Surpresas da vida
16 E o passado? Você pode fugir dele?
Notas iniciais
Eu tive um dia terrível.” Nós dizemos isso o tempo todo. Uma briga com o chefe, enjoo, engarrafamento…
É isso que descrevemos como terrível, quando nada de terrível está acontecendo.
Essas são as coisas que imploramos para ter: um canal, uma auditoria federal, café espirrado nas roupas.
Quando o terrível acontece, imploramos para um Deus que não acreditamos para resgatar os pequenos horrores. E levar isso embora. Parece fácil agora. A cozinha inundada, a madeira podre, a briga que lhe deixa com raiva.
Ajudaria se soubéssemos o que estava por vir?
Saberíamos que estes seriam os melhores momentos da vida?
Greys anatomy
– Algo morreu aqui dentro? – suspira uma Ino com as mãos tampando o nariz enquanto entramos dentro do meu apartamento.
Não posso culpá-la, o cheiro é realmente horrendo.
– Deixei algumas coisas fora da geladeira. Acho que estragaram. Desculpe. – respondo enquanto vou até a cozinha, onde o cheiro podre é ainda pior e abro as janelas.
– Você acha? – revida ela enquanto coloca as compras do mercado sobre a bancada. – Não me surpreenderia se encontrasse um cadáver na sua mesa.
Ela começa a colocar os pratos sujos na pia. Eu a acompanho, jogando toda comida estragada no lixo.
– Me desculpe por isso, Ino. – murmuro, envergonhada pelo estado que se encontra a minha casa.
Na verdade, desde o transplante, só passo em casa para tomar banho, trocar de roupa, comer alguma coisa, e, às vezes, o que é muito raro, dormir. Organizar o apartamento e mantê-lo limpo está quase no fim da minha lista de prioridades no momento.
– Tudo bem, testuda. Aproveita que estou aqui e vá tomar um banho enquanto faço uma comida decente. Sei que você não se alimenta direito há dias.
Franzo a testa.
– Desde quando os papéis se inverteram? – pergunto, chocada, pois sempre fora eu que dizia o que Ino devia fazer, não o contrário.
Minha melhor amiga sorri. Um sorriso triste que não alcança seus intensos olhos azuis. Sei a resposta. Desde que Daisuke adoeceu. Foi assim que os papéis se inverteram. Minha vida virou de pernas para o ar e tudo tem sido difícil desde então. Quem se preocuparia com a comida estragando na bancada de casa quando seu filho de sete anos está lutando pela vida no hospital?
Certamente eu não.
Enquanto a água desce pelo meu corpo desnudo suspiro, deixando o cansaço ser levado pela água quente do chuveiro. Daisuke será tirado do isolamento amanhã. Seu estado é estável. Vai demorar um pouco até o transplante mostrar seus resultados. Até lá aguardamos.
Sasuke partiu há dois dias, precisava voltar, por causa da empresa, mas prometeu a Daisuke que logo voltaria. Em outras palavras, há qualquer hora ele estará aqui. Não sei se fico aliviada ou preocupada. Nesses quinze dias de recuperação pós transplante Daisuke se aproximou muito mais de Sasuke, seria péssimo se aquele cretino não aparecesse. Por outro lado, eu manteria minha paz de espírito com ele longe. Porém, o que penso não importa mais. Se meu filho quer o pai por perto, não farei objeções. No estado em que meu pequeno menino se encontra, é difícil encontrar algo que eu lhe negaria.
Quase não tive contato com Sasuke nesses dias que se passaram. Revezávamos nas visitas diárias de Daisuke e raramente nos víamos. Tsunade me liberou para algumas cirurgias, de forma que eu pudesse ocupar um pouco a minha cabeça e relaxar. E, claro, podendo assim ficar longe de Sasuke. É difícil entender pessoas que relaxam trabalhando, mas eu era uma dessas. Eu amo meu trabalho, todo sangue, bisturis, suturas, imprevistos e gratidão. Sentia-me útil, o que era realmente revigorante já que mais nada podia fazer pelo meu filho. Eu só podia esperar e rezar para que os próximos exames mostrassem bons resultados.
Sou despertada de meus pensamentos pelo toque do celular. Rapidamente saio do chuveiro enrolando-me em uma toalha e praticamente corro até meu celular. Pode ser o hospital. Pode ser Shizune dando-me notícias que podem acabar com as minhas últimas esperanças. Pode ser Gaara dizendo que Daisuke teve uma recaída... Pode ser...
Meu coração está em saltos quando pego o pequeno aparelho. Não é o hospital. Não é Shizune. Apenas um número que não conheço. Um número, reconheço depois de atender, que é de Tóquio.
