Poxa, a cirurgia do Bostão foi encerrada com sucesso. Mobile e Orlando saíram para fazer uma investigação nos arredores da cidade, já que recebemos um sinal de rádio de duas pessoas. Elas pareceram não notar nossa presença no sinal. Sabe, temos um cara nerd no nosso grupo. Ele deu um jeito de fazer todos os sistemas de rádio se ligarem ao nosso gravador, aonde falamos diariamente sobre nosso acampamento. Essas duas pessoas, sem querer, ligaram o rádio, mas deixaram quase no mudo. Era uma voz masculina e uma feminina. Pelo amor do santo zumbi, não morra alma feminina! Preciso de você, sabe.

Dayton, o gordo idiota e Charlotte, o cara fera, saíram para buscar suprimentos na cidade vizinha. Ter oito seres humanos masculinos e esfomeados num casebre sem comida é como sair pelado no meio da rua cheia de zumbis. As barrigas desses idiotas ronca mais que o meu pai dormindo. Ah, papai... Como queria que o senhor tivesse morrido antes desse apocalipse. Quer dizer, eu preferia que você morresse esfaqueado, asfixiado, esmagado, queimado a morrer com uma mordida de um desses comedores de tripa.

Vamos aguardar por notícias. Neste momento estou comendo a última sanduba da casa no banheiro, aguentando o cheiro do cocô do Dayton. POXA GORDO, VAI SE FERRAR! FAZ DO MEU PRIVILÉGIO UMA COISA NOJENTA! MORRE DIABO! QUEIMA! JOGA SAL! É DEMÔNIO!

Aff. Vamos ver até quando eu aguento esse gordo. Ele consegue me atrapalhar até quando não está aqui. Ele que deveria se chamar Bostão. Aff.

Dia 464, 12:36

Dayton e Charlotte chegaram junto com Mobile e Orlando. Parece que não há sinal dos viajantes que passaram por aqui. Segundo Mobile, havia sangue recente espalhado pelas estradas ao redor. Parecia ser humano, não de zumbi. Quer dizer, tanto faz, apenas quero dizer que o sangue de zumbi é mais escuro do que o sangue humano. O deles parece estar podre. É uma coloração preta, sei lá. A única coisa que sei é que Dayton é um retardado que descobriu o esconderijo de minha sanduba. Ela estava metade comida e mesmo assim o gordo foi lá e comeu.

Já estava desistindo daquele dia idiota. Parecia existir uma garota, ela sumiu. Parecia existir uma sanduba, ela sumiu. Poxa cara, assim fica difícil. Tipo, MUITO difícil. Já não basta aguentar o gordo, aff. SIM, ISSO ESTÁ FICANDO REPITITIVO. Isso era para ser um diário de aventuras bombásticas nesse sangrento mundo dos bichos, mas NÃO, NÃO É. Isso é meu dia a dia: um tédio do caramba que se resume em ter que aguentar um gordo.

Hoje tive que aguentar Hartford, além das gordisses do Dayton.

– O-o-oi... Quer dizer... É... É... Eu, é... Eu que... Quer dizer, eu...

– Desembucha logo, ô afeminado.

– OLHA OS MODOS COMIGO, ORLEANS! Eu... E... Eu... Eu gritei com você, desculpa... Quer dizer...

– Ui bicha má.

– Relaxa aí, Orlê – Mobile se aproximava – Ele é mariquinha, pode ter dificuldades em se expressar, HAHAHAHAHA!

– Sinto muito se transmito essa imagem, que dizer... Ah, eu quero morrer! – Hartford, nesse exato momento, corria para a rua, levando uma pistolinha. Ele começou a atirar delicadamente nos zumbis que estavam no redor. Como se eles fossem sentir dor. Eles estão MORTOS, sabe o que é isso? Aff, pelamor. Vou ver se faço outra sanduba com o que o Charlotte trouxe. Dessa vez, se for pra esconder, vou esconder longe do Dayton. GORDO MALDITO!

Dia 464, 14:05

EU NÃO ACREDITO! A MULHER ATENDEU A LIGAÇÃO DO RÁDIO! Cof, eu fiz questão de anotar o que ela disse. Palavra por palavra, letra por letra, sílaba por sílaba, frase por frase. Por favor garota, não morra. Precisamos de seus peitos, quer dizer, cof.

– POR FAVOR, ALGUÉM RESPONDA! TEM ALGUÉM AÍ? ESTOU FALANDO DE UMA TORRE DE RÁDIO NUMA CIDADE VIZINHA DE KNOXVILLE. TEM ALGUÉM AÍ?

– SIM – respondi, tirando o walkie-talkie da mão de Mobile. – QUEM É VOCÊ?

– MEU NOME É BELLA, VENHO DE BEVERLY HILLS COM MEU IRMÃO, JONES. POR FAVOR, ME DIGAM ONDE VOCÊS ESTÃO, PRECISAMOS DE AJUDA.

Mobile arrancara o walkie-talkie de mim.

– Não podemos falar quem somos. Apenas responda nossas perguntas. Quantos vocês são?

– POR FAVOR, NOS AJUDEM! SOMOS DOIS, APENAS EU E MEU IRMÃO.

