Surviving to Hell
17 Imune
Notas iniciais
Carl parece um tanto relutante em acreditar no que eu disse, mas por fim desvia o olhar. Tento abrir a porta, mas os antigos moradores provavelmente a trancaram. O desespero começa a me dominar novamente, dessa vez devido aos dez infectados que se separam da horda para virem atrás de nós.
– Vamos pelos fundos – Carl sugere, já começando a dar a volta na casa.
Corremos até a parte de trás da casa, onde há uma churrasqueira e uma casa de cachorro. Foco-me na porta e torço a maçaneta, concentrando todo meu otimismo e esperança nela. Felizmente ela se abre, revelando uma cozinha de tamanho médio.
Entramos dentro da casa e fechamos a porta rapidamente, trancando-a bem a tempo de ouvir os esmurros dos infectados do lado de fora.
Encosto minhas costas na porta, tentando controlar minha respiração. Carl faz o mesmo, e ficamos assim por alguns poucos minutos, sem pronunciar qualquer palavra.
– Ajude-me a arrastar essa mesa – Carl interrompe o descanso. Desencosto-me da porta e ajudo-o a empurrá-la até a porta, impedindo a entrada das coisas.
– Será que isso vai aguentar? – pergunto, olhando para a superfície de madeira.
– Espero que sim. – Ele olha em volta, reparando na típica cozinha americana.
Há uma bancada no meio do cômodo, separando a cozinha em si da sala de jantar. Vejo algumas moscas sobrevoando a pia, devido ao fato de haver algumas louças sujas lá dentro. Provavelmente os antigos moradores não tiveram tempo de lavá-la.
– É melhor vermos se a casa está limpa – digo, indo até a bancada onde está um faqueiro e puxando uma faca. Analiso a lâmina afiada, observando meu reflexo nela. O apocalipse não ajudou nem um pouco em minha aparência.
– Você não tem uma arma? – Carl questiona com as sobrancelhas franzidas.
– Eu esqueci a minha – digo, tentando não denotar vergonha na voz. Ele ri com escárnio, o que me deixa com raiva.
– Como você é idiota – zomba.
– Cale a boca – ordeno, me dirigindo até a escada que leva ao segundo andar. Ouço-o rir mais um pouco no andar de baixo, e me controlo para não mandá-lo ir para o inferno.
Subo os últimos degraus e saio no pequeno corredor, parecido com o de minha antiga casa. Há duas portas brancas do lado direito e mais uma em minha frente, provavelmente o banheiro.
Piso com cuidado no assoalho de madeira, indo em direção à provável porta do banheiro. Coloco a mão ao redor da fechadura, ajustando a faca em minha outra mão. Fico em silêncio por um momento, procurando por barulhos dentro da porta, porém não encontro nada.
Torço a maçaneta de uma só vez, revelando um banheiro preto e branco. Confirmo que não há nada alarmante dentro e entro, abrindo a torneira. Apenas umas poucas gotas de água saem pelo cano, me deixando decepcionada.
Saio do banheiro fechando a porta atrás de mim e indo em direção à outra porta. Repito o procedimento, mas não encontro nada além de um quarto de casal.
Caminho até a última porta, abrindo-a com cuidado. Ao contrário dos outros cômodos, este é totalmente bagunçado. Há roupas e embalagens de alimentos jogadas no chão e a cama de solteiro está desarrumada. Alguns pôsteres de bandas e de jogos estão colados nas paredes azuis, o que denúncia o quarto de um garoto.
Avanço curiosa pelo aposento, observando cada detalhe. Sempre quis saber como é um quarto de garoto, e é estranho estar realizando esse sonho em tais circunstâncias.
Chego perto da cômoda, colocando minha faca ao lado e acendendo o abajur do Homem-Aranha. Lembro-me que Seth ganhou um desses no Natal de alguns anos trás, mas nunca cheguei a vê-lo em seu quarto. Era uma zona proibida.
Sinto algo agarrando meu pé subitamente, e entro em pânico ao notar que há um infectado debaixo da cama. Tento arrastar-me para longe dele, porém parece que seu aperto é de ferro.
