Notas iniciais
Primeiro de tudo, nos desculpe. Demoramos um pouco, eu sei... Estávamos em época de prova. Boa leitura!

Juntamos tudo e colocamos dentro de nossas mochilas com uma rapidez fora do comum. Visto o casaco de Thomas que peguei no dia em que fugi do cativeiro – ainda tinha seu cheiro, apesar de eu o ter lavado –, enquanto ele veste uma jaqueta de couro. Antes mesmo de se passarem dois minutos desde que desligamos o telefone, estamos fechando a porta do quarto e disparando pelo corredor. Sigo Thomas por todo o caminho em silêncio, com medo de que eles me escutem. Tudo bem que Max e Benjamin estão dois andares abaixo de nós, mas não quero cometer nenhum deslize que possa fazer com que eles me prendam novamente. Eu não aguentaria toda aquela angústia uma segunda vez.

Vamos até a escada de emergência, que fica no corredor dos elevadores. Quando passamos pela porta, Thomas segura meu braço e diz:

– Não queria precisar falar isso... Mas não importa o que aconteça, se quando chegarmos lá embaixo e eu te disser para correr, você corre. E só pare quando chegar no carro – ele me olha nos olhos com uma expressão muito séria, colocando as chaves do carro em minha mão – Se eu não te alcançar em três minutos, você vai embora sem me esperar. Promete?

– E-eu prometo – digo e ele me solta, começando a descer.

Alcançamos o térreo em pouco tempo. Assim que abre a porta, vejo por cima de seu ombro a cabeça cheia de fios brancos de Benjamin. Antes que eu consiga esboçar alguma reação, Thomas sussurra um "Corra!" e avança em direção ao grisalho. Sem esperar por um movimento de Benjamin, saio correndo em direção à porta da frente. Passo pela recepção e vejo que ela está vazia, mas não paro para saber o porquê. Logo que cruzo a porta, um corpo se choca contra o meu, fazendo com que eu caia no chão.

– Olá, minha querida! Sentiu falta de mim? – Max fala, tentando me segurar no chão, enquanto me debato em uma tentativa de escapar.

– Eu não sou sua querida! – guincho.

– Calma, querida. Não quero lhe fazer nenhum mal – continua, quando finalmente consegue me dominar.

Ele retira do bolso uma seringa, fazendo o pavor tomar conta de mim. Olho ao redor, a procura de ajuda, mas não vejo ninguém.

– Max, me solte – imploro.

De repente, a coisa dentro de mim se acende mais uma vez, e logo vejo o medo estampado em seu rosto. Seu aperto em torno de meus braços se afrouxa e ele cai ao meu lado. Lentamente, eu me levanto e observo Max enquanto ele se debate no chão, com uma expressão de choque. Eu poderia correr até o carro. Na verdade, é exatamente isso que parte de mim quer. Mas a outra quer que eu fique e termine o serviço. Me aproximo mais do corpo caído, apreciando seus gemidos de dor. Eu estou em transe. De repente, sinto uma mão em minhas costas.

– Diana, pare. Não temos tempo para isso – Thomas fala, com uma voz calma. Sua presença desvia minha atenção e o sinto pressionar minha coluna, levando-me em direção ao carro. Quando nós chegamos na BMW, ele tira a mão de minhas costas para ir para o lado do motorista.

Só no momento em que já estou sentada no banco e Thomas arranca com o carro pela rodovia, é que percebo as lágrimas descendo pelas minhas bochechas.

– Estou tão cansada de tudo isso – desabafo, com uma voz trêmula, depois de já termos nos distanciado bastante do hotel – Eu tento me controlar, mas não consigo! Eu não sei mais o que fazer.

– Não é culpa sua – ele diz, baixinho.

– Claro que é. Eu senti prazer em atacá-lo, Thomas! – eu soluço.

– Por que você não acredita em mim, droga?! Isso não é algo que você possa controlar no momento, princesa. Você não sabe desativá-lo.

– Eu só quero que esse inferno acabe logo, e que eu volte para a vida tranquila que eu levava. De verdade, às vezes penso que seria melhor terem me matado quando eu nasci. Ia poupar muita gente do sofrimento de me conhecer – quando falo isso, Thomas para o carro no mesmo instante e vira-se para mim. Um carro atrás de nós buzina, mas ele ignora e coloca meu rosto entre suas mãos.

– Nunca, nunca mais diga algo assim. Entendeu? – ele praticamente rosna.

– Entendi – murmuro, consciente do calor que sua pele está passando para minha e ele solta meu rosto, seguindo pela estrada novamente.

