Surpresas da vida

18 Qual erro realmente importa?


– Oi, campeão. – sorrio ao passar pela porta e ver ele acordado. – Como vão as coisas?

Daisuke bufa, claramente entediado por passar tanto tempo dentro de um quarto de hospital. Seu rosto está pálido e me pergunto quando poderei levá-lo para dar umas voltas pelos jardins dali. Ele está recostado sobre travesseiros brancos e fofos, o corpo magro demais, frágil, já está sem todos aqueles equipamentos médicos.

– O de sempre. – a voz infantil cansada me responde levemente rouca. – E você?

E eu? Ah, querido, são tantas merdas que você nem faz ideia.

– O de sempre também. – todos sabem histórias cruciais sobre a minha vida, menos a mais interessada, eu. O de sempre, é claro. – Seu pai ligou.

Os olhos negros, tão idênticos e tão diferentes dos de Sasuke, iluminam-se instantaneamente, encantados e ávidos por mais informações.

– Ele disse que virá assim que os problemas na empresa dele forem resolvidos. Ele acha que não vai demorar muito. Parece bom, não é?

Tento forçar um sorriso encorajador, mas falho miseravelmente e Daisuke percebe.

– Você não gosta dele. – não é uma pergunta. Meu filho é tão perceptivo algumas vezes que me perturba.

– Não. – ele continua me olhando. Esperando por uma resposta melhor, já que odeia ser enrolado e eu estou tentando fazer exatamente isso. – Ou sim. Ou mais ou menos. Não sei, filho. É complicado.

– Mas os pais não deviam gostar um do outro? O tio Gaara gosta muito da tia Ino. Por que as coisas não são assim com você e com o papai?

Bem, querido, veja, no momento eu estou querendo quebrar a cara do tio Gaara e da tia Ino. E do seu pai também, aliás, que me odeia porque acha que eu transei com o irmão que ele tanto odeia. Complicado, não é? Bem que eu disse. Na verdade, as coisas não são assim com o seu pai porque todos pensam que eu sou uma vadia desleal que transa com qualquer filho da puta! Por isso seu pai me odeia e as coisas nunca serão iguais como são com o tio Gaara com a tia Ino!

Eu rio, revoltada pela mentira ridícula e nojenta que jogaram sobre mim sem eu ter ideia durante oito anos.

– Eu não disse que era complicado? – respondo ainda rindo. Sento-me ao seu lado na cama e passo meu braço sob suas costas. – Sabe, campeão, às vezes, as pessoas cometem erros e depois não se falam mais e, com o tempo, deixam de gostar uma das outras.

Daisuke se aconchega em meu colo, descansando a cabeça sob meu peito. Com um aperto no coração, lembro de como costumávamos ficar do mesmo jeito quando íamos à praia nos finais de tarde e eu acariciava seus cabelos cor de ébano, tão sedosos e macios, até ele adormecer. Acaricio suas costas, sentido seus pequenos ossos proeminentes sob meus dedos.

– Quem errou, mamãe, você ou o papai?

Quem errou? Penso nas escolhas que fiz. Todas elas. E não me arrependo de nada. Mas, já cheguei a pensar, envergonho-me disso, em como seria minha vida se eu não tivesse saído de casa no dia em que conheci Uchiha Sasuke. Quem eu seria se tivesse optado por ficar em casa e comer o pote de sorvete com Hinata, ao invés de concordar com Ino e sair beber algumas doses de tequila? Meu filho não existiria se eu não tivesse tomado a escolha que mudou toda a minha vida, com certeza.

Então, quem errou? Sasuke? Eu?

Suspiro e beijo a cabeça careca de meu inteligente e curioso filho, tão cansada quanto ele daquele hospital.

Puxo o coberto e cubro a nós dois. Abraço seu corpo com cuidado e proteção enquanto chego a uma resposta para sua pergunta.

– Nós dois, filho. Nós dois erramos.

Daisuke permanece quieto por alguns instantes, porém, sei que há algo na sua pequena cabeça de pensamentos adultos que o deixa inquieto.

– Há algo errado, Daisuke? – pergunto, quando percebo que ele não dirá tão cedo o que está pensando se eu não o pressionar.

– Mãe... Eu sou um erro?

Meus olhos se enchem de lágrimas e agradeço por ele estar sob meu peito e não poder ver meu rosto. Enxugo-as com minha mão livre e faço-o olhar para mim.

– Ah, meu amor, você não é um erro. Claro que não! Pelo contrário! Você é um acerto! Meu melhor acerto.

Seus olhos estão confusos, tentando entender o que as minhas palavras realmente significam.

– Então, por...

Coloco meu dedo indicador sob seus finos lábios, calando-o.

– Ei, psiu, eu disse que você não é um erro. Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, como pode ser um erro?

– Mas eu estou doente e não saio do hospital...

Eu rio ao perceber a ironia.

– Bem, eu trabalho aqui, esqueceu? Não há nada de errado em eu passar meu tempo aqui no hospital. E eu amo você, não faz diferença se você está doente ou não. Escute, Daisuke, esse tipo de amor, esse que eu sinto por você, não muda, sabe? É eterno. Dura para sempre.

Ele me abraça e encosta seu nariz gelado em meu pescoço.

– Para sempre mesmo, mamãe?

– Para sempre.