Surpresas da vida
24 O que você faria?
Notas iniciais
“Não podemos fazer mais nada.” São as últimas palavras que um cirurgião deseja falar a um paciente. Desistir não é fácil para nós. Então fazemos tudo podemos. Para os cirurgiões, “um caso terminal” significa “tente mais um pouco”.
Quando desiste, você admite que casos terminais podem ser só isso? Chega a um momento em que tudo pode ser demais. Quando ficamos muito cansados para continuar lutando. Então desistimos. É ai que o verdadeiro trabalho começa. Encontrar esperança onde parece não existir nada”.
Grey’s Anatomy
Abri os olhos. Mas eles estavam pesados demais, o que dificultava minha visão. Optei por voltar a fechá-los. Só por alguns minutos.
Eu estava em um lugar silencioso demais. Confortável demais. Meu corpo estava sob lençóis macios e protegido por um cobertor quente. Confesso que cogitei a hipótese de não sair mais dali. Eu não fazia ideia de onde estava, porém sabia que não era no hospital. E, pela primeira vez na vida, senti-me aliviada por estar em qualquer outro lugar menos lá.
Pode-se ter passado horas, ou apenas minutos. Eu não sabia. E também pouco me importava. Eu só não queria pensar. Porque se pensasse... a dor voltaria novamente e eu não sabia se seria forte o bastante para enfrentá-la.
Nunca pensei que ter uma ínfima esperança seria melhor do que não ter nenhuma.
Porém, perdê-la, a esperança, era aterrador. Eu me sentia tão impotente como nunca antes na vida. De mãos e pés firmemente atados. Como procurar saídas se os resultados dos exames de Daisuke enraizaram meus últimos resquícios de fé no nada?
Não havia nada mais a ser feito.
Completamente a mercê daquelas malditas células mutantes.
Devia haver alguma forma. Esse não podia ser o fim. Deveria haver outro recurso que ainda não utilizamos. Alguma outra forma de driblar aquele câncer e não deixá-lo levar a melhor.
Eu não podia deixar meu filho morrer.
Eu não vou deixá-lo morrer.
Talvez houvesse um novo estudo sendo realizado em algum lugar do mundo que oferecesse a cura que tanto procuramos. Talvez apenas não tenhamos procurado o bastante.
Levanto da cama com energia renovada. Os olhos já não estão pesados. Não vou desistir. Não tão fácil. Um milagre não é impossível. O impossível apenas leva mais tempo. Exige um pouco mais de trabalho. E trabalho nunca me assustou.
Vou até a primeira porta que encontro, já reconhecendo o lugar. Estou na suíte do hotel onde Sasuke está hospedado. Por isso não me surpreendo quando o encontro sentado no sofá bege, com os cotovelos apoiados sob os joelhos, com semblante pensativo, sem camisa e fumando aquele maldito cigarro.
Assim que percebe minha presença, seus olhos ganham mais vida, porém, ainda assim, não transmitem nada. Ele dá uma tragada no cigarro e solta a fumaça lentamente, esperando que eu me manifeste.
– Preciso de um computador. – minha voz sai rouca, mas firme, nenhum pouco hesitante.
Ele apenas maneia a cabeça e aponta para a mesinha de centro a sua frente, onde está seu laptop, autorizando-me a usá-lo.
Entrego a ele já sabendo que ele possui um senha de acesso, aquele computador possui coisas importantes em seu disco rígido, ele jamais se arriscaria.
Assim que ele me entrega o laptop, começo a pesquisar. Sentada ao seu lado, não me importando com o cheiro de nicotina, eu procuro por algo que eu e os médicos responsáveis pelo caso de Daisuke talvez deixaram passar. São diversos artigos e pesquisas. Estudos ainda na sua fase inicial. Nada muito conclusivo. É claro que procurar por uma cura não seria rápido e muito menos fácil. Porém, alguns termos técnicos ativam minhas memórias e lembranças de aulas que tive ainda na faculdade voltam a se fazer importantes e necessárias.
O transplante de medula óssea não surtiu efeito algum. Mas Sasuke era compatível. Talvez...
Talvez Sasuke apenas não fosse o doador certo.
– O que você tanto procura?
– Cale a boca. Estou pensando.
Continuo a ler os artigos. É claro! Ainda havia uma saída. Eu sabia.
Largo o laptop sob a mesa, com os pensamentos a mil. Podemos fazer alguma coisa. Podemos salvá-lo.
Subo no colo de Sasuke abraçando seu corpo com as minhas pernas e tiro o cigarro de sua boca jogando-o no cinzeiro. Seguro seu rosto confuso com as duas mãos. Meu Kami-sama, como não pensamos nisso?