Seguimos até o aeroporto de Monterey, e o caminho não é muito animado. Chegando lá, descubro que ele já tinha providenciado as passagens para Phoenix, de modo que fazemos o check-in rapidamente e seguimos até a sala de embarque. Fico apreensiva pela possibilidade de ser reconhecida, mesmo usando um boné que Thomas havia emprestado. Também estou com medo de ser pega com os documentos falsos que ele havia arranjado para mim. Mas, no fim, tudo dá certo. Estamos esperando o embarque começar quando decido perguntar onde ele os conseguiu.

– Eu tenho os meus contatos – ele dá um sorrisinho e eu reviro os olhos.

O clima de tensão está se dissipando, apesar de eu ainda estar sentindo uma agonia no peito. Thomas está visualmente mais relaxado agora que iremos para longe. Admito que isso também está acontecendo comigo, aos poucos. Quando entramos no avião, vejo que nossas poltronas ficam na primeira classe – que possui apenas quatro lugares por fileira, dois de cada lado do corredor. Arqueio uma sobrancelha para ele.

– Que foi? – ele dá de ombros – A classe econômica é sufocante.

– São só duas horas de viagem! – exclamo.

– Duas horas que passariam como se fossem vinte. Sem falar que não corre o risco de um cara obeso ficar te esmagando – ele diz, sentando-se na poltrona ao lado da janela – Agora feche essa matraca e aproveite.

– Você gasta dinheiro com tanta besteira. Onde o arruma? – questiono, sentando ao seu lado.

– Com alguns de meus trabalhos.

– Outros trabalhos?

– É claro. Apenas ajudar pessoas não traz exatamente uma recompensa considerável em dinheiro.

– Ah – apesar de querer perguntar mais coisas sobre ele, outra questão surge em minha mente – Qual o destino final da viagem? Eu sei que estamos indo para o leste... Mas e depois?

– York, na Inglaterra.

– Inglaterra? – repito, certa de que devo estar com uma cara de surpresa engraçada, já que Thomas começa a sorrir.

– Sim, Inglaterra. Por que o espanto?

– Talvez seja porque eu nunca saí do país. Ou melhor: que o mais distante de casa que eu fui foi para Denver, fazer uma visita à minha avó. Talvez seja porque eu não vejo os meus pais há quase um mês e quero voltar para casa, mas você está me dizendo que vai me levar para o outro lado do Atlântico. Sabe, nada demais!

– Tudo bem, eu entendo. Mas você sabe que não pode voltar para casa, princesa. Além disso, você também precisa aprender a como lidar com o seu dom.

De novo, aquela palavra. Dom. Eu quero muito dizer para ele que aquilo não é um dom, mas sim um fardo. Mas, no momento, estou muito chateada com o fato de estar longe do mundo que que conheço. Então apenas suspiro, derrotada, e aperto o cinto.

O tempo de voo é curto, mas mesmo assim tento compensar minhas noites mal dormidas, de modo que adormeço alguns minutos depois que o avião decola. Sonho que estou em um piquenique com meus amigos, em algum parque de Carmel. O dia está ensolarado, e as copas das árvores são de um verde intenso. Uma brisa refrescante assanha meu cabelo. Todos estão com roupas mais leves, rindo e conversando. Posso avistar Chelsea agarrada a George em um canto mais afastado. Eu estou apoiando minha cabeça no ombro esquerdo de Josh, enquanto nós discutíamos, juntos com David, sobre os boatos que estavam rolando na escola em torno do professor de inglês, que era acusado de estar se relacionando com uma de suas alunas. É tudo tão real – o Sol penetrando em minha pele, a doçura do cupcake que eu belisco, o toque de Josh em minhas costas, o aroma das flores, o barulho de pássaros cantando... Estou me sentindo tão confortável.

Mas, como que para que eu me lembre que isso não vai acontecer nunca mais, sou acordada pela voz do piloto que avisa que vamos pousar. Percebo que minha cabeça está apoiada no ombro de Thomas. Ele não parece se importar, já que está lendo um livro tranquilamente, ao mesmo tempo em que bebericava de uma taça de champanhe. Quando levanto a cabeça lentamente, ele dá um sorriso.

– Bom dia, Miss Sunshine. Ainda bem que acordou, eu não estava mais suportando ter que ouvir você roncando tão alto – ele diz.

– Eu não ronco – falo, na defensiva.

– Se você diz...

