Survivor
8 Capítulo 8
“Se você tivesse uma chance ou uma oportunidade para ter tudo o que você sempre quis, um momento, você pegaria, ou deixaria escapar?” Lose yourself
POV CATARINA
Estava andando pelas ruas de Montemor com alguns guardas por perto me acompanhando, por onde passava o povo parava o que estava fazendo para fazer uma breve reverência, sorria com carinho para todos e parava em algumas barracas da feira para falar com os vendedores.
“É muito gentil de sua parte majestade, isso... não tenho palavras, muito obrigada Rainha Catarina” falou uma mulher emocionada segurando minhas mãos, quando lhe dei algumas moedas de ouro, o valor daria para comprar todas as frutas de sua barraca, mas peguei apenas uma maçã. Sabia que ela precisava daquele dinheiro, na última vez que passei por ali soube que seu filho estava muito doente, e que eles não tinham como pagar o tratamento.
“Apenas cuide da saúde de seu filho” Sussurrei e segui meu caminho. Já tinha se passado 10 dias desde a partida de Afonso para Swyty, e não sabia quanto tempo ele ainda iria demorar, já que o mesmo não me enviou nenhuma carta. Então aproveitei para dar início a reforma do orfanato, falaria com ele sobre isso em outro momento. Estava indo justamente ver como estava o andamento da obra e levar alguns brinquedos, bonecas, bolas e até espadas de madeira. Estava tudo na carruagem atrás de mim. Aquelas crianças já sofriam o suficiente por serem órfãs, estava tentando dar ao menos um pouco de alegria a elas.
“Chegamos majestade” Delano falou quando paramos em frente a construção. Sorri para ele, o conhecia desde criança, ele trabalhava na guarda real de Artena, e meu pai o mandou à Montemor para fazer parte da minha guarda pessoal. “Mande descarregar as coisas.” Falei já entrando, a primeira pessoa que vi me fez sorrir abertamente.
“Hey!” Gritei já jogando a maçã em sua direção, no entanto ela foi mais rápida, virando-se e agarrando-a no ar. Olhou para fruta sorrindo e levou aos lábios mordendo.
“Quantas exorbitantes moedas de ouro você pagou dessa vez por apenas uma maçã?” Ela olhou-me como se visse minha alma, apenas sorri quando nos abraçamos de forma carinhosa.
“Em minha defesa o filho deles está muito doente e precisa de tratamento médico!” Falei entrelaçando meus braços aos dela e a guiando até onde as caixas com os brinquedos estavam sendo depositadas. “Claro que sim, se continuar desse jeito irá gastar todas as moedas dos cofres do castelo e creio que seu...” Ela parou sua frase no meio quando viu as coisas no chão.
“Meu Senhor, Cat! Eles iram amar.” Ela falou com emoção em sua voz. Já se afastando de mim indo inspecionar todos os brinquedos.
Brice era uma mulher linda, cabelo longos e escuros, sua pele branca e seus olhos azuis que mostravam uma sabedoria muito além da sua idade, já que ela era apenas um pouco mais velha que eu. Era órfã, e por isso decidiu dedicar sua vida adulta a cuidar e tentar melhorar a vida de crianças como ela.
Nossa ligação foi instantânea quando a conheci, era como se eu tivesse encontrando uma amiga de anos, mesmo sem nunca ter a visto antes. Por isso insisti que não tivesse qualquer tipo de formalidade entre nós, eu era apenas Catarina para ela, Cat ou Fada, dependia muito de seu humor. Quando tínhamos opiniões diferentes sobre algo, ela chegava a me chamar de pequena demônia. Mas apenas caiamos na gargalhada depois disso. Definitivamente ela era um achado em minha vida.
“Vamos Brice, preciso ver como está ficando o orfanato. Eles já terminaram de reformar os dormitórios?” Perguntei empolgada, ela olhou para mim com um sorriso brincando em seus lábios. “Ainda não, a ala das meninas está completa, mas ainda falta pequenos acabamentos na ala dos meninos. Eles estão ansiosos para voltar a dormir em seus novos aposentos.” Falou voltando sua atenção para mim, guiando-me para dentro do orfanato. Assim que as crianças me viram vieram correndo em minha direção.
“Majestade, majestade...” E todos começaram a falar ao mesmo tempo, enquanto eu me abaixava para ficar na mesma altura que eles. As meninas estavam encantadas com os quartos novos, e não só isso, mandei mudar toda a mobília, já que a antiga era muito velha. Já os meninos estavam ansiosos perguntando quando poderiam ver seus quartos e se seria tão legal quanto os das meninas.
“Sim meus amores, será tão bonito quanto o delas.” Fale acariciando a bochecha de Pedro, que estava com a cabeça em meu braço. Ele tinha 5 anos e era uma criança linda e extremamente carinhosa.
“Mas não será rosa né Rainha Catarina?” Um dos meninos falou enrugando o nariz.
“Não meus amores, será azul, um azul da cor do céu.” Falei gentilmente, o que causou um pequeno alvoroço. “Mas agora tenho uma coisa para vocês”, e com um gesto pedi que trouxessem os brinquedos. Pronto, todos pularam e saíram correndo para escolher um para si, e olhar admirados para as coisas ali dentro.
