Surfando na Mudança
10 Preparativos
Tiago chegou em casa mais tarde naquele dia, depois de resolver algumas coisas antes de começar no trabalho novo. Ele se preocupou ao ver a cara da esposa nada satisfeita com alguma coisa.
—Oi Nat — Ele beijou seu rosto delicadamente — tá tudo bem?
Ela apenas assentiu em resposta, nada como ela agiria normalmente.
—Quer que eu faça a janta? Pode ser macarrão com almôndega — ele ofereceu.
—Me parece ótimo — ela respondeu, distraída, irritada, mas não com ele.
Ele foi até a geladeira, pegando os ingredientes e se colocando a trabalhar.
—Aconteceu alguma coisa? — Tiago perguntou, já que ela permaneceu imóvel, sentada na mesa da cozinha.
—Você nem imagina o absurdo que eu passei hoje — a pergunta era só o que ela precisava ouvir para começar a falar — eu conheci os nossos vizinhos hoje.
—Ah eu também já, eu falei com o Teodoro, um sujeito muito gente boa — Tiago disse com empolgação sorrindo, mas logo percebendo que a experiência de Natália tinha sido o oposto.
—Não, eu não falei com ele, esse deve ser o marido da Roberta — ela disse o nome com desprezo.
—Eu não conheci a esposa dele, ela é tão ruim assim? — ele perguntou, com medo da resposta.
—A mulher é uma megera que foi grosseira com o Lucas por causa de um acidente! — Natália ergueu as mãos em indignação.
—Meu amor, me conta do começo, se não eu não vou entender nadinha — seu marido pediu humildemente.
—Eu sugeri pras crianças darem uma volta aqui perto pra sair um pouco de casa — ela contou — o Lucas foi andar de skate na calçada dela e caiu no jardim, ela ficou nervosa porque, segundo ela, o menino destruiu o jardim dela.
—Isso não é muito verdade, o jardim tá ótimo desde a última vez que eu notei ele — ele comentou.
—Então, ela foi mal educada com os nossos filhos e eu odiei ela, eu espero não ter que encontrar com ela de novo, porque eu não respondo por mim — Natália chegou a dar um tapa na mesa, de raiva.
—Eu... acho isso meio difícil — Tiago coçou a nuca, nervosamente — porque ela é nossa vizinha da frente, é uma pena porque o marido dela parece ser muito legal, me ofereceu ajuda e tudo.
—Pelo jeito, os opostos se atraem — sua esposa cruzou os braços.
—Bom, você não precisa ser amiga dela, pode pelo menos dar um bom dia pra não pagar de má educada — ele aconselhou.
—É o que eu pensei, mas ainda tô com raiva — ela suspirou.
—Você tem direito de se sentir assim — Tiago se aproximou e beijou o rosto dela outra vez.
Ele deixou que ela se acalmasse enquanto ficava de olho nas panelas e terminava o jantar.
—Crianças, tá na mesa! — o pai delas gritou da cozinha, fazendo com que aparecessem ali o mais depressa possível — isso tudo é fome, é?
—Até parece que não conhece a gente — Lucas brincou, mas admitindo que tinha o apetite de um típico adolescente.
As crianças comeram, enquanto Natália se juntou a eles, já um pouco mais calma, o assunto que surgiu depois foi o fato do dia seguinte ser o primeiro dia de aula deles.
—Será que eu vou fazer uma amiga amanhã? — Tainara disse, preocupada.
—Talvez não, Tai, mas dê tempo a tempo — Karla aconselhou a irmãzinha — é difícil não gostar de você.
—Ah que bom, brigada, mas... — a menininha hesitou — eu podia levar bolo de chocolate pra dividir com alguém da minha sala, não é?
—É uma boa ideia — Karla concordou.
—Se vocês quiserem levar lanche, tudo bem, mas a escola tem lanche — Tiago explicou — e uma cantina.
—Cantina? Eu vou querer dinheiro pra cantina, pai! — Lucas pediu.
—Se for dar pra ele, tem que dar pra todo mundo — Natália defendeu os filhos.
—Eita, vou pensar no caso de vocês, prometo — Tiago chegou a colocar uma mão no peito pra mostrar que estava falando sério.
Depois de mais algumas conversas e checar as redes sociais, cada um foi para o seu quarto dormir.
A manhã foi agitada como Natália se lembrava que sempre tinha sido. Correria e confusão, mas criada por seus amados filhos.
—Eu detestei a cor desse uniforme — Karla reclamou para olhar a camiseta no meio do café da manhã, observando o emblema que imitava um recife de corais.
—É melhor do que branco — Natan tentou ver algum lado bom — eu gosto de verde água.
—Verde água? Eu achei que era azul mar — Lucas opinou.
—Azul mar é uma cor que existe? — Tainara se perguntou em voz alta.
—Tá certo, reclamar da cor do uniforme não melhora o astral de ninguém — Natália cortou o assunto, olhando para seu relógio — vão indo se não vão se atrasar.
Com o aviso da mãe, as crianças saíram com pressa, mas ela se levantou, causando estranheza neles.
—Ninguém vai sair daqui sem me dar um beijo e um abraço — ela declarou, o que fez as crianças rirem e obedecerem, mesmo depois das reviradas de olho de Lucas e Karla — tenham um bom primeiro dia, e me contem tudo depois.
—Pode deixar — Natan se encarregou dessa tarefa.
Tiago não demorou muito pra chegar a escola, as crianças desceram e ele os chamou pela janela do carro.
—Ei, Sulis — disse ele com carinho — boa sorte, eu amo vocês, e não se esqueçam...
—Os Sulis ficam juntos — recitaram seus filhos.
Assim, os irmãos reuniram coragem para encarar o primeiro dia de aula. Pra sorte deles, havia uma placa da série nas portas da sala.
—Tá legal — Natan disse, reunido com os irmãos no meio do pátio da escola — eu sou do 1° B, a Karla tá na minha turma.
—Que injusto, queria alguém que eu conheço na minha turma também — Tainara reclamou.
—Tai, não tem como, nem somos da mesma idade — Lucas explicou.
—Ah é — sua irmã caçula teve que aceitar a realidade.
—Lucas tá no 9° D e a Tai no 2° C — retomou Natan — querem que eu vá na porta com vocês?
—Pra mim tá de boas, já ajudou muito, irmão — Lucas trocou um aperto de mão secreto com ele — vejo vocês no recreio?
—Com certeza — confirmou o mais velho.
—Eu quero que você vá comigo até minha sala, Tan — pediu Tai.
—Vai ser um prazer, irmãzinha — ele sorriu.
—Eu vou pro 1° B, te encontro lá — Karla avisou — tchau Tai.
Seus irmãos sorriram para ela e então seguiram para a turma do 2° C.
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