Eu bufo. Discutir com ele é inútil. E não ajuda o fato de que meu humor está péssimo, talvez pelo fato de eu ter que ir para Inglaterra, que fica muito longe de casa. Ou, quem sabe, por causa do meu sonho, que fora tão bom e real que eu não aceito ter sido acordada. Não preciso nem falar da minha reação quando Thomas diz que temos que pegar imediatamente um outro voo para Nova York. Para variar, ele já tinha comprado as passagens.

– Mais viagem de avião? – gemo.

Eu só quero uma cama para poder me jogar e continuar com o sonho, sem correr o risco de ser interrompida.

– Você parece com uma daquelas velhinhas reclamonas que vivem com centenas de gatos – Thomas observa.

Um sorriso triste brota em meu rosto. Era isso que David sempre falava para mim. Sinto um aperto no peito, a saudade do meu irmão me atingindo em cheio. Thomas deve ter notado algo em meu rosto, porque sua mão envolve a minha, fazendo um arrepio subir pelo meu braço. Nossos olhos se encontram e, por um segundo, penso que ele está se inclinando na minha direção. Mas ele se levanta, me soltando.

– Acho que já podemos sair.

Levanto-me de imediato e saio, abrindo o caminho para ele passar. Pegamos nossas mochilas e disparamos para pegar o próximo avião, que parte daqui a pouco tempo.

Nós chegamos nele a tempo de embarcar e, novamente, nossos lugares são na primeira classe. Thomas só pode trabalhar como agiota para poder ter tanto dinheiro para pagar essas viagens. Comento isso com ele, que diz:

– É porque você ainda não viu as pessoas da Ordem. Grande parte tem seus próprios jatinhos. Pura ostentação.

– Que ordem?

– Não é uma ordem. É a Ordem. Somos um tipo de... – ele faz uma pausa, buscando por uma palavra adequada – grupo. Isso. A Ordem é um grupo bastante influente, desde a Idade Média. Sua mãe é uma de nós.

– Nunca ouvi falar de vocês.

– É essa nossa intenção – ele diz, acenando para aeromoça. Quando ela se aproxima com um sorriso afetado e sedutor, ele pede o melhor champanhe que ela tem, dando um sorriso charmoso, o que me faz revirar os olhos. Qual a necessidade disso?!

– Não me diga que você tem problemas com alcoolismo – resmungo, fazendo ele sorrir.

– Não. Apenas gosto de fazer as coisas em grande estilo.

Bufo e ele se estica para ligar a TV – que está presente em todas as poltronas da primeira classe. Escolhe alguma série de investigação cujo nome não consigo ver. Fico então observando as últimas pessoas a entrarem na aeronave. Uma garotinha se cabelos negros, com olhos brilhantes e de pele escura sorri para mim, balançando seus lindos cachos. Não me seguro e sorrio de volta. Sempre me dei bem com crianças, de modo que sempre que eu queria arrumar algum dinheiro, fazia bicos como babá.

O avião decola e ligo minha tela, indo até a seção de filmes musicais. Escolho Grease, apesar de já ter assistido centenas de vezes e de saber as falas – fato que não agradava meu pai, que já ele estava farto de John Travolta. Mesmo amando esse filme, acabo caindo no sono.

Novamente, sou imersa em um sonho. Mas, desta vez, não estou em um parque ou com meus amigos. Estou sozinha, num lugar escuro. Escuro o suficiente para que eu não consiga identificar onde estou.

– Você não conseguirá fugir de mim – diz uma voz, que reverbera pelo lugar.

Não faço ideia de onde vem essa voz, nem a quem ela pertence. Mas faz com que um calafrio percorra minha espinha. Começo a recuar, tentando me afastar do que quer que seja que pode estar perto de mim e sem que eu veja o obstáculo, tropeço. Assim que toco o chão, acordo com um sobressalto.

– Você não costuma ter um sono tranquilo, não é? – Thomas diz, com uma cara de que também estava dormindo. Ele estava esfregando a lateral da cabeça, ao mesmo tempo em que percebo uma dor no alto da minha cabeça. Ele devia estar com a cabeça apoiada na minha quando acordei. Se meu coração já estava acelerado, agora estava batendo mais rápido ainda.

– Desculpe. Foi só que eu tive um pesadelo muito estranho, mas tudo bem.

– Você sonhou com o quê? – ele pergunta, me olhando com curiosidade.

– Sei lá, eu estava num lugar escuro e uma voz dizia que eu não conseguiria fugir dela. Muito estranho, eu sei.

Thomas arregala os olhos.

– O que foi? – sua reação me deixa preocupada. Ele pensa que eu sou louca? Se bem que quem não pensaria?

Ele me ignora e chama a aeromoça.

– Mais champanhe, por favor.

– Meu Deus, outro? E você disse que não tinha problemas com alcoolismo...