– Carl! – grito em desespero ao ser derrubada no chão. Vejo minha faca em cima da cômoda, mas parece uma missão impossível alcançá-la.
O infectado – que provavelmente era o dono desse quarto – tenta a todo custo arrancar um pedaço de mim, enquanto chuto o ar na esperança de acertá-lo. Ele morde meu tênis, e com isso tenho a oportunidade de acertá-lo em cheio na face podre.
Carl entra correndo no quarto, chocando-se momentaneamente com a cena. Ele mira a arma na cabeça do infectado e atira, fazendo com que o corpo caia imóvel em meus pés.
Sinto lágrimas escorrendo por minhas bochechas, e seco-as correndo antes que Carl perceba. Olho para o corpo imóvel em minha frente, constatando tristemente que o garoto era apenas alguns anos mais velho que eu.
– Você está bem? – Carl pergunta, encarando o corpo por um momento antes de me olhar. Balanço positivamente a cabeça, ainda sentada no chão. – Essa foi por pouco.
– Sim – murmuro me levantando. Carl se aproxima da cômoda, passando por cima do cadáver. Ele começa a abrir as gavetas, enquanto eu ainda me recupero do choque.
– Tem muitas coisas legais aqui – constata, pegando algo dentro da primeira gaveta. É um pequeno objeto quadricular, e só percebo que é um isqueiro quando ele o acende.
– Alguma coisa lá embaixo? – pergunto, observando ele guardar o objeto no bolso.
– Tudo limpo – responde, fechando a gaveta. Ele finalmente me olha, como se analisasse minha alma.
– Está com fome? – pergunta. Novamente balanço a cabeça em um sim, sentindo meu estômago vazio.
Descemos as escadas em direção à cozinha e sinto um alívio por sair daquele quarto. Carl começa a abrir e fechar os armários de madeira em busca de algo comestível. Ele acaba achando uma caixa de cereal, e fico levemente feliz por ser minha marca favorita.
– Vai ter que ser sem leite mesmo – conclui, fechando a geladeira. Ele pega duas vasilhas e divide igualmente o resto do cereal.
– Obrigada – agradeço, olhando fixamente em seus olhos quando ele entrega minha porção.

– De nada – responde, e tenho certeza que ele sabe o que estou agradecendo.
Terminamos de comer o cereal em silêncio, ambos tentando aproveitar ao máximo a pequena refeição. Carl termina e começa a caminhar em direção à sala. Levanto-me da cadeira e o sigo, já que ficar sozinha não parece uma coisa agradável no momento.
– Eu fico com o maior – sentencio, avistando os dois sofás caramelos no meio da sala.
– Nem pensar, eu vi primeiro.
– Mas eu sou maior – digo, e ele bufa em resposta. – É um direito meu.
Começo a caminhar até o sofá maior, porém Carl coloca um braço em minha frente, impedindo minha passagem.
– Vamos resolver isso de maneira justa – diz sério. Cerro meus olhos em sua direção, desconfiada.
– O que sugere?
– Ímpar – fala, levantando a mão fechada no ar. Reviro os olhos diante dessa atitude totalmente infantil, mas também levanto a mão.
– Par.
Jogo o número dois, e ele o um. Praguejo ao constatar que perdi, tendo que aguentar o olhar vitorioso de Carl.
– Isso é injusto – digo, como uma verdadeira garota que não sabe perder.
– Apenas aceite – responde, se jogando no sofá maior. Caminho rabugenta até o menor, sentando-me nele.
Passo o olhar pelo cômodo, parando na mesinha de centro onde um pequeno porta-retratos repousa. Na foto há um homem, uma mulher e um garoto, todos juntos no Grand Canyon. Fico triste ao constatar que o garoto da foto é o infectado morto lá em cima, e os pais provavelmente estão vagando em algum lugar lá fora. Pergunto-me qual foi a história dessa família, mas bloqueio esses pensamentos quando percebo que não está me ajudando em nada.
