Susan of Narnia
4 Sem Conserto
Notas iniciais
Susana havia sido convencida naquela madrugada de que Nárnia era mais que uma brincadeira infantil. Era real. Ela esteve lá. Insistiu e procurou por Edmundo quando a Feiticeira Branca o levou. Viu Aslam morrer no lugar de Edmundo com Lucia. Também o viu ressuscitar e derrotar a Feiticeira Branca. Reinou com seus irmãos. Foi chamada de Susana, a gentil. Foi considerada a melhor arqueira. Ela ajudou Caspian e Pedro a lutar contra os telmarinos.
— Como pude ser tão idiota? – ela se perguntava andando pela casa de manhã.
Lá fora a neve ainda caía. O sol nem aparecia com tantas nuvens no céu.
— E-eu... Eu não ajudei quando eles precisavam de mim. – Susana sentiu raiva de si mesma. – Ah! Mas que droga! – ela jogou revistas no chão. – Meus irmãos morreram, Eustáquio morreu, o professor Kirke e a Polly morreram. Todos realmente fazendo algo e eu mais preocupada com minhas festas e maquiagem.
Sentando-se no sofá ela começou a chorar.
— Aslam... – ela disse. – Eu traí Aslam. Ah... Se você pudesse me ouvir Aslam... Se eu pudesse te ver.
Era demais para ela lidar. Um maremoto havia destruído a vida de Susana. Ela simplesmente não sabia como lidar com o que havia lembrado. Tudo estava diferente.
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O telefone havia tocado 77 vezes. Nenhuma daquelas vezes Susana atendera. Estava em sua cama, chorando o dia inteiro. A cabeça explodia com a dor. O nariz entupido. O rosto inchado. Porém ela não aguentava mais ouvir o toque do telefone então ela atendeu.
— Susana? Graças a Deus! Você está bem? Estou ligando há horas.
— Desculpe, Richard. Eu não estou muito bem. Era importante?
— Sua voz... Você está doente?
Susana estava desapontada. Ele não reparou que ela estava chorando. E ele era seu noivo.
— É. Isso. A nevasca me fez adoecer.
— Oh, baby. Se eu pudesse iria te ajudar, mas tem por volta de três metros de neve lá fora.
— Não se preocupe.
— Está tudo bem mesmo?
— Está. – ela deu uma breve risada. – Tenho muito chá, remédios e vou repousar. Obrigada pela preocupação.
— Posso ajudar em alguma coisa?
— Na verdade, sim. Podemos adiar as coisas do casamento? Só para a semana depois da que vem.
— Ahm... Tudo bem. O que você quiser, baby. – pela primeira vez em muito tempo parecia que ele não falava de maneira mecânica.
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Depois das quatro, Susana passou um bom tempo vasculhando suas coisas antigas. Estava cansada de chorar e também estava incapaz de continuar chorando, nenhuma lágrima caia.
Achou uma carta de Pedro quando ela se recusou a ajudá-los a achar uma maneira de voltar para Nárnia, pois ela achava que tudo era uma brincadeira que eles levavam a sério demais.
— Querida Su... – ela leu triste.
Querida Su,
Recentemente temos dificuldades em nos mantermos juntos, como antes fazíamos sem esforço algum. Sabemos que você está vivendo uma nova fase e quer aproveitá-la. Entendemos, realmente. No entanto, contávamos com você. Realmente queríamos que você nos ajudasse. Toda vez que falamos de Nárnia você nos trata como crianças bobas, mesmo eu que sou o mais velho.
Não escrevi esta carta para criticá-la, irmã. Escrevi, pois desejava que você tivesse uma última oportunidade de vir conosco. O que vamos fazer será importante. Um rei de Nárnia pede nossa ajuda. Você sempre se mostrou disposta a ajudar os outros e aqui está essa chance.
Por último, todos queremos que você sabia que independente da sua decisão lhe amamos muito e ainda queremos passar tempo com você. Quando isso tudo acabar, não deixe de nos procurar. Estaremos aqui. E se procurarmos por você primeiro, por favor, não nos ignore. Somos irmãos, mesmo que você não acredite no que acreditamos.
Seu irmão,
Pedro Pevensie.
