Surpresas da vida
28 Até meu coração parar de bater. Talvez, até depois
Notas iniciais
“Luto deve ser algo que todos temos em comum, mas parece diferente em todos. Não é só pela morte que temos que sofrer. É pela vida. Pelas perdas. Pelas mudanças. E quando imaginamos porque algumas vezes é tão ruim, porque dói tanto... temos que nos lembrar que pode mudar instantaneamente. Quando dói tanto que não se pode respirar, é assim que você sobrevive. Lembrando-se que um dia, de alguma forma, impossivelmente, não se sentirá mais assim. Não vai doer tanto. O luto vem em seu próprio tempo para todos. À sua própria maneira. O melhor que podemos fazer, o melhor que qualquer um pode fazer, é tentar ser honesto. A parte ruim, a pior parte do luto, é que não se pode controlá-lo. O melhor que podemos fazer é tentar nos permitir senti-lo, quando ele vem. E deixar pra lá quando podemos. A pior parte é que no momento em que você acha que superou, começa tudo de novo. E sempre, toda vez, ele tira o seu fôlego. Há cinco estágios de luto. São diferentes em todos nós, mas sempre há cinco. Negação. Raiva. Barganha. Depressão. Aceitação”.
Greys anatomy
Epílogo
Olho para minhas mãos. A pele que as reveste é pálida, extremamente branca. Os dedos finos, magros e delicados. As unhas depois de um longo tempo voltaram a receber cuidados. Não estão mais roídas ou lascadas, nem quebradas. Agora até um esmalte claro se faz presente. Incrível.
Não é por isso que olho minhas mãos. Vaidade já deixou o topo da minha lista de prioridades a muito tempo. Olho-as porque em um dos meus dedos raquíticos e frios, o anelar da mão esquerda, repousa uma significativa joia dourada. Ela é grossa e levemente arredondada e já está ali há alguns anos. O anel de ouro é cheio de significados também. Repleto de lembranças. Nunca o tirei dali. Nunca.
Parece estranho que uma pessoa como eu, tão avessa a relacionamentos amorosos, fosse tão apegada ao maior símbolo físico de compromisso já inventado, uma aliança de casamento. Porém, ali estava eu olhando para aquele adereço que provavelmente era o bem material mais importante que eu possuía. O que fazia dela ainda mais incrível e significativa para mim é que, logicamente, seguindo a linha de raciocínio de que toda aliança tem seu par, a minha também possuía o seu. A outra aliança, eu tinha certeza absoluta, também nunca saíra do dedo anelar da mão esquerda de seu possuidor. O meu marido. Uchiha Sasuke.
Depois de cinco anos, eu já havia me acostumado a ser a Sra. Uchiha para todos aqueles que eram de fora do nosso círculo de amigos. No meu trabalho, no hospital e círculo acadêmico, eu ainda era a Dra. Haruno. Eu fizera questão de ser assim. O que gerou a revolta do meu marido que, deveras, gosta de marcar território. Sua esposa não seria diferente. Claramente, eu tive que fazê-lo revisar alguns conceitos a respeito do que ele pode ou não meter o bedelho. No fim das contas, eu ganhei, como uma boa esposa que sabe colocar seu marido em seu devido lugar.
Um grito faz eu desviar meus olhos da minha aliança de casamento e eles procuram agitados a sua origem. Não preciso me preocupar. O grito estridente e infantil é de alegria. Pura, genuína e inocente. E, quando ela corre até onde estou, com seu vestido branco cheio de babados parcialmente molhado pela água do mar e os pezinhos descalços espalhando areia para todos os lados, sei que ela quer que eu também participe de seu momento feliz. O pai dela vem logo atrás, perseguindo-a, os olhos de falcão nunca a deixam, sempre atentos aos seus movimentos. Assim como a filha, Sasuke também está com as roupas molhadas, a calça de linho bege claro, cujas barras foram dobradas até os joelhos, não estão em melhor situação do que o vestido da garotinha que agora está refugiada em meus braços, achando que ali o papai não irá pegá-la. Os dois sorriem, deliciados pela brincadeira, assim como eu.
– Sua filha me molhou todo, Sra. Uchiha.
A risada infantil desvia-me dos olhos negros de meu marido fazendo-me voltar toda minha atenção para um par de orbes tão negros quanto os do pai. Seu cheiro fresco de bebê é tão gostoso que eu aproximo-me mais de sua delicada face, enchendo suas bochechas ricas em cor de beijos.
– Papai ta todo moiado. – Sarada diz com sua voz enrolada característica de quem ainda está aprendendo a falar.
Fica claro que ela acha isso extremamente divertido quando ela volta a rir e Sasuke e eu a acompanhamos, viciados em sua risada doce, dois abobalhados completamente vidrados na criança agitada em meu colo.
Ela não consegue ficar quieta por muito tempo e volta a correr, sabendo que o pai a seguirá. É claro que sim. Ela é a garotinha do papai, não poderia ser diferente. Às vezes, eu o repreendo dizendo que ele a mima demais. Ele revira os olhos, finge que não me escuta e volta a fazer toda as vontades dela.
