Depois dos meninos terem aparecido no nosso quarto com uma expressão bem óbvia, por sinal, fomos juntos tomar o café da manhã no lugar de costume. É engraçado saber que, no segundo dia no acampamento, eu já estava andando com um grupo de amigos. Até pode-se dizer que esse glorioso fato se encontrava em primeiro na lista de coisas que achei que não iriam acontecer. Na verdade, pra tirar um pouco o drama, achei que iriam demorar a acontecer.

Estávamos sentados, conversando sobre como um menino do grupo ao lado não parava de olhar para a Maria. Tenho que dizer, a coitada já estava vermelha. Por impulso do meu corpo, olhei para Wesley. Fico me perguntando se o corpo é mesmo meu, até porque quando eu escolhi a razão e decidi não pensar no assunto "garotos" achei que meu cérebro tinha entendido bem o recado. Quando ia me virar de volta, ele olhou para mim. Não era possível que eu ainda estava encarando ele. Por que eu continuava olhando? Por que ele continuava olhando? Argh.

Os outros estavam distraídos, mas isso não nos deixou excluídos da conversa. Logo, Drew deu um peteleco no Wesley e ele foi obrigado a se virar. Não que eu quisesse que ele continuasse me olhando, claro que não, isso era o que eu menos queria. Terei que me lembrar de agradecer ao Drew depois.

Como eu já tinha acabado de comer e não estava tendo nenhuma participação na conversa, resolvi ir para o quarto, mas como eu sabia que eles não deixariam, tive que inventar a primeira desculpa que veio na minha cabeça. E não foi das melhores.

– Droga. — falei um pouco alto fazendo com que todos parassem de falar por um momento e olhassem para mim. Talvez eu deva entrar em alguma peça de teatro, ou algo assim. — Esqueci de responder à mensagem da minha avó e o celular está no quarto. Depois falo com vocês. — saí vitoriosa por ninguém dizer "ei mocinha, que história é essa?". Afinal, o único que me conhecia de verdade naquela roda era o Beto, e tenho certeza de que ele sabe que foi uma desculpa esfarrapada. Como eu iria esquecer de responder uma mensagem da minha avó, que está com os meus pais, onde os mesmos encontravam-se inconscientes? Realmente, foi uma desculpa muito ruim para os que realmente sabiam o que estava acontecendo. Me arrependi por ter trazido o assunto dos meus pais à tona. Eu e o Beto não conversávamos mais sobre isso desde que tínhamos chegado aqui. Ele queria se divertir e eu aceitava numa boa. É o direito dele.

Mudei minha direção para algumas árvores mais escondidas na floresta, não queria mais voltar pro quarto. Os outros poderiam chegar a qualquer instante e eu não queria ter todos em cima de mim perguntando porque estava chorando. Isso não seria nada legal.

Sentei na primeira pedra que encontrei e tentei me obrigar a pensar nos pontos positivos, mas eu não conseguia encontrá-los, não naquele momento. É normal sentir saudades dos pais quando eles estão em casa esperando pela sua volta. Mas e quando você sente saudades por saber que gestos, palavras, carinhos…simplesmente não vão estar à frente da sua porta, com os braços abertos, balbuciando algo parecido como "senti sua falta"? E mesmo você sendo um adolescente rebelde, que diz que odeia os pais, você não consegue recusar um abraço deles? É aconchegante, é seguro.

Tentei chorar o mais baixo que pude e quase dei um pulo quando ouvi um barulho vindo das folhas. Sinceramente, alguém tinha mesmo que aparecer bem aqui e agora? Passei a mão no rosto com força para enxugar as lágrimas. Quem quer que fosse não teria a sorte de me ver chorando. Estava pronta para fuzilar a pessoa com os olhos quando a olhei dos pés à cabeça e percebi que era a última pessoa que eu esperava ver naquele meio do mato.

– Ei, você não vai voltar? Estão todos a sua procu… — ele parou de falar no momento em que viu meus olhos já vermelhos pela intensidade do choro. Sua expressão foi de tristeza, como se ele tivesse culpa de alguma coisa. Não demorou muito para que ele procurasse alguma pedra e se sentasse na mesma. Ele olhou para mim com os olhos profundos e perguntou:

– O que aconteceu?

Porque as pessoas fazem essa pergunta a quem está chorando? Será que não percebem que isso só traz mais ainda o choro de volta? Eu não ia chorar. Eu não podia chorar na frente do Wesley, o galã do acampamento. Não, eu não seria tão idiota a esse ponto.

– Nada. — pensei em usar a velha desculpa do cisco no olho, mas acabei sendo grossa sem nem chegar a pensar.

