Surviving
3 Embuste de vida
Notas iniciais
A ressaca já denunciava como tinha sido a noite anterior, acordei no meu quarto, o que já era um bom sinal, o que estranhei foi o Barry em cima da minha cabeça e apesar da dificuldade, tive uns fleches de memória...
Lorraine: Amor, pega pra mim a salada – disse minha mãe ao seu mais novo Romeu.
Puxei minha mãe pelo braço até a sala e ela quase deu com o prato na minha cabeça:
Catarina: Mãeeeee, que merda é aquela na sala?
Lorraine: Aquela merda na sala é o teu meio irmão, ele se chama Hiron e agora pegue leve – pela minha cara de batata amassada ela percebeu que eu não tinha entendido — Sim, eu e o Heitor vamos nos casar.
Ok Cat, respira e não pira, respira e não pira, respira e O CARALHO, FILHA DA MÃE!
Catarina: COMO ASSIM? MÃE ME EXPLICA ISSO DIREITO, VOCÊ NÃO PODE SE CASAR COM ELE, MÃE...
Lorraine: Primeiro cala a boca, esperava isso de qualquer um, menos de ti, sabes muito bem o que passei com o teu pai e eu mereço ser feliz, você querendo ou não Catarina, quero que tu faças parte da minha vida, me arrependo por ter te afastado de mim e to tentando arrumar isso, mas não piore as coisas, chega de fazer tempestade em copo da água. – Ela saiu pisando firme até a sala de jantar e eu tratei de ir conhecer minha nova família.
Me sentei ao lado do que seria minha nova referência de demônio e ele sorriu, Deuses, chorei e não foi pelos olhos, mas sorri falsamente, o que era minha especialidade. A partir daí só escutei o barulho dos talheres e eu juro que dava pra escutar o som da comida sendo mastigada pela minha amada família.
Lorraine: Vocês ficam responsáveis pelas louças, enquanto isso precisamos verificar se as malas do Hiron já chegaram.
Catarina: Não precisa de desculpinha pra ir transar minha gente.
Heitor: Catarina, querida, o Hiron está morando aqui, esse jantar foi meio que pra vocês se conhecerem, mas pelo jeito não deu certo... – Então aquela porta trancada de frente pro meu quarto é onde o diabo reside...
Catarina: PUTA QUE ME PARIU, EMBUSTE DE VIDA. – O casal de pombinhos saíram rindo da minha cara.
Nem preciso dizer que a louça sobrou pra mim, como o casal meloso tinha sumido, nem me pergunte pra onde, peguei duas garrafas de vinho, eu amo vinho, tinham outras garrafas mais caras e com teores alcoólicos mais fortes, mas vinho é incrível, deixe uma garrafa de vinho aberta com contato com o oxigênio e você tem uma garrafa de vinagre, olha que incrível, até chegar no segundo andar meia garrafa já tinha ido, antes de trancar o meu quarto pude ver a entrada do inferno e como brinde vi o diabo sem camisa, o corpo dele era todo esculpido, ele faz um ótimo papel como Lúcifer, tenho que admitir...
A partir daí só lembro que uma das garrafas caiu no chão e a outra eu acabei em menos de um minuto, maldito seja Lúcifer, mas não posso culpa-lo, toda garotinha manhosa gosta de perigo e eu não faria a desfeita de recusar o diabo que dorme na minha casa.
Isso explica porque eu sonhei com anjos caindo do céu, deuses, sou muito fraca pra bebida, tirei Barry da minha cabeça e coloquei ele em meio as almofadas peludinhas da minha cama, eu não sou fresca nem nada, mas o Barry gostou tanto das almofadas que levo elas pra todos os lugares que moro, acho que ele se sente protegido ali, em todo caso com o máximo de esforço que já fiz na minha vida inteira e levantei da cama, tomei um banho, que por mais que eu tentasse ser rápida sempre passava dos quarenta minutos, não estou fazendo racionamento de água nem nada, não é período de seca no Nordeste e sou péssima em biologia, mas não vejo razão pra gastar água como se fosse a deusa da chuva, quando era criança até comecei a estocar água em garrafinhas, guardava elas no porão da minha primeira casa, isso foi quando meus pais ainda eram casados, parece que foi a uma eternidade... Mas enfim, a moral da história é que você tem que economizar água e não fazer um estoque no porão se não os ratos vão roem as garrafinhas, triste mas é a realidade...
Perdi a linha de raciocínio quando meu celular começou a tocar The Sound, do The 1975, esse era o toque da Lauren:
Lauren: FALA MINHA BAGAÇA PREFERIDA, QUE HISTÓRIA É ESSA DE TER VOLTADO E NÃO ME AVISAR, ATÉ TUA MÃE ME AVISOU, VOU TE QUEBRAR TODA, JÁ FIQUE SABENDO! — Ela só se fazia de encrenqueira, por dentro era uma banana mole.
Catarina: Foi mal cara, aconteceu umas merdas aí, chega aqui que já te explico.
Lauren: Ahhh Cat, mó trabalho, espera um pouco que em cinco minutos to aí.
E em exatos cinco minutos ela chegou, éramos vizinha desde que nascemos, só nos separamos quando fui morar com meu pai á um ano, quando aprendemos a usar o cronometro, calculamos o tempo que a Lauren levava pra chegar aqui, então nada mais nada menos que cinco minutos, se não o bicho pegava.
Ela chegou bem quando eu tava curtindo a dor de cabeça que veio como consequência da ressaca e começou a pular em cima de mim, óbvio que corri pro banheiro e vomitei o jantar da noite passada, ou seja, alface e ranço.
Lauren: Ta grávida é Catzinha? Tava morrendo de saudades mano — ela me abraçou por trás antes mesmo de eu acabar de vomitar.
Catarina: Ta doida Lau? Também senti sua falta e é só ressaca mesmo.
Lauren: Suponho que essa ressaca tenha nome e sobrenome... — Cachorra me conhece bem pra caramba- Que pedaço de mal caminho é aquele no quarto da frente? Tão alugando quarto pra intercambista?
Catarina: Que alugando quarto o que doida, é meu mais novo meio irmão... — contei toda a história pra ela e a única reação que recebi foi um olhar de solidariedade.
Lauren:Único lado ruim é que não vais poder pegar ele nem nada, né... que merda.
Catarina: E quem disse que eu não vou?
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