ouvidos as palavras de seu marido.

— E Olive? Ela deveria ser uma dama, deveria ler e ser estudiosa, mas não tanto. E deveria ser vaidosa como qualquer outra garota de sua idade, mas meu Deus, ela não tem amigas, nem suas primas gostam dela...

— Diana gosta.

William deu uma golada em seu uísque.

— Oh Deus, William, Diana é uma criança. Agora as outras, nenhuma das moças falam com ela, nessa idade deveriam se reunir no jardim para falarem sobre rapazes, bailes e vestidos, mas Olive se isola e prefere levar um livro para onde quer que vá, do que criar novos laços. Não creio em uma coisa dessas. E agora essa ideia maluca de ser uma, uma...uma o que mesmo?

— Jornalista.

Conde William completou enquanto ouvia pacientemente a mulher que não se acalmava e já tinha a respiração acelerada.

— Isso mesmo, jornalista. Quem deveria querer trabalhar é Jared, mas parece que essa função passou para Olive. E Abigail então? Minha caçula é um menino, bem que lhe falei que ela chutava de mais minha barriga. Ela corre e não se preocupa em chutar bola ou pisar na lama e sujar suas anáguas do vestido.

Edith se sentou no sofá de uma forma nem um pouco educada depois de desabafar tudo o que tinha preso na garganta. William se surpreendeu com o modo da mulher e tirou o copo de bebida dos lábios para olhá-la. Edith o olhou por alguns instantes sem entender e logo depois deixou o queixo cair, esticou suas costas e se levantou rapidamente passando a mão nas saias.

— Oh meu Deus. Oh meu Deus, eles...eles herdaram o mal comportamento de mim. Oh Deus.

Ela passou a mão nos cabelos presos em um coque novamente enquanto Conde William ria se levantando do sofá e abraçando a mulher tentando acalmá-la.

— Eles não são perfeitos, querida.

Ele sussurrou.

— Não queria que fossem perfeitos, queria que ao menos fossem como outros filhos. Apenas normais.

William riu mais uma vez. Ele olhou para a mulher de olhos verdes e cabelos avermelhados por quem havia se apaixonado á muitos anos atrás.

— Construímos uma linda família, e temos filhos muito inteligentes. Nunca trocaria Olive ou Abigail por essas moças superficiais que vemos pelas ruas, elas tem algo a mais que beleza, são inteligentes, espertas e ágeis. E quanto a Jared, ele ainda se tornará um homem responsável, apenas precisa se apaixonar, e assim se tornará um homem como eu me tornei quando conheci você.

A condessa sorriu e respirou fundo mostrando uma expressão de alivio.

— Obrigada, meu querido.