– Tudo bem. — ele falou calmo e deu uma risada baixa. Cheguei a achar que tinha ouvido errado. Que tipo de pessoa ri numa hora dessas? Está certo que eu falei que não era nada, mas…

– Do que você está rindo? — não me contive e perguntei. O pior veio depois. Ele simplesmente saiu e me deixou com cara de tacho esperando por uma resposta. Posso ter sido grossa, mas ele não precisava sair sem falar nada. Aquilo foi a gota d'água, o que me fez sair do lugar batendo os pés e bufando. Talvez, por um momento, tenha passado pela minha cabeça que aquele poderia ser o começo de uma conversa legal, na qual só nos dois falaríamos e não teria ninguém para atrapalhar, como sempre acontece, mas parece que foi só um momento mesmo. Então tive que procurar o meu melhor sorriso para encarar as meninas. Elas já deviam estar super felizes por ter a manhã livre e eu tinha que fazer parte da felicidade. Não pensei em ser atriz? Momento perfeito.

– Olha só quem voltou! – Luiza olhou para mim animada. – Respondeu sua mensagem?

Percebi que Wesley, que já tinha chegado a algum tempo, me olhou diferente por saber que eu não tinha ido responder mensagem nenhuma. Ignorei e voltei a olhar para ela.

– Respondi sim. Está tudo bem lá em casa. – dei um sorriso falso.

– Que bom, Isa. – ela sorriu de volta para mim e voltou a olhar para o pessoal. – Que tal a gente dar um mergulho na piscina?

Todos toparam, então fomos nos arrumar e marcamos de nos encontrar em trinta minutos em frente ao refeitório.

Na hora de escolher os biquínis foi uma loucura só. Maria estava se achando gorda quando na verdade tinha o corpo ideal. Luiza, na verdade, estava adorando o novo biquíni quase fio dental que mostrava muito bem todas as suas curvas. Mais um motivo para risadas naquele quarto. E tinha eu, que não gostava muito do meu corpo por sempre achar que ele tem algum problema, mesmo que as pessoas tentem me dizer o contrário. É automático, nunca me sinto bem com minha aparência. Uma vez minha mãe me disse que quando um garoto falasse para mim que eu era bonita e eu finalmente acreditasse, ele seria meu cara certo. Pelo visto, ainda me encontrava esperando por ele.

Fomos para o lugar marcado e os meninos trocaram alguns olhares mas logo falaram algo como "meninas…como sempre, atrasadas!". A piscina não estava muito cheia, o que me deixou surpresa. Parece que a maioria dos campistas tinha ido jogar bola ou estavam na sala de jogos que tinha dentro da casa principal, onde fazíamos as reuniões. Deixamos nossas coisas em uma mesa na sombra e estávamos tirando as roupas para ficar só de biquíni, fingindo não perceber os olhares nada discretos que os meninos estavam dando. Logo depois os meninos fizeram o mesmo, ficando só de bermuda.

Eu e as meninas fomos nos sentar um pouco na borda. A piscina era bem grande, dava até pra fazer aquelas competições de nado. Coloquei o pé na água e percebi que estava uma delícia. Maria e Luiza fizeram o mesmo. Já estava fechando os olhos para relaxar um pouco, quando escutei um grito. Um não, três na verdade.

– BOMBA! – não deu tempo de deduzir de quem eram as vozes. Só me dei conta do que tinha acontecido quando olhei para mim e para as meninas ao meu lado. Estávamos encharcadas. E não foi só uma “bomba”, foram três.

– Vocês tem algum tipo de doença? – eu gritei, me estourando de rir.

– Provavelmente. A mamãe vive dizendo isso pra mim, sabe… – Keaton disse com cara de debochado.

– Vocês não vão entrar? A água está uma delícia! – Wesley falou, animado, tentando nos convencer a entrar. Mas depois daquele banho, acho que nem precisava mais.

– Talvez mais tarde. – eu disse rindo e virei para falar algo com Luiza. Segundos depois, percebi que não deveria ter me virado, pois senti o braço de alguém me puxando para dentro da piscina.

– Stromberg, você vai morrer. – fuzilei ele com os olhos e pulei em cima dele, fazendo com que ele se afogasse, mas não a ponto de morrer, claro.

– Você tá doida, Isadora? Eu podia ter morrido! – ele falou com uma cara séria assim que eu o soltei. Por um momento, achei que ele realmente tinha ficado bravo, mas então ele começou a rir e me abraçou.

Sabe aquela sensação de segurança? Não sei como conseguia me sentir assim com ele, sem nem conhecê-lo, mas eu me sentia segura. Cheguei a pensar no fato de que já nos conhecíamos. Mas isso não era possível. Eu me lembraria, é óbvio que lembraria.

