Surprise Daddy!
1 Pilot
Notas iniciais
Estava atrasado. Estupidamente atrasado. Vestiu a camisola atirada para o chão no meio da confusão que era a noite anterior na cabeça dele resmungando algo sobre aspirinas e dores de cabeça. Suspirou passando as mãos na cara, o cansaço de uma noite mal dormida a apanhá-lo. “Mal dormida entre aspas” o início de um sorriso tentador a assomar-lhe os lábios. O barulho súbito de alguém a levantar-se da cama sobressaltou-o, franziu as sobrancelhas em surpresa. Ela ainda estava aqui? Olhou sobre o ombro mirando a mulher que se levantava ligeira. Cabelo negro desgrenhado, lençol fino a tapar-lhe o corpo que ele percorreu na noite anterior. Tanto com as mãos como com os lábios. Fechou os olhos desejando mais que tudo bater com a cabeça na parede ou arrancar a própria cabeça apenas com as mãos dele. Uma das duas opções funcionava na perfeição para ele. Ou até mesmo as duas. “Merda merda merda”. Coçou o pescoço puxando os lábios num sorriso falso. “A noite de ontem foi boa mas não era algo que se fosse repetir”. A lufada de ar e o estouro da porta para além da ausência da morena à sua frente fez com que percebesse que o que era suposto ser somente um pensamento tinha saído da sua boca sem autorização. Encolheu os ombros resignado.
Reabriu a porta do quarto arrastando na direção geral da cozinha esperando que uma alma caridosa tivesse pena dele e ainda houvesse café suficiente para ele beber. Estreitou os olhos devido à luminosidade excessiva naquele cômodo. “Explodiu alguma coisa aqui ou que?”. O cheiro a esturro a chegar-lhe ao nariz. Resmungou decidido a ignorar o que quer que fosse suposto ser a coisa esturrada em cima da bancada da cozinha e dirigiu-se diretamente para a máquina do café. Pegou no frasco que era suposto estar cheio de café mas tinha somente umas gotas no fundo. Engoliu o que faltava deixando-se ficar de olhos fechados e com o frasco vazio sobre a boca aberta.
—Bom dia, Potter.
Abriu os olhos lentamente esfregando-os ao mesmo tempo tentando livrar-se dos últimos vestígios de sono. Grunhiu um bom dia enquanto pousava o frasco vazio. Ted Lupin sentava-se à sua frente cabelo perfeitamente penteado, gravata tão direita que ele desconfiava que Lupin tinha passado horas em frente do espelho a endireitá-la e o mais importante uma caneca cheia de café apertada entre as suas mãos. Fixou o olhar na chávena fumegante ignorando o sorriso sabido de Teddy. Observou quando ele fez um show enorme de ver as horas no relógio de pulso gasto que contrastava com o seu fato impecável e sapatos tão engraxados que podia ver o próprio reflexo neles. Suspiro falso. Banco a arranhar o chão. Um aceno de despedida mais um sorriso endiabrado e a única coisa que restava de Teddy Lupin naquele apartamento era a caneca de café quente pousada na ilha no meio da cozinha.
Arrastou-se na direção do café, agradecendo aos deuses pelo aparecimento oportuno de Ted naquela manhã maldita. O primeiro sabor amargo na língua dele lançou-lhe uma onda de alívio pelo corpo. Deixou-se cair no banco ainda quente do antigo ocupante deixando os olhos deslizarem para o relógio à sua direita. 9h30. Levou a caneca de volta aos lábios quando a realidade o atingiu. 9h30. Levantou-se tão rápido que viu tudo escuro durante uns segundos apressando-se em direção à casa-de-banho ainda com o café bem apertado entre os seus dedos.
