Suspiro

9 Capitulo 8


Notas iniciais
Olá pessoal

Acordei enrolada em um edredom fofinho. Eu estava no meu novo quarto naquele colégio idiota. Grunhi e percebi que estava vestida em um pijama roxo e preto e com pantufas, rodeada pelas pessoas que eu encontrara no jantar. Bocejei e cocei os olhos encarando os pares de olhos que me fitavam com expectativa.

– O que... – bocejei de novo – Aconteceu?

– Você surtou e quase explodiu o refeitório e todos que estavam nele – Ricardo foi direto ao ponto e eu arregalei os olhos me lembrando de tudo.

– Eu acabei com o Lucas? – perguntei empolgada e eles me olharam feio.

– Você quase o matou, mas graças a Merlim, o GusBear aqui a tirou de lá – Maria olhou para o garoto moreno de um jeito fofo e eu o olhei constrangida.

– Obrigada pelo banho – fiz uma careta.

– Disponha – sorriu de canto.

– Você acabou o queimando, mas ele já está curado, só sobraram cicatrizes – vi pequenas linhas cobrindo os braços nus dele e fiz uma careta pior ainda.

– Mas agora já está tudo bem, você só tem que se vestir e nós iremos te levar para tomar café da manhã – gemi.

– Todos devem ter medo de mim agora.

– Nam – Beah disse preguiçosamente e rindo – Muita gente aqui deseja a muito tempo poder fazer isso com ele.

– Sério?

– Sim, a maioria dos renegados legais vai te agradecer – sorrimos e dai seguiu-se um silencio perturbador.

– Meninos?

– Sim? –falaram em uníssono.

– Será que...

– Ah é, claro, claro – sorriram envergonhados e saíram rapidamente do quarto se esbarando uns nos outros.

Rimos e eu entrei no banheiro para tomar um banho. Quando sai da ducha enrolada na toalha tomei um susto ao encontrar o Josh sentado na minha cama me olhando curioso. Fiz um esforço enorme para não derrubar a toalha devido ao susto e dei gritinhos correndo para o closet.

– Eu já te vi... Hum... Sem roupa sabe?

– Aquilo foi um momento de fraqueza seu idiota – rosnei e me vesti o mais rápido possível, pondo um short rasgado e uma blusa preta com tachinhas e de manga com a insígnia costurada sobre o meu seio esquerdo.

Sai do closet segurando um supra branco e ele ficou me encarado sentado na minha cama. O olhei inquisitiva e ele suspirou se jogando no meu colchão de molas. Levantei do chão após ter calçado os sapatos e o encarei irritada.

– Levanta e sai do meu quarto agora.

– Mas o que eu fiz?

– Você entrou no meu...

– JOSH! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO NO QUARTO DESSA IDIOTA?

– Ele estava com saudades de mim queridinha, esqueceu que eu fui a primeira da vida dele? – sorri cínica – E pelo visto a única né? – olhei para ele e sorri fofa o deixando confuso.

– O QUE?

– É isso mesmo que você está ouvindo minha querida – me aproximei do garoto e pus as mãos em seu rosto o levantando para que olhasse para mim — Não é meu amor? – dei um selinho nele e a garota quase voou para mim, mas foi como se tivesse batido numa barreira mágica invisível.

– Eu ainda vou me vingar de você! – ela saiu respirando fundo como se estivesse relinchando.

– Vou esperar sentada querida! Não demora muito não.

– AAAARGH! — ela berrou e saiu fechando a porta com um estrondo.

– Agora você. Sai também – apontei pra porta e ele levantou atordoado – Anda, sai logo! – abanei as mãos e ele saiu.

Quando ouvi o clique me joguei na cama respirando fundo, mas alguns segundos depois a porta abriu novamente e eu fui praticamente arrastada para fora do quarto pela Bia. Grunhi e nós nos teleportamos até o refeitório cheio de alunos. Todos me olharam ao mesmo tempo, como sempre e ao decorrer do tempo que eu usei para ir até a mesa as pessoas ficavam me encarando. Alguns sorrindo e acenando outros com hostilidade no olhar. Antes de chegar ao grupo que me esperava, desviei para a mesa das comidas e enchi um prato com várias coisas deliciosas. Peguei uma coca cola e fui em direção à mesa, mas no caminho a mestra de vermelho me parou.

– Preciso conversar com você.

– Eu só preciso comer alguma coisa e logo irei ao seu encontro – murmurei e ela me olhou com uma expressão meditativa.

– Tudo bem. Mas coma rápido, estou te esperando na minha sala em exatamente uma hora. Nem um minuto a mais.

– Já entendi – sorri falsa e ela balançou a cabeça resmungando.

Continuei a andar até a mesa e fui parada por dois garotos altos e fortes. Pareciam ser gêmeos e era muito bonitos com os olhos castanho mel. Suspirei irritada e ele me deram um sorrisinho presunçoso.

– Vocês têm exatamente dez segundos para me dizer o que querem.

– Sabe, a gente queria saber se você não quer marcar um programa com nós dois e... – nem deixei o garoto terminar e quebrei o prato que eu estava segurando na cabeça dele.

