Susana, a gentil traidora.

8 Os vinte segundos.



– SUSANA! SUSANA! – Ela ouviu um berro ao longe.
– Lu? – Sussurou.
– Su! É você mesma? Você conseguiu. Minha irmã! – Susana abriu os olhos, viu uma garota jovem, aparentemente mais velha que ela e muito bonita. – Pela juba do leão, você conseguiu!

Os olhos de Susana se encheram de lágrimas, era ela mesma, Lúcia. E por Aslan, como ela estava bonita e alta. Ela podia ter mudado, mas sua recepção calorosa continuava a mesma. Ela ajudou Su a sentar e a abraçou. Ela estava forte, ou a Gentil estava fraca de mais, apenas posso relatar que Susana sentiu que seus ossos iriam se quebrar. Demorou alguns segundos para controlar a respiração e perceber o cavalo branco parado a alguns metros delas e mais pessoas chegando ao horizonte. Lúcia desatou a chorar, então Susana não conseguiu se conter. A alegria era tanta, que seria quase impossível tentar relatar. Pedro pulou do cavalo quando o mesmo ainda estava em movimento, o cavalo parou não muito longe do local onde elas estavam. Susana juntou suas forças e aos tropeços correu até Pedro e Edmundo que também vinham correndo pelo horizonte. Pedro colidiu com ela já a abraçando e tirando seus pés do chão, ele parecia uns quatro anos mais velho. Susana reprimiu um gemido e passou os braços em volta do pescoço do irmão mais velho e de Edmundo que tinha se juntado a eles em um abraço coletivo, seguido por Lúcia.

Todos começaram a rir e Susana fez uma careta, em meio ao riso e as lágrimas.
– Parem de rir. Vocês não sabem o que eu passei.
– Minha irmã, posso deduzir que roupa é que não foi. – Disse Pedro.
– Cala a boca, Pedro. – Ele sorriu, provavelmente fazia tempo que alguém não lhe dava uma ordem.
– Você está horrível. — Disse Edmundo.
– Eu não esperaria estar de outra forma. — Susana sorriu, mas logo se distanciou deles, que estranharam a repentina mudança de humor da garota.
– Su… — Chamou Ed.
– Me desculpem… Me desculpem! – Disse ela secando as lágrimas, estava na hora de parar de chorar. – Eu as abandonei. Eu os traí e traí a Narnia.
– Finalmente temos algo em comum, certo? – Falou Edmundo segurando o braço da irmã.
– Não! Não! Você foi influenciado pela feiticeira. Você não teve escolha, eu tive.
– Eu tive. Poderia ter contado que Narnia era verdade, mas escolhi fazer as coisas da maneira mais difícil. Você também teve uma escolha, mas cada vez a ganância lhe subia mais a cabeça, e a ganância, minha querida Susana, é uma inimiga terrível. Você podia ter nos escutado, mas não o fez. Escolheu fazer as coisas da maneira mais difícil. – Respondeu ele puxando Susana para seus braços e sussurrando em seu ouvido. – Não somos, nenhum pouco, diferentes. Minha irmã, de quatro reis, apenas três estavam destinados a retornam em tempo enquanto a outra seria provada ao máximo sua determinação. Destes quatro reis, irmãos, ela se perderia em suas próprias emoções e medos. De dois irmãos, um traidor destinado a se arrepender. De duas irmãs, uma traidora destinada a se arrepender. De uma história, uma lenda. Nós.

“Nós”. Ela ainda fazia parte da equipe, mesmo achando que isso não era justo com eles ficou feliz, como não ficaria. Afinal, Edmundo, Lúcia e Pedro sempre fizeram parte de Susana e vice e versa. Eles se completavam.

Susana foi conduzida até o castelo desmaiada e Lúcia teve uma noite trabalhosa, pois a gentil estava em uma situação pior do que qualquer um deles imaginara. Lúcia tinha decidido tratar de sua irmã ela mesma, mas nada parecia estar fazendo efeito, a febre aumentava cada vez mais e a Gentil tremia. Lúcia já começara a se desesperar e pensar que não teria mais muito tempo perto da irmã. Antes o antidoto já lhe proporcionara salvar a vida de um irmão, e ela sorriu com o pensamento, Edmundo e Susana tinham tanto em comum. A primeira gota do antidoto havia sido usada para salvar Edmundo e a última para proteger Susana.

Caspian entrou correndo pelo quarto com os olhos arregalados.
– É verdade?! É verdade? – Disse ele olhando para Lúcia. – Susana… Ela está aqui?
Lúcia não se deu ao trabalho de responder, pois sabia que ele não estava mais a ouvindo.
– Susana! – Ele falara sem conseguir controlar as emoções em sua voz. Correu para a beirada da cama e começou a segurar uma das mãos da rainha adormecida.
– Ela vai... – Ele não conseguiu terminar a frase.
– Não. Ela vai ficar bem. – Disse Lúcia erguendo o frasquinho. – Uma última gota muito bem utilizada.

