Surpresas da vida
22 A outra face
Notas iniciais
“Há diferenças entre o cérebro do homem e da mulher. Os cérebros femininos tem um hipocampo maior. O que normalmente faz as mulheres serem melhores na atenção e memória. Os cérebros masculinos tem um córtex parietal maior. O que faz os homens serem melhores para se defender de um ataque. Os cérebros masculinos enfrentam desafios de forma diferente do que os femininos. As mulheres são programadas para se comunicar com a linguagem, detalhes, empatia. Homens, não muito. Não significa que nós somos menos capazes de nos emocionar. Nós podemos conversar sobre nossos sentimentos, é só que… na maioria das vezes, nós realmente preferimos não conversar.
Seja homem. As pessoas dizem isso o tempo todo. Mas o que isso quer dizer? É sobre força? É sobre sacrifício? É sobre vencer? Talvez seja mais simples do que isso. Você deve saber quando não ser homem.
Às vezes precisa de um homem de verdade para deixar seu ego de lado, admitir a derrota e começar tudo de novo”.
Grey’s Anatomy
Uchiha Sasuke
Ela é minha mais uma vez.
É o meu primeiro pensamento quando acordo e sinto o corpo quente de Sakura grudado no meu. Seus cabelos ridiculamente rosas estão espalhados sob meu peito e pescoço e respiro fundo, para sentir melhor o aroma agradável que os fios exalam. É cheiro de Sakura. Finalmente, é o cheiro dela.
Ela está agarrada a mim, completamente. E sorrio ao lembrar o quanto isso é natural, a forma como seu corpo pequeno procura calor inconscientemente. Certas coisas, como ela mesma disse, não mudam. Ela sempre sentiu muito frio durante o sono, e parece que isso ainda não mudou. Seu cheiro também não, assim como seu gosto. Mas outras coisas mudaram sim, como o seu corpo que agora apresenta curvas ainda mais acentuadas, provavelmente pela gravidez, deixando-a ainda mais gostosa. Eu aprecio essa mudança, que homem não apreciaria? Porém, as outras mudanças, quase me assustam. Os olhos verdes mudaram. São tristes e percebi que só brilham de verdade, como quando nos conhecemos, quando ela está com Daisuke. Enquanto transávamos eu vi novamente seu olhar quente e cheio de luxúria que implorava para eu acabar com ela na cama... A tonalidade mais escura, as pupilas dilatadas... Kami-sama, aquele olhar deixaria qualquer homem duro.
Ela está diferente. Acredito que seja por causa do menino.
O menino. Ainda acho estranho chamá-lo de filho. Mesmo já o amando, ainda assim, é estranho. Porque Sakura tinha razão, eu nunca quis ser pai. Não mesmo. Não estava nos meus planos. E eu tomava muito cuidado com isso, para garantir que nenhuma mulher com quem eu transasse engravidasse. Seria um erro terrível. A única mulher com quem me descuidei foi com ela. No início eu simplesmente não conseguia tirar minhas mãos dela, a urgência era tanta que eu esquecia completamente de colocar o preservativo e evitar que um erro acontecesse. Feitos dois animais no cio. Eu só queria me enterrar nela. Nunca senti tanto tesão quanto quando estamos juntos. Não sei explicar o que é. E olha que tenho tentado descobrir durante todos esses anos, tentando tirar essa maldita fixação que tenho pela Sakura. Mas nunca consegui. Ela não é a mulher mais bonita do mundo. Nem a mais gostosa. Nem a de melhor índole. Ela mente, me roubou e sabe como manipular um homem. Também é uma filha da puta orgulhosa. Tão orgulhosa que culpo essa sua característica por ter fodido com toda a nossa história. Porque podíamos ter dado certo, eu e ela. Porque, se eu soubesse há oitos anos, que ela me amava, eu teria entendido e visto muitas coisas.