Não tinha tempo de tomar banho. Amaldiçoou-se por não ter acordado mais cedo enquanto engolia o resto do café num golada que lhe queimou a garganta e lhe trouxe lágrimas aos olhos. Olhou-se ao espelho. Cabelo despenteado e espetado para todo o lado e camisola enrugada. Levou as mãos ao cabelo tentando controlá-lo um pouco. Impossível. Bufou baixando as mãos. Ok. Ok. Ele conseguia enfrentar o dia que aí vinha. Lavou os dentes, agarrou nos óculos esquecendo a caneca pousada no lavatório, apanhou as chaves do chão quando passou pela sala desaparecendo pela porta aberta fechando-a distraidamente atrás dele.
Correu pelas escadas abaixo recusando-se a esperar pela caixa enferrujada que toda a gente insistia em chamar de elevador. Abriu a porta do prédio ignorando os olhares penetrantes que o porteiro lhe mandava. Não tinha tempo para isso. Caminhou rapidamente pela rua ignorando os olhares ultrajados das pessoas por quem passava e os risos maliciosos de uns garotos. Ignorou também o desconforto que sentia no pé direito porque algum gênio tinha se esquecido de calçar uma meia. Bufou, outra vez. A noite foi fantástica mas a manhã não estava a ser das melhores.
Entrou rapidamente pela porta dos fundos do bar respirando fundo. Encostou-se a uma das bancadas para recuperar o fôlego. Quem o visse pensava que ele não fazia exercício à anos. Um pigarrear próximo fez com que levantasse o olhar do chão. Sorriu envergonhado.
— Desculpem lá o atraso...
Eva olhou para ele demorando-se no cabelo. Um sorriso malandro adornou-lhe os lábios pintados de roxo.
—Noite difícil Jamie?
Riu-se, deixando o ar escapar forçadamente pelo nariz. Coçou o pescoço enquanto lhe piscava um olho tentando ser sedutor. Eva estava fora dos limites. Mas mesmo assim eles os dois eram demasiado parecidos para recusarem uma boa e velha provocação.
—Nem imaginas Wilkinson!
Ela bufou revirando os olhos. Sorriu matreiro com o olhar de raiva que ela lhe mandou. Desencostou-se da bancada começando a dirigir-se à porta que levava ao bar. Ouviu Eva rir-se e olhou-a confuso. Franziu as sobrancelhas quando ela passou por ele ainda a rir apoiando as costas na porta atrás dela.
—Adorei os teus boxers!
Virou costas e saiu, o riso dela ainda a ecoar no cômodo. Han? Olhou para baixo e fechou os olhos contando até 3 lentamente. Por favor não. Abriu-os de novo rezando que fosse um pesadelo e não a realidade.
“Lupin”, rosnou deixando a cabeça bater contra a porta. Até os patos nos boxers pareciam rir-se dele. Fechou os olhos de novo pensando seriamente em meter férias o resto do mês.
4 horas depois e os olhares que Eva lhe mandava juntamente com os sorrisinhos só fazia aumentar a vontade dele de ir para casa. Vestira umas sweatpants que uma vez tinha deixado lá e tentara mais uma vez controlar a juba que tinha em vez de cabelo. Sem resultado. Suspirou acatando o destino que lhe fora designado. Terminou o pedido para a mesa 3 tocando na campainha no balcão para chamar Wilkinson. Mais 1h30min e estava livre.
—Parece que estás a morrer, Potter. Anima-te um bocado!
Resmungou virando-se para fazer o próximo pedido. Uma batidinha no ombro e o som das sapatilhas a arrastarem pelo chão e sabia que estava sozinho outra vez. Ok. Só mais um bocado. Pegou numas fatias de pão e deitou mãos ao trabalho.
Nunca pensou que iria chegar o dia em que começaria a odiar o próprio trabalho. Normalmente ele adorava trabalhar no bar. Fosse a servir ou a realizar os pedidos. Ou atrás do bar durante a noite, a impressionar com os seus dotes de malabarismo com as garrafas. Mas hoje estava no dia não para o que quer que fosse. E agradeceu mais uma vez aos deuses por finalmente o turno dele ter terminado.