Ouvi o crack e os cacos se espalharam pelo chão. Senti o sangue escorrer pela minha mão mas aquilo estava acontecendo de novo. Eu não conseguia enxergar e tudo que eu sentia era apenas o ódio pulsando dentro de mim. O meu corpo inteiro começou a tremer e eu rosnava e grunhia. Senti a magia que vinha abaixo de mim, dos confins da terra e a chamei com vontade. Os galhos se enroscaram nos meus braços e deles foram até o pescoço do outro que segurava o amigo desmaiado. Ele começou a ficar vermelho e a tentar tirar as raízes que se prendiam nele. Senti um calor se formar ao meu redor e de repente com a fumaça minha visão voltou ao normal e eu cai atordoada no chão. Olhei ao redor e os dois garotos estavam desacordados no chão e eu estava com um círculo de fogo ao meu redor. Todos me olhavam assustados olhando cada um para cara do outro tentando ficar o mais afastado possível de mim.

Levantei-me e pus-me a correr para longe para dentro da floresta, ouvindo os gritos dos meus novos amigos e da diretora vermelha. Corri até quase atingir um muro de pedra que circundava todo o colégio. Pulei em um dos galhos da árvore mais próxima e fui subindo até chegar num galho perto do muro e saltei me segurando na borda e subindo. Sentei-me no muro e fiquei observando a rua. Ouvi um farfalhar de folhas perto de mim e me surpreendi ao ver o Ricardo ali. Ele sorriu pra mim e começou a manipular a terra ao redor dela para que ela o elevasse e ele pudesse sentar no muro comigo.

– Tudo bem?

– Não.

– Porque você surtou daquele jeito?

– Bom, eu descobri que o Lucas andou mostrando fotos intimas minhas e espalhando boatos que eu fui prostitua no Brasil. Aqueles garotos me perguntaram se eu não gostaria de fazer um programa.

– E você explodiu de ódio.

– Sim. Ficou mais intenso depois de ter sido explorada por muito tempo. Eu conheço o Lucas e o Josh desde a quinta série, lá no Brasil.

– Por que o loiro tem tanto ódio de você?

– Porque eu beijei o Josh e o escolhi enquanto estávamos namorando. Ele surtou e começou a me perturbar de todos os jeitos. Um dia eu estava numa boate e bebi demais. Quando eu acordei, estava no quarto dele apenas de peças intimas. Eu me senti uma vadia. Quando cheguei em casa e abri minha bolsa, vi notas de cem reais e então quando eu fui devolver no dia seguinte no colégio ele começou a espalhar um boato de que eu havia me vendido pra ele. E agora eu descobri que ele tirou fotos minhas e espalhou para metade dos garotos.

– Sabe, eu fui um dos garotos que viu as fotos – enrubesci violentamente – E apesar de ter gostado de ver... Bem, você. Deu pra perceber que você estava bêbada. E na verdade, a maioria dos garotos não achou certo o que ele fez. Só os que andam com ele para todos os cantos. Como aqueles garotos que você quase matou – ele me olhou e eu abaixei a cabeça – Sabe, se a diretora tivesse deixado seria um alivio para toda a sociedade, eles eram uns retardados mesmo.

– Eu não deveria estar aqui. Não tenho nem uma semana de estadia e já estou me metendo em brigas.

– Não é isso, você só tem que aprender a controlar sua raiva e não sair por ai tentando matar as pessoas. Se você quiser posso te ensinar a lutar. Quem sabe assim você não descarrega toda a sua raiva nos sacos de areia e não nas pessoas? – ele se aproximou sorrindo e eu me empolguei.

– Você me ajudaria? – ele abaixou o rosto até ficar bem perto e olhar nos meus olhos.

– É claro que sim – então ele me beijou.

Começou como um beijo muito calmo, delicado. Ele segurava meu rosto com leveza como se tivesse medo que eu quebrasse. Como se eu fosse uma boneca de porcelana. Mas eu sabia que não era isso. O empurrei e ele quase se desequilibrou mas eu o segurei pelo braço e ele me abraçou desajeitado para não cair. Ofegante estabilizou-se no muro e me olhou confuso.

– Desculpe se eu fui longe demais, ou rápido demais, é que...

– Não foi isso. Eu só não posso beijar alguém que tem medo de mim.

– Eu não tenho medo. Eu só...

– Você tem medo que eu surte e vire uma louca desvairada. Aqui não tem ninguém pra te salvar não é? – suspirei – Olha, só vai embora tá bom? Me deixa sozinha aqui por favor – me encostei no tronco da árvore e respirei fundo olhando para o sol que começava a subir no céu lentamente.

Ouvi o suspiro lento do Ricardo e depois não vi mais nada. Apenas continuei fitando o amanhecer com extremo pesar. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo de novo. E dessa vez eu poderia ter matado três pessoas. Claro que eu não ficaria com tanto peso na consciência, mas ainda assim eu não quero ser que nem eles. Uma assassina. Não, eu faria a mesma coisa que minha mãe se eu não despertasse o dom da cura. Eu iria embora daquele lugar para sempre. Respirei fundo e depois soltei o ar lentamente, sentindo o calor do sol tocar meu rosto levemente.

Notas finais
É isso, beijos, espero que tenham gostado. Comentem e favoritem ;3