Survivors - O Novo Éden
2 Capítulo 1 - Lily
Notas iniciais
Há três anos eu reclamava de ser brasileira, porque não tinha os eventos que eu gostava os músicos dos quais era fã, as series e astros que eu amava e outras mil razões que eram importantíssimas e hoje não significam nada.
Morar no Brasil no contexto atual, na falta de uma palavra melhor, era ótimo. O solo em grande parte do país ficou estéreo, mas em algumas regiões o solo continua fértil, o que possibilita mantermos campos agrícolas. Carne se tornou artigo de luxo, os animais são criados em ambientes especiais, alimentados com ração e gramas sintéticas, dizem que isso não afetou no gosto da carne, mas é uma grande mentira, porque o que eles vendem tem gosto de tudo, menos de carne. Se você se importa mais com o ato de comer uma carne, do que com o sabor dela, se temperá-la bem conseguirá obter um gosto de carne velha.
A água era o X da questão. Para fazê-la durar ao máximo o governo disponibilizava doze míseros litros para uma família de quatro pessoas, ou seja, três litros por pessoa. É muito pouco, mal dava pra matar a sede, mas nos virávamos bem. Se tivéssemos dinheiro poderíamos comprar mais água, mas não tínhamos, em compensação tínhamos meu Pai. Ele teve a idéia de cavar um poço artesiano no nosso quintal, na esperança de encontrar água, ninguém estava colocando fé na idéia, mas o ajudamos e graças a Deus encontramos água! Não tanto quanto meu Pai esperava, mas deu pro gasto, agora podemos tomar banho duas vezes na semana.
Isso, não tomar banho todos os dias, é uma coisa com a qual não consigo me acostumar. O efeito que isso causava na minha pele e nos meus cabelos me deixava irritada. Eu cuidava deles da melhor forma possível, mas meus cabelos antes castanhos avermelhado vibrantes estão opacos e sem brilho, minha pele perfeitamente bronzeada está ressecada, castigada pelo sol. Às vezes quando olho no espelho não me reconheço, mudei muito nos últimos anos, mais do que um dia pude imaginar.
Vendemos tudo o que tínhamos de valor para poder comprar comida e oxigênio, dinheiro esse que não durou muito. Mamãe e Papai trabalhavam muito pra colocar comida na mesa, mas não era suficiente. Por isso, eu e meu irmão Otávio recorremos a meios não muito ortodoxos para ajudá-los.
– Está pronta? –diz Otávio impaciente.
– Calma, não sei por que a pressa. –minha voz sai um pouco abafada por causa do lenço que amarrei no meu rosto para protegê-lo do sol e do ar seco. O correto era sairmos com um cilindro de oxigênio portátil, mas não tínhamos dinheiro pra tanto. Então durante nossas incursões, Otavio e eu usamos lenços úmidos pra ajudar a respirar melhor.
– E eu não entendo pra que tanta demora. –ele retruca irritado.
Otávio estava sentado na minha cama ajudando nossa irmãzinha Julia a montar um quebra cabeça de 1000 peças, que encontramos no lixo na semana passada. Ele já estava arrumado, o lenço que deveria estar cobrindo seu rosto pendia do pescoço como se fosse um cachecol, e apesar de sua calça Skinner surrada e desbotada, camisa larga e tênis, que muito provavelmente não vêem água há anos, Otávio, no auge de seus 21 anos, poderia facilmente se passar por um astro do Rock. Corpo esguio e atlético, cabelos negros na altura dos ombros, que diferentemente dos meus, não estão opacos e sem brilho. Rosto simétrico e emoldurando toda a obra, olhos de um azul tão profundo que chegava a ser violeta.
A Julia era a cara do Otávio. Cachos negros emolduravam seu rosto em forma de coração, lábios rosados e grandes olhos violetas. Eu costumo chamá-la de Snow, por parecer a Branca de Neve. Ela amava e amava mais ainda me fazer contá-la, todas as noites, a história da Branca de Neve.
Quem nos visse juntos, nunca diria que sou irmão dos dois. Eu puxei a Mamãe: pele perfeitamente bronzeada, estatura mediana, cabelos castanho avermelhados e olhos castanhos, também queria ter puxada a serenidade dela, mas sou explosiva como o Papai.
– Não Tavio, essa peça vai aqui. –disse Julia tomando a peça da mão do nosso irmão e colocando no lugar certo. Ela tirara a mascara pra falar com Otávio, e tão logo respirou o ar pesado e poluído começou a tossir.
– Você não pode tirar a mascara Ju. –disse Otavio com carinho, colocando a mascara de volta nela.
– Mas vocês não estão usando. –ela respondeu cruzando os braços e fazendo um biquinho fofo.
– Não estamos usando porque vamos sair e porque diferentemente de você, conseguimos ficar sem a mascara por algum tempo. –digo me sentando do seu lado.