– Ajuda a relaxar.

– Por que o nervosismo? – pergunto, apreensiva. Era apenas um pesadelo, ora! – O que tem de demais nesse sonho?

– Nada demais. Você só tem sonhos estranhos – ele diz, desviando o olhar para a janela.

Interpreto isso como o fim da conversa e decido voltar a assistir filmes, já que ainda falta quase uma hora para pousarmos. Quase não presto atenção no filme, que é uma comédia romântica escolhida aleatoriamente. Todos os pensamento se voltam para a reação exagerada de Thomas. O que diabos tinha sido aquilo? Será que aquele sonho tinha algum significado para ele? Eu não acredito em significados de sonhos ou horas iguais, muito menos em horóscopo – apesar de que Chelsea fazia questão de ler para mim todo dia. Bom, vou ter que perguntar essas coisas para ele, porque não dá pra ficar sem saber de nada para sempre.

Desvio totalmente minha atenção da TV e começo a observar Thomas, que está com a cabeça apoiada na janela, aparentemente dormindo. Olhá-lo faz com que eu pense no que leva um jovem como ele a entrar para uma vida tão incomum como a de um “guarda-costas da humanidade”. Sério, ele é bonito e inteligente... Podia estar fazendo qualquer outra coisa da vida, mas escolheu isso. Fico lhe encarando tão atentamente que percebo uma cicatriz que começa sobre a ponta da sua sobrancelha esquerda e, aparentemente, entra pelo seu cabelo. Instintivamente, estico o braço para tocá-la e, como que adivinhando meu movimento, Thomas abre os olhos, encarando a minha mão no ar.

– O que é que você está fazendo com essa mão? – ele pergunta.

– Ah! Desculpe, é só que eu vi essa sua cicatriz e meio que por instinto quis tocá-la. Desculpa, foi muito invasivo da minha parte, eu sei.

Como que por reflexo, ele põe a mão sobre o olho, parecendo lembrar de algo. Quando Thomas abre a boca para dizer algo, a voz do piloto soa nos alto falantes.

– Senhores passageiros, aqui é James Carter, seu piloto. Gostaria de comunicar que em poucos minutos estaremos pousando no aeroporto JFK. Por favor, afivelem seus cintos e coloquem seus assentos na posição original. São 22:00 no horário local, temperatura de 16°C. Agradecemos a todos pela sua preferência de voar conosco. Tenha uma ótima estadia em Nova York.

O que quer que seja que Thomas ia falar se perde e ele volta a apoiar a cabeça na janela, observando o lado de fora enquanto pousamos. Assim que temos permissão para sair, ele levanta-se, sem ao menos esperar que eu abra caminho, e pega nossas mochilas, dirigindo-se à porta. Sigo-o o mais rápido possível, ou seja, quase correndo pelo corredor que leva até a sala de desembarque. Quando o alcanço, pergunto quase sem ar.

– Por que a pressa? Seu cabelo está pegando fogo?

– Não, só precisamos ir rápido – ele diz, sério.

– Não me diga que já vamos pegar outro voo agora?!

– Errou de novo, princesa. Nós temos um compromisso e não podemos nos atrasar. Só isso – ele diz, com a voz um pouco mais suave, voltando a andar.

– Que compromisso?

– Na hora certa, você saberá.

Antes que eu possa insistir, ao atravessarmos a porta de saída do desembarque, noto um rapaz moreno, de cabelos curtos e escuros, bem na nossa frente. Ele estava segurando uma plaquinha com nossos nomes – que agora são Matt e Emma Simpson. Logo que nos vê, vem em nossa direção e dá um abraço apertado em Thomas, que retribui com um sorriso no rosto.

– E aí, Dan? – fala Thomas, desvencilhando-se do abraço de urso de seu amigo. – Obrigado por não quebrar minha costelas com esse abraço.

– Deixa de frescura, Tommy. Isso aí só aconteceu uma vez e a gente não estava exatamente sendo amigáveis um com o outro – o tal Dan diz, dando um tapinha no ombro de Thomas e então se volta para mim. – Olá, você! É ainda mais bonita do que ele descreveu. Prazer, meu nome é Daniel. Dan para os próximos, então pode me chamar assim – ele galanteia, estendendo sua mão que seguro, esperando um aperto, mas recebendo um beijo.

Vejo, pelo canto dos olhos, Thomas revirando os olhos e não consigo esconder o sorriso. Tenho uma leve impressão de que Daniel e eu vamos nos dar bem.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Não esqueçam de deixar nos comentários a opinião/sugestão de vocês!