– Quantos zumbis vocês mataram?

– VÁRIOS! MEU IRMÃO É UM ÓTIMO CAÇADOR, E EU SOU MUITO INTELIGENTE!

– Quantas pessoas vocês mataram?

– POXA, PARA DE PERGUNTAS CARA! NOS SALVA, EM BREVES MOMENTOS VAMOS SER MORTOS.

– Responda.

– CINCO! MATAMOS CINCO PESSOAS! DOIS ERAM ESTRUPADORES QUE TENTARAM ABUSAR DE MIM. OS OUTROS TRÊS ERAM PESSOAS INOCENTES, MAS ESTÁVAMOS SEM SUPRIMENTOS... POR FAVOR, ENTENDA E NOS SALVE.

Naquele momento, Mobile desligou o walkie-talkie. Todos encararam ele, menos Charlotte. Dayton tentava empurrar Mobile para retirar ele da cadeira, mas uma flecha de Charlotte se atravessava na frente de Dayton, o impedindo de fazer tal ação. Charlotte apenas fizera aquilo por Dayton ser seu amigo. Comigo ele não faria, então não hesitei em empurrar ele.

– ERA UMA MENINA CARA! UMA MENINA!

– Eram assassinos.

– ELES ESTÃO EM PERIGO! NÓS SEREMOS ASSASSINOS!

– Nós não estaríamos matando.

– ESTARÍAMOS DEIXANDO OS BICHOS MATAREM-A! QUER DIZER, VOCÊ A OUVIU! ELE É UM BOM CAÇADOR, ELA É ESPERTA! VOCÊ ACHA QUE COM APENAS CHARLOTTE E DALLAS VAMOS SOBREVIVER?

– Está decidido.

– ISSO É UMA DEMOCRACIA.

– Relaxa cara... Todos pensamos assim. – intervia Dallas, bebendo mais uma garrafa de uísque.

– EU NÃO PENSO!

– Certo. Vamos votar. Quem vota na entrada deles?

Apenas eu e o gay levantamos a mão. Se eu não me garantisse, já ia achar merda. Aquele momento me embraveceu tanto que me fez catar o walkie-talkie do chão e ligar novamente. Eu não estava me importando com o que acontecesse, apenas queria que a garota vivesse. E NÃO, NÃO SOU TARADO. Sou desesperado, é diferente.

– Vocês ainda estão aí?

– EU ESTOU, POR QUE DESLIGARAM? VOCÊ É O CARA QUE FALOU COMIGO NO INÍCIO, POR FAVOR, ME AJUDA.

– Uma última pergunta. Quantas armas vocês tem?

– O SUFICIENTE PARA LIMPAR UMA CIDADE. INFELIZMENTE, O CARRO ONDE ELAS ESTÃO FICOU CERCADO DESSES BICHOS – parei de ouvi-la quando ela disse bichos. Era uma pessoa que falava como eu! –, POR FAVOR, NOS AJUDE.

– Somos um grupo formado por oito homens. Você viria sem problemas, mesmo sabendo que entre nós pode haver pessoas prontas para abusar de você?

– VOCÊS NÃO SÃO ESTRUPADORES, SÃO?

– Não. É uma pergunta, responda.

– SE FOR PARA SOBREVIVER, TANTO FAZ. MEU IRMÃO É A COISA MAIS IMPORTANTE PARA MIM, POR FAVOR, NOS AJUDE.

– Vou falar com o grupo.

Desliguei. Encarei fixamente para Dallas e Charlotte. Eles sabiam que eu estava certo. Faltava uma alma feminina e um outro homem bom de mira naquele grupo. Estávamos vivos apenas pelo toque de retirada, que fazia ficarmos em silêncio e na escuridão logo após as seis da noite. Os bichos não invadiam a casa por causa da cerca resistente e por causa do silêncio, mas era apenas por isso. E se um dia a merda da cerca cai? Como faz?

– Quer saber o que eu acho disso? Eu acho que eles não teriam coragem de nos matar.. Somos homens. Parecemos fracos, mas eles não sabem disso. Se mostrarmos quem manda, eles não vão nos atrapalhar NUNCA. E vocês ouviram o que eles falaram: eles tem armas. Vamos parar de mimimi e aproveitar, seus panacas. Eles tem uma garota. – dizia Dallas.

– Vocês não tão pensando em abusar dela, né? – Perguntava Hartford.

– De você que a gente não vai abusar, retardado.

– Olha, Dallas. – Charlotte largava seu arco e flecha, e se aproximava de Dallas – Eu vou sugerir uma troca. Não vamos abrigar mais ninguém aqui. Abrigar apenas o Dayton já dá prejuízo, ele e mais oito homens dá muito mais, e não quero ver nenhuma mulher grávida nesse lugar. Vai gastar muita comida. Vamos salvá-los e pegamos as armas. Damos comida para um dia de viagem e pronto. Ficamos com as armas e eles ficam vivos. Rápido e fácil, sem nenhuma sacanagem. Vamos precisar de armas.

– Eu estou com ele. – dizia o puxa-saco dele, Dayton.

Depois disso, o grupo resolvia ajudar a garota e o seu irmão. Vamos ver aonde isso vai dar.

Dia 464, 16:30