Arrastou-se para dentro do prédio acenando para Mr.Collins e clicando nos botões para chamar o elevador. Ouviu o velhote levantar-se e caminhar na direção dele. Passos pesados acompanhados pelo irritante bater da bengala no chão. Virou-se intrigado na direção do homem que lhe estendia um pequeno envelope. Agarrou na entrega enquanto agradecia. Mr. Collins fez um gesto de descaso com a mão.
—É o meu trabalho, rapaz. — Virou-se para regressar ao seu posto parando a meio parecendo lembrar de algo, olhou-o sobre o ombro coberto pela casaca azul escura da farda de porteiro. — Ela era loira.
E foi-se embora. James olhou-o confuso. OK. Amarrotou o envelope na mão esquerda enquanto entrava no elevador. Não lhe apetecia subir as escadas. Observou o numerador enquanto os pisos passavam. 1...2...3. As portas abriram e ele saiu alívio a percorrer-lhe cada osso do seu corpo. Lar doce lar.
Estancou. Um cesto estava pousado em frente da porta do apartamento. Caminhou lentamente na direção do mesmo. Passos leves ouvindo os suaves barulhos vindos de dentro do cesto. Baixou-se ficando ao mesmo nível do mesmo e dos seus inúmeros cobertores brancos e cor-de-rosa. Conteve a respiração. O envelope ainda apertado na mão esquerda. Ergueu a mão desocupada e destapou-o cuidadosamente. Olhos castanhos cor de chocolate encararam-no de volta. Cabelo escuro delicado sobre a tez ligeiramente mais clara que a dele. O ser grunhiu com a súbita luminosidade e esticou os pequenos bracinhos na direção dele. Sentiu o ar abandonar-lhe os pulmões e o sangue parar de correr. Encarou mais uma vez aqueles olhos agora cheios de lágrimas por ter o seu pedido negado. “Oh meu deus”.
As chaves caíram-lhe da mão juntamente com o envelope amarfanhado. Os joelhos tremeram ameaçando desistir de suportar o seu peso. Deixou-se cair sentado no chão o ruído assustando ainda mais a criatura enrolada em cobertores. Passou as mãos no cabelo deixando-o ainda mais desgrenhado mirando o bebê que se desmanchava em lágrimas. “Oh meu deus”. Estendeu os braços, pegando cuidadosamente no embrulho rosa e branco que se lamentava a plenos pulmões. Manteve-a à distância de um braço à sua frente fitando-a tentando compreender o que se passava. Quando sentiu os braços a doer de cansaço de segurar o bebê tão longe dele ganhou coragem para o aproximar. Aconchegou-o contra o seu peito sentindo os pequenos soluços a abanarem o corpinho nos seus braços e as lágrimas a mancharem a sua t-shirt.
Pelo canto do olho reparou no envelope que Mr. Collins lhe entregara e a fala que se lhe seguira. “Ela era loira”. Engoliu em seco esticando a mão na direção da carta. O bebê no seu colo ainda a chorar baba e ranho. Conseguia sentir o início de uma dor de cabeça a formar-se por trás dos olhos. Suspirou abrindo o envelope. Uma única frase adornava o papel, a letra cursiva e redonda desconhecida. “Ela chama-se Emma, James Potter.”.
Fechou os olhos deixando a cabeça bater contra a porta de madeira atrás dele. “Andava a fazer muito isso hoje”. Ok. Ele conseguia fazer isto. Abriu os olhos e encarou-a. Emma acalmava-se aos poucos no colo dele a pequena mãozinha dela agarrada com força à sua t-shirt. Olhos grandes e cobertos de lágrimas por derramar. Boquinha contorcida deixando pequenos soluços escapar. Ok. Talvez ele não conseguisse fazer isto sozinho. Ergueu-se vagarosamente encaixando as chaves na porta. Olhou para o cesto decidindo que viria buscá-lo depois. Emma observava-o, sorriu-lhe aninhando-a mais seguramente contra ele. Entrou em casa com um objetivo. Ligar a Rose.
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