Survivor

2 Capitulo 2


Me levanto assim que sinto os primeiros raios de sol atravessando a janela.

Quando me mexo sinto meus dedos ainda firmes ao redor da arma. Levanto e a coloco novamente presa contra minha cintura.

Já estive em muitas casas e em muitas situações desde que tudo isso começou e só houve duas vezes em que de fato quase pensei que uma delas se tornaria um lar. Entretanto, gosto do modo como essa pequena casa no meio da floresta não é pequena nem grande demais.

Passei alguns dias aqui sozinha e aprendi a me sentir acolhida e protegida até pelo ranger das tábuas de madeira das escadas.

Ando com passos lentos e dou uma espiada em direção à sala. Laura dorme com a cabeça encostada ao tórax de Matt e ele mantém uma mão repousada sobre seus cabelos loiros. Não muito distante Miah se encolhe com as costas coladas a parede e a mão direita apertando uma faca de cozinha. Longe dos três, do outro lado da sala Kenny abraça os joelhos e, prestando um pouco de atenção, é possível perceber que ele não esta dormindo, mas sim soluçando.

Meu estômago se revira, não é preciso ser um expert para perceber que Kenny é fraco e os fracos não tem vez nesse mundo, sei bem disso.

Aperto a ponte do nariz pensando por um instante que eu poderia simplesmente ir embora e deixar que eles se virassem a partir daqui, mas, primeiramente não quero que saiam por ai causando mais mortes do que o necessário e depois, sei que ontem a noite, quando Kenny perguntou se eu ainda estaria aqui pela manhã, mais do que flertando comigo, ele estava realmente com medo.

Me aproximo com cuidado e toco seu ombro. Ele parece se assustar, mas não grita. Forço um pequeno sorriso e faço um gesto para que me acompanhe.

Quando passamos pela porta da cozinha e estamos do lado de fora, digo.

–Bem, ainda estou aqui.

Ele sorri de uma maneira quase animada demais.

–Sim, você está. Quer dizer, o que estamos fazendo aqui fora? ainda há algumas provisões lá...

–Não é sobre as provisões Kenny — faço uma pausa- É sobre se proteger — falo de forma séria, encarando seu rosto — Olha, não quero que você saia matando ninguém pelo caminho, a menos que seja muito, muito necessário. Mas, quero ter certeza que você não tenha que perguntar a uma garota desconhecida se ela ainda vai te proteger pela manhã.

Kenny coça o topo da cabeça e parece meio envergonhado.

–Eu...

–Certo — o interrompo — vou levar vocês até um grupo de pessoas que conheci há um tempo. Não tenho certeza de onde estão, mas podemos procurá-los. vocês ficarão melhor se estiverem em um grupo de maior.

Ele assente, parece nervoso.

–Tome — jogo em sua direção uma faca de caça — vamos pegar coelhos para o almoço.

–E os os outros? Devíamos avisar.

–Eles vão ficar bem, vão imaginar que esta comigo...

Começo a andar, indo em direção ás árvores e, após exitar por alguns instantes ele me segue.

Andamos em silencio por uma espécie de trilha, onde as folhas maiores foram cortadas irregularmente. Não costuma ser muito dificil encontrar coelhos.

–Sabe — ouço Kenny começar a falar — eu estava pensando e, bem, cheguei à conclusão de que não sei o seu nome.

Ele anda um pouco mais rápido para me acompanhar e fica a meu lado olhando de vez em quando para meu rosto.

–Isso é relevante? — pergunto

–Bem, você nos salvou e acredito que um nome é um começo para estabelecer uma relação de confiança.

–Mas, você já confia em mim — retruco.

Observo sua expressão por alguns segundos, ele sabe que estou certa e parece ter ficado envergonhado. E isso é algo que ele faz com frequência, ficar envergonhado.

–Meu nome é Lizzie — digo.

Ele me encara e, por fim, sorri.

–É nome bonito. Lizzie... Lizzie, se eu tivesse um cachorro daria seu nome pra ele. Ah, quer dizer, não que pareça nome de cachorro, mas é um nome legal, um nome de gente...

–Quieto!

–Se eu te ofendi, me desculpe...

–Não, não — me apresso em dizer — só cale a boca, vai afastar os coelhos.

–Ah

Kenny finalmente se cala. Vi dois coelhos entrando em uma toca alguns metros a frente. Faço um sinal para que ele pare de andar e monto uma pequena armadilha. Depois subimos em uma arvore e nos sentamos em um galho firme para esperar.

