Surpresas da vida

23 O problema de ter esperança


“Imagine que está na sala de operação. Reparando uma veia cava. Quando, de repente, tudo dá errado. Então, você corta isso, sutura aquilo… E logo o problema passa.
É assustador como tudo pode dar errado tão rápido. Às vezes, precisamos de uma grande perda, para nos lembrarmos do que realmente importa. Às vezes, ficamos mais fortes. Mais sábios, e melhor equipados para o próximo desastre. Às vezes. Nem sempre”.

Grey’s Anatomy

– Oi, campeão. – sorrio quando vejo Daisuke recostado sob os travesseiros. Ele está levemente corado, corado da maneira que uma criança em um estado de saúde como o dele pode ficar. Não é muito. Apenas uma levíssima coloração rosada em suas bochechas. Mas para mim já é o suficiente para me animar e sorrir ainda mais.

Corar é bom. Corar, pode ser perfeito.

Porém, os olhos negros de meu filho brilham realmente quando veem que Sasuke está junto comigo. Bem próximo, na verdade.

Viemos juntos, não conversamos em todo o trajeto, mas ele me beijou assim que chegamos no hospital, ainda no estacionamento. Não era um beijo de desejo. Era um beijo de incentivo. Um beijo para eu permanecer forte. Para nós permanecermos fortes. Um incentivo. Um sopro de esperança. Um carinho, sua forma de dizer que agora ele estava ali, junto comigo, e iriamos enfrentar tudo juntos dessa vez. Que agora ele estava ali para mim e para Daisuke. Para mim já era o suficiente. E o bastante para permanecer com fé. Para acreditar que o resultado dos exames seriam positivos e que, então, poderíamos resolver o que fazer de nossas vidas, dessa vez da maneira certa.

– Pai! – a voz de Daisuke transmite toda a sua alegria. O sorriso cheio de janelinhas é tão perfeito e encantador que vou até ele e encho seu pequeno rosto de beijos.

– Ah, agora é só pai, pai, pai... – reclamo entre os beijos, rindo junto com ele. – E, eu, hein? Esqueceu de mim tão rápido?

– Ai, mãe, pare com isso. – ele fala, a voz feliz, repreendendo-me dos beijos que não paro de distribuir em sua cabeça. – Que nojo, você vai me deixar todo babado.

– Problema seu.

Largo ele e observo Sasuke se aproximar. Ele está sorrindo. É aquele sorriso. Genuíno e de tirar o fôlego.

Um sorriso apenas dele. E meu. E agora do filho que temos também.

– Oi, Daisuke. – ele senta-se na cama, ao lado do nosso filho. Totalmente relaxado. – Como estão as coisas?

– Babadas. – responde Daisuke rapidamente, enquanto me dirige um olhar falsamente emburrado e acusador.

Ele volta a olhar para Sasuke e o observa por um tempo, sem dizer nada. Depois volta a olhar para mim e, de novo, para Sasuke.

– O que foi, Daisuke? – Sasuke pergunta, antes que eu o fizesse.

– Vocês... Não estão mais brigados.

Eu rio e Sasuke, não conseguindo evitar, também ri, porém seu riso é bem mais discreto.

– É mesmo? – Sasuke o questiona novamente e Daisuke o encara irritado, nada contente por estarmos rindo dele.

– É. – meu menino olha para mim, em busca de uma explicação.

Beijo as bochechas dele novamente, agora bem mais coradas, e olho para Sasuke a procura de alguma reprimenda. Mas não há. Seu olhar intenso sobre mim, sem raiva agora, traz-me um tranquilidade que há muito tempo eu não sentia. Quem sabe, tudo possa ficar bem. Quem sabe, não precisaremos ficar muito mais tempo nesse hospital. Quem sabe, os exames nos mostrem que milagres realmente existem e que Daisuke crescerá bem e que o pior já passou. Quem sabe...

– Eu e o seu pai resolvemos que ficar brigando é coisa de criança e decidimos que o melhor era fazermos as pazes e vir aqui te contar isso. O que você acha?

Olho para Sasuke. Ele parece divertido e em seu olhar quente posso ver que o que fizemos há horas atrás, com certeza, não era coisa de criança.

Daisuke nos olha ainda mais confuso.

– Então vocês agora são como o tio Gaara e a tia Ino?

Sasuke arqueia um sobrancelha, mas eu o ignoro.

– Sim, Daisuke, algo como o tio Gaara e a tia Ino. Parece bom, não é?

Ele tenta esconder, entretanto o sorriso está ali em seus pequenos lábios. Um sorriso satisfeito.

– Parece bem maneiro.

– Maneiro?

Meu filho me encara como se eu fosse uma retardada por eu questioná-lo pelo vocabulário atípico.

– Maneiro. Legal. – ele repete e explica, como se eu fosse a criança e ele o adulto professor. – Ouvi o tio Naruto dizer.