Caspian se ergueu e abraçou Lúcia tirando-a do chão, a garota riu.
– Shiiii! Não faça barulho, ela está descansando.
– Me desculpe. – Falou ele se sentando ao lado da cama dela novamente.
– Vá descansar Lucy, cuidarei dela.

Lúcia não se contrapôs a ideia, pois estava mesmo muito cansada. Algumas horas depois Susana acordou assustada, achando que tudo tinha sido um sonho, lágrimas se formaram novamente em seus olhos antes que ela pudesse perceber que estava mesmo em Narnia. Ela voltara. Finalmente.

Se assustou ao perceber a presença de outro individuo em seu quarto. Um homem sentado no chão ao lado de sua cama, ele cochilava com o esboço de um sorriso em seu rosto, parecia estar sonhando com algo bom. Ela se abaixou. Aqueles cabelos negros na altura dos ombros. Aquele sorriso. Uma barba rasa crescia sobre seu rosto, dava para ver que ele tinha raspado, o que era engraçado, ela não sabia por que, mas achava engraçado. Colocou as mãos em seu rosto e ele abriu os olhos devagar e sonolentamente. Aqueles olhos negros, ela nunca se esqueceria deles, não importando quanto tempo passasse. Caspian.
– Minha rainha. – Disse ele colocando as mãos em cima das dela e se levantando.
– Caspian...? – Sussurrou insegura.

Caspian a encarava, seus olhos negros estavam nublados como em uma tempestade. Ele não conseguia formar qualquer frase. Sua alegria era imensa. Susana afundou o rosto eu seu pescoço. Ele cheirava, levemente, a baunilha.
– Eu senti saudade. – Conseguiu falar após muito tempo. – Achei que nunca mais a veria.
– Você não sabe o meu desespero ao saber que eu não voltaria mais, eu não conseguia parar de pensar nesse lugar, e a única maneira de não me lamentar por não estar aqui era esquecer. E eu esqueci, esqueci de tudo, eu fui um pessoa horrível.… — A garota soltara as palavras como uma cascata.
– Tudo bem. – Ele a interrompeu, como se já soubesse o que ela ria dizer. – Você pode ter traído Narnia ou ter traído o que quer que seja, mas você nunca vai deixar de ser uma narniana, porque isso esta dentro de você e não importa quantas vezes você tenha traído esse lugar, você se arrependerá e assim poderá voltar para cá, pois esse lugar é o seu lar. E você é o meu lar.

Susana sentiu uma leve pontada de medo, a última vez que estivera assim tão próxima dele fora durante um beijo de despedida há fora a milhares de anos e achara que nunca mais o veria, por isso tinha o feito, mas agora isso parecia tão constrangedor. Ela começou a corar e se repreendeu por isso , mas nenhum homem no outro mundo ou em Narnia a atraíra como ele. A porta foi aberta sem nenhuma cerimonia e Susana se afastou mais rápido do eu achava possível de Caspian. Edumndo sorria da porta.
– Me desculpe se eu atrapal…
– Eu tenho que ir. – Disse Susana subitamente fazendo o queixo dos dois homens no cômodo caírem.
– O que você está falando? – Perguntou Caspian.
– Você não vai a lugar algum. – Disse Ed.
– Ah, eu vou. – Respondeu Susana pegando as suas flechas e transpassando por suas costas e em seguida pegando o arco.
– Susana, eu não sei o que você está pensando, mas Aslan…
– Eu deixei uma amiga do outro lado, prometi voltar caso achasse o lugar. – Ela disse indo em direção a porta. — O que você ia dizer sobre Aslan?
– Ele está a sua espera.

Uma pedra afundou seu estômago e ela sentiu uma profunda vontade de vomitar. Seria medo de ser expulsa dali? Ou medo de ver Aslan com um olhar decepcionado?
– Onde ele está? – Perguntou engolindo em seco.
– Na sala dos tronos, com Pedro e Lucy.

Susana se virou e correu, como uma doida, as pessoas eu passavam por ela no corredor paravam para observa-la. O caminho se estendia. Ela queria acabar de uma vez com aquilo, vinte segundos de coragem, tudo que ela precisava, não poderia deixar os vinte segundos se passarem antes de estar frente a frente com Aslan. Caspian e Edmundo vinham logo atrás dela, com uma diferença considerável. A porta se estendia por toda a parede. Ela a abriu com cautela.

A pelagem dourada iluminava o salão.

Notas finais
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