Assim que ele me soltou, abri um sorriso e, por impulso, ele fez o mesmo. O sorriso dele era contagiante. Mesmo que não seja seu sorriso mais alegre, consegue ser um dos mais bonitos que já cheguei a ver. Eu poderia olhar para esse sorriso todo dia, toda hora, todo minuto, todo segundo…

– Isa, o Drew sugeriu que a gente fizesse uma competição de nado, o que você acha? – Luiza falou, interrompendo meus pensamentos.

– É uma ótima ideia. – disse me virando para ela — Mas... o que eu ganho com isso?

– Bom, quem chegar por último terá que pagar as consequências. – ela riu.

– Então, se você não chegar em último vai ter o prazer de ver uma pessoa do nosso grupo pagando a tal consequência. Isso é o que você ganha. — ela falou em um tom brincalhão.

– Então acho que devo fazer de tudo para não ser a última. — soltei uma risada irônica.

Nadamos para um canto em especial e pedimos para que alguém que não estava na brincadeira desse o sinal de partida. Assim que foi dado o sinal, nadei com toda a minha velocidade, sem parar, até chegar ao outro canto, afinal, eu não queria pagar nenhuma consequência.

Cheguei ao outro lado e vi que fui a primeira a chegar. Quase empatei com o Drew. Lancei um sorriso vitorioso e ele balançou a cabeça negativamente rindo da minha cara. Os outros chegaram logo atrás de nós.

– Droga, isso sempre acontece comigo. – Keaton disse com uma cara triste quando viu que tinha sido o azarado da vez, fazendo com que todos dessem risadas escandalosas.

– Dude, você está destinado a ser humilhado na frente de todos os campistas. – Drew falou e nós rimos ainda mais, se é que isso era possível.

– Ótimo. – Keaton fez uma careta – Qual vai ser a consequência?

– Calma aí garoto, você acha que vai ser fácil assim? Só cumprirá a consequência amanhã, quando todos nós, menos você, tivermos nos reunido para decidir o que você terá que fazer. -Wesley falou decidido e todos balançaram a cabeça concordando.

– Ah…então acho que ninguém vai se importar se eu ligar para os meus pais agora pedindo para voltar um pouco antes para casa. — ele disse sem conseguir conter a risada.

– Se eu fosse você, eu não faria isso. — Maria falou com a voz forte e tivemos que encará-la. Todos ficaram surpresos com o jeito com que ela falou com o Keaton.

– Até porque será você que irá me impedir, certo? Já não consegue viver sem mim? Essa foi rápida, mas tenho que avisar que não fico com meninas pegajosas. — rebateu e cheguei à conclusão de que ele não deveria ter dito uma coisa dessas. Ficou meio ambíguo pra falar a verdade. Ele tinha acabado de dizer na frente de todo mundo que queria ficar com a Maria?

– EU NÃO QUERO FICAR COM VOCÊ! — Maria gritou.

– E que outro motivo teria para que você me obrigasse a ficar aqui, madame? — olhei para Maria e ela estava a ponto de pular em cima do Keaton e dar uns belos tapas em sua cara.

– Opa, opa, opa. Vamos parando por aqui. — falei, me sentindo obrigada a interferir na conversa. Depois disso o clima ficou tão tenso que acabamos todos saindo da piscina. Drew puxou Luiza para algum lugar, enquanto Keaton e Maria saíram bufando para lados opostos. Ótimo. Sobrou eu e o queridinho do Wesley.

– Parece que sobramos nós. — ele falou tentando puxar assunto.

– Realmente é o que parece. — não sei por que, mas nunca consigo puxar assunto com as pessoas com quem eu mais quero ter uma longa conversa.

– Então, vai me falar porque estava chorando hoje mais cedo? — não fiquei surpresa como esperava, mas sem nem mesmo escolher, minha expressão mudou.

–Já te disse, um cisco caiu no meu olho e…

– Na verdade, não foi isso que você me disse. – droga, eu não tinha falado nada disso.

– Sim, porque eu quis resumir a história pra você.

– Sabe… você é uma péssima mentirosa. — acho que depois dessa, lá se vai minha carreira de atriz. Não pude dar uma resposta à ele porque logo o Drew voltou com a Luiza, sentando na nossa frente e começando a contar alguma história sobre uma briga que teve entre uns garotos na quadra.

Já havia se passado alguns dias no acampamento e tínhamos adiado tanto a “consequência” do Keaton que ele quase desistiu. Uma semana depois decidimos que ele teria que chamar uma garota para passar a tarde com ele, com o objetivo de conseguir beijá-la.

