Surpresas do Destino
1 Capítulo 1 - Pensamentos Conflituosos
Notas iniciais
Preso nos seus pensamentos numa viagem de autocarro que parecia interminável, as imagens da Karina e do Pedro aos beijos apaixonados na praça pairavam sobre si.
– Maldita a hora em que o carro avariou– pensa Cobra.
Andar de autocarro, no meio do trânsito não é bom para alguém que está com uma crise de ciúmes.
Mesmo não querendo admitir, era assim que ele estava. A morrer de ciúmes do ar apaixonado de Karina e Pedro sempre que os avistava.
Aquele sentimento era algo que ele não compreendia ou que não queria compreender. Ele não podia, não queria, sentir algo mais pela Karina.
Ele nunca tinha estado apaixonado. Claro, estar com a Jade é bom. Ela é bonita e interessante. A forma provocativa como ela se insinua para ele atrai qualquer homem e claro que ele não é exceção. A atração era mútua e eles divertiam-se juntos.
Mas com a Karina era diferente. O jeito maria-rapaz dela, a timidez e a forma como ela o desafiava e demonstrava que não tinha medo dele desde sempre tinham captado a sua atenção.
Ela tinha tentado ser sua amiga mas, como sempre que alguém se aproximava, ele tinha-a afastado. Ela merecia um amigo melhor. Alguém que não destruísse ou magoasse tudo aquilo em que tocava. Ela não precisava de alguém como ele.
Alguém que destrói e magoa todos aqueles que algum dia se preocuparam com ele.
Ele prefere estar sozinho e ter a fama de "bad-boy", porque assim também não corre o risco de se apegar emocionalmente a alguém e ser novamente magoado.
Ao chegar a Khan ele equipa-se e começa treinar, tentando não pensar. Treinar sempre foi como uma terapia. Naquele tempo era só ele e a luta, mas hoje, estava desconcentrado.
– E então Cobra? Põe a cabeça no treino– diz Lobão chamando-o de volta a terra – se queres mesmo lugar no campeonato tens que te concentrar. Nada de facilitismos.
– O Mestre está certo– diz Cobra, tentado trazer de volta a cabeça para o treino – Mas hoje não estou nos meus dias, só me aparecem problemas ultimamente.– termina.
– Se queres mesmo chegar ao campeonato, é bom que tragas a cabeça de volta para o treino porque assim não chegas a lado nenhum. E os teus problemas pessoais não me interessam. Isto é uma academia de luta, não um consultório sentimental.– termina Lobão de forma fria.
Era em momentos como estes que sentia falta da Academia do Gael. Ele não gostava muito de falar sobre a sua vida ou dos seus problemas, mas sabia que o Gael teria lidado com esta situação de forma completamente diferente, preocupando-se com o que se passava.
Quando o treino acabou, foi para o balneário e tomou um duche frio. Estava ansioso por ir a oficina ver se o seu carro já estava pronto, porque andar num autocarro, cheio de pessoas e pensamentos conflituosos era uma experiência que ele queria evitar ter novamente.
Saindo da Academia, segue o seu caminho em direção à oficina e fica a saber que só no dia seguinte terá o carro pronto.
De regresso a casa, no meio de transporte que ele mais queria evitar, depara-se com uma cena que com certeza não estava a espera. No mesmo local que ele estava Karina, com o seu uniforme da escola, sentada num dos lugares do fundo, com os headphones colocados, perdida no seu mundo de música.
– Isto não pode estar a acontecer– pensa em voz baixa Cobra olhando disfarçadamente para Karina.
Em algum momento naquela viagem eles vão cruzar-se, afinal, evitar alguém num espaço como aquele é quase missão impossível.
Ele deixa-se estar no seu canto, tentado evitar ao máximo que o seu olhar se desvie na direção dela.
Passados pouco mais de 10 minutos, a vontade de ver o rosto de Karina toma conta de si e ele levanta o olhar na sua direção.
Era como ver um anjo. Só a presença dela no mesmo espaço que ele o acalmava. Principalmente porque ela não estava com o Pedro, algo que ele achava estranho, uma vez que desde que os dois começaram a namorar, não se largavam e estavam sempre juntos.
Estava sozinha e neste momento o que mais lhe apetecia era ir ter com ela, perguntar-lhe como ela estava, dizer que estava arrependido por a ter afastado, pedir-lhe desculpa.
Mas ele conhecia-se e sabia que o orgulho falava mais alto e que não iria fazer nada do que estava a pensar. Ia tudo continuar na mesma. Ele afastado, a observa-la de longe e a querer que ela seja feliz.
Tentado voltar ao tédio que é uma viagem de autocarro em direção ao local a que agora ele chamava de casa, concentra-se num ponto longínquo, olhando através da janela, para o infinito do mar.
A única vantagem de andar de autocarro era poder observar a aparente calma do mar enquanto percorriam a marginal da praia.
E assim, a olhar para o mar, o pensamento em Karina surgiu novamente. E naquele estranho momento, ele sentiu alguém atrás de si...
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