Olho para as fotos que estão em minha mão direita, enquanto a esquerda acaricia a pele macia de Sakura. Essa mesma mulher que dorme em meus braços está também naquelas fotos, tão nua quanto agora. Mas não sou eu o homem que está sob seu corpo, entre aquelas pernas torneadas e leitosas mandando a ver. Itachi está sobre ela, em um papai e mamãe, enquanto Sakura permanece abaixo de si, de olhos fechados. Quem não conhecesse essa mulher, ou estivesse tão louco de ciúmes como eu quando vi pela primeira vez aquelas fotos, pensaria que Sakura estava quase gozando com os olhos fechados de prazer. É estranho, depois de olhar pela segunda vez essas fotos, perceber o quanto a raiva me dominara e não me permitiu ver o óbvio há oito anos atrás. Quando Sakura está prestes a gozar ela não tem aquela expressão em seu rosto. Nem suas pernas ficam abertas daquela forma, dobradas e com os pés apoiados no colchão. Quando Sakura está quase lá, suas pernas e todo o seu corpo me agarram, suas unhas arranham minhas costas, como se todo o contato do mundo ainda fosse pouco para ela, como se ela precisasse daquele contato para permanecer viva. Droga, já estou duro de novo. Mas é impossível não ficar excitado quando me vem a imagem de Sakura com tesão. Ela sempre é tão receptiva, tão participativa no sexo. Mas não nessas fotos. Nessa fotos ridículas Sakura não está nem perto disso. Ela está ali, deitada sobre lençóis revirados, nua, de olhos fechados...
Sakura dorme enquanto aquele filho da puta mete nela.
Constatar isso me deixa tão puto que desvencilho meu corpo do dela, cubro-a melhor com um cobertor quente, e vou atrás de uma bebida.
Como eu fora estúpido!
Não sei quem eu odeio mais, Itachi ou a mim. Já que fui um idiota burro para não perceber isso. É claro que não é assim tão evidente. Na verdade, quem olha para aquelas fotos afirmaria com convicção que Sakura está transando com Itachi, não dormindo. E eu também pensara isso. Só o fato de ver Sakura nua na frente de Itachi já me tirara a razão. Naquela época eu não conseguia nem pensar no que faria se Itachi a conhecesse. Por isso quando vi aquelas fotos, só pensei em como me sentiria melhor depois de meter uma bala na cabeça dos dois. Filho da puta idiota impulsivo. Eu podia não saber o que se passava na cabeça de Sakura, não ter ideia de seus sentimentos por mim, mas o seu corpo, ah, esse eu conhecia melhor do que ela. E, depois de oito anos, olhando somente agora novamente aquelas fotos, vejo que Sakura jamais me traiu. E quero socar a minha cara por ter sido tão imbecil.
Ela estava dormindo. Aquele bastardo provavelmente a dopou e trepou com ela assim que ela apagou. Cretino filho da puta! Eu seria capaz de descarregar minha arma na cabeça dele caso eu já não tivesse feito isso.
Bebo um gole de uísque direto da garrafa. Meu pé direito está doendo para cacete, mas o curativo ainda está ali.
Mas ela também tivera sua parcela de culpa. Ela fora até ele. Ela o procurara. Também nunca deu a entender o que ela sentia por mim além de tesão. Nunca. Ela era um enigma, um desafio dos bons. Eu queria fazer ela ficar louca por mim. Eu pensava que só assim eu poderia esquecê-la, deixar de desejá-la. Mas ela nunca demonstrara nada. Uma filha da puta misteriosa e boa de cama. Por isso eu a traí naquela noite, no baile beneficente em que fodi a esposa de Morino até que ela me encontrasse. Porque eu precisava saber o que ela faria. Queria vê-la perder o controle e ficar doida de ciúmes. Queria que ela me batesse e me mandasse para o inferno. Porém, como sempre, ela me surpreendeu e me deixou ainda mais puto e confuso. Como uma mulher que transa há meses com o mesmo homem, tem um relacionamento sério com ele, é a namorada dele porra, não fala absolutamente nada quando o vê transando com uma desconhecida em sua frente? A única conclusão que se pode tirar, a que eu tirei na época, é que ela não se importava. E aquilo me deixara ainda mais irado com ela. Porque se ela não se importava, o meu caso já era outra história. Porque eu tinha me apaixonado por aquela filha da mãe de nariz empinado e nem percebera. Só me dei conta depois daquela noite e, só então, percebera a burrada que fizera. Aquela minha atitude mesquinha para tentar causar ciúmes me causara quatro meses longe daquela cretina. Procurei sexo com outras mulheres como um louco. Eu simplesmente não queria acreditar que eu me apaixonara por Sakura. Era só sexo, não era? Tentei esquecê-la, e estava quase acreditando que ia conseguir, até que Orochimaru despistou os seguranças que eu tinha designado para protegê-la e a pegou. Eu sabia que tinha ensinado ela a se defender, mas aquele era o doente do Orochimaru, e só pensar no que ele poderia fazer com ela... Aquela foi a primeira vez que senti medo depois de muito tempo. E quando eu consegui encontrá-la, ver seu rosto delicado machucado e quase levar um tiro na cabeça em meio aquele tiroteio, só para então bater a cabeça com força contra o concreto... Ali, naquela hora, com seu cabelos rosa que foram banhados por sangue... Seu sangue... Percebi que eu não era somente apaixonado por Haruno Sakura. Eu a amava.
