Survivor
8 Você a matou
Notas iniciais
Joe tinha um sorriso estampado no rosto com mescla de malícia e ódio.
– Seus amigos tiraram a vida do meu, nada mais justo que eu tirar a vida de um dos amigos dele, certo?
– Amigos? Que amigos? – Tentei soar confiante, mas minha voz saiu trêmula, Joe deu uma risada, e seu sorriso sumiu, a única coisa que veio em minha mente foi um apagão.
Acordei jogada no chão, literalmente, eu estava amarrada, eu olhei em volta e vi que Joe apontava a arma pro Rick, e um de seus capangas apontava a arma pra Michonne, o sangue me subiu à cabeça e eu tentei me mexer, mas tudo o que ganhei foi um chute na barriga.
– Vocês não me queriam? Então. Por que estão fazendo mal a eles? – Perguntei desesperada e Joe deu uma risada alta.
– Não queremos você, você não é tudo aquilo. Queremos essa cara aqui. – Ele balançou a arma para Rick, que fechou os olhos.
Um homem chegou, ele tinha uma aparência selvagem e um olhar carregado de dor e frieza. Ele pareceu surpreso e chocado ao ver Rick e Michonne, agora que eu havia notado algo, Carl não estava ali, minha cabeça girava de um lado para o outro, assustada, procurando até que levei um tapa na cabeça e alguém murmurou “fique quieta”, mas com o impulso do tapa, meu rosto virou para a direção do carro, e lá vi Carl, mas minha preocupação aumentou quando eu vi um homem gordo na janela, o encarando com segundas intenções. Voltei a realidade e vi que Daryl estava apanhando, eu senti pena dele, até que eu ouvi o barulho da porta do carro e vi Carl sendo jogado para o chão, o homem gordo apontou a faca em sua garganta e lambeu sua orelha, Rick implorou desesperado para o deixarem em paz, até que o gordo empurrou Carl para o chão, eu havia entendido na hora o que ia acontecer, até que o homem que me segurava murmurou “boa ideia” e me empurrou, ele me empurrou e começou a passar a mão pelo meu corpo, apertando meus seios, que por sinal havia muito pouco, ele enfiou a mão dentro de minha blusa quando se ouviu um disparo, eu olhei para um dos três, e vi que Rick estava tonto e Joe passava a mão no rosto, com sinal de dor, até que o homem que me segurava voltou a fazer seu trabalho sujo e começou a tirar minha calça, eu comecei a berrar, implorando “por favor, não”, meu desespero era enorme, eu havia passado por tanta coisa, eu não merecia aquilo, lágrimas rolavam pelo meu rosto quando ele terminou de tirar minha calça, uma cabeça parou em meus pés, era a do homem que me segurava, sangue esguichava para a minha calça, eu a vesti rapidamente e olhei para cima, Michonne passou a mão pelo meu rosto e sorriu, depois se voltou para Carl e o segurou, eu observei Rick lutar com Joe, eu nunca tinha visto Rick tão selvagem, até que uma cena assustadora aconteceu: Rick mordeu o pescoço de Joe, como se fosse um walker, “bom, não se apavore, ele mereceu” , Carl estava abraçado com Michonne enquanto Rick olhava para o corpo morto de Joe, Daryl estava zonzo no capo do carro, eu peguei minha foice e uma lanterna, entrei na floresta, procurei um toco de árvore, e me sentei ali. Chorei silenciosa, eu não soluçava mas meu corpo tremia. Eu estava chorando de novo, quando isso ia parar. Eu ouvi um galho se partindo e levantei em um salto.
– Eu não tenho medo, apareça, seu merda. – Falei com a voz carregada de raiva e uma risada ecoou pela floresta.
– Você está corajosa, irmãzinha. – Meu irmão surgiu entre as árvores, eu olhei em descrença e tombei no chão, ainda o encarando.
– Mas você...
– Sim, eu morri, mas eu sinto que você queira conversar.
Eu ainda não havia entendido o que ele estava fazendo ali e COMO ele estava ali, mas deixei ele se aproximar, ele foi se aproximando com cautela e sentou do meu lado, o analisei e depois de um tempo comecei a desabafar.
– Isso é real? – Perguntei por fim. – Sabe, você...
