Susana, a gentil traidora.
1 Um adeus
Aquilo estava acabando com ela. Como poderia se despedir de todas as pessoas que ela amava para sempre, sem nem ao menos ter outra chance de vê-los, vivos e felizes. Esse tipo de coisa parecia acontecer muito, primeiro Caspian, agora eles. Todos eles.
A igreja estava cheia. Tanto o professor quanto seus pais tinham muito amigos, além dos próprios amigos da Susana que foram na intenção de confortar a garota. Ela afagou a barba do professor Kirke tendo em mente que não ouviria mais suas histórias. Então colocou uma carta dentro do seu bolso, na esperança de desculpar-se e aceitar que teria que viver sem eles Susana fez uma carta para cada amigo e familiar morto naquele maldito acidente de trem, mas já havia algo ali. Um pacotinho vermelho, ao olhar dentro se deparou com os famosos anéis que por ventura vieram a apresentar-lhe Narnia.
Algo a fez olhar para o lado, talvez a mudança de local ou o desaparecimento do corpo do professor Kirke e dos outros. Era uma lembrança de algo tão real que quase a fez sentir o cheiro da água salgada. Lúcia corria para a água, se livrando de seus sapatos e uniforme. Logo outra Susana, Pedro e Edmundo corriam atrás. Naquele momento estivera feliz, que fora mais feliz do que o imaginado e infelizmente só percebera isso agora. Reparou no sorriso de Lucy e suas pernas fraquejaram. Ao piscar seus olhos estava novamente na igreja, escondida em meio as lágrimas com um pacotinho vermelho em suas mãos. Um pensamento quase a alegrou, eles poderiam estar em Narnia. Vivos em algum outro lugar. Sua esperança se dissipou, pois se eles estivessem em Narnia seus corpos estariam vivos e os anéis teriam ido junto.
Voltou-se para a Srta. Polly, depois para seus pais, que se encontravam em um mesmo caixão, mas ao se deparar com seus irmãos sentiu uma dor profunda, não conseguia se despedir. Queria que eles não tivessem morrido, seria mais fácil suportar tudo isso com eles e se morrer fosse inevitável queria ter morrido como uma rainha de Narnia e não como uma traidora. Nunca dera tanta importância para as roupas de grife, só queria despertar o respeito deles de alguma maneira. Talvez de uma forma racional. Queria que eles a admirassem já que em Narnia ela era apenas gentil e bondosa, enquanto todos eram úteis.
Naquela noite Susana não foi deixada em paz. Os sonhos a aterrorizavam e faziam-na acordar durante a madrugada naquela casa assustadoramente vazia. Em todos os sonhos Edmundo aparecia dizendo que agora eles finalmente tinham algo em comum, não importava se Susana estava andando de bicicleta em um caminho cercado de lava ou em uma fogueira com pessoas a chamando de traidora. Ele aparecia e dizia a mesma coisa, sempre ao lado de Jadis. Precisava fugir. Pegou o saquinho vermelho dos anéis e tocou no amarelo ao piscar os olhos já se encontrava no bosque entre mundos.
Só existia um lugar onde ela gostaria de estar.
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