Survivor
1 Capítulo 1 - Mais um Dia no Hospital
O dia havia amanhecido chuvoso em Tóquio. O hospital estava tranqüilo. Apenas parentes de hospitalizados circulavam por aqueles corredores medonhos. Eu estava sentada em uma salinha com o copo de café na mão. Encostei a cabeça na parede e tomei um gole, na tentativa de evitar o sono que me consumia. Dar plantão sempre acabava comigo.
- Dra. Kyrie Szymkowiak, favor comparecer a recepção. – escutei meu nome soando pelo auto-falante. Com um longo suspiro, ajeitei meus cabelos castanhos e sai caminhando para lá.
Durante o caminho alguns familiares de pacientes me cumprimentaram, eu estava tão cansada que apenas acenei com a cabeça. Na recepção inteiramente vazia, a atendente me esperava com um papel em mãos.
- Dra. Szymkowiak, o diretor deixou esses papéis para que assine. – a recepcionista entregou-me um envelope, eu sabia exatamente do que se tratava: minha transferência.
Eu gostava muito do Japão. Muito mesmo. Só que eu já estava com saudade daPolônia. E também recebi uma excelente proposta de lá. Uma médica intensivista como eu sempre tinha boas oportunidades.
Fui tirada de meus pensamentos pela chegada de uma ambulância. Deixei os papéis com a recepcionista. Trabalho... Pensei cansada. Conversei com um dos para-médicos.
- Situação? – perguntei enquanto ajudava tirar a maca da ambulância.
- Homem. Aparenta ter entre vinte e vinte e cinco anos. Acidente de carro. Teve algumas escoriações, mas o principal ferimento é na cabeça. — permiti-me observar o homem por um instante. Tinha muito sangue e quase não dava para enxergar seu rosto.
- Documentos? – perguntei
- Sim. Levarei até o quarto onde ele estará. – acenei com a cabeça.
O levamos para uma ante-sala aonde terminamos os primeiros socorros do garoto. Avaliei o ferimento da cabeça e o encaminhei para a ressonância. Ele permanecia desacordado.
Eu mesma fiz o exame, aparentemente não havia nada. Felizmente. O levei para o quarto e com as chapas na mão analisei mais profundamente. Fiquei olhando por tanto tempo aquelas figuras que, por fim, não sabia mais o que procurar. Foi quando me atentei a olhar o paciente.
Agora já limpo de todo aquele sangue, dava para ver seu rosto. Um belo rosto. O cabelo loiro levemente repicado e bagunçado, a pele quase translúcida. Os lábios estavam pálidos, mas arriscaria dizer que eles eram naturalmente rosados. Parecia um anjo. As belas feições do loiro me hipnotizaram por um instante. E por segundos acabei viajando...
Saí de meus devaneios quando o vi se mexer na cama. Balancei a cabeça tentando tirá-lo de meus pensamentos. A mochila dele estava em cima do sofá, não resisti à tentação de descobrir quem era o homem misterioso.
Estava bem cheia de coisas: um notebook, livros de botânica e uma maletinha prateada. A sua carteira estava bem escondida, mas acabei a encontrando. Na carteira de motorista estava escrito seu nome: Kim JaeJoong. Definitivamente ele não era japonês, e sim um coreano. Porém uma coisa me chamou a atenção no meio de seus documentos, um cartão eletrônico que estava bem escondido. Esse cartão devia ser da empresa que ele trabalhava, TriCell, era o nome.
- Onde eu estou? – perguntou com voz arrastada. Eu me sobressaltei e quase meus óculos caíram.
- No Hospital Metropolitano de Tóquio. – me virei para encará-lo. Ele tinha os olhos amendoados transbordando preocupação. Eu aproximei-me e sentei-me ao seu lado. – Sou a Dra. Kyrie Szymkowiak. Qual o seu nome? – ele pareceu pensar por um instante. Desejei que ele não tivesse perdido a memória, mesmo não sabendo o porquê desse desejo.
- JaeJoong... Kim JaeJoong. – respondeu ele hesitante.
- Ótimo! Você se lembra do que aconteceu?
- Mais ou menos... Só me lembro do táxi freando bruscamente. – ele coçou a nuca, parecendo envergonhado.
- Onde você mora?
- Hã...
- Estuda?
- Não.
- Trabalha?
- Teoricamente, não.
- Tem família aqui no Japão que possamos avisar?
- Não. – confesso que as respostas dele me intrigaram...
- Você terá que ficar setenta e duas horas em observação. – Ele não pareceu ligar com o tempo internado. – Vou prescrever alguns remédios para caso tenha dor. – escrevi alguns medicamentos em seu prontuário. Quando voltei a olhá-lo ele estava fitando-me curioso.
- Setenta e duas horas no mesmo lugar? – eu estranhei a pergunta.
- É claro que sim. – ele desviou aqueles magníficos olhos.
- Está bem. – concordou ele desgostoso.
- Amanhã voltarei para saber sobre seu estado de saúde, com licença. – com uma última olhada naquele ser angelical, saí do quarto.
