Surpresas

4 A notícia


Ciborgue, Mutano e Ravena estavam na sala comum. Haviam saído da enfermaria a quase vinte minutos e tinham combinado de não tocar no assunto de Estelar novamente, bom, pelo menos até Robin melhorar. Como não tinham certeza sobre seu suposto aparecimento, não valeria a pena gastar tempo com buscas...

Mutano estava entediado àquela tarde. Ravena pelo menos tinha um livro para ler e Ciborgue se ocupava enquanto fazia um sanduíche enorme. Então, pela primeira vez naquele dia, o metamorfo teve uma idéia.

“Ei, pessoal, eu vou dar uma volta pela cidade, ok?”

“Tanto faz. O corpo é seu, faça com ele o que quiser...” Ravena dizia com seu tom sarcástico de sempre.

Mutano apenas olhou feio para a empata, que já tinha retomado sua leitura. Como Ciborgue nem deu atenção a ele, só lhe restou se transformar num falcão e sair voando pela janela.

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O que fazer?

Mutano pairava livremente sobre Jump City, sem ter idéia do que faria em seguida. Sabia que uma hora seu braços cansariam e ele seria obrigado a pousar, o que era uma pena, pois voar foi sua única forma de se distrair.

Ei, o que é aquilo?

Ele viu algumas crianças apostando uma corrida de cães num parque no centro da cidade. Justamente aquele parque onde os titãs costumavam se encontrar tempos atrás. Isso acabou interessando o falcão, afinal, ele não tinha nada a perder num dia tão vazio.

Mutano fechou as asas e iniciou um mergulho em pleno ar. Adorava fazer isso quando se transformava numa ave. Mas era preciso muita atenção nessas horas, pois, às vezes, ele se divertia tanto com a manobra que acabava esquecendo de que estava perto demais do chão. Assim, ele só se lembrava de abrir as asas na última hora, e acabava batendo em alguma casa ou poste. Pelo menos dessa vez não aconteceu algo assim.

Ao chegar no parque, ele voltou à sua forma humana e observou a corrida sob a sombra de uma árvore. Mutano se divertia assistindo a cena, mas logo sentiu suas pálpebras ficando pesadas a cada segundo e um cansaço imenso surgir de repente. Até que uma cochilada sairia bem numa hora dessas, já que ele e os outros titãs tinham trabalhado dia e noite nas últimas duas semanas. Aquele era um dos poucos momentos de calma que não seria interrompido por um alarme ensurdecedor.

Assim, ele posicionou os braços por trás da nuca, respirou fundo e...

“Que tal Larissa?” Uma voz comentava, não muito longe dali.

“Não sei... não sou muito boa com nomes...” Uma outra respondeu.

Essa voz...

Mutano voltou à realidade e se posicionou por trás da árvore, como forma de espionar as duas moças sentadas no banco.

“Ué, por que não? No seu planeta não dão nomes pros filhos?”

“Claro que sim, Wendy, mas os nomes que conheço são tamaranianos.”

“E daí?”

“É que eu não sei como os humanos reagiriam se ouvissem nomes tão... diferentes.”

“Bom, me dê um exemplo.”

“Meus pais se chamavam Luander e Myander, e minha irmã, Estrela-Negra, se chama Komander em nosso planeta natal...”

Não acredito, Robin estava certo!

“Na minha opinião, são nomes muito bonitos. Acredite, já vi uns que mais pareciam um código de alguma carteira de identidade!”

“*risos* Mas de qualquer forma, não sei como o chamarei. Nem mesmo sei se é menino ou menina.”

“Algo me diz que será menina. Mas talvez seja só impressão, afinal, a grávida é você...”

Grávida?!

Mutano estava tão feliz ao ver Estelar novamente que nem tinha reparado na sua gravidez. Ele tinha até pensado em ir lá e cumprimenta-la, mas ao ver que ela estava esperando um filho, acabou perdendo a coragem.

“Sabe... *suspiro* eu apreciaria se Robin estivesse aqui, comigo... ele sempre me ajudou a compreender os costumes da Terra. Talvez me ajudasse a escolher o nome também...

“Então porque não o perdoa? Afinal, o filho também é dele.”