Sasuke bufa, nada contente por Naruto já estar influenciando o filho.

– Naruto é um baka, Daisuke. Não acredite em nada do que ele diz.

– Eu sei. Ele é meio burro.

– Daisuke!

– O que foi, Sakura? O garoto só está dizendo a verdade.

Ele sorriem cumplices e fico feliz ao perceber que já não sinto mais ciúmes da relação que eles constroem. É um sentimento novo e aconchegante vê-los interagindo, como se pai e filho se conhecessem desde sempre. É o certo. Sinto um aperto em meu coração ao perceber que os privei disso por tanto tempo. Como não percebi que Sasuke poderia ser um pai maravilhoso?

Eu os observo interagirem e não consigo acreditar que pude privá-los de uma vida juntos. Porque juntos são perfeitos. Daisuke fala sobre algo que não presto atenção porque estou presa analisando como seus corpos demonstram como pai e filho estão felizes. O rubor discreto nas bochechas do meu filho, o sorriso que Sasuke não consegue mais esconder enquanto ouve as histórias infantis de nosso filho. Eles já criaram um vínculo. Já são pai e filho.

Não consigo evitar, sorrio. Os dois homens a minha frente não conseguem parar de me surpreender.

Sou tirada dos meus devaneios quando o celular de Sasuke começa a tocar. Ele o ignora, mas o som estridente do maldito aparelho é insistente. Ele pega o telefone e olha para o visor, seu semblante torna-se irritado automaticamente.

– Droga, preciso atender. – ele suspira. Segura a mão frágil e pequena de Daisuke. – Conversamos mais tarde, Daisuke. Eu volto logo.

O olhar de Sasuke cai sobre mim, seus olhos escuros estão contrariados mostrando que realmente ele preferiria não atender aquela ligação, porém, ele precisa fazê-lo.

Sasuke já está saindo da sala, mas para assim que escuta Daisuke chama-lo.

– Pai?

Ele apenas olha para Daisuke, esperando que ele continue.

– Tio Gaara sempre dá um beijo na tia Ino quando ele sai.

– É mesmo?

Daisuke me olha, claramente em expectativa.

– É.

O celular de Sasuke continua tocando.

– Sasuke... só atenda logo esse telefone. – solto, totalmente incomodada com o pedido do meu filho que resolveu agora dar uma de cupido.

Porém, os olhos negros me observam quase divertidos. A passos rápidos ele vem até onde estou e, antes que eu possa protestar e dizer que nem sempre as vontades de Daisuke devem ser atendidas... Que aquilo realmente não é necessário... Que é ridículo... Uchiha Sasuke me beija. Os lábios quentes, macios e exigentes. Suas mãos seguram meu rosto tomando posse e sua língua experiente explora minha boca fazendo por alguns segundos esquecer que o maldito celular toca e que Daisuke nos observa.

Tão rápido como deu-se, o beijo teve um fim. Sasuke me solta com um sorrisinho sacana nos lábios e sai do quarto já falando ao telefone.

Estou tão perdida com o beijo de Sasuke que só desperto quando ouço o riso de Daisuke. Uma risada gostosa demais para deixar-me zangada, já que ele logicamente só pode estar rindo da minha cara.

Eu empurro seu pequeno corpo mais para o lado na cama e deito-me ao seu lado. E rio também. Sinto-me leve e feliz depois de muito tempo. Rir é ótimo. Rir com Daisuke é perfeito.

– Você gosta do papai. – meu filho piadista resolve se pronunciar depois de um tempo de nosso ataque de risadas.

Não consigo evitar e sorrio.

Se eu gosto de Uchiha Sasuke?

– É, eu gosto.

Viro-me para ficar de frente para seu rosto que transborda curiosidade.

– Então porque vocês brigaram?

– É complicado, campeão. Os adultos adoram fazer isso, sabe, complicar suas vidas.

Ele parece pensar e fecha os olhos. As pálpebras são tão finas e pálidas que posso ver os pequenos vasos sanguíneos presentes nelas. Ele parece cansado agora e sei que ele está lutando contra o sono.

– Pode dormir, Daisuke. O Sasuke vai voltar e ficar aqui com você depois, não precisa ficar acordado esperando ele voltar.

Ele assente com a cabeça e se aninha em meu pescoço, envolvendo meu corpo com seu braço fino. Cubro nossos corpos e acaricio suas costas, feliz em ouvir sua respiração sem falhas.

Ainda muitos problemas precisam ser resolvidos, porém, depois de muito tempo, sinto esperança de que tudo terá uma solução. Uma solução boa. Que tudo dará certo. Com Sasuke aqui, do nosso lado, posso me permitir respirar com calma. Porque sei que agora ele está aqui e não vai deixar Daisuke. Saber disso me deixa aliviada, porque, apesar de tudo, sei que meu filho nunca esteve tão feliz como agora que conheceu o pai. E para uma mãe, não existe nada no mundo melhor do que ver um filho feliz de verdade.

