Quem muito promete pouco faz. Aprendi isso hoje. Estávamos todos preparados para fazer a missão, só não entendíamos para onde Dayton estava nos levando. Quer dizer, ele apenas caminhava, não voltava nem na estrada onde iríamos pegar a moto, apenas seguia andando. Caso alguém questionasse, ele sinalizava com a mão para fazer silêncio. Certa hora parei de lhe seguir, e Boston aderiu ao meu comando, parando também. Hartford se sentiu na obrigação de parar. Boston, como sempre, falou a coisa mais inútil que tinha para falar:

– Por que paramos? Hehehe...

– Por que eu ainda não entendi o motivo de estarmos entrando na floresta. Se o jeito de atravessa é com uma moto, por que ainda não fomos buscar uma moto? O plano não era aproveitar as balas e voltar para a floresta com uma moto?

– Eu mudei de ideia. Tem uma moto na floresta. Simples e rápido, não precisamos nem gastar balas. Só tem um problema: ela está nos limites da floresta. Alguém tem que ir comigo até o fim da extensão da floresta a leste, onde o lago é mais fundo, para pegar a moto. Enquanto isso, dois tem que ficar limpando a área da ponte, que é no centro. Aconselho que Boston venha comigo, que é um bom motorista. Os atiradores, que são o Orleans e a bicha má, limpam a área. Eu sou o líder aqui agora, estamos entendidos? A ponte fica no centro da floresta, Orleans, Hartford, para lá. Boston, venha comigo, vamos contornar a floresta e entrar na ponta dela.

– Certo senhor bolota!

– Bostão.

– Dayton, espero que dê tudo certo. Vem Hartford, e sem delicadeza, por favor.

Entrei na floresta em passos largos e rápidos. A leve brisa da noite fria de inverno estava no local. Curiosamente, essa brisa terminava em um belo assovio, que crescia conforme o tempo. Hartford estava com uma cara de besta, admirando a beleza daquele som, que se tornava assustador com a paisagem da extensa floresta arredondada. Árvores enormes de todos os tipos, na maioria frutíferas. Um pomar de maçãs fazia um pedaço do caminho, todos marcados com um X pintado a tinta. Hartford tentava pegar uma maçã, mas era baixinho demais para catá-la. Ele olhava para mim desesperado, mas eu apenas ignorava seu apelo e seguia estrada.

Mais adiante, me deparava com um bicho preso em uma espécie de forca. Ele não havia sido mordido ainda, porém suas pernas estavam presas a um galho, como se fosse para evitar ser devorado pelos bichos. Infelizmente, o homem que entregou sua vida a morte havia se transformado, de uma maneira ou de outra. Parei a caminhada e olhei para Hartford, um pouco surpreso:

– Esse bicho não havia sido mordido...

– E-e o que tem? B-bicho é bicho, quer dizer, e-eu acho...

– Se ele não foi mordido, ele não podia ter se transformando.

– T-talvez ele fora arranhado, sei lá. Ele tá morto, isso não importa mais...

– Você tem razão... Vamos andando.

Hartford não entendeu a minha dúvida, então fez pouco caso do assunto. Continuei a caminhar, mas ainda curioso sobre o que aconteceu com aquele rapaz que vestia terno. Voltamos ao assunto do dinheiro... Que diferença faz ter dinheiro em sua vida, se isso não vai lhe fazer nenhuma diferença na morte? No final das contas, não há razão para se trabalhar. Lazer na vida e nada na morte? Não entendo isso... Quer dizer, entendo, mas é diferente. Pessoa do futuro, estamos num mundo onde todos podem morrer a qualquer momento. Inclusive eu, enquanto escrevo essa porcaria de diário que ninguém vai ler, posso acabar sendo mordido, entende? É difícil essa vida de sobrevivente. E a vida de um escritor de diário sobrevivente é dez vezes pior. Gravar tudo, escrever tudo, descrever tudo.

Aquele homem pode ter aproveitado a vida com o dinheiro que tinha: vivido do luxo, da riqueza, mas no fim, nada adiantou. O futuro dele é igual ao meu, ao seu, ao de todos: a morte. Uma hora ou outra, todos morreremos, independente da situação: num apocalipse, num acidente de carro, numa caminhada matinal na praia, numa viagem ao espaço.

Queria ter sido amigo daquele homem. Podia ter pego uma daquelas roupas bonitas para usar nesse apocalipse, e não essa roupa mesquinha que arranjei numa dessas casas abandonadas. Quer dizer, minha roupa não é tão ruim quanto aquela camisa rasgada de decote V do Hartford, mas não deixa de ser ruim. Enquanto refletia sobre roupas, mal percebia que cinco bichos se aproximavam.

– ME AJUDA, CARAMBA! – gritava Hartford, sacando sua arma e atirando em um deles, que vinham correndo do norte.

– ESPERA EU PEGAR A ARMA! – dito isso, colocava minha mão sobre meu cinto de armas, e logo percebia que minha arma não estava ali. Alguém havia pegado.

– MINHA MUNIÇÃO ACABOU, VAMOS EMBORA! – dizia Hartford, correndo para sul, onde nós havíamos entrado.

Logo Dayton aparecia de moto na entrada da estrada, sem Boston. Hartford logo indagou:

– E-ele...?

– É...

– Chega de lamentações e vamos dar o fora daqui. – disse, empurrando Hartford para cima da moto, indo para algum lugar mais distante dali. Parecia ser uma daquelas casas de fazenda que Dayton havia dito antes, se localizando mais a leste da floresta, por onde Dayton fora com Boston. Ao chegarmos lá, Dayton falava:

– Nós fomos surpreendidos por um grupo deles logo que entramos na floresta... Ele começou a atirar neles enquanto eu pegava a moto. Eu subi na moto e quando ele foi subir, dois pegaram ele. Eu matei um com a moto, mas o outro continuava a abocanhar seu pescoço... Eu não consegui salvá-lo... Eu tive que fugir para norte, mas mais bichos estavam por vir... Eu apenas continuei pilotando, até sair para fora da floresta...

– Sinto muito Dayton, mas não temos tempo para pensar ou se lamentar. O que aconteceu com os bichos?

– Não sei, contornei a floresta, eram vários.

– Sei... Tem mais alguma rota de fuga?

– Só a ponte. Por que vocês estavam voltando?

– Minha arma sumiu, a munição dele acabou... Tinha bichos e fugimos.

– Merda... Eu até tinha algumas balas comigo, mas entrei para o Charlotte, ele iria saber como usá-las melhor que eu...

– O-o gordo ainda está no comando?

– Não Hartford... Os bichos estão no comando...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.