– Alô. – minha voz sai ofegante, resultado do meu desespero para atender o telefone.
– Sakura, sou eu. – a voz fria e grave no outro lado da linha me arrepia. Quantos anos fazem que não falo com Sasuke por telefone?
Respiro fundo e tento controlar minha respiração.
– Sim?
Ele hesita. Sento-me na cama esperando suas próximas palavras.
– Como Daisuke está?
– Está bem, bem para uma criança em seu estado. Amanhã ele sai do isolamento, vai para um quarto.
– Já sabem os resultados dos exames?
Suspiro. Os exames levam um tempo para chegar, mas já fazem uns dias que foram feitos, portanto, há qualquer momento receberemos notícias. Serão eles que dirão se o transplante funcionou, se nossos esforços geraram frutos.
– Ainda não.
Vou até o espelho e tiro a toalha. Deus, emagreci tanto. Os ossos do meu quadril são evidentes. Ino tem razão, preciso me alimentar direito. Como vou cuidar de Daisuke se não cuido mais nem de mim?
– Ele perguntou por você hoje. Quer saber quando volta.
A linha fica muda, e por um momento chego a pensar que ele já desligou, mas sua voz sensual volta a falar.
– Estou com alguns problemas aqui. Volto assim que conseguir resolvê-los.
– Tudo bem, eu aviso a ele. – é tão estranho conversar com Sasuke novamente. Parece tudo automático. Parecemos dois estranhos. Talvez sejamos mesmo. – Sasuke? – espero um momento, porém, ele não diz nada. Como sempre. Entretanto preciso agradecê-lo por ter sido tão atencioso com meu filho nos últimos dias. Jamais imaginei que Uchiha Sasuke seria um pai tão presente e devoto. Antes que eu desista, pronuncio as palavras que meu orgulho não permitiu pronunciar enquanto ele estava aqui. -Obrigada.
Mas a linha já está muda há muito tempo e, dessa vez, sei que ele desligou.
Resolvo deixar para lá as grosserias de Sasuke e coloco minhas roupas. Elas estão um pouco largas, mas esqueço de dar importância a esse fato.
O cheiro que vez da cozinha agora é maravilhoso. Céus, Ino sabe cozinhar. Pela primeira vez em dias sinto fome.
– Hum, porca, o cheiro está uma delícia. – falo enquanto começo a me servir. Ino faz o mesmo.
– Quem bom, assim você come um pouco. – seus olhos percorrem meu corpo. – Por Deus, Sakura, já reparou como está magra?
– Eu sei, olhei-me no espelho antes de me vestir. Vou me cuidar mais. Prometo.
– É bom mesmo que seja verdade, testuda.
Sentamo-nos para comer. Minha boca saliva e aprecio a comida de Ino com gosto.
– Quem era no telefone? — pergunta Ino enquanto limpa o molho vermelho de seus lábios.
– Sasuke. Queria saber como Daisuke está.
– Ele parece bem interessado, verdadeiro, eu diria. Nunca achei que Sasuke agiria assim...
Eu suspiro e dou mais uma garfada.
– Nem eu.
Ino olha-me, tentando ver se o falar sobre Sasuke deixou-me incomodada.
– Sakura... – a voz dela é hesitante e por um momento temo o que ela quer falar.
Suspiro novamente. Ino vai me fazer perder a fome, posso sentir.
– Diga logo, Ino.
– Você e Sasuke chegaram a conversar sobre... o passado?
– Sobre o exatamente você se refere? Ele claramente não esqueceu o passado já que ainda me odeia.
– Mas... Vocês não falaram nada?
– Quase nem nos vimos nesses dias, Ino. E, também, Sasuke não quer falar comigo.
Ela volta a comer. Desviando assim seus olhos dos meus.
– Você não pode culpá-lo, afinal. – ela murmura tão baixo que quase não consigo ouvir.
– O quê?
– Bem, claramente Sasuke tem motivos para ainda estar com raiva.
Solto os talheres, não entendendo o que Ino quer dizer.
– Desculpe, Ino, mas onde você quer chegar? Está querendo dizer que errei ao esconder a existência de Daisuke de Sasuke? É isso? Porque, se me lembro bem, você foi a primeira pessoa a me apoiar na ideia de manter o Uchiha longe. Qual é o problema agora?
Ino suspira também, já arrependida, percebo, por ter iniciado essa conversa.
– Não é disso que estou falando, testuda. – ela parece cansada, pensando no que exatamente dizer. — Estou falando que posso entender a raiva que Sasuke sente por você. Afinal, você dormiu com o irmão dele.
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