– Aonde vocês vão? –ela perguntou olhando de mim para Otavio. – Posso ir também?
– Não e não Baixinha. –respondeu Otavio bagunçando os cachos dela. É, ele tem essa mania irritante. – Pedi a Carol pra ficar com você enquanto Lily e eu estivermos fora, e acho que ela já deve estar chegando.
Era como se ela estivesse esperando ser citada, pois assim que Otavio fechou a boca, ouvimos três batidinhas de leve, a porta se abrir minimamente e Carol colocar a cabeça pra dentro.
– Desculpem o atraso. –ela disse num sussurro.
– Sem problemas. –respondo.
– Até porque a Lily só terminou se de arrumar agora pouco. –completou Otavio me lançando um olhar atravessado.
– Detalhes. –digo dando de ombros.
– Obrigado por ficar com a Ju. –ele diz sorrindo, se levanta e vai ate Carol, coloca a mão sobre seu ombro e completa. –Prometo que não iremos demorar.
Carol cora fortemente e responde. –Não precisa agradecer, eu gosto de ficar com a Ju.
Carol é completamente apaixonada pelo meu irmão, está tão na cara dela que não sei como Otavio não percebe. Outra coisa que não entendo é o porquê dela gostar tanto dele. Ele olha pra ela como olha pra mim e pra Julia, nunca com um olhar apaixonado ou se quer interessado, talvez ela goste de nutrir uma paixão platônica ou tenha esperanças de que ele se apaixone por ela, coisa que eu dificilmente vejo acontecendo.
– Então vamos?! –digo me levantando em um pulo. Inclino-me pra beijar o alto da cabeça da Ju e aproveito que Otavio está aparentemente distraído dando algumas recomendações a Carol, que não tira os olhos dele por um segundo, e digo.
– Eu vou te trazer uma boneca dessa vez. -ela me agarra pelo pescoço, me abraçando fortemente ou tão forte quanto uma menina de seis anos consegue e volta à atenção para o quebra-cabeça.
– Você não deveria ficar prometendo coisas a Julia, nós combinamos que só pegaríamos o necessário. –repreendeu-me Otávio.
_ E desde quando uma boneca não e necessária pra uma criança? –retruco, fazendo-o rir.
Tentamos andar sempre na sombra para proteger-nos do sol, o que era difícil, pois as ruas da RioMinas não nos ofereciam muitas sombras.
A RioMinas foi criada para ser habitada somente por membros das forças armadas, mas nunca foi assim, desde o inicio a maioria da população era compostas de civis. A RioMinas é conectada a mais três estados: Bahia, Espírito Santo e Goiás, formando um grande bloco. Como a RioMinas existem mais três blocos:
Luz do Norte, responsável pela produção e distribuição de energia. Todas as hidrelétricas e usinas nucleares do país foram fechadas, hoje toda a energia aqui utilizada é limpa (solar e eólica). RioMinas, responsável pela produção e distribuição de alimentos. Açu e Amazonas são as responsáveis pela distribuição de água, os aqüíferos existentes nessas regiões abasteciam todo o país. E apesar da escassez, o governo vendia água pros países vizinhos. Agora, porque eles venderiam a água, pra que usavam o dinheiro que conseguiam era um mistério, porque investindo no país é que não estavam.
Em todos esses blocos havia apenas uma grande colônia em cada, que funcionavam como capital dessas regiões. A população de cada colônia variava entre 500.000 a 800.000, o que era muito pouco em relação à população total do país há três anos.
O Brasil não foi atingido pelos inúmeros ataques terroristas que dizimaram alguns países europeus, mas com toda aquela crise o governo ruiu e com ele o que restava de democracia do país. Sem hospitais, sem policiamento, sem alguém para reger o país, tudo virou de cabeça pra baixo, sair nas ruas era pedir para morrer, e se você viesse a ficar doente só poderia rezar e pedir a Deus que te curasse. E essa situação perdurou por meses a fio, até a intervenção dos países aliados: Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, México e Japão. Eles colocaram o país nos eixos, não foram muito ortodoxos, mas funcionou. Não acabaram com a desigualdade, mas nos deram um rumo e esperança, até nos largarem a própria sorte.
Às 12h30min não se vêem muitas pessoas nas ruas. Primeiro porque o calor era insuportável e a quase mula umidade do ar dificultada à respiração; segundo, porque não era seguro. Aqueles que não tinham condições de comprar alimentos os adquiriam de outra forma. Há os que pegam emprestado sem ferir ninguém, como Otávio e eu, mas há aqueles que não se contentam só com o roubo(odeio essa palavra, prefiro chamar de empréstimo permanente), eles tinham prazer em machucar. A policia por vezes os mantinha afastados, mas a meses eles não fazem nada, parece que lavaram as mãos e nos deixaram a mercê da sorte.
– Otis... Espera! –digo ofegante. Alguns minutos sem a mascara de oxigênio bastaram para me deixar com tontura, o ar queimava ao passar por minha garganta e pontinhos negros dançavam na minha visão.
