Survivor
2 Capítulo 2 - Shibuya
Depois da conversa com JaeJoong eu fui para minha sala, aguardar os resultados de seus exames. Sem dúvida ele era um homem misterioso. O que é tão perigoso para ele? Por que a pressa em sair? De quem ele estaria supostamente fugindo? Meu palpite é bem simples: TriCell.
- Isso não é dá sua conta Kyrie! Esqueça esse homem! – resmunguei – Ele é só o seu paciente, nada mais!
Comecei a organizar a minha mesa freneticamente. Precisava me distrair. Pena que o médico que estava de férias voltou, se não, eu poderia ficar na clínica. Bom, basicamente, fiquei a boa parte da manhã jogando paciência no computador.
Os exames de Kim JaeJoong demoraram a chegar. Como previsto por mim, não havia nenhuma alteração. Foi quando meu telefone tocou.
- Dra. Kyrie Szymkowiak.
- Dra. Szymkowiak? É o Rushin Nisahi.
- Sim diretor. No que posso ser útil?
- Acabei de receber uma ligação dos meus superiores. Eles pediram que a liberasse de seu serviço hoje. – eu admiti uma expressão incrédula.
- Mas como assim? Eu posso ir para casa?
- Sim. Está com o resto do dia de folga. – com muita desconfiança, aceitei.
- Okay diretor. Muito obrigada. – e o telefone foi desligado.
Encarei o aparelho na minha mão por longos minutos. Demorei em processar a informação. Eu tinha sido liberada do trabalho? Sem dúvida isso era estranho. Quem liberaria uma médica de seu serviço?
Decidi que me preocuparia com isso depois. Arrumei as minhas coisas para deixar o hospital, mas antes tinha que falar com Kim JaeJoong sobre o resultado de seus exames.
Subi no elevador até o quinto andar. Andei por um longo corredor até encontrá-lo em uma das varandas. Ele estava debruçado sobre o peitoril. O vento balançava aqueles cabelos loiros em desalinho. Ele olhava para algum ponto na avenida abaixo.
- Com licença, eu vim lhe informar o resultado de seus exames. – eu disse apreensiva. Não sei exatamente o porquê desse sentimento. Porém ele pareceu não me ouvir. Eu continuei. – Felizmente não deu nada em suas chapas e... – foi ai que ele se manifestou.
- Mas que m****. — Praguejou ele baixinho. Ainda olhava para baixo. Eu decidi ver o que estava acontecendo. E aproximei-me. Sem saber que aquele pequeno gesto foi responsável pela mudança radical na minha vida.
Coloquei as mãos sobre o peitoril frio e olhei. Lá em baixo estavam parado dois Rand Rover preto, e deles saiam algumas pessoas. Instintivamente, uma delas olhou para cima. Foi o suficiente para JaeJoong congelar.
- Acho que eles nos viram. – comentei. Ele me encarou.
- Como assim ‘eles nos viram’?
- Eu e você. – olhei para baixo novamente, e aqueles homens haviam adentrado o prédio.
- Eles te viram?
- Sim. Mas o que é que-
Não pude terminar a frase. JaeJoong me puxou pelo braço até o quarto 1409, onde pegou sua mochila. Dentro do quarto ele me fitou novamente, aqueles olhos amendoados estavam aflitos.
- Tem certeza de que eles a viram?
- Sim. – respondi. A não ser que o cara seja cego e não tenha me visto.
- Perdoe-me, mas não tenho escolha. Terá que confiar em mim. – ele abriu cautelosamente a porta do quarto e olhou no corredor, ainda segurava o meu braço.
- O que está acontecendo?
- Mais tarde eu te conto. É claro, se sairmos vivos desse prédio.
Esse comentário me provocou um arrepio. Algo cheirava a podre no reino da Dinamarca. Ele apertou firmemente o meu braço e saiu do quarto. Sorte de nós dois que os corredores permaneciam vazios. Andamos até as escadas de emergência.
- O seu carro está na garagem? – sussurrou ele tão perto de mim que senti a respiração quente e alterada.
- Sim. – respondi com voz igualmente baixa.
- Qual o caminho mais perto e seguro para lá? – a voz dele estava rouca, porém melodiosa e incrivelmente sexy.
- Lavanderia. É só descer os seis andares. É no subsolo. – ouvindo isso escutei ele rindo no meu ouvido.
Descemos os lances de escada silenciosamente. Como uma das mãos JaeJoong segurava meu braço, enquanto a outra segurava firmemente a mochila. O que haveria naquela mochila de tão especial para ele?
Continuamos descendo aqueles lances intermináveis. Sem trocar uma só palavra. Até que chegamos à lavanderia que, por sorte, estava completamente vazia.
- Aonde é a saída? – perguntou ele observando o lugar cautelosamente.
- É uma excelente pergunta. – ele me fitou curioso.
- Você não sabe?!
- Não. Eu nunca estive aqui. Mas sei que esse lugar da na garagem.
Ele deu os ombros e começamos a andar pelo lugar. Que era grande. Tinham várias estantes abarrotadas de produtos de limpeza além de alguns carrinhos cheios de lençóis e toalhas. Sem contar com as inúmeras máquinas de lavar. Passamos por todas silenciosamente, até que ouvimos um barulho: alguém havia aberto a porta.