Ao fechar a porta me deparei com um corredor deserto. Passei na recepção peguei os meus papéis de transferência, comuniquei a minha saída e depois fui até a sala pegar a minha bolsa. Finalmente ia deixar aquele hospital.
Pode parecer que eu não gosto da minha profissão. Mas eu adoro! E só que... Ás vezes bate uma solidão... O meu emprego me priva de muita coisa. É gratificante salvar a vida das pessoas, mas, é uma vida solitária.
Vagando em pensamentos dirigi o meu Audi TT até o apartamento. Foi quando me lembrei daquela figura misteriosa que estava no quarto 1409. Kim JaeJoong... Sem fanilia, sem trabalho e sem estudo... Sem dúvida muito estranho...
Deixei Kim JaeJoong de lado quando cheguei em casa. Queria tomar um longo banho e comer algo decente. E foi exatamente o que eu fiz. Liguei o som numa música bem relaxante, Swan Lake acho, e fui para o banheiro.
Fiquei submersa na banheira por horas, então tomei coragem para sair e fazer algo para comer. Modéstia a parte eu era uma boa cozinheira. Depois de comer a minha salada de aspargo, sentei-me na frente do computador para fuçar alguma coisa na internet.
Em um site de busca eu digitei TriCell.
O meu súbito interesse pela empresa tinha ligação com Kim JaeJoong, com certeza. Aquele loiro de aparência efêmera estava se tornando interessante para mim?
O meu computador emitiu um barulhinho. Devia ser para eu para de pensar em Kim JaeJoong e, voltar e prestar atenção na tela, que estava no site da TriCell.
No histórico da empresa não havia nada demais, pelo menos que justificasse a apreensão de JaeJoong. A TriCell era um empresa farmacêutica africana, que tinha base em vários países do mesmo continente. As pesquisas conduzidas por ela dizem respeito a plantas medicinais. E foi a compradora da falida WilPharma. Apenas isso. Absolutamente nada demais.
O que nos leva a deduzir duas coisas: ou aquele loiro não se importava com a empresa, ou a empresa não se importava com ele. Ou nenhuma das duas, vai ver o carta está lá por mero acaso...
- Mas que droga, Kyrie! Você não tem nada a ver com isso! Ele não passa de mais um paciente! MAIS UM! – e desliguei o computador violentamente.
Ele é só mais um paciente, ele é só mais um paciente... Eu repetia freneticamente, tentando tirá-lo da minha cabeça.
Por fim, resolvi dormir. Já que estava há dois dias sem dormir. Como será que está JaeJoong?
Pela manhã, depois de minha higiene e desjejum, voltei para o hospital. Ao chegar o diretor estava a minha espera.
- Dra. Szymkowiak, já leu os papéis da transferência? – perguntou Rushin Nisahi.
- Eu esqueci-me completamente, Rushin-san. Prometo que amanhã trago a resposta. – me comprometi. Como eu poderia esquecer de ler os documentos?
- Esta bem. – concordou ele.
Eu fui até a minha sala, no segundo andar. E depois de deixar as minhas coisas, comecei a visitar os meus pacientes. O primeiro era um garoto que estava com meningite viral, uma doença grave, mas que foi previamente diagnosticada. Tudo bem com ele. A segunda foi uma mulher que sofreu intoxicação, felizmente, tudo bem também. E o terceiro, e último, era ele. Kim JaeJoong.
Eu parei na frente do número 1409. Um pouco receosa de entrar, eu acho. Girei a maçaneta lentamente. Eu o encontrei sentado na cama, tomando café-da-manhã. Estava mais corado, e seus lábios haviam adquirido uma cor rosa muito convidativa.
- Bom-dia. Como está se sentindo? – perguntei com o seu prontuário em mãos. Ele esboçou um lindo sorriso.
- Bom-dia! Eu estou bem. Não tive dores e fiz alguns exercícios para a memória também. – informou ele num fôlego só e, depois dando uma dentada na torrada com geléia.
- Ótimo. Eu vou prescrever mais alguns exames apenas para monitoramento.
- Doutora eu estou bem! Posso sair do hospital! – eu me segurei para não gargalhar.
- Desculpa, mas o senhor teve uma pancada na cabeça. Não é porque amanheceu bem que pode sair andando por aí. Depois das setenta e duas horas, a gente vê o que faz. – eu disse o encarando.
- Mas eu não posso passar tanto tempo num mesmo lugar. – ele desviou os olhos e passou a encarar a televisão.
- E por que não? – a minha pergunta soou um tanto... Estranha. Ele pareceu pensar alguns instantes, mas não falou.
- Esse assunto não é para ser discutido com uma médica. É perigoso. A única coisa que peço e para me deixar ir embora. – eu balancei a cabeça negativamente.
- Impossível. – coloquei o prontuário no lugar e saí do quarto.
Essa conversa deixou algumas coisas bem claras para mim. Arriscaria dizer que JaeJoong estava fugindo de alguma coisa ou alguém. A TriCell estaria envolvida nisso?!
Notas finais
espero q tenham gostado!
reviews?!
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