Os dias depois que reatamos foram ótimos. O suficiente para eu transar intencionalmente sem camisinha porque, depois de perceber e aceitar o que sentia, eu sabia que Sakura era aquela pessoa. Aquela mulher. Aquela mulher que faz um homem que odeia criança e tem pavor a palavra filhos, sorrir igual ao retardado do Naruto ao imaginar garotinhas de cabelos negros e olhos verdes correndo pela casa. A pessoa por quem eu me prepara para largar tudo, todo o mercado de tráfico de drogas e armamentos, apenas por um pedido. Eu estava tão louco por ela que não podia negar um pedido feito por aqueles olhos verdes perturbadores. Eu só tinha que fazer uma última grande jogada. É claro que era arriscado. E pessoas morreriam. Mas ninguém falou que seria fácil. Porém Sakura descobrira toda a operação, sem eu saber, e ficou horrorizada pelas vidas que seriam perdidas. Vidas inocentes. Eu sei, eu sou um cretino, porém, não consigo sentir remorso. Então essa mesma mulher resolvera bancar a heroína e salvar aquelas pessoas que eu não ligava se morressem e tramou pelas minhas costas para me ferrar. Com ninguém menos que Itachi. Meu irmão que fodera com minha vida desde meus dezesseis anos. Eu descobrira tudo apenas quando a operação de queima de registros dera errado. Tremendamente errado. Uma guerra entre minha facção e a Akatsuki, a facção de Itachi. E as vidas que Sakura tentara salvar nem fizeram cócegas no número de mortos naquela noite fatídica. Eu estava puto. Queria explicações, queria saber quem fora o filho da puta que fodera com tudo e estava louco de preocupação porque não encontrava Sakura em lugar nenhum, e as coisas estavam realmente feias. Então eu soube. Junto com uns milhões a menos na minha conta e as fotos. Bem, você pode acreditar que eu não estava muito racional naquele dia. Porque eu poderia perdoar Sakura por ter fornecido informações para a Akatsuki, perdoá-la por ter me roubado... Mas trair-me com Itachi... Aquilo... Era... Eu queria matá-la. Estava preocupado com a segurança dela e ela o tempo todo estava nos braços do inimigo rindo da minha cara. É claro que eu a queria morta. Assim como Itachi por ousar tocá-la. Ela era minha. Eu prometera.
Acho que Itachi nunca se deu conta do que Sakura significava para mim. Porque se não nunca teria ido tão longe. Acho que ele não percebeu que para mim não era só sexo. Era o sorriso dela, a forma como ela passava aqueles dedos gelados nas veias do meu braço, o jeito como ela enfiava a cabeça em meu pescoço enquanto dormia... Ou quando ela falava tanto sobre nada que me irritava para cacete... Mas que eu permitia porque ouvi-la... Ouvir sua voz era o suficiente para toda uma vida. Aquele timbre suave e cadenciado... Quando ela cantava errado músicas de outro idioma no chuveiro... Ou quando ela franzia a testa e seus olhos verdes se estreitavam quando ela se irritava... Eu simplesmente não consegui aceitar que Itachi a teve, logo ele que me tirara tudo. Sakura já era demais. Sakura seria nosso acerto de contas. E foi. E, talvez, pelo seu olhar surpreso quando o encontrei e atirei diretamente em sua cabeça, ele tenha percebido que envolver-se com a mulher que eu amava fora seu fim definitivo. Que depois de dez anos eu viera e acabara com a sua vida miserável. Porque um homem que mata os pais por dinheiro não pode ser muita coisa. Não pode ser nada.
Eu fui atrás dela aquela noite, depois de tudo, para dar o fim que para mim ela merecia. Mas não a encontrei na porra de lugar nenhum. Naruto e Hinata tentaram me acalmar... Fazer-me mudar de ideia... Porém eu queria ela. Porque eu queria o nosso acerto de contas. Porque ela fizera eu confiar e amar outra vez só para então ferrar com todo o resto. Porque ela era uma cadela manipuladora que não sentia absolutamente nada e me fez sentir tudo.
