Survivor
4 Capítulo 4 - Anjo
Acordei com uma brisa gélida batendo no meu rosto. Os olhos teimavam em querer ficar fechados. Aos poucos meu cérebro começou a funcionar... Eu estava em movimento. O banco macio de couro e o cheiro inconfundível de Fantasy me fez concluir que estava em meu carro. Levantei desnorteada...
- Não tinha reparado como o seu carro é cheiroso. Mas, francamente, tinha que ser o perfume da Britney Spears? – ironizou o loiro, sentado no banco do motorista... Dirigindo o meu Audi! Que ultraje!
- O que... Onde estamos? O que você fez comigo? Pare de dirigir o meu carro! – aos poucos a velocidade foi diminuindo, até paramos no acostamento. – Por que tenho a sensação de que vou ouvir algo que não vou gostar?
- Kyrie, eu não tive escolha... – disse ele sem tirar as mãos do volante, tampouco olhando para mim.
- Você me chamou pelo nome! – exclamei. Ele sorriu brevemente. Um sorriso um tanto tímido.
- O seu sobrenome é muito difícil. Pode-se dizer que avançamos no nosso relacionamento. – rimos. Porém, esse momento de descontração não aliviou o clima tenso. O silêncio se instalou, e enquanto isso, organizei as idéias na tentativa de descobrir o que havia acontecido comigo. E cheguei à outra conclusão, a minha cara de espanto denunciou isso.
- Perdão. Mas era o único jeito. – desculpou-se.
- Eu não acredito que você me drogou! – disse indignada. Por que ele fez isso?
- Era necessário. Você não aceitaria o que fiz. – eu o encarei, incrédula.
- E o que você fez?
- Precisava tirar você de perto daquele agente.
- JaeJoong, o que você fez? – perguntei novamente. Temi pela resposta.
- Eu... Explodi o hotel.
- Explodir o hotel... EXPLODIR O HOTEL! – gritei – VOCÊ É LOUCO OU O QUE?
- Era o único jeito de sairmos dessa. – eu não acreditava no que ele estava dizendo!
- O ÚNICO JEITO? MATAR AQUELAS PESSOAS ERA O ÚNICO JEITO? – JaeJoong respirou fundo. E usando um tom de voz baixíssimo falou:
- Primeiro: querendo ou não era o único jeito. Aquele ChangMin tinha percebido a sua mentirinha. Segundo: salvei a sua vida, esteja, pelo menos, agradecida. E terceiro: não grite comigo, eu não estou gritando com você, estou?!
Eu não podia acreditar que aquela voz doce proferia palavras tão duras. Abaixei a cabeça e passei encarar minhas mãos. Pensava que ele era um dos mocinhos dessa história, e não o “bad guy”. Quando levantei os olhos, JaeJoong me fitava, nervoso.
- “Bad Guy”? Se você acha “mal” o que eu fiz, advinha o que a TriCell já fez! – eu o olhei, desconfiada.
- Como você pode saber? Eu não disse em voz alta!
- Não importa como você falou!
- É claro que importa!
- Eu não vou discutir com você! – disse ele indignado. O loiro abriu a porta do carro e saiu.
Como JaeJoong poderia ter sabido sobre o “bad guy”, eu não comentei isso em voz alta, comentei? Bom, considerando o que ele falou... O que a TriCell poderia ter feito de pior?
- Desculpa por ter gritado com você. É só que... Você matou pessoas, JaeJoong! – falei com a voz mais mansa possível.
- Foi o único jeito que achei para fugirmos sem sermos vistos. Tive que te drogar. Logicamente discordaria da minha idéia!
- É porque vai contra a minha natureza... Costumo salvar pessoas... – ficamos em silêncio por um tempo, até que, por mais dolorida que seja, tive um idéia – Jae... Eu... Vou embora. – ele não se espantou, tampouco reagiu.
- Tem certeza?
- Sim. Não quero que outras pessoas morram por mim. E nem que você suje as suas mão de sangue. Posso me virar sozinha. – ele deu os ombros.
- A vida é sua. E já lhe dei os avisos. – admito que fiquei um pouco triste com o que ouvi, ele não insistiu nem um pouquinho pra mim ficar...
- Então ta... As chaves, por favor?
- O que?
- As chaves do carro? – Jae deu um sorriso de soslaio, Meu Deus!
- Nesse caso... Vou precisar do seu carro. – disse ele me apontando uma arma.
- Você está me assaltando? – ele deu os ombros.
- Pode ser. Quer ir embora? Pegue as suas coisas e saia então! – ele me cutucou com o revolver. Era inacreditável!
- Isso só pode ser brincadeira! – passei a mão em meus cabelos tentando acreditar situação que estava acontecendo. Porém, JaeJoong logo se mostrou não estar para piadas. Ele apontou a arma para mim. Na hora pensei que iria morrer, e fechei os olhos. Ouvi um estrondo, e senti fios do meu cabelo esvoaçando.