O problema (para ele) era que, nós escolheríamos a garota. No início, todos concordaram, mas não pude deixar de perceber que a expressão da Maria logo mudou ao ouvir a sugestão. Acho que ninguém tinha notado, até porque ela tratou de esconder ao máximo. Pensando bem, na minha opinião, eles combinam.

A garota que escolheram era bem bonita, e sabia escolher bem com quem ficar. Esse seria o desafio do nosso Keaton. Como eu já tinha trocado algumas palavras com ela, pelo que me lembro, na hora de entregar os panfletos informando sobre a noite da fogueira, eu fui a escolhida para apresentá-los.

– Vanessa! — entrei dentro da casa principal, onde ela sempre ficava.

– Olá. Como você está? Algum problema? – ela respondeu, simpática.

– Ah, não. Comigo tudo bem, só que meu amigo aqui — apontei para o Keaton, que estava ao meu lado e percebi um sorriso se alongando nos lábios dela ao mesmo tempo que percebia ele se mexer, um pouco nervoso. — não está se sentindo muito bem. Ouvi falar que você está responsável pelos remédios, certo?

– Certíssimo. Pode deixar que eu resolvo tudo. — dei uma olhada para o Keaton enquanto saia e ainda pude ouvir, um pouco de longe, ele falando:

– Meu nome é Keaton, a propósito. — bem, pelo menos a minha parte estava feita, agora teríamos que ver se ele conseguiria fazer a dele.

Voltei alegre para onde tinham ficado os outros, louca para contar como tinha sido, até que meus olhos pararam em um banco mais atrás deles. Pude perceber claramente que o Wesley estava próximo até demais de uma das garotas que andavam com Vanessa. Eles pareciam conversar sobre algo muito interessante e ela sorria a cada palavra que ele dizia. Comecei a sentir algo, um sentimento o qual eu não queria denominar ciúmes. Era algo mais parecido com raiva. Ele deveria estar puxando conversa daquele jeito comigo, e não com ela. Foi aí que ela se levantou, como se quisesse encenar alguma história. Os dois riram e ele a puxou para seu colo. Senti ânsia de vômito naquele instante.

Sem pensar fui até eles e dei um pigarro. Os dois me olharam, espantados, esperando que o que quer que fosse que eu tinha pra falar, não fosse demorado.

– Wesley, o James está te chamando, parece que teve um problema no dormitório de vocês. — falei nitidamente com raiva.

– Tem que ser agora? – ele disse, olhando de lado para a garota em seu colo.

– Tem. – virei, andando cada vez mais rápido e forte. Descobri o sentimento que tenho por ele. Ódio.


Wesley POV on

Estava tentando dar uns amassos com a Ashley há um século. Porque certas garotas se fazem de difíceis quando está na cara que elas querem você? Tentei ser mais direto e a puxei para o meu colo enquanto ela falava sobre algo que eu não queria prestar atenção. Quando achei que fosse acontecer o tal beijo, ouvi um pigarro. Olhei rápido para saber quem era e me deparei com Isadora. Ela era bem bonita pra falar a verdade e parecia ter muitas qualidades a oferecer. Mas sempre que tentava me aproximar, ela se afastava.

Sinto muito, mas perder meu tempo com uma garota assim, pra mim, não vale muito a pena. Se ela não quer, não sou eu quem vai correr atrás.

Pelo que ouvi, James estava tendo alguns problemas no quarto. Falei para Ashley que teria que dar uma passada lá, mas que depois terminávamos o que tínhamos começado. Acenei com a mão ao passar pelo banco onde o pessoal estava e vi que a Isadora não estava lá.

Enquanto eu andava, fui procurando-a nos lugares. Não sei porque, mas as vezes ela parece um imã quando se trata de mim. Porém, pelo que eu disse anteriormente, não vou correr atrás. Deixei esses pensamentos irem embora e assim que cheguei ao quarto, me deparei com o James jogando video-game, não deixando transparecer nenhum problema.

– Então dude, qual é o problema? — eu disse e ele me olhou confuso.

– Como assim?

– A Isadora me falou que você estava com problemas no dormitório e pediu pra me chamar. — então a expressão de James ficou mais confusa ainda.

– Bem estranho, já que não falei com a Isa hoje. E pelo que você está vendo, não tem nenhum problema por aqui – ele parou de jogar por um instante e deu um sorriso malicioso. — a não ser mais cedo, quando eu trouxe algumas garotas e… — nem o deixei terminar. Meu sangue já estava correndo mais rápido nas veias e eu realmente me encontrava com muita raiva. A engraçadinha da Isadora que não ache que vai ficar assim. Quem ela pensa que é pra me tirar dos braços de uma garota por nada? Sinceramente, ela não perde por esperar. Saí do quarto decidido a procurar por ela. Só espero que a queridinha torça para não ser encontrada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.