JaeJoong me encarou e me arrastou para atrás de uma das estantes. Abaixamos-nos ali e ficamos esperando para ver quem apareceria. Não demorou muito para um cara aparecer. Era branco, com aproximadamente um metro e noventa e musculoso. Um armário! Ele começou a aproxima-se da nossa estante, mas felizmente passou reto. A gente aproveitou e deu a volta pelas costas dele, trocando de estante.
Eu quase não respirava. Estava tensa, assim como o loiro ao meu lado. Provavelmente ele era da TriCell. E estava a procura de alguém, nesse caso, nós. O “armário” passou pela estante que estávamos em direção à porta que dava para as escadas. Pronto eu podia respirar!
E quando eu soltei o ar... Droga! Por que tinha que fazer barulho justamente agora! Na hora, o cara se virou e olhou. JaeJoong tampou a minha boca com força e, o meu coração disparou. Arriscaria dizer que ele podia ouvir. A nossa sorte foi que o homem foi-se embora.
Kim JaeJoong foi maldoso ao lançar um olhar tão fulminante para mim. Aqueles olhos amendoados... Eu abaixei a cabeça envergonhada e, certamente, corada.
Começamos a andar agachados pelas estantes, até a saída. JaeJoong abriu a porta bem devagar. O inverno começava a dar sinais. Um vento frio passou cortando nossos rostos.
- Qual é o seu carro? – perguntou ele.
- O Audi TT, bem ali. – eu apontei para o meu carro prata, que estava uns cinqüenta metros das Rand Rover.
- Hum... Vamos ter que ser rápidos e discretos.
Andamos de vagar. Rodeamos os carros e fizemos o mínimo de barulho possível. Quando chegamos ao carro, eu coloquei a chave na porta para abri-la e... O alarme desligou! JaeJoong, pela segunda vez, lançou-me aquele olhar fulminante.
- LÁ ESTÃO ELES! – gritou um dos seguranças. É... Havíamos sido vistos.
Rapidamente abri a porta do carro, assim como JaeJoong. Entrei e o liguei.
- Rápido, rápido! – gritou o loiro exasperado. Bom, eu já estava acostumada à situação com tamanha pressão. Precisava, apenas, manter a calma.
Engatei a ré e depois a primeira marcha. Saí cantando pneu do estacionamento do hospital, seguida de perto pelas Rand Rover.
Foi uma longa perseguição pelos autopistas de Tóquio. Devo ter cometido uma centena de infração de trânsito. Isso era o de menos agora. JaeJoong se mantinha inerte no banco ao lado. Respirava pesadamente e consultava o retrovisor e o GPS do carro periodicamente.
- Eles estão chegando perto. – disse ele depois de um tempo – Acho melhor saímos de Tóquio.
- Não antes de você me contar o que está acontecendo. – ele, pela primeira vez desde que entramos no carro, me encarou.
- Contarei assim que estivermos em um local seguro. – ele voltou o observar a pista.
Continuei guiando através das ruas e sendo acompanhada discretamente pelas Rand Rover. Até que tive uma idéia.
Na rua em que eu estava tinha uma centena de lojas de carros usados. E como as Rand Rover estavam a certa distância, consegui entrar em uma das lojas. Estacionei o carro e desliguei o motor.
JaeJoong me fitou curioso, enquanto eu me debruçava sobre o volante, apreensiva. Os carros passaram e nem nos perceberam. Depois de alguns minutos, dei a partida.
- Muito bem pensado. – elogiou o loiro.
- Obrigada. Será que... Agora... Você pode me explicar o que está acontecendo?
- Não estamos em um perímetro seguro.
- E quando estaremos?
- Quando chegarmos é Shibuya.
- E quem disse que vamos até Shibuya?! – eu o encarei incrédula. Aquele rosto perfeito, de repente, ficou medonho.
- EU disse. – tá legal, todo aquele encantamento por Kim JaeJoong estava indo pelo ralo.
- Já que está disposto a ir até lá, que pague a gasolina pelo menos. – disse eu, grosseiramente. Ele apenas virou o rosto para a janela.
Eu continuei dirigindo. Peguei a saída até Shibuya. O silêncio reinou ante nós, novamente. Porém, um fato me chamou a atenção: ele ainda segurava a mochila.
- O que tem de tão importante nessa mochila? – perguntei.
- Continua dirigindo. – respondeu ele amargo. Isso foi a gota d’água. Eu freei o carro bruscamente e o joguei para o acostamento.
- Acho que está na hora de você começar a abrir o jogo, amigo. Ou eu te acuso de seqüestro!
- Você é louca?! – ele agarrou-se mais a mochila.
- Ainda não viu nada. O que está acontecendo aqui? – eu me virei para ele e cruzei os braços.
Ele voltou a olhar pelo pára-brisa. Admito que, apesar de toda raiva, ele estava lindo daquele jeito, pensativo.
- Nada mais justo do que te contar a verdade. Você podia, pelo menos, dirigir até um hotel próximo? – pela primeira vez, ele me pediu algo educadamente. Não pude negar nada a aqueles olhos amendoados.
Liguei o carro e dirigi. Sem conversas, apenas o barulho do vento lá fora. Finalmente encontramos um hotel. Não parecia grande coisa, mas, seria o suficiente para obter as respostas que eu queria.
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