– Por que não me disse que não estava se sentindo bem? –diz Otávio me amparando antes que caísse.
– Eu estou bem, só... Só preciso respirar um pouco. –Otávio tira um cantil da mochila que esta nas minhas costas e derrama água no lenço que cobria meu rosto, não melhor muito, mas era melhor que nada. – Obrigada.
– Nós podemos tentar essa aqui, parece estar vazia. –ele disse apontando para a casa atrás de mim. – Até porque você não agüenta andar nem mais um metro.
– Consigo sim! Só preciso descansar um pouco.
– Então descansa ai, bebe água que eu vou ver o que posso fazer aqui. –diz jogando o canil pra mim e caminhando em direção ao portão da casa.
A casa em questão era toda cercada por um muro coberto de trepadeiras. Aparentemente o muro era baixo, pois se conseguia ter uma boa visão da mansão lá dentro, o que significava que daria pra pulá-lo com facilidade. Mas com o alto índice de assaltos, as pessoas, para protegerem suas propriedades, faziam trincheiras por toda a extensão dos muros e no fundo dessas trincheiras colocavam tudo que fosse pontiagudo e afiado. Isso fez com que fossemos mais sofisticados quanto ao método de invadir as casas, e por nós refiro-me somente ao Otis. Ele é um gênio quando o assunto é eletricidade. Com um alicate e ficha isolante ele conseguia cortar a energia da casa por tempo suficiente para entrarmos, pegarmos que o precisávamos e sair, como se nunca tivéssemos estado ali.
– Lils, consegui. –diz Otis sorrindo de orelha a orelha.
– Não sei se já te disse, mas você é incrível! –digo me jogando em suas costas, quase nos derrubando no chão.
– Eu sei que sou. –ele responde todo convencido. – Agora sai de cima de mim, porque você não é tão leve quanto parece.
– Você não disse que eu não consigo andar nem mais um metro? Então agüenta. –respondo brincalhona.
Ele me lança um sorriso travesso e diz:
– Já que é assim... Se segura! –não consegui conter a risada histérica que escapou dos meus lábios quando ele saiu correndo portão adentro.
Quem morava naquela casa tinha muito bom gosto. A escada, que levava a porta de entrada, era de mármore negro. A varanda era sustentada por belíssimas colunas gregas, que faziam a casa parecer um daqueles templos da antiguidade.
A sala era espaçosa com uma lareira enorme erguendo-se no canto esquerdo, algumas poltronas encontravam-se ao redor da mesma. No centro da sala havia uma mesinha de cedro cheia de revistas de assuntos diversos (mais um item adicionado a minha lista de necessidades). Um sofá em forma de L ficava virado para o outro lado da sala, onde tinha uma enorme Tv de led.
– Essa é de longe a casa mais bonita que invadimos. –digo admirada.
– Sem duvidas. –Otavio completa tão admirado quanto eu. – Você vai pro segundo andar e eu fico aqui embaixo.
– Certo. –digo me adiantando e subindo a escada animada, o mal estar deixado pra trás, esse empréstimo ia valer a pena.
No segundo andar havia cinco quartos, todos eles suítes. No quarto principal, encontrei jóias e dinheiro em espécie, eu nem pensaria em pegar aquilo normalmente, mas eles estavam espalhados em cima da cama, assim como algumas peças roupa. O closet estava praticamente cheio e os porta-retratos do criado estavam vazios. Senti um alarme soar dentro da minha cabeça, porque alguém sairia de casa deixando seus bens espalhados?
Com essa pergunta martelando em minha mente fui verificar os outros quartos. Dois deles eram de hospedes, pois estavam perfeitamente arrumados. O outro pertencia a um garoto, pela decoração ele devia ter a mesma idade que a Julia, e esse quarto estava numa situação semelhante a do quarto principal, armário aberto e praticamente cheio e alguns brinquedos espalhados pela cama. O ultimo quarto era obviamente um quarto de adolescente. Paredes cobertas por pôsteres de bandas e astros do cinema, um estante de livros cheia, com um ou outro espaço vago, a outra era cheia de bonecas e bichos de pelúcia. O armário estava na mesma situação dos outros dois e um mural, que antes deveria estar cheio de fotos estava vazio.
Sai do quarto em disparada para poder contar ao meu irmão o que tinha em mente, mas nem precisei ir muito longe, pois trombei com ele no final do corredor.
– Otis. –digo sem fôlego. – Os quartos... Parece...
– Que os moradores saíram às presas. –ele completou e seu rosto expressava confusão. – Eu sei lá embaixo na cozinha esta uma bagunça. Não entendo...
– Não entende? Otis, está muito obvio o que aconteceu. –digo sentindo um arrepio me descer pela espinha, com o peso da verdade em minhas palavras. – Os moradores dessa casa fugiram.
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