– Sasuke! Nós podemos salvá-lo! Eu e você, nós podemos. – eu beijo seus lábios ainda com gosto de nicotina, mas que naquele momento de euforia e revelação parecem perfeitos. – Eu e você podemos salvar Daisuke!
– O que você quer dizer com isso, Sakura? – Sasuke parece tenso, mas não me incomodo, pois assim que eu explicar ele entenderá tudo e verá que ajudar Daisuke a sair dessa só depende de nós.
– Escute, mesmo sua medula sendo compatível com Daisuke, o transplante não surtiu efeitos. – encaro seus olhos negros, ele espera calmamente que eu continue. – Talvez, você não seja o doador certo. Só isso. Pensa comigo... Quem mais poderia ser compatível? Quem seria o doador perfeito?
Ele suspira e só agora analiso seu rosto cansado. Sasuke parece exausto. Mas esse assunto não pode esperar.
– Não sei aonde você quer chegar, Sakura.
Eu sorrio, maravilhada por ter conseguido pensar em uma saída tão rápido.
– Um filho nosso, Sasuke! Meu e seu. Projetado geneticamente para ser compatível com Daisuke! Nós podemos salvá-lo, Sasuke. Eu e você, juntos!
Sasuke fecha os olhos e suspira novamente. Eu quase saltito em seu colo de tanta empolgação. Quando ele os abre, seus orbes negros estão determinados.
– Ouça o que está dizendo, Sakura. Ouça a si mesma! – ele segura meu ombros e continua. – Colocar mais uma criança no mundo para ser o doador de órgãos ambulante para o irmão enfermo. Você acha que isso é certo?
Eu o encaro estupefata.
– Sasuke... Você não entendeu. Não é bem assim. Pode ser a última chance de Daisuke. Nós não temos escolha.
– Meu Deus, Sakura! Isso é errado. Não podemos ter mais um filho, não assim. Porque não o queremos, nós apenas queremos o que ele pode nos oferecer para salvar o nosso filho que está naquele maldito hospital morrendo. É errado! Não podemos fazer isso com uma criança que ainda nem existe!
Levanto de seu colo, totalmente irritada com sua falta de compreensão.
– Você não é ninguém para me dizer o que é errado, Uchiha! Não tem moral nenhuma para isso. É a única saída de Daisuke! Eu não vou deixar meu filho morrer! – grito, já totalmente alterada e ansiosa.
– Ele é meu filho também, porra! – Sasuke levanta furioso e segura meus braços com força. – Acha que também não acaba comigo vê-lo naquele estado? Acha que também não me destruiu ver aqueles malditos resultados? – ele me sacode, machucando meus braços com sua força. – Eu o amo também, cacete! Não quero vê-lo morrer, eu acabei de conhecê-lo! – ele suspira e alivia o aperto em meus braços, mas não os solta. Estou sem reação com sua explosão. – Isso que você está propondo... Não seria justo com essa criança, Sakura.
– Você acabou de conhecê-lo, Sasuke!
– Porque você não me deu a porra da oportunidade!
– Dane-se! Fui eu que senti seus primeiros movimentos ainda dentro de mim. Fui eu que o segurei nos braços e o fiz parar de chorar quando veio ao mundo. Eu que passei noites em claro velando seu sono quando adoecia. Eu o levei para seu primeiro dia de aula e foi para mim que ele mostrou o primeiro dente de leite que caiu. Fui eu que o ensinei a andar de bicicleta. Eu estive com Daisuke o tempo todo. Eu o vi crescer. E é a mim que ele procura quando está com medo e é para mim que ele conta seus segredos e sonhos. Você não faz ideia do que eu estou sentindo, não posso deixar ele morrer, Sasuke. Não posso, ele é tudo que eu tenho. Ele é tudo para mim. Desistir dele é como tentar parar de respirar. Eu não consigo. Amo-o demais para ficar de braços cruzados. Eu não vou deixar meu filho morrer. – desvencilho meus braços de suas mãos e seguro seu rosto. – Juntos nós podemos fazer alguma coisa, Sasuke. Você não esteve com ele por esses oito anos, mas se fizermos isso, nós podemos vê-lo crescer e se tornar um homem maravilhoso. Podemos ver isso juntos, da maneira que era para ser. Por favor, Sasuke-kun!
Ele respira fundo e segura minhas mãos tirando-as de seu rosto. Os olhos negros não deixam os meus. Percebo que ele já tomou sua decisão. Mas há algo que faz meu sangue gelar, seu olhos são frios e indiferentes. Frios demais. Indiferentes em demasia.
– Não. A minha resposta ainda é não e vai continuar sendo. Eu não quero e não vou ter mais um filho com você, Sakura.
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