Sasuke é um pai maravilhoso.
Ele corre com ela pela areia clara e fofa, alheio às poucas pessoas que os observam. Eu não os culpo. Eu que os vejo todos os dias também tenho dificuldades para tirar os olhos. Eles são perfeitos juntos. Lindos demais. Tão parecidos. Os cabelos negros de minha filha, presos com um discreto elástico no topo da sua cabeça, brilham contra o sol e balançam quando Sasuke a alcança pegando-a no colo e lançando-a no ar apenas para pegá-la novamente e prendê-la em um abraço cheio de amor. Sasuke só tem olhos para ela. É uma cena realmente linda.
É justo que Sasuke seja feliz. Segurando a filha nos braços com tanto carinho e proteção, ele não parece o temível Uchiha Sasuke, um homem de personalidade fria e impenetrável. Assim como foi com Daisuke, Sasuke transformasse dando todo seu amor a Sarada. Ele merece finalmente ter uma família, depois de tantos anos sozinho, oito deles sendo minha culpa. Não importa que Sasuke diga que ele também fora culpado, eu sempre carregaria o peso de não ter contado a Sasuke sobre Daisuke antes do câncer me obrigar a fazê-lo. Eles tiveram muito pouco tempo para viverem juntos, isso fora cruel para ambos.
É por isso que eu entendo toda a dedicação dele para com nossa filha. Daisuke deixou cicatrizes em Sasuke e ele tenta curar-se amando desenfreadamente a nossa filha. Não é que eu não a ame da mesma maneira, mas minha terapeuta disse que no meu caso, depois do que a morte de Daisuke causou em mim, na minha sanidade, eu poderia sufocar meu próximo filho de tanto amor e proteção. Isso não seria saudável para mim, muito menos para ela. Porém, eu asseguro-me que Sarada faça sempre seus exames de rotina, buscando atenta alguma anormalidade, tentando prever qualquer sinal de que uma célula mutante começou a agir em seu corpo. Até agora, Sarada é a criança mais saudável e ativa que eu conheço. Isso me deixa em paz e faz com que eu consiga dormir à noite.
Encontro minha terapeuta uma vez por semana. Conheci Ellen logo algumas semanas depois de Daisuke partir. Eu sabia que ia ser difícil, mas a depressão severa que me abatera fora surreal. Era pior para mim porque eu vivera com ele mais tempo e, também, porque era médica. Eu não conseguira salvá-lo. Eu não conseguia me livrar da culpa. Aquilo passou a me corroer a sanidade e nada que Sasuke fizesse aplacava a minha dor. Quando as coisas ficaram realmente feias, meu marido teve um ataque de fúria, nós brigamos, falamos coisas que não queríamos, choramos. Ele também estava devastado. Eu não era a única que estava sofrendo. Ele também o amava. Ele também sentia saudades.
Eu não fugi dele, como acontecia quando brigávamos e nossa relação tornava-se complicada demais para eu aguentar a barra. Permaneci ao lado dele, como eu prometera. Eu nunca mais iria embora. Nunca mais fugiria. Ele abraçou-me e admitiu, a contragosto, que precisávamos de ajuda.
E foi assim que eu conheci Ellen.
Eu seria eternamente grata a ela e a Sasuke por me ajudarem a sair da depressão profunda em que me encontrava. Eu tinha algumas recaídas, é verdade. Totalmente normal, segundo a terapeuta que tornara-se minha amiga. Eu ainda estava de luto. Eu amara meu filho, era aceitável e previsível que eu sentisse sua falta e ficasse triste por isso. O que eu não podia era deixar que a morte precoce de Daisuke impedisse-me de viver e ser feliz novamente.
Sasuke e eu nos tornamos mais fortes depois que a pior fase do luto passou. Nós sobrevivemos, como eu sabia que aconteceria. E ficamos bem. Bem até Sasuke pedir para termos outro filho. Foi uma das nossas piores brigas. Eu não queria. Nunca mais, eu dissera. Ele me acusou de ser uma filha da puta egoísta. Eu falei para ele que se ele quisesse uma criança era só pedir o divórcio e trepar com alguém que estivesse disposta a dar o que ele queria. Sasuke quase me bateu depois de eu dizer isso, a mão próxima ao meu rosto tremendo de raiva. Porém, não o fez. Ele prometera nunca me machucar e eu sabia que ele jamais seria capaz de me ferir novamente, mesmo eu pressionando-o ao limite.
– Eu disse para você que eu só seria pai dos seus filhos. Eu não quero nenhuma outra. – sibilou ele, no seu tom de voz ainda havia raiva, mas a mão que fora levantada em um momento de fúria para me bater acariciou meu rosto dizendo o contrário.
Eu suspirei, derrotada.
– Eu sei. – fechei os olhos diante do seu carinho em meu rosto. – Desculpe, Sasuke-kun, pelo que eu disse. Eu... eu só estou com medo.