Olho para Carl, que está acendendo e apagando o isqueiro. Fito a pequena chama indo e vindo, encantada com sua beleza. Ao mesmo tempo em que o fogo pode aquecer e cozinhar alimentos, também pode queimar e machucar. Nunca vi nada mais poderoso que isso.
– Você está me deixando com medo encarando o isqueiro desse jeito – Carl fala, fazendo com que eu ria.
– É tão lindo – falo em resposta. Ele se volta para encarar a chama novamente, como se não tivesse notado isso.
– Toma – diz, estendendo o objeto prateado em minha direção. Olho-o com as sobrancelhas franzidas, não entendendo o que ele quer dizer com isto.
– Está falando sério? – questiono, olhando sua mão estendida.
– Pegue logo.
Estendo o braço e pego o isqueiro, o material gelado tocando em minha mão. É uma sensação diferente das armas, é boa e agradável. Sorrio com isso, e olho para Carl, que também está sorrindo.
– Obrigada, obrigada, obrigada! – exclamo animada, acendendo meu mais recente isqueiro. Carl ri com isso, provavelmente me achando uma idiota.
– Você está me agradecendo muito hoje.
– Melhor não se acostumar – aviso, voltando à atenção para o objeto em mãos. Fico acendendo e apagando-o, como Carl estava fazendo.
– Você acha que há uma cura para isso? – pergunto depois de um tempo, guardando o isqueiro no bolso da calça e encarando Carl.
– Fomos ao CDC antes de irmos para a fazenda, mas o cientista que estava lá não sabia de nada.
– O que aconteceu com ele e o CDC? – questiono. Provavelmente não há nenhum cientista no grupo.
– O prédio estava programado para explodir – diz. Fico quieta por um momento, tentando absorver a informação. Isso quer dizer que a cura por parte do CDC é nula.
– Talvez haja outras pessoas procurando a cura – digo, e mais parece que estou tentando convencer a mim mesma.
– Talvez – responde, e caímos mais uma vez no silêncio.
Vários pensamentos passam por minha mente enquanto fixo o olhar em um lugar qualquer. Não demoro a voltar ao dia em que ouvi Lori conversando com Shane, sua frase se repetindo diversas vezes em minha cabeça, como um maldito disco riscado.
Nunca cogitei a possibilidade de ter um irmão, já que nem mamãe nem papai tocavam nesse assunto. Começo a imaginar como seria ter uma criança com o mesmo sangue que o meu, mas forço-me a parar quando percebo que estou indo longe demais.
– Você já beijou alguém? – pergunta Carl virando-se abruptamente em minha direção.
Encaro-o por um momento, perguntando-me qual é sua opinião sobre ter um irmão. Porém logo raciocino o sentido de sua pergunta, e fico levemente surpresa por ele questionar isso.
– Não. Você já?
– Não. – Ele parece genuinamente curioso, como está na maioria das vezes. – Será que é bom?
– Parece nojento, porém as pessoas aparentam gostar – reflito, lembrando-me dos milhares de filmes românticos que já vi, onde os protagonistas se beijam constantemente.
Somos interrompidos pelo barulho da maçaneta da porta sendo girada, e entro em alerta no mesmo segundo. Troco um olhar com Carl, ambos levantando-se e adquirindo posições defensivas.
– Carl? Emma? – Sinto meus ombros relaxarem ao reconhecer a voz de Rick. Murmuro um “já vai” e corro em direção ao chaveiro ao lado da porta, procurando uma chave que se encaixe na fechadura.
Abro a porta e sou recebida por pares de braços me rodeando. Retribuo o abraço de papai, deixando um sorriso de felicidade se formar em meu rosto ao ver que ele está aqui comigo, são e salvo. Vejo Carl abraçando Rick ao nosso lado, e permito-me aproveitar o momento, como se por alguns minutos eu fosse imune a todo sofrimento, dor e morte.
Cause we are alive
Here in death valley
But don't take love off the table yet
Cause tonight
It's just fire alarms and losing you
We love a lot
So we only lose a little
We are alive
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