Surpresas

10 As coisas pioram


“Ravena, Mutano, venham aqui!” Ciborgue falava pelo microfone da sala comum. Mexia num dos computadores da torre.

“O que foi?” Mutano começou. Ravena chegava por um portal.

“Acho que descobri o nosso novo inquilino. Vejam!”

Ele apertou um botão no painel e uma gravação apareceu na tela grande. Mostrava a sala de ginástica durante a noite. Estava vazia e silenciosa. Mas o silêncio foi interrompido quando a sombra de um gato apareceu numa das paredes.

Em poucos segundos, o gato cresceu e liberou o rapaz, que arremessou três daquelas câmeras no lugar. Após dar uma leve risada, estendeu a mão na direção da câmera de segurança e a imagem ficou negra.

“Ei! O que ele fez??”

“A câmera sofreu um dano interno. Parece até que alguma coisa entrou nela...”

“Você tem pelo menos idéia de quem ele é?”

“Não, Ravena, a descrição desse cara não bate com nenhum vilão das fixas de arquivo. Deve ser novo por aqui... e começou bem seu trabalho.”

“O cara mexe com sombras, não tem ninguém com um poder pelo menos parecido?”

Os dois fitaram Ravena.

“Ei! Eu não mexo com sombras! Mexo com magia!! E eu não fico passeando pelas paredes da torre inteira!”

“Ela tem razão, os poderes dele são bem diferentes dos que estamos acostumados.” Ciborgue coçou a nuca. A situação parecia bem confusa. “Outra coisa é que o cara só sai à noite. No dia, ele só fica como sombra. Como no corredor com a Ravena.”

“Cara, queria que o Robin estivesse aqui pra ajudar...”

Mutano mal terminou a frase e o som de passos se propagou pelo lugar. Assim, as portas da sala se abriram, revelando um Robin irritado e mudo, já vestindo seu uniforme habitual.

“Robin, que bom que chegou! Precisamos de uma mão aqui.“

“Agora não, Ciborgue!” Ele pegou um copo d’água e bebeu rapidamente. Faltou pouco pra que quebrasse de tanto que o apertava com a mão. Estava realmente furioso.

“Mas a gente-“

“Eu disse não!”

Agora sim, o copo se quebrou. O som de seus estilhaços caindo no chão silenciou a todos do local enquanto o rapaz saia às pressas pela porta. Há muito tempo os titãs não o viam assim, e agora que viram, já imaginavam o pior.

“Ravena...”

“Eu sei, Ciborgue.”

Ela se teleportou para o quarto dele.

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Robin já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha chutado sua cama. Só parou porque três de seus dedos começaram a latejar. Quebrar o espelho foi a próxima coisa que veio em mente, mas hesitou, não queria ver o quarto mais organizado da torre ficar em ruínas. Já não bastava o do Mutano...

Esperava isso de qualquer outra, mas não dela. Justo ela!

Algumas lágrimas iam se acumulando em sua máscara.

Por quê isso aconteceu? Por quê?! O que eu fiz pra merecer uma coisa tão... cruel?

Ele então fitou aquela velha foto na mesinha ao lado. A frase ‘nunca vou te esquecer’ ainda escrita.

Claro, aquela noite... foi motivo o suficiente pra Estelar me deixar... e pra fazer isso comigo.

Ele agora estava sentado na cama. Suas cabeça apoiada nos punhos fechados. Lágrimas descendo pela face. Pouco a pouco sua raiva foi diminuindo, mas dando lugar a uma tristeza quase incalculável.

Isso não devia ter acontecido... se eu não tivesse sido tão ignorante aquele dia... é tudo minha culpa!

“Robin...”

Ele se virou. Quando Ravena tinha entrado? Há quanto tempo estaria lá? Não sabia, na verdade nem ligava para isso. Estava deprimido demais para se preocupar com tal coisa.

“Robin, o que houve? Todos ficamos preocupados com... bem... o que você fez lá embaixo.”

“Eu preciso ficar sozinho, tá legal?!”

“Tá, mas eu queria pelo menos saber o motivo.”

Ele se virou para o lado e evitou olhar para ela.

“Eu estava certo... Estelar está mesmo aqui...”

“Ah... é mesmo?...” Ravena tentava fazer cara de surpresa, sem muito sucesso. “E como sabe disso?”

“Eu a vi na praça com uma garota. E pra piorar, ela estava... grávida!” Ele parecia trincar os dentes enquanto rosnava tais palavras. “Por isso acabei discutindo com ela em público. Nunca pensei que todas aquelas buscas serviriam pra uma decepção dessas no final...”

Ravena se assustou, imaginando como Estelar deveria estar arrasada naquele momento. Sempre fora uma pessoa muito sensível.

“Você pelo menos conversou com ela?”

“Estelar tentou se explicar, mas não quis ouvir. Cansei de mentiras por hoje!”

“Como poderia saber se era mentira?! Ao menos devia ter dado uma chance!” Sua voz agora aumentou, era desconcertante ouvir um rapaz acusar uma amiga sem ao menos dar ouvidos a ela. Principalmente quando se sabe que ela estava certa.

“Estava nervosa quando tentou se explicar, nervosa demais pra uma situação qualquer. Com certeza era mentira!”

“É claro que estaria nervosa. A última vez que Estelar te viu foi quando a chamou de inútil! Imagine o que ela esperaria de você agora!”

Ele emudeceu, sentindo seu estômago desabar. Ravena acabara de desenterrar uma verdade que era guardada no fundo de sua alma. A verdade que, para Estelar, Robin havia se tornado uma ameaça.

“Pense nisso, Robin. Ou vai perde-la de vez.”

A empata saiu, deixando o rapaz imerso em pensamentos e dúvidas. Por isso, permaneceu em seu quarto o resto do dia.

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A velha fábrica incendiada. O silêncio era quase insuportável naquele lugar. Normalmente só era interrompido por alguns chiados de ratos ou qualquer outro animal.

Enfim, a noite se iniciava enquanto a estranha sombra cruzava aquele lugar mais uma vez. Entrando na câmara secreta.

“Ora, ora...” O rapaz dizia ao se libertar. “Finalmente encontrei o que procurava. Agora sim, o idiota vai me dar o que tanto procuro.”

Ele se aproximou do painel e começou a rodear uma das mãos por ele, como se quisesse escolher o botão que iria apertar. Não era surpresa. Devia haver vinte deles, no mínimo. Por isso, era melhor observar bem, não queria ver algo de ruim acontecer num lugar onde a única saída era uma minúscula passagem de madeira. Mas após alguns segundos fez sua escolha. Apertou um botão vermelho. Seu diâmetro equivalia à palma da mão de uma pessoa adulta. Significava que aconteceria algo grande, sem dúvidas, era o que ele procurava.

A chão tremeu um pouco e uma longa parede de ferro se dividiu horizontalmente. Dando lugar a um verdadeiro muro de vidro que revestia um quarto todo iluminado de branco, com uma cama no centro. A luz forte parecia cegar qualquer um que se aproximasse.

“A câmara está pronta, agora só falta... a vítima!”