Survival Camp
1 Capítulo 1
Era uma sexta feira normal, como todas as outras.
O despertador do meu celular tocou, fazendo com que eu acordasse e me lembrasse que, finalmente, era o último dia de aula.
Depois de dois minutos me perguntando se eu tinha mesmo que me levantar, e eu tinha, levantei. Fui direto para o banho. Não estava muito disposta a me arrumar, então coloquei apenas uma blusa e uma calça jeans, agradeci por meu cabelo ter acordado de bem comigo e desci para tomar café da manhã.
Quando cheguei na cozinha, Roberto, meu querido irmão já estava lá me esperando. Ele era o melhor irmão que alguém poderia ter, além de melhor amigo, claro. Era meu confidente e aquele tipo de pessoa que você sabe que sempre pode contar.
Dei uma mordida na minha torrada acompanhada com suco de laranja, incrivelmente preparado por ele e tentei puxar assunto:
– Então Betinho, você sabe quando a mãe e o pai chegam?
– Primeiro, eu odeio quando você me chama de Betinho — fiz uma cara de quem diz "quem perguntou?" e ele me fuzilou com os olhos. Ri disso. — e não, eles não me falaram nada.
Terminei de comer com mais rapidez e ele não estava nem na metade do sanduíche. Peguei minha mochila que tinha deixado no sofá e fiquei na porta da cozinha encarando-o e falando coisas do tipo "vamos logo", "porque você demora tanto?", "vou falar pra mamãe que você me atrasa". Tão irritante quanto um alarme de carro. Já era de se esperar a cara que ele fez.
Finalmente ele se levantou e quando passou por mim bagunçou todo o meu cabelo. Esse pirralho que me aguarde.
Chegamos à faculdade e fui falar com minhas amigas. Nossa prisão não era diferente de todas as outras. Cheia de panelinhas. Populares só andavam com populares, nerds só andavam com nerds, skatistas só andavam com skatistas… Eu, sinceramente, odiava isso.
Ainda bem que no meio dessa bagunça toda encontrei algumas amigas. O sinal bateu e nós fomos para nossa sala.
(...)
O dia passou rápido, o que me deixou bastante impressionada. Despedi-me de meus amigos e fui me encontrar com o Beto para irmos para casa.
Entramos no carro e ele sugeriu que nós fossemos almoçar no Mc Donald's. Fazia tempo que a gente não passava um tempo juntos e eu sentia falta disso. E ainda por cima era Mc Donald's. Como recusar?
(...)
Assim que chegamos em casa, Beto recebeu uma ligação e saiu dizendo que ia dormir na casa de uns amigos. Na casa de uns amigos, óbvio. E ainda dormir, mais óbvio ainda.
– Ótimo então bro, divirta-se com suas piriguetes. — a cara que ele fez foi fascinante, eu devia ter filmado aquilo.
Beto me beijou na testa e da porta gritou algo como "divirta-se com seus filmes de menininha!". Tive que rir.
Fiz um pouco de pipoca e fiquei procurando algum filme que eu ainda não tinha visto.
Ouvi o barulho do telefone, que me fez pular de susto, e fui bufando até a estante ao lado do sofá. Peguei o telefone e me encostei na estante.
– Alô?
– Boa noite. Aqui é do hospital Mount Sinai. Com quem eu falo?
– Aqui é Isadora Beckham. — falei, assustada.
– Filha de Melissa e Antony Beckham?
– Sim.
– Seus pais sofreram um acidente. — olhei para os lados me questionando se estavam querendo tirar uma com a minha cara. Que tipo de pessoa em sã consciência brinca com um assunto desses?
Voltei minha atenção à voz no telefone perguntando se eu ainda me encontrava na linha.
– Isso é algum tipo de brincadeira? É impossível, meus pais estão viajando. — disse como se quisesse explicar para mim mesma o que estava acontecendo.
– Não é nenhuma brincadeira senhorita Beckham. Seus pais estão aqui…inconscientes.
Inconscientes.
Foi aí que a ficha caiu e eu percebi que nada em volta importava mais. Eu precisava ver meus pais, e tinha que ser agora.
Desliguei o telefone e procurei a chave do carro com os olhos. Estava em choque. Minha mente vagava por pensamentos que nunca pensei ser tão dolorosos.
Sempre fui muito apegada à família e isso, com certeza, não mudaria agora. Pelo contrário, intensificou-se ainda mais.
Assim que encontrei o que procurava, corri e joguei minha mão na estante com força. Cheguei a derrubar o que pareceu ser um porta retrato.
O barulho do vidro sendo quebrado invadiu o lugar e fui obrigada a olhar para baixo e ver qual tinha sido a foto escolhida. A nossa foto. Eu, minha mãe, meu pai e meu irmão.
Roberto. Droga. Como eu tinha esquecido de avisá-lo?
Mandei uma mensagem com o assunto “urgente”, pedindo para ele me encontrar no tal hospital o mais rápido possível e explicando com poucas palavras o que havia acontecido.
Joguei o celular na bolsa e corri para a garagem.
Tudo aquilo era muito surreal, como um sonho. Um sonho não, um pesadelo. A dor no meu peito era inexplicável. Lágrimas finalmente caíram dos meus olhos e a única coisa que pude fazer foi apertar com força o acelerador.
O carro disparou. Cada segundo que se passava parecia ser uma eternidade. Meus sentimentos estavam resumidos a medo de perdê-los e esperança de ser tudo mentira.
Estacionei na primeira vaga que encontrei. Coloquei as pernas para fora e senti dificuldade em manter meus pés no chão. Minhas lágrimas agora eram constantes, como uma torneira aberta, muito dura de fechar.