Estou quase dormindo quando sinto um toque gentil em meu braço tentando me despertar. Viro o rosto e dou de cara com Shizune. Seu semblante é calmo, mas há algo mais, algo que ainda não consigo desvendar porque estou sonolenta.

– Sakura, acorde, querida. Os exames de Daisuke chegaram.

Ela não precisa dizer mais nada. Meu corpo inteiro desperta e eu já não podia estar mais acordada. Tiro os braços de meu filho do meu corpo com cuidado para não acordá-lo e saio da cama, cobrindo-o melhor e beijando seu rosto com carinho.

Vou até o sofá mais afastado da cama de Daisuke, onde Shizune já está sentada com a pasta que contém os resultados dos exames sobre suas pernas.

Ela me estende a pasta e eu pego o envelope que ela me oferece. Não espero ou aguardo qualquer explicação de sua parte. Abro a pasta e retiro os papéis ali contidos. Começo a ler imediatamente, ávida pelas informações ali contidas. O que esses papéis revelam dirão o que irei fazer com a minha vida.

Sabe aqueles momentos que você recebe uma notícia e ela te deixa tão surpresa que você por alguns minutos fica sem ação? Seu corpo para de se mover e você não percebe o que está a sua volta, porque ficou absorta demais com o que acabou de descobrir. Algumas pessoas em momentos críticos ficam sem saber como reagir e mantêm-se travadas ali, no mesmo lugar, por horas. Outras, aquelas que são conhecidas como os sobreviventes de grandes desastres, não sabem realmente o que estão fazendo, mas no momento que são pegas de surpresas ela reagem, não entram em pânico, procuram uma maneira de superar suas mazelas. E sobrevivem.

Pelo visto, eu não sou esse tipo de pessoa.

Sinto meu sangue gelar lentamente. Tento respirar, mas o ar parece escasso demais. Eu volto a ler as mesmas linhas já lidas uma centena de vezes, procurando, tentando achar um erro. Uma brecha. Algo que diga: Brincadeirinha, Saky, estamos apenas fazendo uma brincadeirinha. Uma brincadeirinha de humor negro, é claro. Mas, ainda assim, estamos brincando. Relaxe, pode respirar agora, nada disso é verdade!

Porém, não é o que acontece.

Parece que horas se passaram quando Shizune toca minhas mãos gentilmente tentando tirar os exames da minha mão. Eu me afasto com brusquidão.

– Sakura...

– Não. Não. Não. Ele está bem, Shizune. Essa merda deve estar errada. Não pode estar certa. Não pode. Ele está bem. Ele vai ficar. Ele é um menino forte... ele disse... ele... Ah, meu Deus... não...

Sinto o chão frio do quarto em meus joelhos. Abraço aqueles papéis malditos como se fossem a única coisa naquele mundo perverso que assegura-se minha sanidade naquele momento.

Eu nem havia percebido que tinha começado a chorar até que Shizune ajoelhou-se no chão junto comigo e tentava em vão enxugar as lágrimas que não paravam de cair.

– Ah, Sakura...

E ela chora também, deixando todo o protocolo médico de lado me abraça e chora comigo. Porque ela também o ama. Ela o viu crescer. E agora não pode mais fazer nada por meu filho que agora está morrendo.

– Isso é tão injusto... – soluço... triste demais para dizer mais alguma coisa.

Eu não devia me sentir assim tão surpresa. Isso acontece o tempo todo com famílias em todo o mundo que tem filhos com um tipo de câncer agressivo e terminal. Mas eu me sinto assim. Derrotada. Impotente. De mãos e pés atados. Com raiva de tudo e de todos porque meu filho não merecia esse fim. Porque ele é só uma criança e o fato que ele nunca se tornará um adulto é totalmente injusto. Amaldiçoo as pessoas felizes. Amaldiçoo os médicos, a medicina. Amaldiçoo Deus.

– Mãe?

A única voz no mundo que pode me despertar de tanta dor me chama, porém, dessa vez não consigo engolir minhas lágrimas, limpar o rosto e sorrir. Não há mais esperanças. Milagres acontecem sim, mas com certeza não no meu caso, não com meu filho.

Levanto-me e vou até ele. Nem percebo quando Shizune sai do quarto, só tenho olhos para ele. Meu menino forte e corajoso que já aguentou tanto, porém sua luta não se prolongará por muito mais tempo. Porque o destino ditou que o transplante não desse nenhum resultado. Ditou que o monstro ainda habita seu pequeno corpo com força e que está ganhando a batalha contra todos os medicamentos e procedimentos que recorremos para curá-lo.

Daisuke, meu menino feliz que dormiu em meus braços há minutos atrás, irá morrer. É isso que os exames dizem por trás de todos os termos técnicos ali contidos. Meu filho irá morrer.

E eu não pude fazer nada.

Notas finais
E aí, me digam o que acharam nos comentários e recomendações. Abraços.