No fim das contas, eu não fui atrás dela. Continuei com aquele meu estilo de vida errado, que para mim dera muito certo, e com o tempo as coisas entraram nos eixos. Mas eu a procurava. Toda noite em cada mulher diferente que eu transava. Buscava seu cheiro, a cor de seus olhos, seu jeito de sorrir... Procurei por tanto tempo... Acordava suado e excitado praticamente todas as noites por ter sonhado com seus gemidos no meu ouvido e batia umas no chuveiro até que aquela necessidade passasse. Mas não passava. Porque eu sabia que ela ainda existia. Ela ainda respirava. E isso já era o suficiente. Foi então que voltei a encontrar consolo na cocaína. Fora assim quando meus pais morreram e foi assim quando Sakura partiu.
Volto para o quanto e ela ainda ressona. São seis da tarde. Beijo seus cabelos e penso em como tudo seria diferente se ela tivesse me permitido saber que ela me amava. Mas ela é orgulhosa demais e sei que me dizer isso precisou de um esforço sobre-humano de sua parte. E isso faz-me amar Sakura ainda mais, porque ela passou por cima de suas regras ridículas para fazer eu entender que não fora apenas mais um em sua vida. Ela passara por cima de si mesma. Para mim, aquilo era o suficiente para uma vida inteira. Eu não pretendia deixá-la escapar mais uma vez, apesar de sua incrível capacidade de fugir quando as coisas ficam sérias em um relacionamento.
– Sasuke?
Ela me encara confusa. Ainda sonolenta.
– São seis horas. É o horário de visitas de Daisuke, não é?
Ao mencionar o nome do nosso filho ela desperta totalmente. Os grandes olhos verdes refletem uma preocupação materna pura e genuína, e tremo ao pensar que se Daisuke não se recuperar, não sobrará muito de Sakura.
– É, é o horário de visitas. – ela levanta e procura suas roupas, não se importando nenhum pouco com sua nudez aos meus olhos. – Você vai vê-lo, não é?
– Não faça perguntas estúpidas, Sakura. – a respondo enquanto também me visto.
Ela me encara, ela se irritou com minha resposta brusca, mas ela também me irrita quando fala comigo como se eu já não me importasse com o filho que temos.
É claro que eu ia visita-lo.
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São uma e trinta e dois da manhã quando entro no quarto novamente. Daisuke está acordado e com o semblante sereno. Ele acaricia os cabelos de Sakura que está com a cabeça sob suas perninhas frágeis. Ela está dormindo, mas suas pálpebras estão inchadas e ainda posso ver os resquícios das muitas lágrimas que passaram por seu rosto. Em uma de suas mãos há um monte de papéis, alguma folhas estão caídas pelo chão.
Olho para meu filho, que apesar de ter sete anos, enquanto zela o sono da mãe que parece inconsolável mesmo dormindo, tem um olhar adulto que me surpreende. Surpreendeu desde a primeira vez que o vi. É um olhar astuto. Meio triste e puro. Puro. E tão vivo. Seus olhos não são de um menino doente. São olhos de um menino saudável que já passou por mais coisas do que muita gente.
Ele entende minha pergunta, mesmo sem eu dizer nada e solta uma resposta que sei que jamais vou esquecer, por todo o tempo que eu durar. Aquele tipo de resposta que dá um aperto no peito e faz um homem querer chorar. Não importa quão forte ele seja.
– O resultado dos exames chegou... – a voz infantil ressoa naquele quarto frio. – A mamãe nunca chora, sabe? Acho que isso quer dizer que você vai ter que cuidar dela quando...
– Daisuke! – repreendo-o, tentando evitar que ele diga aquelas palavras que não quero ouvir. E Sakura tão pouco.
Mas ele é teimoso. Como a mãe. Como eu.
– Ninguém diz. Mas eu sei. Sou um menino crescido pai. Eu sei o que está acontecendo. Eu vou morrer, não é? – os olhos negros, idênticos aos meus, caem sobre a mãe que dorme em suas pernas. Ele em nenhum momento parou de acariciar os cabelos dela. — Acho que a única pessoa que ainda não sabia disso era a mamãe.
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