Até mesmo numa simples carta Pedro mostrava ser compreensivo. Ela sentia falta da liderança nata de seu irmão mais velho, que sempre estava disposto a fazer a coisa certa (mesmo que às vezes, fosse levado por suas emoções).
O fato de a carta terminar com “estaremos aqui” piorou o humor de Susana. Porque agora eles não estavam. Claro que nenhum deles esperava morrer daquela maneira. Nárnia tinha uma linha de tempo diferente do mundo do qual eles eram. Então mesmo que eles passassem anos em Nárnia voltariam no mesmo dia e momento. Mas eles morreram...
Era como se Susana estivesse longe. Muito longe. Longe demais.
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Depois de dois dias a nevasca parou. Faltava apenas uma semana pra o Natal e Susana saiu de casa para encontrar com Dick num restaurante caro. Não havia muitos táxis nas ruas de Londres, pois a nevasca ainda afetava tudo.
Quem diria. Neva todo ano na Inglaterra e agimos como se nunca tivéssemos visto neve na vida. Ela pensava enquanto caminhava até um ponto de ônibus.
Nárnia e sua família ainda estavam em sua mente, porém estava mais fácil de esconder. Ainda estava um pouco perturbada, pois por muito tempo ela reprimiu qualquer pensamento que lhe fazia pensar que Nárnia era real. Em parte por ter outros interesses. Também por não querer mais ser uma criança.
O restaurante quase vazio estava bem quentinho comparado a rua. Ela tirou o casaco que foi guardado e foi guiada até sua mesa, onde Dick esperava, fumando um cigarro caro.
— Baby, bem na hora. Quer um? – ele ofereceu.
Susana aceitou e ele acendeu o cigarro para ela.
— Você... Está tudo bem?
— Claro. – ela sorriu. – Por que pergunta?
— Dois motivos, na verdade. O primeiro: você pediu para adiarmos os negócios do casamento. Segundo: você parece cansada.
— Estava doente. – ela mentiu. – Mas estou melhor.
— Que bom, baby. – Dick sorriu. – Vai querer o que?
Depois de um almoço confortável, Dick pediu drinks e os dois bebiam em silêncio. Susana não estava com muita vontade de conversar e Dick estava com o trabalho na cabeça.
— Mamãe quer saber se você vai querer ver vestidos nessa semana. – ele lembrou.
— Tenho que revisar artigos para a revista. Diga para sua mãe que ligarei dizendo quando estou livre.
— Revisar? Susana... Tem algo mais, certo? Foi algo que eu fiz?
Susana o olhou confusa. Ela terminou seu vinho e continuou a fumar seu cigarro o olhando sem entender. Estava pensando em todas as memórias que vieram à tona. Não percebeu que estava tratando o noivo de maneira diferente.
— Quer dizer, desde o evento beneficente você tem estado distante. Como se estivesse irritada.
— Não estou irritada. – ela disse. – Só pensativa. Vamos nos casar e... Eu sinto falta de minha família.
Dick ficou sério e apagou seu cigarro. Ele a olhou com compaixão durante alguns segundos e bebeu todo o resto de seu whisky em um gole.
— Desculpe, baby. – ele falou arrependido. – Eu consigo ser insensível, eu sei.
— Não se preocupe. – ela sorriu e ele beijou sua mão.
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No rádio tocava Tenderly de Rosemary Clooney. Susana bebia chá enquanto encarava o fogo da lareira em sua sala, com um casaco antigo. Ela fechava os olhos constantemente, tentando relaxar. O cheiro da lenha queimando era um tanto chato depois de certo tempo.
Caspian, Senhor Castor, Feiticeira Branca, senhor Tumnus, Nárnia, Aslam... Todas aquelas coisas voltaram para sua mente quando estava sozinha novamente. Agora parecia difícil reprimir aqueles pensamentos, já que eles se mostraram mais do que uma “brincadeira de crianças”.
Não poder voltar para Nárnia dificultava. Susana sentia que se pudesse estar lá mais uma vez até a dor de perder seus irmãos seria menor. Se pudesse olhar para Aslam mais uma vez, acariciar sua juba, ouvir sua voz majestosa... Talvez Susana se sentisse melhor. Mas perder seus irmãos, abandonar Nárnia... Tudo era demais para ela. Sabendo que não havia perdão, não havia como se redimir... Susana sentia-se ainda pior.
Eram erros demais que ela não podia consertar.
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