Survival Game: O Começo
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Notas iniciais
Chegamos à caverna. Encontrei Anne ainda dormindo dentro do saco de dormir. Como eu queria descansar. Lhe beijei na bochecha, mas me senti culpado por tê-la acordado, mas acordado sorrindo para mim. Ela deixou escapar um gemido devido à coluna que doía, mesmo tendo acabado de acordar.
– Como você está? — lhe perguntei. Ela respondeu.
– Estou melhor, Richie. — respondeu. Nos beijamos outra vez, quando Sophia entrou com Otto, então inconsciente. Anne quis saber. — Otto? O que houve com ele?
Me preocupei com isso. E o pior vai ser pensar no que falar para ela, sendo que ela acabara de sofrer uma lesão nas costas. Mas falei mesmo assim.
– Anne, Otto levou uma facada de Arnold pelas costas. — minha voz parecia trêmula.
– Mas como? — Anne pôs a mão na boca, mas logo sua expressão mudou para a expressão de suspeita. — Então, o tiro... Foram eles, não é?
Sacudi a cabeça em concordância. E ainda acrescentei.
– Eles só atiraram para nos atrair. Nos atraíram até um obelisco.
– Mas é contra às regras do jogo! — contestou. — Não se pode atrair um participante para matá-lo.
– Mas Frieda pensa que é ela quem manda aqui. — Sophia criticou, com ironia na voz. — Passados três minutos, aproximadamente, que Arnold aproveitou a chance de atacar a gente de surpresa, começando pelo Otto.
– E o curioso é que Lorne cortou a garganta do colega na minha frente, sem ao menos falar nada. — acrescentei. — A não ser nos dizer que aquilo serviu de lição.
– Mas você deve imaginar a cara que a Frieda fez, depois disso! — Sophia riu.
– Até que foi muito engraçado! — ri também.
Enquanto deitamos o Otto inconsciente de bruços sobre o saco de dormir, Anne se levantou com o meu auxílio, pois a sua coluna ainda doía, mas não tanto assim, segundo ela. Mas quando erguemos o casaco e a camisa dele, me deparei com uma abertura ensangüentada no meio das costas. Anne observou o ferimento minuciosamente e retirou uma conclusão.
– Até que não ficou tão grave assim. Mas vai gerar uma cicatriz, com o passar do tempo.
– Vai precisar suturar, doutora? — brinquei.
– Não sem antes antes de limparmos o ferimento. — respondeu, olhando para mim com os olhos de médica-cirurgiã.
***
Mesmo tendo feito tudo isso — eu banquei o enfermeiro — Otto ainda não demonstrou nenhuma reação, por estar ainda inconsciente. Até mesmo as pontadas da agulha para a sutura não o incomodaram. Pouco depois, Sophia, tossindo pela segunda vez, veio com um frasco de vidro pequeno, contendo um liquido transparente em seu interior.
– Encontrei dentro de uma caixa suspensa por um paraquedas lá fora. — disse. Me entregou o frasco.
O examinei minuciosamente. Seria um fármaco, se pudesse. Era um liquido transparente e incolor, mas, ao abrí-lo, era inodoro. Entreguei o frasco à Anne.
Anne me dissera ontem, depois de termos beijado naquela noite, que a tia era farmacêutica que tinha sua própria farmácia, próxima à Estação Ferroviária de Munique. Ela lhe havia dito que um fármaco deverá ser próprio para a prescrição, se para a sua produção forem respeitados a sua fórmula química, o balanceamento das suas equações e feitos os cálculos estequio... Estequio sei lá o quê e passar por fiscalização, isto é, identificar os cálculos, o prazo de validade, essas coisas. É, acho que vou me casar com uma médica...
Quase morro de susto quando Anne gritou:
– MORFINA! — ela se entusiasmou. — É isso! Morfina, para amenizar a dor!
– Mas como, se ele ainda está inconsciente? — questionei.
– Quando ele acordar, já não vai mais sentir dor.
– E como você sabia? — perguntei, incrédulo.
– Vi no rótulo abaixo. — ela me mostrou o rótulo selado no fundo do frasco. — e a validade. Para novembro deste ano.
Nem tinha percebido o rótulo no fundo. A vi abrindo a tampinha do frasco, onde tinha uma pequena espátula porosa de plástico presa a ela. Na hora em que Anne ia aplicando a espátula molhada de morfina na ferida do Otto, este acordou berrando de dor e ardência.
– ESTÃO ME QUERENDO MATAR, É? — arquejou, com cólera dentro de si.
Suspiramos aliviados.
– Não — falei. — pelo contrário, apenas estamos lhe curando.
– É — Anne assentiu. — e você devia nos agradecer por estar vivo.
– Com toda essa ardência?! — Otto questionou. — Deviam ter me acordado com água gelada! Mas com essa coisa ácida... — ele até pegou leve, pois a meu ver, até que a morfina está surtindo efeito. Falou ondulado. — eu não admito.
Nós rimos, mas não da sua reclamação, mas sim da sua cara.
– Afinal, que graça teria? — ri.
– É, e que graça teria se eu aplicasse morfina no seu braço ferido? — Anne me ironizou. Fiz careta.
– Ah, não! — revoltei, pondo a mão sobre o meu braço machucado. — Na minha ferida, NINGUÉM TASCA!
Otto riu.
