Suspeito Macabro

1 Suspeito Macabro


A casa do Soares sempre fora muito calma e misteriosa. De todas as residências da região, ela era a única que jamais se iluminava nas noites, ficava em plena escuridão todas as horas do dia como se estivesse abandonada há anos. Os vizinhos, embora achassem estranho tudo isso, sabiam que essa hipótese de abandono não era verdadeira, mesmo porque, o senhor Soares sempre deixava o seu lar pelas manhãs por algum motivo, também incerto. Os intrometidos cronometravam sempre o horário no qual o dono da casa saia, às seis horas da manhã, mas nunca saibam em que horas regressava de seu compromisso. Era como se ele nem mesmo voltasse, mas lá estava Gilberto Soares novamente deixando sua casa, sempre com roupas escuras e longas, andando a passos furtivos e receosos carregando uma grande maleta de couro.

Aquela manhã do dia vinte e dois de agosto não foi diferente... pelo menos, para o Soares.

Seis horas da manhã

Artur, um dos moradores da Rua Terceira e vizinho de frente a casa do Soares, sempre fora apaixonado por filmes de terror e suspense. Aos cinqüenta e cinco anos de idade, sua paixão pela arte psicótica ainda prevalecia. Naquela manhã, ele fez questão de pausar “Um Corpo que Cai” só para confirmar os boatos que apenas ouvia, mas que jamais tinha visto: a saída misteriosa de Gilberto. Ele entreabriu a janela de sua sala e com o olho esquerdo espionou ao redor.

Sorriu satisfeito ao vê-lo sumir pelo beco escuro da rua. Era como se estivesse vivendo em uma história macabra. Sentiu-se em um dos filmes de Hitchcock.

“... E ao deixar o seu lar, o senhor estranho que mora à minha frente desapareceu na escuridão, deixando-me curioso. O que esconde ele em sua maleta?”.

Sete horas da noite

Artur ainda esperava o retorno de Gilberto. Observava todos os cantos da casa com a ajuda de um binóculo velho e empoeirado que acabou achando em sua estante. A sensação de perigo era deliciosa! Jeff deve ter se sentido deste modo em “Janela Indiscreta”, pensou.

E então, algo realmente curioso apareceu. Uma sombra estampada em um dos muros da casa de Soares. Logo, a silhueta delgada e frágil de Gilberto apareceu aos fundos do imóvel. Se Artur não estivesse com aquele binóculo, talvez ele jamais o tivesse visto regressar. Quem sabe nem mesmo estivesse prestes a mergulhar em seu destino cruel e sangrento.

Vinte e três de agosto, cinco e cinqüenta da manhã

“Ainda nada. As luzes continuam apagadas, o portão range, bate contra o vento e a porta insiste em ficar trancada. Essa tensão é diferente... Não é como nos filmes”.

E como num impulso repentino, Artur largou o binóculo em cima de seu sofá de couro, abriu a porta e deixou a casa...

Estava frio, muito frio. Seu corpo tremia e pedia por mais agasalhos. Ele lançou uma rápida olhada para o seu relógio. Negou com a cabeça, não poderia voltar a sua casa, estava quase na hora.

A casa

A porta se abriu com um rangido agudo. Gilberto olhou para todos os lados para garantir que ninguém o observava. Trancou-a rapidamente e saiu, com a mesma maleta de sempre, com os mesmo trajes escuros e com o mesmo propósito.

Artur estava escondido atrás do fusca do velho Oscar. Estava aliviado. Podia pôr o seu plano em prática sem que fosse percebido.

Dirigiu-se até o pequeno quintal dos fundos, algumas das cercas que rodeavam a casa de Gilberto estavam quebradas e a imagem da avenida agitada tornava-se vista.

“Há uma porta nos fundos da casa, esta se encontra trancada, mas será fácil romper sua tranca”.

Artur pegou um pedaço de ferro que estava largado no gramado e o lançou na porta. A tranca de madeira se quebrou e a porta finalmente estava livre.

O interior da casa era escuro e úmido, com um cheiro insuportável de naftalina. Conforme Artur andava no chão revestido de tacos de madeira, sua bota rangia. Retirou uma lanterna de seu bolso e iluminou uma estante lotada de livros. Desviou-a para uma mesinha na qual papéis balançavam com o vento. Sobre eles, um porta-retrato os mantinham como peso.

“Tudo é muito estranho. Terei de ficar aqui durante um bom tempo para verificar o que Gilberto esconde. Qualquer coisa, estarei com o meu celular e será fácil a comunicação com a polícia”.

Seis horas da noite

“O tempo passou muito rápido, nem senti fome. Já verifiquei todos os quartos, mas não vi nada que entregasse o que Gilberto faz. Estava pronto para deixar a casa, mas será impossível o fazer. Escutei barulhos lá embaixo. Acredito que Soares já voltou”.

Os degraus rangiam a cada passo que Gilberto dava. Ele estava preocupado com aquilo. Sabia que alguém estava ali. Apertou o bolso de seu manto, sentiu o punhal e ficou mais despreocupado. Continuou subindo as escadas, evitando até mesmo respirar.

- Boa noite! – exclamou Artur iluminando a face de Gilberto.

Soares levou a mão a sua face, largando a maleta no chão. Não esperava aquela luminosidade súbita em seus olhos. Rapidamente, com a outra mão retirou o punhal de seu bolso e o mirou para frente.

- O que esconde aí? – perguntou Artur, assentindo para a maleta.

Gilberto permaneceu calado.

- Temos que terminar isso! Vamos, responda!

Gilberto estava desesperado, a agonia estava estampada em seus olhos negros. Temeroso, desceu as escadas desesperadamente com o intuito de fugir.

Artur correu atrás dele, tropeçou na mala e sua lanterna foi lançada para longe de seu alcance. Levantou-se rapidamente, mas antes de continuar a perseguição, quis olhar dentro da maleta misteriosa. Fechou-a com um olhar de desprezo ao ver seu conteúdo sem valor... Eram gravatas.

Desceu as escadas velozmente e notou que Gilberto tentava, sem bons êxitos, abrir a porta da entrada.

- Descobri que ela estava quebrada. – apressou-se a dizer Artur, já no andar debaixo. – Ela só abria por dentro, mas era impossível de o fazer pelo lado de fora. Tentei concertar para você, mas acho que não deu certo, não é mesmo? Acho que agora nem abre pelo lado de dentro.

Gilberto novamente mirou o punhal para Artur, enquanto respirava com dificuldade.

- Que final cretino! – exclamou Artur. – O misterioso é na verdade um vendedor de gravatas... Temos que reverter essa situação, senhor Soares...

Ouviu-se um único e desesperador grito que se ecoou por todos os lados.

Artur olhou para o corpo de Gilberto jogado no chão em meio a uma poça de sangue. Sorriu satisfeito. Retirou o punhal de seu peito, pegou uma das folhas que estava embaixo do porta-retrato e escreveu com a lâmina afiada:

“Tive que sacrificá-lo, a história precisava ter um fim melhor...”.

Ele despiu o cadáver e pegou as suas roupas. As vestiu e passou um pano úmido na marca de sangue que ficara na camisa. Olhou para o corpo, depois para a mala de couro... Aquilo só estava começando, pensou.

“Gravatas! Que coisa mais idiota de se ter na maleta de um senhor misterioso... Acho que está na hora de colocar algo melhor em seu interior...”

E, sorrindo maliciosamente, concluiu:

“... De preferência, um corpo...”

Notas finais
Dedicado a Alfred Joseph Hitchcock (13/08/1899 - 29/04/1980)
Mestre do suspense,
Grande inspirador.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!