- Você é louco, por acaso?! Pensei que ia morrer!
- Isso foi a prova de que é tudo real. Agora, vai embora!
Eu estava estupefata. Como ele ousa roubar o meu Audi e quase atirar em mim?! Definitivamente esses quinze minutos de conversa foram reveladores. Jae mostrou traços “interessantes” da sua personalidade. Fiquei decepcionada com esse instinto assassino, principalmente por ter descontado em mim, e tive uma certeza: ele não mediria esforços para chegar ao seu objetivo. Quando levantei a cabeça, dei de cara com um par de olhos amendoados me observando atentamente.
- Por que você faz tudo isso? — Perguntei. Não houve resposta. Peguei a minha mochila no banco de trás do carro e voltei a olhá-lo – Vale à pena Jae?
Não esperei que ele revidasse, e comecei a caminhar na direção contrária. Em nenhum momento olhei para trás. Agora eram apenas eu, Deus e a TriCell. Aos poucos a iluminação do meu ex-Audi ficava mais fraca, denunciando o quanto andara.
Os carros passavam zunindo por mim. Os faróis me cegavam. Continuei andando rápido. Sinceramente, eu ainda não acreditava que JaeJoong havia explodido aquele hotel. Algo nele me dizia que ele estava mentindo. Ou eu queria que ele estivesse. Seria ele realmente capaz de tirar vidas inocentes? Okay, ele me salvou, talvez esteja sendo até ingrata mas... É justo tirar a vida de dezenas de pessoas para me salvar? A não ser que... Eu fosse, de alguma forma, importante para ele.
Decidi deixar tais pensamentos de lado, não queria dar um nó no meu cérebro pensando nisso, e concentrei-me em continuar a caminhar. Por mais que as minhas pernas quisessem o contrário.
Depois de algumas horas, parei de andar. Escorei-me em uma placa e encarei meus tênis. Eram da Nike. Eu havia os ganhado de presente. Ainda bem que eu escolhi eles para trabalhar ontem. Tinha um cadarço desamarrado. Abaixei-me para amarrar.
Enquanto fazia isso, mais um carro passava pela rodovia. O farol em cima de mim fazia a minha sombra se esticar e depois sumir. Porém... A minha sombra não havia sumido, pelo contrário, só estava aumentando...
Levantei a cabeça, e dei de cara com uma Range Rover a uns três metros de mim! Vindo a toda velocidade! A única coisa que fiz foi proteger o rosto com o braço, e me preparar para o impacto.
Dor. Muita dor. Foi o que senti quando aquele carro me acertou. Fui arremessada para trás, e senti umas costelas sendo esmagadas. Bati de costas em uma árvore. E o gosto de sangue invadiu a minha boca. Eu estava com dificuldade de respirar, provavelmente alguma costela devia ter perfurado o pulmão. A dor era intensa. Mesmo com a visão embaçada e parcialmente no escuro vi uma figura se aproximando.
- Eu disse a você senhorita Szymkowiak. Essas estradas são muito traiçoeiras. Ainda mais para uma dama. – reconheci aquela voz. Era do agente ChangMin!
- Filho da... – não consegui completar a frase. No final apenas saiu um filete de sangue da minha boca.
- Você sabia que atrás de você é o que podemos chamar de “pirambeira”? Não é a toa que esse trecho tem altos índices de acidente... Tsk Tsk, lamento senhorita, mas a partir do momento que se envolveu com JaeJoong, assinara a sua sentença de morte. – ele colocou a mão no meu ombro e com uma pequena força me empurrou morro abaixo.
Os galhos cortavam meu rosto e meu corpo. Eu batia, sem dó, nos inúmeros troncos daquela floresta. O sangue escorria quente pelo rosto.
Tive a prova de que quando está perto da morte um filme se passa na sua cabeça. Pois é, comigo não foi diferente. Repassei toda a minha infância, adolescência até o termino da minha faculdade. As faces das pessoas que salvei se iluminavam na minha mente, pelo menos eu podia me orgulhar de algo. O rosto dele foi o último a aparecer. Aqueles três dias em sua presença foram estranhos, mas ao mesmo tempo, incríveis! Senti-me completamente diferente ao seu lado. Por mais dolorido que meu coração estava, ele começou a bater mais rápido pela simples lembrança de JaeJoong.
Finalmente bati em uma pedra. E parei. Tinha tantos hematomas e cortes, que não sentia mais dor alguma. Era o fim. Mas eu ainda lutava, com a pouca força que restava. Não ia entregar a minha vida assim tão fácil.
Rezei. Fiz todas as preces em todas as línguas que sabia. Pedi, insistentemente, que Deus me mandasse um anjo para que me salvasse daquele sofrimento...
... E ele mandou...
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