– Até mesmo para suturar? — Sophia brincou. Os outros caíram cada vez na gargalhada estridente. Eu fechei a cara, mas logo deixei passar.
***
Hoje não teve pesadelo me atormentando. FINALMENTE! Desde o Dia da Seleção para cá, não vinha tendo um sono tranquilo, com os pesadelos me atormentando a cada dia que passa. Entrei em um buraco negro enquanto dormia. Era o meu bunker perfeito. Mas de repente, perdi o sono. Acordei no meio da noite. Durmo desde a tarde, com Anne e Sophia cuidando de Otto. Peguei o meu bloco de notas para anotar a listagem dos mortos nesta noite. Otto anotara duas vezes consecutivas, na primeira, em que eu lhe emprestei para anotar por causa de Lewis; na segunda, em que eu estava ferido no braço esquerdo (eu sou canhoto) e por causa da primeira noite de amor com a Anne. Hoje só teve um morto: Arnold.
Guardo o meu bloco na mochila, já desgastada com o tempo, restando molambos e retalhos improvisados. Em seguida, dou mais uma vistoria em Otto e na sua ferida, já com curativos. Ao abrir, quase caio para trás, quando me deparei com uma realidade nada boa e normal. Não era como eu pensava. Era bem pior do que eu pensava. O que outrora foi um corte ensangüentado, agora é uma massa preta e cintilante de decomposição. É uma coisa que nada mais é do que uma necrose. Minha intenção foi fugir dali, vomitar e mergulhar no lago. Mas tive que alardear.
– ANNE! SOPHIA! — gritei a plenos pulmões. — ME AJUDEM AQUI!
As duas acordam aflitas e aos pulos. Vieram ao meu socorro. Quando viram, tiveram a mesma reação que eu, com a necrose se formando no lugar da ferida do Otto. E ele voltou a ficar inconsciente.
– Meu Deus! — Anne levou as mãos à cabeça, aturdida. — Como isso aconteceu?
– Como essa necrose foi aparecer aí do nada? — Sophia indagou, assustada.
Eu respirava ofegante. Sophia tossia novamente. Anne já começava a ficar estressada. Poderá ter sido a morfina?
– Será que foi o remédio? — perguntei, pegando o frasco para mostrar às duas. Sophia pegou da minha mão.
– Não sei! — ela se estressou também, mas suspeitou. — Bom, se a morfina ameniza a dor, o que poderá ter sido?
– Só pode ser a validade! — Anne arrancou o frasco da mão de Sophia. — É isso! Só pode ser a validade, o balanceamento errado, o cálculo... É, devem ter feito o calculo errado!
– Não, — falei. — veja o rótulo!
Anne verificou, mas não tinha nada a ver com o prazo de validade, o cálculo, o balanceamento, NADA! Até que ela esbugalhou o olhar assustador.
– Anne, o que foi? — me preocupei, mas ela sussurrou algo inaudível.
– Formol... — ela murmurou. — ELES NOS ENVIARAM FORMOL!
FORMOL?!! Ah, não! Só pode estar brincando! Formol?! Por que que alguém iria mandar um frasco contendo formol?
– Eles mandaram o frasco errado! — Sophia arquejou. Afastei a franja com as mãos.
– E agora?! — me desesperei. Mas conclui que Otto... Ele estava no começo de um estado vegetativo.
Tivemos que nos apressar, pois as coisas pioravam para o nosso lado. Otto está em seu sono profundo, enquanto a gente estava nos matando para mantê-lo vivo. Ele é o nosso amigo. Quero muito que ele viva. Ainda bem que Lorne matou Arnold! Eu não sei por que, mas se ele estivesse vivo, eu o mataria. O queimaria vivo, esfolava vivo. O esfaquearia mil vezes até passar a cólera e a vingança. Foi um esforço exaustivo para que Otto sobrevivesse, e isso durou até mais tarde.
***
Tudo foi em vão. Otto morreu ao amanhecer. Morreu sereno. Pouquíssimos minutos antes, eu estava tão exausto e as meninas, pior ainda. Os nossos cabelos estavam bagunçados e descabelados por causa da noite. Verifiquei se tinha mais uma esperança dele sobreviver, procurando sentir a pulsação. Apertei com os dedos o seu pulso. Nada. Me aturdi. Além de ver o pescoço e o peito, se o coração bombeava sangue, foi tarde demais. As meninas também me olhavam inconsoláveis. Nos abraçamos profundamente, chorando juntos.
– Foi tarde demais. — sibilei.
Em seguida, levamos seu corpo para bem longe da nossa caverna. O céu estava encoberto de nuvens, mas estava cinza esverdeado. Passamos por inúmeros pinheiros e encontramos um lugar perfeito para que a nave se materializasse sobre ele. Derramei uma lágrima sobre o seu cabelo loiro. Anne passava a mão na sua testa. Já Sophia deixou um crisântemo lilás entre as suas mãos.
– O que é isso? — fiz questão de perguntar.
– Para enfeitar para o funeral.
– Bela tentativa, Sophia. — Anne elogiou.
Sophia agradeceu, quando a nave se posta sobre o corpo de Otto, emitindo a luz celeste sobre ele e o levitando para dentro dela. Depois desapareceu, emitindo um ruído estridente. Em seguida, dei mais um passo para frente, respirei fundo e, olhando para cima, fiz o gesto, daquele em que os alunos fizeram depois que eu discursei, no Dia da Seleção. Um gesto que dá honra!
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