– Claro que não, você só sentiu que precisava de mim. Você está enlouquecendo. – Ele falou com um sorriso de deboche. Ele foi sumindo e eu comecei a chamar por ele loucamente.
– Ramona? – Ouvi uma voz adolescente e olhei para trás, Carl me olhava assustado. – Com quem você falava?
– ...
– Fale, por favor.
– Meu irmão.
– Mas ele...
– Eu sei que ele morreu, tá legal? Como está meu pai?
– Seu pai? – Ele perguntou confuso, e eu senti uma queimadura em minhas bochechas, eu havia chamado Rick de pai. Carl pareceu entender, e sua expressão ficou dura. – Ele não é seu pai, não somos sua família. Você não tem família.
Eu o encarava sem emoção, sem expressão, eu sabia que aquilo era verdade. Eu estava acostumada com esses ataques de ignorância de Carl, eu geralmente ignorava, mas esse havia me trazido de volta para a realidade. Eu estava sozinha. Mesmo tendo, Rick, Michonne, até mesmo Carl, eu estava sozinha.
– Você tem razão. – Eu falei por impulso, e Carl pareceu mais irritado ainda.
– Não é para mim ter razão, é para mim ser o idiota, pra você me odiar e me esquecer.
– Agora sim você está sendo o idiota.
– Ótimo.
– Por que isso?
– Se eu falar quem vai ser a pessoa insana aqui vai ser eu.
– Ei. – Protestei.
– Eu quero que você me odeie, isso é meio idiota da minha parte. Mas você estava com a gente, aceitou andar com a gente, e hoje você foi assediada, eu acredito que não esteja segura com a gente, porque sempre nos metemos em roubada. E quando eu ouvi seu choro, você implorando, eu percebi o quanto somos perigosos pra você. Se não fosse a gente, seu irmão e sua cunhada não teriam morrido, e você não teria passado por aquilo, se você me odiar, se você se afastar, você estará bem. Me prometa, que vai colaborar com isso?
– Não, não prometo, sabe porquê? Porque vocês já são importantes pra mim, essa sua missão é roubada, seu pensamento é ridículo, e você passou coisas piores, e enterramos nosso passado... lembra? Somos adolescentes babacas tendo crises e identidade e cortando os pulsos ao som de Jake Bugg. – Carl não entendeu minhas últimas palavras e eu sorri. – Você não tem que bancar o herói, o garoto preocupado, você está mais frágil que eu, eu vi, eu te ouvi naquela hora, aquilo... me aterrorizou mais que o homem que passava a mão pelo meu corpo, você que se afastar de mim quando é a hora que mais precisa de um ombro amigo, Carl.
Eu dei tapinhas em sua bochecha com um sorriso torto, e para minha surpresa ele me abraçou pela cintura, com tanta força que quase me levantou, ele estava tremendo, então passei a mão por seu ombro, retribuindo o abraço, ele estava com o rosto enterrado em meu pescoço, eu não sei por quanto tempo nós ficamos assim, até que ele se soltou, seu rosto estava inchado, eu pensei em tirar onda, mas resolvi ficar calada.
– Está com fome? – Ele perguntou.
– Não, estou de boa. E você?
– Sou capaz de cometer canibalismo, acho que vou tomar o café da madrugada.
– Isso, vai lá.
– Você vem?
– Não, eu vou ficar mais um pouco aqui, pensando...
– Não é bom pensar demais, nunca vai chegar à conclusão, e só vai te deixar louca. – Ele se afastou, “bom, eu já estou no processo de loucura”.
Esperei Carl sumir, bufei e meu tremor no corpo voltou, passei a mão pelo rosto e senti um vento gelado percorrer o local, olhei para o lado e ali estava meu irmão.
– Você a matou. Por que? – Ele gritou, e eu senti uma dor aguda em minha cabeça, eu comecei a rolar pelo chão, choques elétricos percorriam pelo meu corpo, eu tentei não gritar, mas um escapou, e meu irmão sorriu, a dor passou, e eu me vi deitada e ofegante.
– Ramona? – Rick perguntou incrédulo.
– O que aconteceu? – Michonne se aproximou de mim e colocou a mão em meu rosto.
– Eu estou enlouquecendo.
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