Ele balança as pernas no ar enquanto eu me recosto e observo, pronta para lançar uma faca em qualquer animal que apareça.

Ficamos ali por cerca de vinte minutos até que um dos coelhos finalmente resolve sair. Ele da alguns pulos e acaba ficando com a pata presa em minha armadilha.

Pulo da árvore para o chão e observo o pequeno animal agitar sua pata, tentando se soltar. Há uma certa beleza nisso, no momento em que se pode notar que ele percebeu que caiu em uma armadilha e que não tem como escapar, aqueles segundos intermináveis em que o animal realmente fica indefeso, se agitando com uma ultima esperança e você olha pra ele e sabe qual vai ser o fim daquilo...

–Onde está sua faca? — pergunto me virando para Kenny.

Ele levanta a barra de sua camiseta amarela puída e puxa a faca de caça que dei a ele e a estende em minha direção.

Balanço a cabeça negativamente.

–Vai, acerte o coelho e depois vou te ensinar a limpá-lo.

Kenny se aproxima do coelho e suas mãos estão tremendo, ele fica vários segundos com a faca erguida no ar ameaçando fazer alguma coisa mas sempre acaba recuando. Espero. Ele precisa fazer isso, é só a droga de um coelho, não é uma pessoa, ele tem que conseguir.

Ficamos ali por mais tempo do que consigo imaginar e então ele finalmente se vira para mim e diz:

–Não dá, olhe só para ele, esta indefeso... não posso fazer isso.

–Não pode... Mas pode morrer de fome, não é?

–Posso comer frutas, legumes, procurar enlatados, mas não posso eu mesmo matar um animal.

Ponho a mão na testa e tento me acalmar, Kenny é apenas um garoto inútil e, não sei se me irrito mais com sua inutilidade ou com o fato de que ele me lembra uma certa pessoa.

De repente, ouço um som que provavelmente eu deveria estar ouvindo a mais tempo e vejo três errantes entrando em nosso campo de visão.

As pernas e as mãos de Kenny começam a tremer descontroladamente, a cor foge de seu rosto e ele dá passos para trás. Os errantes já estão bem perto e não quero atirar, não se eu puder evitar. Kenny segura meu braço com força e tenta me puxar, mas me mantenho firme.

–Vamos! — ele quase grita a meu lado — temos que correr.

–Não! — digo cerrando os dentes — vai ficar tudo bem.

O errante que estava mais perto estica seus braços com a pele acinzentada em minha direção, sua boca se abre e fecha várias vezes e ele meio que tropeça nos próprios pés. Apenas me afasto dele quando se joga para cima de mim e acaba caindo no chão, mas sinto algo em minhas costelas e me viro a tempo de agarrar o braço de uma mulher com um pedaço da costela faltando.

–Calma, não vou te machucar — digo ainda segurando seus braços com força e mantendo sua mandíbula a distancia.

Com minha visão periférica vejo o terceiro errante se aproximando de Kenny e o vejo chorar. A faca está entre seus dedos e ele a aperta firme.

Talvez eu devesse deixá-lo se transformar, as coisas poderiam ser mais fáceis para ele... será que ele aceitaria? Será que suportaria um pouco de dor para tornar tudo menos complicado depois? Não sei. É o que eu gostaria de fazer.

Kenny corre em círculos tentando evitar os errantes e ao mesmo tempo tentando se manter perto de mim. Não, ele não está pronto. Ainda não posso arriscar...

Empurro a mulher sem costela com toda a força que tenho.

–Me desculpem — sussurro.

Puxo a arma de minha cintura e atiro. Três tiros ecoam por entre as árvores e meu coração bate descompassado. Solto um grito quando o ultimo tiro atinge o cérebro do último errante que ainda se mexia.

Kenny me observa, as lágrimas pararam de escorrer por seu rosto e ele parece perplexo. Ele se aproxima de mim arrastando os pés na terra e toca meu ombro.

–Você... Ér... Obrigado... Você... Você está bem?

Olho em seus olhos e pego a faca de caça de sua mão. Ando com passos firmes até o coelho ainda preso na armadilha e atravesso a faca com força em seu pequeno corpo branco até sentir a lâmina roçando a terra. Depois puxo-a de volta para cima e arranco o coelho do local onde estava. Seguro-o entre minhas mãos e abro sua barriga. Limpo-o em silêncio e por fim o jogo na direção de Kenny que o segura desajeitadamente.

–Você não pode ser covarde a vida inteira. — Digo — se tivesse apenas matado o coelho nada disso teria acontecido.

Passo por ele e ando de volta para a casa.