“Eu sei, mas duvido que ele tenha mudado de atitude, mesmo depois de todos esses meses...

Essa foi a gota d’água para Mutano, ele não pôde agüentar ficar naquele lugar por mais tempo. Imediatamente se transformou num guepardo e correu para bem longe dali. Queria chegar na Torre Titã o quanto antes e contar aquilo para alguém. Como estava realmente desesperado, foi uma questão de segundos até chegar na ponte de Jump City.

Daí ele se transformou num golfinho e nadou até a ilha o mais rápido que pôde. Seus músculos estavam começando a latejar pelo esforço, mas valeu a pena. Pois em menos de meio minuto, Mutano já estava em frente à torre.

Ravena continuava lendo o livro. Ás vezes, os outros se perguntavam o que tanto ela lia, era sempre um livro enorme e aparentemente antigo. Mas nunca tinha um título na capa ou sinopse atrás...

Ciborgue tinha acabado de construir o seu lanche enorme. Para ele era como se tivesse inaugurado uma obra de arte, ou o maior sanduíche do mundo, entre outros...

O titã então colocou a mão direita na parte superior enquanto a esquerda segurava a inferior. Aos poucos foi levando o lanche na sua direção, se preparando para dar a primeira mordida. Até que fechou os olhos, abriu bem a boca e...

“AAAHH!!!!”

Um estrondo misturado ao som de vidro se estilhaçando ecoou pela sala. Ravena fechou o livro num baque e se virou, tentando ver o que aconteceu ali. Só pôde ver um condor verde caído ao lado de Ciborgue, a mesa e os armários da dispensa praticamente destruídos, parte da janela toda estilhaçada e o sanduíche do robô espalhado pelo chão.

“O que deu em você, cara?! Você acabou de destruir toda a cozinha e o meu lanche da tarde!!” Ciborgue estava berrando enquanto chacoalhava o condor pelas asas, mas quando percebeu que ele já estava bem tonto, largou-o no chão e esperou o amigo voltar para sua forma humana. Queria uma explicação.

“Calma, Ci, eu explico!”

“Então comece!!”

Mutano percebeu que Ravena se aproximava dos dois, olhando friamente para ele. Não era preciso ser um gênio para perceber que também esperava respostas.

“Bom... eu vi a Star no parque central agora a pouco...”

“Peraí! Você também a viu?! E o que ela disse??” Ciborgue interrompeu, com uma expressão de surpresa no rosto.

“Na verdade eu não falei com ela, só fiquei escondido. Daí eu achei que vocês deveriam saber e vim pra cá!

“E precisou acabar com a torre pra fazer isso?” Ravena disse, lançando outro olhar frio.

“Eu tava desesperado! E se vissem o que eu vi também ficariam!

“E por que a gente ficaria desesperado se víssemos a Estelar também?!

“É que você não ouviu tudo, Ci...”

“Então por que não pára de enrolar e conta de uma vez?” Ravena estava começando a se preocupar com o que ele diria, mas não expressou o sentimento.

“Tá então, mas eu não sei se o Robin poderá saber disso... pelo menos agora.”

Os outros dois titãs observavam o metamorfo atentamente. Sabiam que, quando Robin era incluído no assunto, ou quando ele não poderia saber da conversa, a coisa era séria.

Mutano começou a contar tudo, desde a hora que chegou ao parque até o momento em que fugiu de lá. Cada detalhe da conversa entre Estelar e Wendy fazia com que os titãs segurassem o coração, para que não escapasse em algum berro que poderiam soltar a qualquer momento. Até Ravena acabou ficando nervosa, quando ouviu que a tamaraniana estava grávida, acabou tapando a boca com as mãos para evitar qualquer exclamação que liberasse.

“Estelar... grávida... do Robin?” Ciborgue disse pausadamente, como tentativa de raciocinar o que acabara de ouvir.

“É, depois de ouvir isso eu não tive coragem de falar com ela. O estranho é que a Star não quer que ele saiba.”

“Não é à toa, depois do que ele fez na última vez...”

“Hum... o que você acha, Ravena?” Ele perguntou, mas quando olhou ao redor, viu que a empata não estava mais na sala. “Ravena??...”

Na verdade, ela havia saído da torre.