Foi um longo caminho para eu recuperar-me o suficiente para atender ao seu pedido. Eu estava quebrada, Sasuke entendera e esperou pacientemente a minha lenta aceitação de que, sim, nós poderíamos ter um bebê, dessa vez, da maneira certa.
Sarada fora desejada. Não fora resultado de um ato de imprudência, uma pílula esquecida ou a falta de um camisinha. Ela fora querida desde o momento em que decidimos começar de novo.
Quando ela nasceu, não fora eu que a tive em meus braços primeiro. Eu já tivera a experiência, Sasuke não vira Daisuke nascer e nem o segurou nos braços quando bebê. Decidi que dessa vez seria diferente. Com apenas um olhar para a enfermeira, o corpo pequeno e choroso de minha filha fora parar nos braços fortes de seu pai. Eu jamais vou esquecer do olhar de Sasuke para nossa filha quando a segurou pela primeira vez. Era tanto amor e devoção naqueles olhos negros que eu, que não tinha derramado nenhuma lágrima até aquele momento, comecei a chorar como uma louca. Sarada parou de chorar magicamente e se aninhou nos braços firmes do homem que eu sabia que a protegeria sempre, até seu último suspiro. Foi também naquela hora que eu tive a certeza que ficaríamos bem. Inteiros.
Nós tínhamos uma família bem grande agora. Depois de Sasuke fazer uma proposta de emprego irrecusável a Gaara, ele e Ino decidiram voltar com a filha para o Japão. Desde então, com Hinata, Naruto, e os filhos deles, somos como irmãos. Os filhos deles chamam a mim e Sasuke de tia e tio, assim como Daisuke fizera com eles e como Sarada faz agora. Há almoços de família nos fins de semana, e quando um dos casais precisam de um tempo só para si para namorar, nós somos as babás de seus filhos. Tudo perfeitamente normal. Comum. Nada poderia ser mais perfeito.
Olho para minha aliança novamente. Sorrio ao lembrar do sorriso enorme de Daisuke ao ver eu e Sasuke se casando. Ele estava tão feliz naquele dia, tão radiante. Olhar para aquele anel dourado em meu dedo, era sentir seu sorriso infantil de alegria genuína em minha pele. Era reconfortante. Daisuke vivera tão pouco comigo, menos ainda com Sasuke. Porém, marcara nossas vidas para sempre. De alguma forma, eu estar junto de Sasuke, significava estar junto do meu filho nunca esquecido e tão amado. Penso, olhando meu marido e minha filha brincando na areia molhada pelas ondas tranquilas naquele fim de tarde quente, que se eu não tivesse engravidado de Sasuke há treze anos atrás, se Daisuke não tivesse adoecido, se ele não precisasse de um transplante... Eu nunca mais teria visto Sasuke novamente. Eu fugira dele com intenções claras de nunca mais voltar, de nunca mais vê-lo. O que teria acontecido se a minha vida não tivesse virado de ponta cabeça quando descobri que meu filho estava morrendo e que eu faria qualquer coisa para salvá-lo. Inclusive ir atrás de seu pai. Sem saber, Daisuke nos uniu, esclareceu oito anos de silêncio e mágoas, curou feridas, tanto minhas quanto as de Sasuke, fez-me ver que eu nunca deixara de amá-lo e que ele não parou de pensar em mim nem por um segundo. Meu filho, extremamente inteligente, mas destinado a viver por tão pouco tempo, devolveu-me para o único homem que eu amei. E eu sabia que Sasuke seria o único homem que eu amaria até que meu coração parasse de bater. Talvez, até depois. Assim como eu sabia que eu seria a única mulher para ele durante toda a sua vida. Até o fim.
Não podia ser diferente.
De alguma forma, Sasuke e eu fomos destinados a ficar juntos. Daisuke fora o cupido enviado por Deus para nos unir uma vez mais, dessa vez para sempre. Da forma certa, do jeito que teria sido se tudo não tivesse dado tão errado, se não tivéssemos nos machucado tanto. Daisuke curou e tornou mais forte o amor entre mim e Sasuke e depois partiu após cumprir sua missão, entretanto não calculara o que sua ausência causaria em nós.
E então, você pode chamar de Deus ou uma força maior, alguém nos mandou Sarada. Um presente precioso enviado para suturar as feridas abertas que a perda de um filho deixa em seus pais. Não para esquecer o filho perdido, mas para nos dar a oportunidade de amar uma vez mais, de derramar todo o amor do mundo sobre ela, dar-lhe os beijos que foram reprimidos pela dor do luto, guardados para serem entregues para alguém que nós amássemos tanto quanto Daisuke fora amado.
Quando ela me chama, a voz risonha gritando um “mamãe, vem bincar com a gente”, eu levanto-me, limpando a areia do vestido rosa claro, e vou ao encontro dela e de Sasuke. É impossível negar um pedido seu quando é feito com aquele sorriso infantil de dentes pequenininhos, realçando as covinhas em suas bochechas rosadas. Ela é tão perfeita. Tão nossa. Ás vezes, penso estar sonhando.
Bem... se isso for um sonho, eu prefiro jamais acordar.
Fim
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