–Kenny matou um coelho?! — Miah pergunta quando Kenny põe o coelho morto sobre a bancada da cozinha.

Os três estavam olhando pelas frestas da janela quando chegamos. Haviam acabado de acordar e ouviram tiros ao longe.

–Não — respondo — eu matei o coelho. É bom ter um pouco de proteína às vezes.

Miah balança a cabeça. A outra garota, Laura, esta agarrada ao braço de Matt. Não sei bem o que me incomoda nisso, mas me sinto desconfortável com a cena dos dois.

–Matt, você pode ir comigo lá fora? tem um tipo de lago de pesca... Não fica muito longe, um quilometro de distancia daqui no máximo.

Ele assente.

–Eu vou com vocês — Laura diz prontamente.

–Não — respondo de imediato — Não me leve a mal mas, porque não fica e ajuda a preparar o coelho? E não precisamos de mais que duas pessoas para trazer um pouco de água.

Acrescento um sorriso no fim de minha frase para tentar parecer convincente. Matt se vira para ela e diz.

–A.. — ele hesita e olha para mim com uma sobrancelha erguida.

–Lizzie — digo.

–A Lizzie tem razão e não precisa se preocupar, nada vai acontecer. Ajude Miah a preparar o coelho e — ele abaixa o tom de voz embora todos ali ainda possam ouvi-lo — mantenha o Kenny longe de qualquer coisa.

Laura demora alguns segundos até concordar e em seguida saio da casa seguida por Matt.

–Hm, Lizzie — Matt diz quebrando o silêncio — belo nome.

–Obrigada... Sabe, qual é o lance do Kenny?

–Ah, bem, nós quatro crescemos com um grupo grande de sobreviventes. Nenhum de nós tinha pais, exceto o Kenny que é primo da Miah. Então ficamos amigos e eu, a Laura e a Miah sempre ajudávamos a procurar por comida e a fazer vigias como todos os outros, mas, os pais do Kenny ainda estavam por aqui para protege-lo e ele nunca fazia nada disso. Até que há alguns meses tivemos um grande incidente e a maioria do grupo morreu ou se separou. Nós quatro nos mantemos juntos desde então mas, acho que ele nunca teve que matar nada, nunca teve que se defender sozinho de verdade... Acho que ele espera que sempre vá haver alguém para protege-lo, só que não funciona assim.

Fico em silencio por alguns minutos, absorvendo a história. Minha mãe morreu no inicio de tudo e meu pai não demorou muito a partir também. Já estive em grupos grandes e tive que aprender a me virar de qualquer forma, para me defender e defender outras pessoas também...

–Mas e o seu lance? qual é?

–Eu não tenho um lance.

–Vamos lá, você nos salvou... sai por ai sozinha, e sei que tentou ensinar alguma coisa ao Kenny hoje, você é tipo uma super heroína do apocalipse por acaso? — pergunta com um sorriso no rosto.

–Longe disso... Hm, digamos que eu faço o que acho mais correto.

Depois disso andamos em silêncio até chegarmos ao lago. A água é meio turva porém não parece contaminada. Me abaixo e ponho as mãos na água, aproveito para lavar meu rosto e molhar os cabelos. Tiro a jaqueta e os sapatos e esfrego água em meus braços. Matt parece desconfortável.

–O que foi? — pergunto.

–Ahn, nada, esta tudo bem.

–Se você diz. — balanço os ombros — Porque você não se molha um pouco também? A água vai te ajudar a se sentir melhor.

Ele se abaixa a meu lado e também tira os sapatos e sem seguida a camisa preta. Não posso deixar de notar seus músculos definidos, nossos olhos se encontram e desvio meu olhar. Ele joga um pouco de água no corpo, limpa melhor suas feridas e depois põe a camisa novamente.

Quando termino amarro a jaqueta em minha cintura e calço novamente os sapatos. Encho dois garrafões com água e voltamos.

O coelho já estava praticamente assado quando entramos novamente na casa. Miah encontrou alguns pratos e talheres e os distribuiu sobre a bancada. Laura revira mais um pouco os pedaços de coelho em uma velha panela sem cabo e Kenny esta em um canto descascando a pintura da parede.

Com um dos garrafões os três se lavam da melhor forma possível e utilizamos a água do outro para beber depois de filtrar o melhor possível com um pano.

Depois de comermos passamos o resto do dia descansando e reunindo coisas úteis esquecidas na casa.

Amanhã irei começar a procurar um grupo ao qual talvez eles possam pertencer e ai posso me concentrar novamente em minhas próprias prioridades.