Meu coração apertou com felicidade, sabendo que ao menos poderia amenizar um pouco a dor daquelas crianças. “Você realmente é a pessoal mais bondosa e gentil que eu conheço” Brice falou se aproximando, entrelacei nossos braços e ficamos observando enquanto as freiras tentavam em vão conter as crianças.
“Acho que elas terão um pouco de trabalho hoje” Falei vendo a cena.
“Mas vale a pena, é só olhar na cara de felicidade delas.” Brice falou, e novamente notei que sua voz estava embargada. “Obrigada Catarina!”
“Você sabe que é um prazer fazer isso, eu gostaria de poder ficar mais um pouco. No entanto Afonso ainda não retornou, e precisão da minha constante presença no castelo.” Falei com pesar. Ela concordou com a cabeça, me dando um abraço de despedida, mas antes de se separar falou baixinho “Apenas tenha cuidado majestade” para então ir ao encontro das crianças. Ela nunca me chamava de majestade, a olhei procurando resposta, mas ela estava dando atenção a um menino que mostrava com orgulho uma espada de madeira.
“Vamos Delano.” Falei por fim, outra hora conversaria melhor com ela. Me despedi das crianças enquanto Brice me olhava de forma estranha. Senti um embrulho no estomago com isso. E balancei a cabeça tentando afastar qualquer pensamento negativo.
Seguimos o caminho para o castelo de forma tranquila, enquanto era parada casualmente para receber alguns presentes dos moradores, como flores e frutas. Estávamos quase chegando no pátio do castelo quando uma criança correu em minha direção carregando uma pequena caixa consigo.
“Majestade, majestade.” Ele gritou tentando nos alcançar, os guardas automaticamente ficaram na minha frente em alerta, suspirei e toquei no ombro de Delano para que deixasse a criança passar. Que tipo de perigo uma criança poderia me oferecer?
“Um presente rainha, eu trouxe um presente para a senhora.” Falou ofegante quando se aproximou e levantou a caixa em minha direção. Peguei com carinho, o material era um pouco pesado.
“Obrigada querido.” Falei gentilmente, vendo o menino fazer um reverencia e sair correndo pelo mesmo caminho que veio.
“Majestade...” Delano falou, se aproximou da caixa, preocupação em seus olhos.
“É apenas mais um presente, não se preocupe.” E virei em direção ao castelo, meus pés estavam doendo, e precisava de um banho.
“Mande Lucíola aos meus aposentos Delano, preciso de um banho” Falei ao me afastar, indo em direção ao meu quarto, mas antes que chegasse ao meu aposento fiquei frente a frente com a mesma mulher que encontrei um dia após meu casamento. Ficamos paradas, enquanto uma analisava a outra, ela tinha um ar arrogante que fez-me criar aversão instantânea por ela, sem nem ao menos saber nome. Suas vestes eram simples porem bonitas, também possuía algumas joias adornado seu rosto, mas como imaginei, ela não era uma nobre, pois todos tinha saído do castelo a semanas, no entanto claramente ela não trabalhava no castelo.
“Majestade” Falou, e notei que a palavra saiu de forma quase rude, como se ela estivesse se esforçando em fazer tal revência. Quando tentou passar por mim segurei seu braço, impedindo de seguir.
“Quem é você?” Perguntei, afinal ela claramente não gostava de mim.
“Não sou ninguém importante rainha.” Falou com a voz mais polida. “Se me der licença.” Disse tentando puxar o braço, mas segurei com mais força, ela não ia escapar assim facilmente.
“Seu nome.” Rosnei baixo, esquecendo totalmente meus modos. Ela me deu um falso sorriso antes de responder.
“Amália senhora, eu me chamo Amália.” E com isso puxou seu braço e se retirou, sem ao menos fazer uma reverência ou esperar minha autorização. Observei quando seus cabelos ruivos sumiram ao dobrar o corredor.
Amália, o nome martelou em minha cabeça. Precisava descobrir quem era aquela mulher petulante com um sorriso sonso. Meus pés protestaram, precisava urgente de uma massagem, mas antes de qualquer coisa o que eu queria era um banho e minha cama, cansada continuei meu caminho para o corredor que me levaria ao quarto. Depositei caixa que o menino me entregara em uma mesinha enquanto esperava Lucíola aparecer.
Cansada pela demora resolvi abrir a caixa e descobrir o que tinha dentro, a primeira coisa que vi foi um pano encharcado de algo vermelho e pegajoso, ao abrir o pano vi um pequeno polvo negro coberto de sangue. Um grito de desespero escapou de meus lábios e deixei a caixa cair em meu colo, sujando minhas roupas, levantei desesperada, e o polvo caiu no chão, minhas mãos cobertas de sangue enquanto olhava horrorizada para aquilo.
Um polvo negro coberto de um vermelho vivo. Era o símbolo de Artena, mas o polvo ao contrário do nosso brasão, estava morto, seu pescoço tinha sido degolado. Alguém mandou um recado para mim, era claramente uma ameaça. Senti meu estomago embrulhar e minha cabeça rodar. Estava preparada para sentir o chão quando braços fortes me seguraram.
“Por Deus o que é isso? GUARDAS!” uma voz rouca falou.
“Catarina, Catarina. Maldição.”
Afonso tinha voltado, e a escuridão me engoliu.
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