Olhei para o lado aleatoriamente e vi meu irmão correndo em minha direção. Seus olhos, vermelhos como os meus, e sua expressão, por mais sofrida que fosse, conseguia estar mais tranquila do que a minha.
– Isadora! O que aconteceu? Por que nossos pais estão no hospital?
Não consegui. Simplesmente não consegui falar nada. Apenas o encarei e ele pareceu entender minha aflição.
Minha mão foi puxada e corremos para o enorme salão mais a frente.
Foi tudo muito rápido, já tinha alguém nos esperando e fomos levados a uma sala.
Encarei a porta. Sala 902.
Abriram a porta e quando eu vi meus dois protetores, meus anjos, naquelas macas, desacordados, foi como se eles não estivessem mais comigo. Tudo começou a rodar e escurecer. A última coisa que me lembro antes de apagar foi alguém me segurando. E aí tudo ficou escuro.
(...)
Quando acordei, estava em um quarto. Olhei em volta, confusa. Parecia um quarto de hospital.
Então me lembrei de que eu realmente estava no hospital. E o pior, me lembrei o porque de estar no hospital.
Meus pais. Inconscientes.
Levantei de onde estava deitada e me deparei com Beto ao meu lado.
– Ainda bem que você acordou, eu estava ficando preocupado, maninha. Já esta se sentindo melhor?
– Beto, cadê nossos pais? Eles estão bem? – eu disse, me levantando para ir ao quarto onde eles estavam.
– Isa, se acalma! Eles ainda estão inconscientes, os médicos disseram que não sabem quando eles vão acordar ou… se eles vão acordar. — aquelas palavras me fizeram estremecer. "Se eles vão acordar." — Nossa avó está vindo para cá. — ele se pronunciou novamente.
Alguns minutos depois, nossa avó chegou ao hospital. Dava para ver a tristeza em seu olhar, mas eu sabia que ela não demostraria. Tinha que parecer forte para nós.
Depois de assinar alguns papeis na recepção, ela foi ao nosso encontro. Nos abraçamos em três. Eu não sei o que faria se não os tivesse comigo.
– Queridos, vim para cá assim que soube o que tinha acontecido, onde eles estão?
– Na sala 902. Os médicos ainda estão fazendo alguns exames. – Beto disse.
Ela saiu andando, sem dizer nada e deduzimos que era para vê-los.
Eu tinha certeza de que aquele dia não estava sendo bom para ninguém.
(...)
Pouco tempo depois, nossa avó voltou com um médico ao seu lado. Pela cara deles a notícia era tudo, menos boa.
– A situação dos pais de vocês é muito grave. Estamos fazendo tudo o que podemos, mas se eles se recuperarem, infelizmente ficarão com sequelas.
– Então quer dizer que eu posso nunca mais ter a chance de falar com nenhum deles? Mas eu nem falei que os amava! – eu já estava aos berros no bendito hospital. Em todos os olhares sobre mim eu via pena.
Agora eu entendo quando se dizem que a vida vira de cabeça para baixo de repente.
Eu ainda não estava acreditando. Isso não podia estar acontecendo. Não com os meus pais. Eles nunca fizeram nada de mal para ninguém, eles só ajudavam da forma que podiam e, às vezes, até da que não podiam. Não é justo. Nada disso é justo.
(...)
Depois de uma semana do ocorrido, nada aconteceu. Nenhum movimento, nenhuma palavra. Eles continuavam deitados em uma maca como se realmente não estivessem mais nesse mundo.
Aprendi a controlar as lágrimas que caiam constantemente tarde da noite.
Minha avó foi morar com a gente e eu percebi o quanto senti sua falta.
Durante esse tempo, passei bastante tempo com o Beto. Ele até conseguia arrancar uns sorrisos de mim, de vez em quando.
Meus amigos me apoiaram e eu pude perceber os que realmente se importavam.
Era um domingo chuvoso, todas as lojas estavam fechadas, as ruas desertas. Até o sol tinha se escondido naquela tarde.
Coloquei meu moletom gigante que tinha escrito "I ♥ NY", minhas calças que se arrastam no chão e minhas pantufas.
Antes de descer o último degrau que faltava, minha avó pediu que eu fosse chamar o Beto, pois ela queria ter uma conversa conosco. Ótimo.
Conversa de vó. Mal posso esperar.
Subi as escadas correndo e fui para o fim do corredor, onde ficava o quarto de Beto.
– Ô pirralho, a vovó ta chamando a gente lá em baixo. — falei batendo na porta dele desesperadamente. Velhos hábitos nunca morrem.
– PARA. DE. BATER. Eu já vou caramba!
– Adoro quando você fica irritadinho. To lá em baixo ! — ouvi ele bufando e voltei às escadas com um sorriso glorioso no rosto.
Nessas horas, o sorriso era realmente verdadeiro, até eu ver alguma coisa que me lembrasse meus pais.
Beto apareceu e fomos os três para a sala: minha avó na poltrona, meu irmão sentado desajeitado no sofá, com os pés na mesa de vidro e eu deitada no chão admirando minhas pantufas.
– Eu tenho uma ideia de lugar para mandar vocês dois nessas férias. Antes de tudo, não aceito resposta negativa e não adianta espernear ou berrar. — a velhinha falou, tirando eu e meu irmão de nossos pensamentos.
Agora sim eu estava preocupada. Vindo da minha querida avó, pode-se esperar de tudo.
– Os dois irão para um acampamento! — ela disse como se fosse a coisa mais incrível do mundo.
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